quarta-feira, 20 de junho de 2012

Sobre Celestino Pimentel.

Foi caminho e abriu caminho

20 de Junho de 2012
Ticiano Duarte - jornalista

No último número da revista “Palumbo”, o repórter Francisco Francerle lembrou a figura do professor Celestino Pimentel, “As sábias pegadas de Celé”, que durante 24 anos dirigiu o Atheneu Norte-riograndense, o mais tradicional estabelecimento de ensino público de nossa terra, por onde passaram as figuras mais ilustres e importantes de nossa história política, social, econômica e cultural. Em verdade, a nossa primeira universidade, como instituição que transmitia conhecimentos, através dos mais variados especialistas, de elevada cultura, mestres da linhagem de um Luiz da Câmara Cascudo, Padre Monte, Esmeraldo Siqueira, Israel Nazareno, Floriano Cavalcante de Albuquerque, Clementino Câmara, Véscio Barreto, Alvamar Furtado de Mendonça, Antônio Pinto de Medeiros, Luiz Maranhão Filho e o próprio Celestino Pimentel.

Se há um educador do passado que o Rio Grande do Norte deve uma homenagem permanente, pelo seu amor à causa educacional e ao estabelecimento que amou com largueza e devoção, dando o melhor do seu tempo e de sua energia pelo seu progresso e desenvolvimento, é sem dúvidas, o saudoso professor Celestino Pimentel.

Fui seu aluno e pupilo. Tinha por ele grande admiração, um misto de respeito e medo do seu olhar duro, das suas advertências e dos carões, quando me surpreendia fumando na balaustrada que dava para a antiga Junqueira Aires ou nos fundos do prédio, olhando para o mercado da cidade alta:

- Você parece um bueiro. Jogue esse cigarro fora...

Mas ficava só no pito, apesar do olhar duro e da voz de quem não estava gostando da cena. Os alunos cantavam nas antesalas, “La vem Celé, na ponta do pé... ligue, ligue, ligue, liguelhé. E um silêncio tomava conta de todo o prédio, quando Celestino botava a cara para ver se as coisas estavam funcionando bem, o professor na sala de aula, os alunos quietos ou no recreio, sem balbúrdia, sem colocar sabão no trilhos dos bondes que desciam ou subiam na ladeira da Junqueira Aires.

Ninguém foi mais duro e ao mesmo tempo humano e bom do que o inesquecível diretor, Celestino Pimentel. Quando ele apontava, pela manhã bem cedinho, às 07 horas, no início da balaustrada, a caminho do seu trabalho, com a sua roupa de casimira azul, os estudantes começavam a indagar – Estava raivoso? Dormira bem? Tomara uísque na noite anterior? Amanhecera com ressaca? Vinha da noitada na praça Padre João Maria, sua residência oficial? Ou visitara a amiga da rua Borborema, do Alecrim? Dormira mal? Pois se acautelassem porque naquele dia a coisa iria pegar fogo. Celestino não estava pra brincadeira. E se fosse no período das provas do fim de ano, que era ele próprio aritmeticamente calculava as notas que aprovavam ou reprovavam, o medo aumentava no meio da estudantada.

Era o imaginário dos alunos de um tempo de meia escuridão, da era getuliana, nos idos de 1940, do famigerado DIP, das censuras dos jornais, das prisões políticas, da guerra que tomava conta da Europa, de pouca liberdade.

Celestino tinha um rosto avermelhado, a cara de lobo, lobo do Atheneu, de um coração mais vasto do que o mundo do poeta. Comigo mesmo, sempre pensava, que os nomes passam, as obras, as mais ousadas e ambiciosas experimentações de ensino e de educação, os cenários, mas Celestino continuava vivo em nossa memória de menino. Um homem forte e voluntarioso que amou sua profissão e o seu trabalho, sua presença continuava viva entre nós. Ele foi caminho e abriu caminho.
Fonte: Tribuna do Norte.

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