quinta-feira, 10 de maio de 2012

A JEC na Escola Industrial de Natal.




Reportagem publicada no extinto semanário DOIS PONTOS, de Natal, nos anos oitenta do século passado pelo jornalista Luiz Gonzaga Cortez numa série de matéria intitulada

"O Movimento Estudantil do RN antes e durante a Ditadura Militar "(XII)




ESCOLA TÉCNICA: Três alunos expulsos antes do AI-5.




           As escolas industriais foram criadas em 1909, no Rio Grande do Sul, pelo fundador do instituto Perobé, dr. João Luderitz, e se espalharam pelo resto do país com o objetivo de formar operários especializados para a nascente industria brasileira. O instituto Parobé foi transformado em escola industrial e, em 1912, o presidente Nilo Peçanha criou a escola de Natal, hoje denominada Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte.(ETFRN). (1)
           A Escola Industrial de Natal, denominação que perdurou até 1967, ano em que foi transferida para o moderno prédio da avenida Salgado Filho, Lagoa Seca, era uma instituição que tinha um corpo docente composto por ex-alunos da própria escola. A maioria dos seus alunos era constituída por jovens da classe pobre ou da média baixa. Praticamente não existia filho de rico ou remediado. Quase 100% eram proletários que queriam adquirir uma formação profissional, ingressar no mercado de trabalho, arranjar uma namorada, casar e ser um bom pai de família.
           Após concluir o curso de marcenaria, mecânica, eletricidade e alfaiataria, entre outros, a maioria dos formandos ia para São Paulo ou Rio de Janeiro, afim de trabalhar e fixar residência. Muitos foram e ficaram. Outros voltaram, alguns ainda estão em Natal para contar muitas histórias da Escola Industrial de Natal, que funcionava no velho prédio da avenida Rio Branco, Centro, onde hoje está instalada a Televisão Universitária da UFRN, comissão permanente do vestibular e Associação dos Funcionários da UFRN (FURN), Cooperativa Artesanal de Litoral (COPALA) e Associação dos Docentes da Escola Superior de Guerra.
           CONCLUSÃO DAS OBRAS – A Escola Industrial funcionou no grande e espaçoso prédio de dois pavimentos (frente para a Rio Branco, fundos para a rua Professor Zuza) até o final do ano letivo de 1986. antes de ser relocalizada em Lagoa Seca, a direção da escola, através de Jeremias Pinheiro, Pedro Pinheiro de Souza e Pedro Martins de Lima, além do veterano presidente do Conselho de Representantes da EIN, Luís Carlos Abbot Galvão (o conselho era um colegiado integrado por representantes da direção da escola, da indústria e do comércio. Luís Carlos era representante dos industriais, digo, dos padeiros) para conseguirem a conclusão das obras do atual prédio. A participação de Luís Carlos nessa luta foi importante, pois empenhou-se para concluir a nova escola, cujas obras tinham sido iniciadas em 1949 e paralisadas durante quase dez anos.Resultado: muitos ex-garçons e empregados da boate Hyppie Drive-In foram "remanejados" para a Escola Técnica Federal do RN, hoje aposentados.Eram tempos da ditadura militar
           As atividades estudantis eram lideradas pelo “Centro Lítero e Recreativo Nilo Peçanha”, cujas diretorias sempre foram eleitas pelo voto direto e secreto. O grêmio tinha uma verba para a sua manutenção e custeio de suas atividades “lítero e recreativas”. A ditadura militar imposta em abril de 1964 proibiu atividades políticas nas representações estudantis. Por isso, o C.L.R.N.P. , sigla como ficou conhecido pelos alunos da Escola Industrial de Natal, realizava mais festinhas, pique-niques e bailes de São João do que conferências e reuniões de conscientização política.
           CONTRA A DITADURA – A primeira manifestação política que eu vi na EIN foi no primeiro de abril de 1964, quando os militares conservadores começavam o assalto ao poder da Repúblilca. Tinha 14 anos e assisti o aliciamento de estudantada, nos corredores da escola, para uma manifestação de protesto, fora da escola, contra o golpe militar, lembro-me que um dos que mais se destacaram foi o aluno Marcos Pedroza, filho da professora Carmem Pedroza. Diante dos apelos de professoras e professores para que os alunos se retirassem da manifestação interna, Marcos acabou falando sozinho e a convocação gorou. Para fazer Marcos Pedroza desistir do seu intento a professora  Expedita, de francês, convenceu-o sob avisos “tenha juízo, menino, você pode ser preso”. A professora Expedita era casada com um oficial do Exército e deveria saber dos propósitos dos militares.
           Depois do golpe militar, os alunos notaram a ausência de vários colegas, funcionários e professores. Um dos professores mais queridos na escola era João Faustino Ferreira Neto, que ensinava matemática com uma didática agradável, as aulas de João Faustino eram assistidas por  todos os alunos com  atenção e respeito, João ficou ausente durante quase dois meses e o seu horário era preenchido por um irmão marista. Mais tarde, esse irmão marista foi substituído por um professor de religião, desconhecido de todos: Inácio Sena. Tempos depois o professor João Faustino retornou às atividades didáticas e passou, também, a ser orientador educacional, tendo sido, nesse período, o primeiro professor a dar aulas sobre educação sexual na Escola Industrial de Natal.
