terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O conturbado mundo árabe e o novo colonialismo.

2011, UM ANO HISTÓRICO
José Brendan Macdonald - Prof. da UFPA. 
No dia 17 de dezembro de 2010 um jovem tunisiano, graduado de uma faculdade mas obrigado a ser vendedor ambulante para sobreviver, foi maltratado e humilhado pela polícia.  Conscientemente ou não, lembrando um gesto praticado por bonzos vietnamitas em protesto contra a ocupação de seu país por tropas norte-americanas quatro décadas antes, o jovem tocou fogo no seu próprio corpo, se auto-imolou. 
Por que esse gesto comoveu toda a Tunísia e todo o mundo árabe e incendiou a este, o que acontece até os dias que correm?  Ora, no mundo árabe e, pensando bem, no mundo inteiro o desemprego vem aumentando assustadoramente, especialmente para os jovens que mal têm como entrar no mercado de trabalho.  Ademais em muitos países pobres os preços dos alimentos vêm aumentando para além da capacidade de o povo pagar.  Muitos jovens árabes, europeus e norte-americanos além de jovens de outros países vêm esperando trabalho há anos sem ter como se empregar. 
Tudo isso foi propicio para iniciar a “primavera árabe.”  A democracia, mesmo essa bem limitada democracia burguesa ou democracia liberal como ela própria se auto-denomina, não tem prevalecido no mundo árabe.  Por esse e outros motivos os árabes são tidos como atrasados no Ocidente quando na realidade se trata de um conglomerado de ditaduras e monarquias absolutistas patrocinados pelo próprio Ocidente há décadas.  Graças à unidade lingüística do mundo árabe do Marrocos até o Iraque e também à internet, todo o mundo árabe ficou incendiado de revolta.  Revolta contra os altos preços dos alimentos, revolta contra o desemprego, revolta contra o autoritarismo.  Alguns ditadores caem mas o vazio é preenchido por outros partidários do status quo.  Isto é notório no caso do Egito, país de 80 milhões de habitantes.  O ditador Mubarak perdeu o poder.  Mas uma junta militar, cria dele e com fortes vínculos interesseiros com empresas multinacionais, assumiu o poder.  A junta já incentivou veladamente discórdia entre ativistas muçulmanos (nem todos religiosos) e a minoria cristã copta.  Mas os jovens ativistas insistem que tanto cristãos como muçulmanos são todos egípcios.  A Praça Tahrir no Cairo com freqüência é ocupada por dezenas de milhares de manifestantes.  Recentemente a polícia usou um novo gás venenoso importado dos Estados Unidos e o lançaram contra muitos militantes.  E jogou os corpos de muitas vitimas fatais na beira da Praça.  Mas a luta continua.
Graças à internet pruridos de exigências evidenciados pela juventude árabe alcançou os jovens da Espanha.  Em Madri, Barcelona e outras cidades ganha corpo um novo movimento.  Ele se auto-denomina de Indignados.  Na Inglaterra a juventude nos bairros pobres, discriminada pela polícia às vezes até com brutalidade, também se revolta.  Sabem que estão condenados a crescer sem nunca conquistar um emprego no meio de governos que fazem cortes na parte social do orçamento do país. 
Finalmente no coração do Império começa o movimento Occupy Wall Street.  De novo são de longe majoritariamente jovens.  Com as mesmas preocupações.  Inúmeros dentre eles observam, à semelhança de seus pares de outros países, que a “democracia” que conhecemos não favorece os verdadeiros anseios e necessidades do povo. 
O movimento do Occupy já alcançou mais de mil cidades nos Estados Unidos de acordo com seus organizadores.  Mesmo que a cifra seja exagerada, certamente há um número elevado de participantes.  Recentemente em Bruxelas, capital da União Européia, jovens manifestantes belgas, franceses, espanhóis e de outras nacionalidades européias recentemente organizaram passeatas.
E nosso país no meio de tudo isso?  Em São Paulo houve o Ocupa Sampa, movimento que se reúne nos baixos do Viaduto do Chá.  Há aulas públicas e outras atividades e circula uma media de 400 pessoas por dia. É um começo.  O movimento foi consagrado no dia 15 de outubro lá e em tantas outras praças do mundo.
