domingo, 26 de fevereiro de 2012

Um mossoroense no comando da PRF potiguar.

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Rosemberg Alves de Medeiros

O Mossoroense.
rosemberg_alvesAos 42 anos, natural de Mossoró, o inspetor da Polícia Rodoviária Federal Rosemberg Alves de Medeiros assumiu a Superintendência do órgão em maio do ano passado.
Bacharel em Administração de Empresas e Direito pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern) e especialista em Segurança Pública e Cidadania pela mesma instituição de ensino, o superintendente faz um balanço do período em que está à frente da PRF-RN, revela quais são as principais dificuldades existentes no órgão atualmente e destaca as ações que estão sendo planejadas para melhorar a qualidade do serviço prestado pela Polícia Rodoviária Federal.
Na entrevista da semana do caderno Universo, Rosemberg Alves ainda aborda temas como a rotina de trabalho na PRF, avalia as condições das estradas federais que cortam o Estado e faz um alerta quanto à junção dos fatores álcool e direção. Acompanhe.
Por Maricelio Almeida
maricelio_almeida@hotmail.com Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
O Mossoroense: O senhor assumiu a Superintendência da PRF-RN em maio do ano passado. Qual o balanço que o senhor faz desse período à frente do órgão?
Rosemberg Alves:
Mesmo após 18 anos na instituição, ter dirigido a delegacia da PRF em Mossoró em duas oportunidades, ter trabalhado na implantação de projetos em diversas áreas na instituição, atuar como instrutor na área de gestão de pessoas, assim mesmo foi um grande desafio para mim. Trabalhar com segurança pública não é uma tarefa fácil de ser realizada, principalmente na gestão. Num primeiro momento, mantive o que estava dando certo, pois muita coisa estava bem engrenada. O primeiro objetivo era melhorar a gestão, pois nenhum órgão público, ou melhor, nenhuma instituição pública ou privada trabalha bem se não houver um sério compromisso nessa área. Nesse contexto, foi feito um mapeamento de processos dentro da sede de nossa regional. Com isso, pudemos enxergar as reais necessidades e os ajustes que deveriam ser feitos. Foram detectados alguns problemas cruciais e ainda estamos trabalhando para solucioná-los. A área de administração e finanças foi reforçada, pois só assim pudemos concluir, no final do ano passado, as licitações para as construções e reformas de unidades operacionais, bem como a aquisição de equipamentos, com execuções e entregas previstas para este ano. A área operacional é de extrema importância. Por conta da falta de efetivo, muitas rodovias estão descobertas, mas com o esforço de todos os policiais operacionais, administrativos e uma gestão eficiente da seção de policiamento e delegacias, conseguimos um avanço significativo no policiamento ostensivo, otimizando os recursos disponíveis. Isso é possível, realizando o deslocamento de policiais de uma delegacia para outra, de acordo com a necessidade, seja pela existência de um evento específico ou um feriado local, por exemplo.
OM: E quais as expectativas do senhor daqui para frente enquanto superintendente da PRF-RN?
RA:
A PRF tem procurado desenvolver um trabalho de excelência, mas esbarra em algumas dificuldades de ordem técnica e estrutural. Mesmo assim, sou otimista em relação ao futuro. Os próximos dois anos serão fundamentais para o RN, e a PRF não está fora dessa realidade. Com o advento da Copa do Mundo em 2014, todos os segmentos da segurança pública estão se preparando de forma a atender essa necessidade. Tenho grandes expectativas de recompor o efetivo, e com uma melhor distribuição ao longo de trechos atualmente não policiados. Há uma orientação da Coordenação-Geral de Operações para que na Região Metropolitana de Natal exista apenas uma delegacia. Isso melhorará em muito a gestão do efetivo, principalmente por conta da Copa do Mundo. Esse processo está em andamento e será detalhado junto ao efetivo das delegacias envolvidas com o intuito de chegarmos a uma decisão no tempo adequado. Por outro lado, temos uma necessidade urgente de localizar mais uma unidade operacional na Região Oeste, talvez na cidade de Pau dos Ferros. Já temos um estudo em andamento e esperamos solucionar esse problema até o final do ano. Ainda em relação às unidades operacionais, o posto 1 da PRF em Mossoró, saída para Natal, vai ter nova localização. O novo posto estará situado logo após a ponte do rio Angicos, sendo um local estratégico, pois existe ali um, digamos, filtro natural, por conta da passagem obrigatória sobre aquela ponte. Além disso, foram licitadas as construções de uma nova unidade na cidade de São Gonçalo do Amarante e outra em Caicó. Quanto aos materiais e equipamentos, foram licitados no final do ano e aguardamos receber no primeiro semestre de 2012, fardamento, composto de gandolas e botas táticas, mobiliários para os postos, viaturas para reposição, cones, material de cozinha, material de informática, dentre outros.