           JORNAIS INTERNOS – em 1964/65, criei um jornal mural, “evolução”, confecionado  com folhas de papel ofício coladas em cartolina. Mas o jornal foi muitas vezes rasgado e riscado pelos alunos mais radicais que colocavam um “R” gigante no início do título do jornal que, pelas suas posições conservadoras e neo-integralistas, ficou queimado e sem condições de “circular”. Mudamos o nome para “Mensageiro Industrial” e adotamos uma posição imparcial diante dos assuntos políticos da época. Colaboraram nos dois jornais, Luiz G Cortez, Rubens de Azevedo Maia, Lourival Cavalcanti, Lino, Wellington Corsino e Gilson Oliveira entre outros.
           Alguns companheiro sugeriram que eu me candidatasse a presidente do C.L.N.P. , idéia que aceitei levar avante após uma conversa com o inspetor Adilson de Castro Miranda, altamente popular e benquisto no meio da estudantada. Adilson era funcionário e conhecido pelos seu discursos retóricos que fazia em todas as solenidades cívicas da escola. Tinha sido militante da juventude Estudantil Católica, ex-presidente do C.L.R.N.P. e era o responsável pela disciplina interna, isto é, lidava, diariamente, com mais de seiscentos alunos. Era pau pra toda obra. Mexia com tudo, conversava, advertia e orientava os alunos. Com o seu apoio, no início de 1966, fui eleito presidente do Centro com larga maioria de votos sobre o meu opositor, cujo nome não me recordo.
           SEM ADILSON, DERROTA – Por uma desses ironias da história, dirigi o grêmio com certa liberdade e desagradei a Adilson e a direção da escola. Cometi erros. Por exemplo: editei um jornal cujo nome era “Manda Braasa”, influenciado por uma música de Roberto Carlos, que estava no auge. Depois corrigimos o erro e editamos o “Mensageiro Industrial”, com oito páginas, impresso na gráfica Graflex, na Tribuna do Norte. O então orientador educacional, professor João Faustino, tentou evitar, através do diálogo e da persuassão, que eu mandasse imprimir o “Manda Braasa”, pois o título não pegava bem para a entidade e os alunos da EIN.
           Mas antes de romper com Adilson de Castro Miranda, a diretoria do Centro realizou diversas promoções: concursos literários (poesia e contos) conferências, festinhas e piqueniques, além dos dois jornais impressos nas gráficas Manimbú e Graflex. A única vez que o escritor e historiador Luis da Câmara Cascudo esteve na EIN, foi a convite da diretoria do Centro. Cascudo falou sobre cultura popular e a formação do povo brasileiro. Foi um sucesso. Os alunos nunca tinham visto Luis da Câmara Cascudo.
           Nos primeiros meses de 1967 houve eleição para o Centro e fui fragorosamente derrotado por Ednaldo Pimentel, que contou com o apoio direto de Adilson. Antes de deixar a presidência do Centro, conseguimos financiar a primeira edição do livreto de Adilson, “Só morrem as causas pelas quais não se morre...”. o lançamento do livro ocorreu em agosto de 1966, no refeitório da escola, com discursos  do autor, do ex-professor Evaristo de Souza Lima e do funcionário José Hipólito de Santana, ambos já falecidos. A edição do livro custou cem cruzeiros e foi paga pela tesouraria do C.L.R.N.P. Em 25 de dezembro de 1981, Adilson imprimiu a segunda edição do seu livro.
           A JUVENTUDE CATÓLICA – Perdido o comando do Centro, ingressamos num  pequeno grupo que seria o embrião da Juventude Estudantil Católica (JEC) na escola. O grupo era coordenado por José Albino de Oliveira e dele faziam parte Rubens de A. Maia, Lino, Jurandir Bezerra de Oliveira e um rapaz carrancudo cujo nome naum me recordo. Lembro-me que ele se formou em medicina. O grupo de jovens católicos reuniu-se várias vezes e participou de reuniões na granja Emaús, ao lado da BR 101, com o padre Antônio Soares Costa, coordenador da JEC. As reuniões na granja contaram com a participação de dezenas de estudantes, entre os quais José Albino de Oliveira, José Bezerra Marinho e Albimar Furtado.
           Mas as reuniões do grupo da Escola Industrial de Natal foram se tornando preocupantes para a direção e o conselho de Representantes. O grupo promoveu conferências e atividades políticas contrárias ao pensamento do grupo dirigente da escola. Por isso, um dia de setembro de 1967, eu, Jurandir B. de Oliveira e outro aluno, fomos surpreendidos pelo convite da direção da escola para comparecermos  à sala do presidente do CR, Luís Carlos A. Galvão, um cidadão temido pelo alunado por causa da sua carranca e um tremendo óculos escuro. Luis Carlos foi curto e grosso: não permitiria subversão dentro da escola e que nós só tínhamos uma opção: renunciar a qualquer atividade política ou a exclusão do quadro do corpo discente.
              Todos julgaram-se inocentes de qualquer ação subversiva. Ao nosso lado, estava o professor Pedro Martins de Lima, calado. No final da “conversa”, Luis Carlos disse, taxativo: “Eu não quero subversão aqui e vocês estão expusos!”. E assim, três concluintes do ginasial foram impedidos de continuar estudando na Escola Industrial de Natal. Os três perderam o ano letivo de 1967 por causa da decisão totalitária de Luis Carlos Abbot Galvão, muito antes do AI-5, sob o olhar complacente do diretor Pedro Martins de Lima, que nada podia fazer (Ou não quis interceder, mas ficar calado. Anos depois, num encontro casual na rua Vigário Bartolomeu, provocado para falar sobre o episódio, Pedro Martins disse, sorrindo: "Luiz, Luiz, ainda não é tempo".