Na Espanha, nos Estados Unidos e alhures a coisa sugere a presença de anarquistas.  Os anarquistas sempre ficaram arredios a partidos políticos.  Os anarquistas fizeram a Comuna de Paris em 1871.  E lutaram contra o status quo na Rússia e na Espanha décadas depois.  Mas não se trata só de manifestantes anarquistas.  Trata-se de jovens que percebem que com o atual sistema não há futuro à vista.  Em cada país não há um movimento nitidamente costurado, isto é, não há lideranças claras.  Esse tipo de ativismo vem se formando espontaneamente como respostas a anseios tão evidentes.  Sente-se instintivamente a necessidade de garantir uma organização.  Assuntos como a montagem de lugares para dormir para gente que vem de mais longe e usa sacos de dormir, o fornecimento que cada um ou cada grupo faz de comida, etc. são todos resolvidos, até mesmo não raro com apoio de boa parte do público que não ocupa as praças mas que quer ajudar materialmente. 
Ainda não há reivindicações claras, não há um programa ou projeto maior.  Em razão da complexidade da atual conjuntura, é natural que isso ocorra inicialmente.  Mas só expor o que não se quer é muito significativo.  Não se quer capitalismo.  Isto é muito claro.  A construção da alternativa terá que vir com o tempo, amadurecer. 
Nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, regiões duramente golpeados pela pior crise do sistema capitalista, que começou em 2008 e vai durar muito, o movimento de ocupação das praças está menos intenso agora com o inverno.  Na primavera tudo recomeçará. 
É provável que a crise do capitalismo encetada em 2008 seja a última.  Há meio século a taxa de lucro vem decrescendo dramaticamente  como aliás Karl Marx tinha previsto.  O capital virtual, que era apenas 10% do capital de todo o planeta em 1970, agora gira em torno de 97 ou 98% de todo ele.  Mesmo que o sistema esteja apenas a décadas do seu final – historicamente muito perto dele portanto – ele continuará devorando milhões de inocentes até seu último suspiro.  Será importante que o vazio deixado um dia pelo capitalismo não seja preenchido por um novo sistema opressor.  Para que a luta valha a pena será preciso construir uma civilização igualitária. 
Há vários fatores a favor dessa luta popular.  Como notou uma observadora norte-americana, à diferença do que ocorria com os protestos paralelos ocorridos em contraste com as reuniões dos G-20, G-8 e similares, as novas manifestações surgidas no histórico ano 2011 podem ocorrer com maior freqüência porque já não ocorrem como contraponto a reuniões marcadas pelos governos das maiores economias capitalistas do mundo de hoje.  Um segundo fator positivo é que sempre há um maciço apoio por populares não diretamente envolvidos nas manifestações, o que fica evidente graças ao fornecimento de alimentos para os manifestantes além de expressões de opiniões de apoio freqüentes.  Uma pesquisa pouco tempo atrás por exemplo constatou que 46% dos norte-americanos acham que o pessoal do movimento Occupy têm o direito de fazer suas manifestações e uma proporção menor acha o contrário.  E nos países ao longo do tempo quando há ocupações de fábricas pelos trabalhadores, a população da redondeza e além tende a defender os trabalhadores revoltados.  Há cerca de 10 anos atrás aqui no Brasil mais de 50% dos entrevistados para uma pesquisa disseram-se favoráveis à ocupação de latifúndios improdutivos por camponeses dispostos a plantar neles.  E tudo isso apesar da orientação dos “formadores de opinião” da grande mídia no sentido contrário. 
Mas deve persistir a pergunta: como enfrentar pacificamente uma policia muitas vezes hostil ou até brutal?  Como enfrentar uma legislação restritiva cuja finalidade é promover os interesses da megaburguesia, especialmente os dos banqueiros, e não os interesses do povo?  Como enfrentar a mídia?  Este último problema está sendo enfrentado com certo grau de êxito como sugerimos há poucas linhas atrás.  Enfim, enfrentar a megaburguesia que tem fortíssimos meios para defender seus interesses é um desafio com solução difícil.  Será necessário que haja uma pressão popular enorme frente aos parlamentos.  Enquanto houver opressão haverá revolta. 
A história – pretérita e presente – é cruel.  O desafio é derrotar a barbárie.  Não se trata de construir outro mundo sem imperfeições.  A condição humana nos ensina que não pode haver uma sociedade perfeita, sem problemas.  Mas isso não impede a intenção de montar uma civilização que iniba sobremaneira a injustiça.  Por novos mecanismos será possível chegar até lá. 
E a histórica revolta de todo o ano 2011 em todos os continentes sugere que começa um processo de transição a nível planetário.  Pois sem uma transição para esse “outro mundo [que] é possível” a ameaçadora crise do meio ambiente e o caos financeiro não serão contornados. 

José Brendan Macdonald – jobremac@gmail.com – João Pessoa, PB, Brasil


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