terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O carnaval do passado em Natal, segundo o "Le Grand" Petit.


10 + de Petit das Virgens

MARCOS SÁ DE PAULA 
DO NOVO JORNAL
NA DÉCADA DE 1960 Petit foi escolhido diretor do jornal mural de sua turma do Colégio Marista em Natal. Não imaginava então que em 1974 ele estaria cursando a primeira turma de jornalismo da UFRN. Cinco anos antes, já ensinava Inglês na extinta SCBEU – Sociedade Cuilktural Brasil-Estados Unidos, e seria ao mesmo tempo Orientador Pedagógico do Yazigi.
Foi professor de Inglês do Salesiano e de Português da turma de americanos do Corpo da Paz. Também ensinou Inglês aos cadetes da Base Aérea de Natal. Tinha diploma de proficiência em Inglês pela Universidade de Michigan e já tinha sido tradutor/intérprete do Navio Hospital Hope. Tinha decidido ser professor, mas o jornalismo o seduziu. Foi ser repórter do Diário de Natal e depois ganhou um concurso internacional de jornalismo. Foi o único jornalista do Brasil escolhido entre 48 participantes da América Latina. Trabalhou em vários meios de comunicação do Maine-EUA em 1986. Depois foi trabalhar na TV Tropical onde ficou até 1992 quando foi com sua mulher Margot Ferreira, passar uma temporada em Portugal. Hoje faz trabalhos esporádicos na área de marketing político e produção cultural. Como desde que se entende por gente foi fascinado pelo Carnaval, a coluna pediu para Petit enumerar as suas 10 maiores lembranças dessa festa que enlouquece grande parte dos brasileiros.
1 Matinée no Aero Clube - Em 1960, aos nove anos de idade, lembro como era o carnaval de Natal. Nessa época morava na Gonçalves Ledo. A Cidade Alta ainda era uma zona residencial. A chegada do carnaval era uma festa. Uma simples caminhada pela Rio Branco podia se ver caixas de lança perfume  amarradas em cordão girando ao vento nas cigarreiras. Meu pai comprava uma caixa com três lanças Rodouro. Uma pra cada dia. Eu ficava maravilhado com os blocos de sujo e seus papangus jogando água, talco, maizena etc. Era o famoso mela mela, uma festa inocente. À tarde, matinée no Aero Clube ao som da orquestra de frevo. Parecia um paraíso.A diversão preferida era  jogar confete, serpentina, lança perfume no cangote das meninas e arriscar um cheiro nelas. Às vezes, levava um tapa;
2 O pior Carnaval da minha vida - Aos 12 anos eu já estava maravilhado com o Carnaval e passava o ano todo esperando pelo próximo. O ano mágico de 1962 terminava em festa. Em novembro papai e mamãe comemoraram seus 25 anos de casados. A festa foi na nossa recém construída casa em estilo funcional no alto do Barro Vermelho. Era um sonho a casa com quintal, jardim e garagem. No entanto, 1963 começou mal para nossa família. Papai ficou doente sem diagnóstico preciso. O carnaval se aproximava e aumentava a esperança que ele ficasse logo bom. O caso foi complicando até a véspera de carnaval. Era sexta-feira, fim de tarde e eu chorando do Hospital São Lucas para casa ao som das orquestras dos blocos de alegoria que já invadiam as ruas do Tirol. No sábado de manhã, mais blocos e mais Carnaval. Nosso bloco, entretanto, era de tristeza. Nossa família e amigos formamos uma grande passeata partindo da Jaguarari até o Cemitério do Alecrim para deixar o nosso pai na última morada.
3 Os blocos de alegoria - Bons tempos em que assalto era apenas uma grande festa de carnaval. Até os anos setenta Natal ainda tinha muitos blocos de carnaval. Eram formados por grupos de amigos que economizavam durante o ano todo para poder pagar a jóia do bloco, comprar as fantasias e ainda sobrar algum dinheiro para a folia. Esses blocos já perto de seu fim foram apelidados de “Bloco de Elite” e faziam um tipo de carnaval diferente do resto Brasil. Geralmente tinham cerca de cem componentes. Alugava-se um trator e duas caçambas de carregar cana de açúcar e contratava-se uma orquestra de frevo para acompanhar a turma durante o dia todo até as 10 da noite quando iam para os bailes dos clubes tradicionais. O Aero Clube e o América disputavam quem fazia as melhores festas;
4 Carnaval a 25 graus abaixo de zero - Em novembro de 1971  eu e o amigo Fon (Afonso Lima) influenciados pelo movimento hippie, festival de Woodstock e o filme Sem Destino, resolvemos conhecer os Estados Unidos de carona. Na época, ninguém tinha feito ainda uma loucura dessas em Natal. Fui sem o consentimento de minha mãe, pois já era maior de idade. Foi uma grande aventura. Viajamos mais de vinte estados americanos e só tivemos alegria. Só uma coisa fazia com que a viagem não fosse perfeita: eu iria perder o carnaval de Natal. Lá não existe essa festa e nos dias de carnaval nós estávamos numa cidadezinha chamada Nevada, em Iowa em pleno inverno americano a 25 graus negativos. À noite, na hora de dormir eu só pensava no carnaval no Brasil. Matava a saudade ouvindo um radio de ondas curtas que transmitia ao vivo o carnaval do Rio de Janeiro;