OM: Como o senhor avalia as condições atuais das estradas federais que cortam o Rio Grande do Norte?
RA:
Estiveram em condições piores. A relação entre a PRF e o DNIT, órgão executivo rodoviário da União, melhorou bastante. Atualmente, trabalhamos numa parceria muito salutar, existindo espaço para, levando em consideração a segurança viária, darmos sugestões e solicitarmos intervenções em trechos mais críticos. Obras importantes estão sendo realizadas na BR-304, BR-226, BR-101, dentre outras. A expectativa é que nos próximos dois anos, vejamos uma melhoria substancial. Especificamente, em Mossoró, aguardamos ansiosamente a conclusão da duplicação de parte da BR-304. Certamente os acidentes diminuirão e muitas vidas serão preservadas.
OM: Hoje, quais são os principais tipos de infrações cometidas nas rodovias federais do Estado? E em Mossoró?
RA:
No RN, para se ter um ideia, no período de 1º de janeiro de 2010 até o dia 23 de fevereiro deste ano, as multas por excesso de velocidade, ultrapassagem indevida e dirigir sem ser habilitado atingiram a marca de mais de 25 mil autos. Mesmo com essa quantidade de multas os acidentes graves envolvendo esses tipos de infrações são muitos. Em Mossoró, a ultrapassagem indevida, dirigir sem ser habilitado e licenciamento vencido são as principais.
OM: Com a implantação da Lei Seca, sancionada em 2008, o número de acidentes nas estradas federais reduziu? Qual a avaliação que o senhor faz desses quase quatro anos da nova legislação?
RA:
De certa forma sim. Num primeiro momento, quando ainda em formato de Medida Provisória, onde se proibia a venda de bebidas ao longo das rodovias, incluindo o perímetro urbano, ocorreu uma queda vertiginosa no número de acidentes graves. Quando transformada em lei, essa proibição deixou de existir. Coincidência ou não, os números voltaram a subir. Mas é importante enfatizar que a ingestão de bebida alcoólica na condução veicular é um problema cultural também. Percebe-se que ao longo desses últimos anos, e aí entra a importância da Lei 11.705, denominada Lei Seca, houve uma mudança de paradigma, onde os órgãos de segurança pública e a própria sociedade passaram a entender a gravidade da situação. As polícias de trânsito, bem como as judiciárias, passaram a conhecer e efetivar uma nova rotina. O estado do Rio de Janeiro é exemplo nacional. As estatísticas da Polícia Rodoviária Federal apontam que o fator "álcool" tem uma participação enorme nos acidentes mais graves. Essa realidade faz com que o planejamento das ações rotineiras da PRF dê um enfoque específico a esse problema. A PRF do RN tem feito seu dever de casa. Na operação de final de ano, fomos responsáveis, no âmbito das rodovias federais, por quase 10% das prisões efetuadas no Brasil pela ingestão de bebida alcoólica. No Carnaval deste ano, o percentual voltou a se repetir. Creditamos a essa e outras ações, com o apoio de nosso pessoal operacional, a redução do número de mortos em quase 70% e vítimas graves em 40% no último Carnaval.
OM: Atualmente, quantos veículos estão apreendidos pela PRF no Estado? E o que a polícia pretende fazer com eles?
