terça-feira, 10 de abril de 2012



[PLURAL] Demosteninos

por Redação
FRANÇOIS SILVESTRE
Escritor
▶ fs.alencar@uol.com.br

O primeiro Demóstenes nasceu na Grécia, o grego. O segundo nasceu no Brasil, o presente de grego.
O primeiro lutou na justiça para reaver os bens roubados do pai; depois correu contra o vento, com seixos na boca para vencer a gagueira e virar orador.  O segundo virou orador no Ministério Público, acusando. Depois correu contra as águas da cachoeira e encheu a boca de telefones para vencer o moralismo do seu caráter acusador.
Ambos têm seguidores. Uns, gagos e tímidos que enfrentam a dureza da vida fazendo-a mais dura para treinar o embate diário. São os seguidores do grego. Outros, acusadores vorazes que apontam a culpa dos outros, sendo só eles os puros.  Seguidores do presente de grego.
Os moralistas são todos parecidos, incapazes da dúvida sobre a culpa alheia. Todos são culpados até que provem a inocência, e mesmo provada haverá sempre dúvida sobre a prova inocentadora. Só eles são honestos; os outros honestos são no mínimo suspeitos.
O moralista compulsivo vive do sofrimento de impor sofrimento aos outros. O sadomasoquismo nele não é uma tara, é um estilo. Tudo tem um nome apropriado e politicamente correto. O moralista não fede, exala.
Só não deixe o moralista ter oportunidade; pois aí ninguém dos que ele acusa conseguirá ser mais cretino, larápio, falso, corrupto, enganador. É tudo uma questão de fronteira, pois o moralista é um fronteirista da moral. Vive no fio da navalha, entre a imagem mostrada e a vontade reprimida de delinquir.
O discurso moralista, do santo canalha, chega a dar ideia de que a defesa é cúmplice do delito. Defender é uma ação suspeita e não um direito universal e um dever constitucional. O moralista, seja no fórum ou na mídia, na igreja ou na política vive a compulsão de provar na aparência o que de fato não é no caráter. É um sofredor interno, dono do seu próprio inferno.
O promotor Demóstenes Torres, senador da República, é um arquétipo pronto e acabado de moralista. Capaz de convencer qualquer um. Eu mesmo cheguei a escrever, num blog, que o admirava. Com todas as restrições de natureza ideológica, pois sempre notei seus pendores fascistas, reconhecia a importância de sua luta contra a corrupção.
Mário Moacir Porto dizia que “há questões que dispensam as razões abonadoras de sua origem”. As razões do Demóstenes dispensavam sua ideologia capenga.
Foi uma surpresa? Pra mim, foi. Pois eu não o incluía dentre os moralistas. Diferentemente dos moralistas comuns, seus olhos não desmentiam a boca. Um ator perfeito.
E o que é pior: conseguiu ser veículo de mais uma decepção política. Tirou o pouco de crédito que ainda resta dessa atividade essencial numa democracia. O pior da política não é ela, mas a falta dela. Quando falta a política nasce a ditadura, o arbítrio, a censura, a violência.  Té mais.

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