5 O Cabação - Fui um dos fundadores do bloco Ressaka, assim com K mesmo. Na época era moda em Natal o C pelo K: Kasarão, Kasa disso Kasa daquilo, etc. As reuniões eram na casa de Ricardo Gomes, hoje conceituado ortopedista da cidade. Os cabeças do bloco eram Ricardo Bezerra (Destaque) e o biólogo Graco Viana entre outros. Participei de tudo, mas na hora de sair pra folia eu queria mesmo era tá na gandaia com fantasias improvisadas e irreverentes. Então eu e os amigos de uma turma mais velha alugamos um jipe para sair atrás dos blocos. Éramos eu, os irmãos Magela e Geraldo Bezerra, os irmão Domingos e Gerardo Guará, Dedé Galego e Baú além de outros que se agregavam ao jipe;
6 Meus dias de Governador - Em 1980 eu era o Chefe de Gabinete da Câmara Municipal a convite do então presidente, o saudoso vereador Érico Hackradt, grande folião. Também trabalhavam lá outros dois foliões que ficaram famosos em Natal: Tota Zerôncio, autor do sucesso “Meninos eu vim da lua”; e Severino Galvão, o eterno Rei Momo da oposição. Na sala da presidência tinha lá em numa gaveta uma foto oficial do então governador Lavoisier Maia. Érico disse: “essa foto é muito feia, parece uma máscara.” E eu perguntei: “posso ficar com ela pra sair no carnaval?” Ele disse que podia levar.  Na época eu tinha um Dodge Dart e logo vesti o terno, sentei no banco de trás e Geraldinho Galvão vestiu a roupa de motorista. Saímos visitando todos os bares de Natal. Foi uma grande presepada que podia ter dado uma cadeia, pois era época de ditadura. A sorte é que a polícia não sabia nem quem era o governador.
7 O bloco de anões e o super homem voando de verdade - Em 1994 fui para o meu primeiro carnaval em Olinda. Margot estava grávida da nossa filha Isabel, mas isso não foi empecilho para irmos conhecer a festa. Naquela época ainda tinha um camping num casarão com um terreno imenso todo arborizado e um riachinho no meio. Era ali na Rua Bom Sucesso vizinho a sede do bloco do Homem da Meia Noite. Nunca ri tanto na minha vida. Entre tantas presepadas a que mais me chamou atenção foi um bloco só de anões. Bem uns quinze, todos vestidos de palhaço. A princípio pensei que fossem crianças, mas ao me aproximar vi os caras de barba e bigode, etc. Outra  gaiatice impressionante era o bloco “Enquanto isso na Sala de Justiça” só de super heróis. O mais impressionante era a hora em que a multidão vai passando o Super Homem de mão em mão dando a impressão de que ele está voando;
8 Sargento me dê um cheiro - Certa vez numa manhã de carnaval a turma fazia uma farra grande. Todo mundo contando piadas e alguém conta aquela que tem um monte de recruta nu e o sargento chamando de um em um para saber se  alguém  tinha alguma doença venérea. Arregaça… desarregaça … O matuto no fim da fila pensava que era com ele e arregaçava e desarreegaçava toda vez que o sargento falava. Quando chegou a vez dele o matuto já não  aguentava  mais e disse “sargento me dê um cheiro”. À noite, Domingos Gurára depois do dia de farra ia se aproximando da sede do América em cima da calçada do quartel da polícia. Na época isso era proibido e o sentinela mandou ele descer da calçada. Aí ele lembrou da piada e  retrucou: Sargento me dê um cheiro”. Resultado: ficou preso no quartel mas foi solto logo em seguida intercedido pelo seu pai. Acontecimentos saudosos de uma Natal inocente e divertida;
9 A decadência do carnaval de Natal – A partir da década de setenta o carnaval de Natal começou a entrar em decadência. A crise do petróleo se instalou no mundo gerando a crise econômica. Até os ricos que davam grandes assaltos carnavalescos, festas caríssimas regadas a uísque escocês, decidiram “passar o carnaval na praia para  descansar”. De repente a cidade começou a ficar vazia enquanto iam se formando grandes carnavais nas praias de Pirangi, Redinha, Pitangui, Barra de Maxaranguape, etc. Eram carnavais baratos de brincar e superanimados. Um certo ano, foi tanta gente de Natal para Pitangui que o prefeito saiu num carro de som pedindo ao povo para voltar pra Natal pois já faltava água e comida na praia;
10 A resistência do carnaval natalense – Se alguém quer  descansar durante o carnaval o lugar perfeito é o centro da cidade. Pode armar uma rede na calçada pois é certeza não ouvir uma só buzina de carro. Pois é, o Carnaval de Natal acabou mas as festas pré carnavalescas ainda resistem.  A Banda da Ribeira, o Baile das Kengas e o da Confeitaria Atheneu, entre outros, ainda juntam muita gente para brincar o carnaval tradicional.  Hoje resistem grandes festas nos carnavais de Pirangi e Redinha além do de Macau e Caicó. Durante o carnaval  poucos  blocos saem. Entre eles o dos Poetas que também promove o carnaval de rua com fantasias e mascarados em Ponta Negra. Na redinha, o Baiacu na Vara e em Pirangi, a Banda do Cajueiro.

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