DOM EUGÊNIO IMPLANTOU O ECUMENISMO NA EIN




           Altamiro Galvão de Paiva foi da Juventude Estudantil Católica, apesar de ser protestante, na antiga Escola Industrial de Natal, hoje Escola Técnica Federal do RN, foi vice-presidente do Centro Lítero Recreativo Nilo Peçanha, em 1961, ano de intensa agitação social e política no Brasil. Para chegar a ser eleito vice-presidente do Centro, Altamiro teve que fazer intensa propaganda e diversas gestões políticas, pois os seus adversários diziam que ele era protestante e, por isso, os alunos da escola não teriam mais páscoa.
           “Consegui levar o bispo Dom Eugênio Sales para celebrar uma missa na escola e as dúvidas desapareceram. Depois  da missa, Dom Eugênio Sales disse que o ecumenismo estava implantado dentro da Escola Industrial”, disse Altamiro Galvão de Paiva, coronel da Polícia Militar do Rio Grande do Norte. Ele derrotou a chapa encabeçada por Francisco Gomes, católico, e apoiada pela ala esquerda dos estudantes. O presidente eleito foi Antonio Quirino.
           Altamiro recorda que a participação de Jô Resende, atual vice-prefeito do Rio de Janeiro, foi intensa na Escola Industrial de Natal, pois se tratava de um rapaz com forte liderança na escola e nos  meios estudantis da cidade, haja vista que ele era militante da Juventude Estudantil Católica, coordenada em Natal pelo então padre Antonio Soares Costa, hoje bispo-auxiliar.
           “Eu não era militante de esquerda, mas um estudante protestante, com atuação no Centro da Escola Industrial de Natal e amigo de Jô Resende, com quem fui, em 1961, a um congresso da União Nacional dos Estudantes Técnicos Industriais (UNET), em Fortaleza-CE. Durante o congresso, distribuiu-se, fartamente, panfletos de elogios a revolução cubana, com fotos de Fidel Castro. Quando vi aquela agitação e distribuição de fotos de Fidel, retirei-me do recinto do congresso, pois tive uma espécie de premonição de que aquilo iria dar  em confusão. Pouco tempo depois, o Exército ocupou as dependências do congresso e prendeu dezenas de estudantes. Escapei por pouco”, disse Altamiro Galvão.
           Ele lamenta a extinção da Escola Industrial nos moldes em que  funcionou até 1967. Durante décadas, as escolas industriais do país funcionaram em regime de tempo integral, pois os alunos recebiam café da manhã, almoço e lanches reforçados, ale de livros, batas e fardamento. Os cursos eram: marcenaria, mecânica, eletricidade, alfabetização, artesanato em cerâmica e artes em couro. (continua na próxima edição)
           Em tempo: A professora Expedita Medeiros não é casada com militar do Exército. Seu marido, desde os 18 anos, é Argentino Jacó de Medeiros, civil. (1) - A atual denominação é Instituto Federal de Educação e Ciência Tecnológica-IFRN.


Nota: Hoje, 10.5.2012, recordo que Adilson de Castro Miranda, no encontro de ex-alunos da EIN/CEFET/RN, sentado numa cadeira de rodas, disse que Luiz Carlos disse que eu era comunista e que "esse mal tinha ser cortado pela raiz, antes que a subversão tomasse conta da escola". Fato presenciado pelo ex-aluno Francisco de Assis Barros, o guia de Adilson e outros estudantes não identificados no Clube da Petrobrás, em setembro de 2009. Luiz Carlos era dinartista radical, dono de padaria e o meu pai, aluizista.






Grupo de ex-alunos da Escola Industrial de Natal, no encontro de 2010. Fred Galvão é o 1º da esuqerda, Sr. Laércio, ex-aluno, ex-inspetor de alunos e funcionário aposentado e artesão e produtor de garrafadas em Natal, uma memória viva da escola. (84) 3208.1606. Não cito os nomes dos demais ex-alunos porque perdi as anotações.

Um comentário:

  1. Acompanhei o zelo e a dedicação de Luiz G. Cortez de Melo no semanário "Dois Pontos" na elaboração dessa série de reportagens, bem ao estilo pessoal de Gonzaga...

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