12 de abril de 2012 às 16:52

Na Folha de SP: cientistas da UFRN estudam descoberta da esquizofrenia e outros através da fala

Publicado em Ciência
Glória para o neurocientista Sidarta Ribeiro, do Instituto do Cérebro da UFRN, que em julho de 2011 rompeu com Miguel Nicolelis e deixou o IINN (Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra), do qual foi co-fundador.
Mas isso é uma outra coisa.
A boa nova é que o caderno Ciência da Folha de São Paulo publicou na edição do último dia 10 um trabalho científico a partir de uma pesquisa de Natália Mota, orientada por Sidarta, sob o título ‘Análise matemática da fala flagra esquizofrenia’, em matéria assinada por Giuliana Miranda.
Afirma: “Cientistas brasileiros criaram método que estuda a estrutura da conversa”, e “estimam em 90% a precisão do diagnóstico; trabalho do psiquiatra, porém, ainda é essencial”.
Eis a matéria:
A forma como alguém conta uma história pode revelar muitas coisas, inclusive transtornos psiquiátricos. Pesquisadores brasileiros criaram um método que consegue identificar pacientes com esquizofrenia e com mania apenas usando a fala.
O trabalho começou a ser desenvolvido em 2006 e, ao longo do tempo, envolveu um time de cientistas de várias especialidades, liderados por uma equipe do Instituto do Cérebro da UFRN(Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal).
Os pesquisadores criaram um modelo que transforma em gráficos (grafos) o discurso dos pacientes. E, a partir desse padrão, é possível identificar padrões e correlações que são bastante específicos dessas duas psicoses.
No experimento, os cientistas analisaram 24 pessoas, sendo oito delas com diagnóstico prévio de esquizofrenia, oito de mania e oito sem psicoses diagnosticadas.
O MÉTODO
O primeiro passo é uma entrevista, na qual se pede que os pacientes contem um sonho. Esse relato é gravado e transcrito. Depois, é aplicado um software usado no estudo dos grafos -área que já é consagrada na psiquiatria- que destaca os pontos relevantes da fala dos pacientes.
O programa, além de indicar os pontos de conexão da conversa, apresenta as principais diferenças no discurso dos voluntários.
Os resultados são simples de interpretar visualmente. Os grafos dos pacientes com mania são muito mais densos, com várias idas e vindas em relação ao tema do relato. Em geral, a pessoa “se perdia” mais na conversa, uma característica marcante das pessoas com esse transtorno.
Já os grafos dos pacientes com esquizofrenia são mais retilíneos e seguem uma sequência menos caótica. Os pacientes tendem a falar menos, a ser mais contidos no relato de suas experiências.
“Um psiquiatra treinado é capaz de, em uma conversa longa no consultório, chegar às mesmas conclusões. Esses padrões de discurso já são notados. O que nós criamos agora é uma forma mais rápida e quantitativa de abordar a questão”, explica Natália Mota, do Instituto do Cérebro, uma das autoras do trabalho, publicado na “PLoS ONE”.
Embora os cientistas tenham conseguido taxa de sucesso no diagnóstico de cerca de 93%, bem maior do que os cerca de 67% das escalas mais usadas pelos psiquiatras, Mota ressalta que o método deve complementar as avaliações usadas atualmente. “Ele não substitui a experiência do consultório.”
O neurocientista Sidarta Ribeiro, que também participou do trabalho, vê um grande potencial no método.
“Por enquanto, nós analisamos apenas a forma com que as coisas foram ditas. A questão semântica ainda não entrou nesse trabalho. Mas nós já começamos uma próxima etapa, que vai juntar tudo isso. Estamos trabalhando para aperfeiçoar essa ferramenta”, diz o cientista.