terça-feira, 1 de maio de 2012


Ainda se distorcem sobre
episódios da história do RN. (1)
Luiz Gonzaga Cortez. *
Eu sempre gostei de escrever sobre alguns assuntos controversos, polêmicos, contraditórios e distorcidos de nossa história. Motivo: você lê uma reportagem sobre um episódio e, tempos depois, aparece outra versão sobre o mesmo, às vezes do mesmo autor. Você um documento publicado num livro novo ou velho e depois você vê o mesmo documento inserido noutro livro com distorções, isto é, com inserção de texto que não existia na edição anterior. Desde os anos oitenta do século passado que leio e ouço distorções de acontecimentos políticos, históricos, culturais e sociais. Já fui entrevistado por estudantes de comunicação e ciências sociais da UFRN sobre o integralismo, fascismo e o comunismo no Rio Grande do Norte e quando indagado sobre o totalitarismo, respondia sempre que o comunismo soviético, com a tomada do poder pelos bolcheviques, na Rússia, em 1917, foi o pioneiro. Mas os jovens universitários só escrevem que foi o nazismo com a chegada de Adolf Hitler ao poder na Alemanha em 1933. Antes de Hitler, Benito Mussolini, em 1926, já tinha implantado a sua ditadura totalitária na Itália, com apoio da burguesia industrial, dos monarquistas e da Igreja Católica.
Quando se aborda a revolução russa, antes e durante outubro de 1917, não se registra a importância de Leon Trotski. O destaque é para Vladimir Lênin. Você já viram fotos de Trotski e Lênin juntos, na praça Vermelha, antes da tomada do Kremlin? Pois é, a ditadura de Stálin escondeu durante décadas as fotos nas quais aparecem Trotski discursando para a multidão de operários em Moscou. E observem que Trotski foi o comandante do Exército Vermelho... mas terminou sendo assassinado no México, a mando de Stálin. E sobre Chu En Lai e Li Shao Chi vocês, já leram alguma coisa a respeito deles na condução da revolução comunista chinesa? E sobre Camilo Cienfuegos na revolução cubana que levou Fidel Castro ao poder, em 1959? Pouca coisa se sabe sobre as verdadeiras causas do seu desaparecimento.
Mas tomemos outro exemplo, este muito recente, sobre as comemorações dos 100 anos da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo. Você, caro leitor, leu ou viu na mídia impressa e eletrônica alguma coisa sobre a participação do jornalista e escritor Plínio Salgado? Menotii Del Picchia saiu alguma copisa? Não, ninguém viu. A mídia só se lembra de Mário de Andrade, Anita Mafalti, Pagu e outros. Motivo? Por ter criado o movimento integralista, com forte influência do fascismo italiano, Plínio Salgado foi ferrenho adversário dos comunistas liderados por Luis Carlos Prestes. Por isso, hoje, ele não é citado nem lembrado pela imprensa, muito menos pela poderosa rede de televisão privada brasileira. Apesar de liderar um movimento considerado de direita e revolucionário, Plínio Salgado fez campanha contra o banqueirismo e o capitalismo internacional, com sedes em Londres ou em Nova York. Você sabia que Luís da Câmara Cascudo, o folclorista potiguar, conheceu Plínio Salgado através de uma carta de Mário Andrade, um intelectual considerado de esquerda e ligado ao partido comunista?
A história é a do vencedor. Ou você tem dúvidas de que os ditadores árabes que caíram recentemente foram instalados no poder com apoio dos Estados Unidos. E mais: Fidel Castro, Pinochet (Chile), Pol Pot (Cambodja), Saddam Hussein (Iraque), Suharto (Indonésia) e outros, inclusive os generais brasileiros pós 1964, receberam ajuda da CIA para os golpes e rebeliões que realizaram para dominarem seus povos durante décadas. Quem lê fica sabendo. Quem não lê nem pesquisa, adota versões dos vencedores.
Na semana passada, após dois anos de veiculação na Internet, soube que existe uma monografia, de autoria de um estudante de história da UFRN, na qual ele registra que publiquei um livro em 1985, sobre a revolta comunista, com base em versões orais e por simpatia ao partido comunista. Hahahaha. Eu não publiquei nenhum livro em 1985. Sobre o integralismo no RN, publiquei um livreto em 1986. Sobre Luís da Câmara Cascudo no integralismo, publiquei em 2004 um livro de apenas 120 páginas. A respeito da revolta comunista publiquei outro livro em 2005. Sobre a “intentona” e o herói de araque, voltaremos no próximo artigo.
Luiz Gonzaga Cortez é jornalista e pesquisador.


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