RA:
Temos quase mil veículos retidos em nossos postos, e esse é um dos nossos maiores problemas, mas estamos caminhando para uma resolução. Tentarei explicar a situação. Temos veículos apreendidos, que são de responsabilidade da Justiça, a quem solicitamos que os mesmos sejam retirados e estamos aguardando. Temos veículos envolvidos em acidentes graves, que são peças de inquérito da Polícia Judiciária. Também solicitamos a retirada imediata, inclusive com auxílio do MPF, e estamos aguardando. Os automóveis nessas condições somam quase 30% do total estacionados nos postos. Os outros 70% são veículos retidos, que aguardam a regularização para liberação, mas os proprietários não aparecem, pelo fato de que os débitos de impostos, licenciamento e multas em atraso, superam o valor do bem. Bom, aqui começa o grande problema. Existe uma complexidade muito grande para leiloar esses veículos, pois depende de negociação institucional entre a PRF, Detran, Secretaria de Tributação, prefeituras e outros. Vamos iniciar um novo processo ainda no primeiro trimestre deste ano para um novo leilão, mas não será uma tarefa fácil. Mas enquanto isso, o que fazer com esses veículos? O que fazer para evitar que eles se acumulem em nossos pátios, ocasionando uma poluição visual que tanto chama a atenção do cidadão que passa em frente aos nossos postos? Abrimos também um processo para a construção de pátios em Mossoró, Natal e Currais Novos, fora de nossos postos, para organizarmos melhor os veículos retidos. Com essa medida, podemos dar um aspecto melhor aos postos que serão construídos ou reformados.
OM: Inspetor, como funciona a rotina de trabalho dos policiais rodoviários federais?
RA:
Trabalhamos em regime de escala de serviço de 24 x 72, ou seja, a cada dia trabalhado o policial goza de outros três para o descanso. Mesmo com essa aparente "folga", destaco que o trabalho policial está entre os mais estressantes na atualidade. Não é incomum afastamentos médicos ocasionados por traumas no trabalho, seja em virtude de atendimento a um acidente, que o marca sobremaneira, ou um trabalho voltado para o enfrentamento ao crime, que tenha colocado sua vida em risco. O policial sai de casa com hora marcada para entrar em serviço, mas não tem como garantir à sua família o seu retorno, infelizmente. O PRF atende todas as ocorrências ao longo das rodovias federais, incluindo o acidente de trânsito, auxílio a usuário, enfrentamento aos crimes nas suas variadas facetas, desobstrução das vias, retira de animais, dentre outras atividades. Em Mossoró mesmo, que eu lembre, já registramos em duas oportunidades a realização de partos dentro de viaturas da PRF. Na verdade, embora tenhamos um planejamento diário, também o que determina a ação da PRF é a necessidade do cidadão. Apesar da existência de postos fixos, com abordagens e fiscalizações, a área de maior atuação é na rodovia, embaixo de sol ou chuva, de dia ou de noite.
OM: Existe previsão de realização de novo concurso na PRF-RN?
RA:
No momento estamos dando continuidade ao concurso de 2009. As etapas que incluem testes de capacidade física, apresentação de exames clínicos e o psicotécnico já estão em curso, com o cronograma publicado no site do DPRF bem como no da empresa responsável pelo concurso. A última etapa será o Curso de Formação Profissional, que iniciará em junho, com a conclusão prevista para o início de setembro. Esse concurso tem previsão para 750 vagas, mas a instituição tem ainda a opção de chamar mais 50%, o que deverá ocorrer. Nesse universo de 750 vagas, apenas 04 são destinadas para o RN. Ocorre que concomitante com o ingresso dos novos policiais desse concurso em outras regionais, 46 serão removidos para cá, totalizando 50 novos policiais até o início de outubro. Se houver o acréscimo de mais 50% ainda nesse concurso, outros policiais serão acrescidos ao quadro existente no RN, mas esse quantitativo ainda não foi definido pela direção-geral. O DPRF corre para que o concurso atual seja concluído o mais breve possível, e assim possa publicar edital para um novo concurso no início de 2013. O próprio sr. ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, garantiu um acréscimo de 4.500 novos policiais rodoviários federais até a Copa do Mundo de 2014.
OM: Caso o senhor queira acrescentar algo mais, fique à vontade.
RA:
Infelizmente, o acidente de trânsito se tornou algo banal. Podemos afirmar que o acidente veicular deixou de ser apenas um problema de saúde pública, mas deve ser considerado, também, como uma questão de segurança pública, e a problemática do trânsito afeta diretamente essa garantia, por lesionar a ordem pública e o direito da própria segurança da sociedade que, por conseguinte, atinge um direito maior, o direito à vida.

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