sexta-feira, 29 de junho de 2012


Otto Guerra: homem sereno e íntegro

29 de Junho de 2012 - Tribuna do Norte.

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Dom  Jaime Vieira Rocha - Arcebispo Metropolitano de Natal

Otto Guerra - “1912-1996. O homem que amou e serviu à Igreja, à Família e ao Próximo” (do livro Ponte para o Amor de Maria Ignez Guerra Molina, p. 25).

Este personagem é referência frequente e visível na vida e missão da Igreja de Natal e do Estado do Rio Grande do Norte, a quem tive a graça e o privilégio de conhecer a partir da concretização da minha vocação sacerdotal, ao ingressar no Seminário de São Pedro, o velho e imponente casarão da Avenida Campos Sales, 850, no Tirol, em fevereiro do ano de 1961. Vivíamos um período de pleno desenvolvimento e expansão da Ação Pastoral e Evangelizadora da Igreja de Natal, quando se configurava, pelas inúmeras iniciativas e pioneirismo de uma Igreja viva, voltada para a realidade e condição da vida humana do povo de Deus, o conhecido e famoso Movimento de Natal. Esse Movimento tinha a orientação lúcida e segura do então Bispo Auxiliar e depois Administrador Apostólico, Dom Eugênio de Araújo Sales, reconhecidamente perspicaz em escolher pessoas-chaves como colaboradoras na efetuação e eficácia do seu pastoreio. 

Entre uma plêiade de homens e mulheres que dedicaram suas vidas e colaboraram com a Igreja de Natal, vamos encontrar a extraordinária figura humana do Dr. Otto Guerra, cujos dados biográficos e história pessoal vamos conhecendo através desta publicação por ocasião do seu centenário (1912-2012). Constato que a sua existência humana atingiu o seu limite, conforme os desígnios de Deus, em 1996, ano em que recebi a graça de ser sagrado bispo, na Basílica de São Pedro em Roma, pelo beato João Paulo II, para a Igreja de Caicó. 

Recordo–me do Dr. Otto Guerra, com sua serenidade, integridade moral e espírito cristão, agindo em meio à conjuntura sócio-política e eclesial do Estado e do País, decididamente influenciada e marcada pelo regime militar, na qual ele atuava não só como um conhecido membro da Igreja Católica, mas como jurista, professor da Faculdade de Direito, da Escola de Serviço Social e Vice-reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Presença sempre edificante nos eventos e promoções da Arquidiocese e suas instituições. 

Esposo e pai de família exemplar, gerando uma prole de 13 filhos aos quais legou uma formação humana, cristã e intelectual comprovada pelo tesouro de sua biblioteca particular, onde se encontra hoje o maior acervo literário sobre as secas do Nordeste e, como católico fervoroso e convicto, também sobre a Doutrina Social da Igreja e documentos pontifícios.

Uma particularidade: na sua sensibilidade humana e cristã, escolheu o nome de Zita para uma de suas filhas, em homenagem e reverência a Santa Zita, patrona das empregadas domésticas, de conhecida devoção aqui em nossa cidade pela existência da Casa Santa Zita, na rua Apodi, uma instituição social da Congregação das Filhas do Amor Divino, na Igreja de Natal, para a promoção humana das empregadas domésticas.

Em 1950, Dr. Otto Guerra recebeu em sessão solene na sede da Ação Católica a Comenda de São Gregório Magno, no grau de Cavaleiro, concedida pelo Papa Pio XII, tornando-se assim, integrante de um grupo seleto de fiéis leigos da Igreja Católica, na condição tão honrosa de Comendador da Santa Sé. Não só como jurista, mas como jornalista co-fundador do jornal A Ordem, por indicação de Dom Eugênio, foi um dos poucos leigos do Brasil a integrar a Comissão Pontifícia para as Comunicações Sociais, como representante da América Latina junto à Santa Sé. Que este seu legado para a Igreja e a sociedade, suscite entre nós, novos testemunhos e lideranças católicas comprometidas com as causas da justiça, da cidadania e da dignidade humana.

Como atual pastor desta Igreja de Natal, uno-me, com muita honra e sentimento de ação de graças a Deus, a todas as manifestações de reconhecimento e homenagem à memória de Otto Guerra, suplicando graças e favores celestiais para seus familiares e todo o povo de Deus que, pela graça do batismo, “são constituídos partícipes do múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo, pelo que exercem sua parte na missão de todo povo cristão na Igreja e no mundo”(LG,31).

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