domingo, 17 de junho de 2012

A tapa de Djalma no pé do ouvido do capitão.

Lembranças do ex-cabo que prendeu Djalma Maranhão em 1964
Luiz Gonzaga CortezJornalista e pesquisador
O cabo Carvalho foi um dos homens que prenderam o prefeito Djalma Maranhão, no início de abril de 1964, no Palácio Felipe Camarão, na rua Ulisses Caldas, Centro de Natal. Foi uma operação militar, sem violência, conta Luiz Gonzaga de Carvalho, funcionário aposentado da Assembléia Legislativa, onde trabalhou muitos anos na Diretoria Legislativa, com o diretor Antonio Dantas, Toinho Careca, já falecido. Reencontrei "Luiz Manchinha", como é mais conhecido, no Bar Cabeça do Bode, em Candelária, um dos pontos mais conhecidos e freqüentados pelos boêmios da zona sul. Ele não teve medo de falar sobre a repressão militar durante e após o golpe militar de 1964, que teve apoio das elites políticas do Rio Grande do Norte, a partir das suas lideranças conservadoras, como Aluízio Alves e Dinarte de Medeiros Mariz, e dos empresários e entidades de classe (patronais e trabalhadoras), além dos clubes de serviço e outras organizações civis, como a maçonaria, por exemplo. Esta apoiou desde o começo. Naquela época, os maçons temiam o avanço do comunismo e das esquerdas em geral. Mas isso é outra história.
Certo dia (o cabo Carvalho, nº 3333, não se lembra da hora, mas garante que foi à tardinha), ele saiu do quartel do Regimento de Obuses, em Santos Reis, onde servia na 2ª Companhia, num comboio comandado pelos capitães Leitão e Torquato e o tenente Maia, que hoje seria general, para prender o prefeito Djalma Maranhão, que estava no seu gabinete de trabalho com assessores, enquanto uma multidão lotava as dependências da prefeitura. Há versões de que o povo correu quando as tropas chegaram. "Eu vi quando o capitão Leitão deu voz de prisão a Djalma Maranhão, depois que sugeriram que ele renunciasse ao cargo de prefeito. Levamos Djalma, escoltado por mim e outro colega,  num Simca Chambord, preto, um carro oficial da prefeitura, para o QG do Exército, ao lado da Catedral. De lá, foi conduzido um jipe militar para o quartel do 16º RI, no Tirol, sempre muito bem tratado pelos oficiais e soldados. Eu garanto isso porque eu fui  um dos que escoltaram Djalma Maranhão e vi tudo. Ele não resistiu à prisão, que considerou uma ilegalidade, mas os oficiais disseram que estavam cumprindo ordens. Mas ao chegar no 16° RI, a coisa pegou porque o capitão Lacerda (Ênio Lacerda), um dos encarregados da repressão e dos inquéritos contra presos políticos, famoso (ou famigerado?) pela sua (truculência), agrediu o prefeito com palavrões e deu uma "mãozada" em Djalma, mas este foi mais rápido, se abaixou e meteu-lhe uma tapa do pé do ouvido, que caiu "pronto" no chão. Ô tapa segura!, meu irmão. Os oficiais não deram apoio ao seu colega agressor, além de repreenderem-no, pois se tratava de um preso, sob a guarda do Exército", afirma Luiz Gonzaga de Carvalho.
O cabo Carvalho ainda participou de diversas operações de buscas comunistas, esquerdistas, prefeitos acusados de corrupção, lideranças rurais, etc. Ele disse que nunca esqueceu da prisão de um cidadão de Nísia Floresta, considerado perigoso, que foi encontrado debaixo da cama da sua casa. Ele não se lembra do seu nome, mas era dado como elemento subversivo de alta periculosidade, mas só acharam livros, jornais e revistas na casa, apesar das informações de que lá existia um grande arsenal de armas pesadas. Os soldados do RO passaram  uma madrugada inteira, cercando a casa e quando invadiram a residência do homem provocaram um pandemônio, com gritos de mulheres e crianças, que acordaram assustadas com os soldados armados de fuzis e baionetas escaladas.

Tome peia - Carlos Alberto Galvão de Campos é funcionário público aposentado. Em abril de 1964 foi acusado de possuir uma estação de rádio que tinha comunicação direta com Moscou. Foi preso e levado para o quartel do 16º Regimento de Infantaria, na avenida Hermes da Fonseca, onde foi espancado pelo capitão Ênio de Albuquerque Lacerda, de triste memória, dele recebendo pancadas nos ouvidos. Ele me contou que um rapaz chamado Diógenes, de Macaíba, ficou perturbado mentalmente por causa dos choques elétricos  recebidos dentro de um tanque cheio de óleo. "O capitão Lacerda mandava mais do que o comandante do quartel, era um torturador e um homem cruel. No RO, segundo eu soube, foi pior, pois fizeram uma estrada com xiquexiques para os prisioneiros andarem por cima dos espinhos. Eu me lembro dos sofrimentos de um grupo de salineiros de Macau, que tinham amizade com mestres-arrais. Eles foram confundidos pelos militares como simpatizantes ou gente da família do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes, que era considerado como comunista pela direita. O capitão Lacerda perguntava aos salineiros se gostava de Arraes e, como eles pensavam que estavam sendo indagados sobre os mestres-arrais, eles respondiam que sim. O capitão Lacerda dizia: "Ah, é?", e tome porrada nos pobres salineiros. Os militares eram despreparados e desinformados para lidar com os trabalhadores. Muitos mestres-arrais de Macau e Areia Branca foram espancados", revelou Carlos Galvão.
Carlos esteve preso com Geniberto de Paiva Campos, Aldo Tinoco e José Arruda Fialho, dentre outros, no 16º RI, onde chegou a organizar uma comemoração pelo aniversário do prefeito eleito de Natal, Djalma Maranhão. Ele mora na zona sul de Natal.
Em tempo: este artigo foi publicado em 2006, em O Mossoroense, Mossoró/RN. Como não encontrava uma cópia original, socorri-me do Google. a) Luiz G. Cortez.
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