domingo, 1 de julho de 2012

A Guerrilha de Catolé do Rocha - 1968. A versão do blog Pontos Históricos informa que o movimento começou em 1969, quando, na verdade, os envolvidos foram presos em 1968.


69 em Catolé do Rocha/PB - histórias que cruzam. Segunda parte: Combatentes da Liberdade (continuação)

Imagem 06 –  “Antiga Cadeia Pública” de Catolé do Rocha/PB (não sabemos data da fotografia)



A opção por elevarem o nível de luta, com a tentativa de implantar uma Guerra de Guerrilhas em Catolé do Rocha, está ligada ao fato de alguns estudantes terem ido dar continuidade aos seus estudos em João Pessoa.  
Lá passaram a ter contato com um movimento estudantil muito atuante e conhecer suas lideranças. Tiveram também contato com partidos e personalidades políticas,  e com situações de embate entre os movimentos sociais e a ditadura militar.


Mas, e a decisão pela Guerra de Guerrilhas? Para responder como se deu essa decisão seria necessário uma investigação mais aprofundada e ao mesmo tempo mais espaço para escrita, pois aqui não podemos nos alongar demasiadamente. Temos alguns indícios sobre isso, mas a entrada nessa história de agremiações políticas (PCB “partidão” e PCBR) merece maior estudo. Temos que saber quais articulações foram estabelecidas, pois inclusive nesse ponto pode haver uma ligação direta ou indireta com a história que segue na terceira parte deste artigo.
O que pretendemos nesse momento é compreender o que foi propriamente a “Guerrilha de Catolé”. Aqui ficamos com as palavras de um dos participantes mais ativos nos acontecimentos. Nesse caso ele atribui o nome de “Guerrilha de Capim-Açu”, nome da serra que serviu como espaço geográfico para os treinamentos:

A guerrilha de Capim-Açu, teve início com uma primeira subida a serra, em que participaram um pessoal mais intelectualizado, Whasingnton líder estudantil ligado ao PCBR um pessoal de Campina da AP, Expedito Figueiredo presidente do Centro Estudantil Catoleense, Pererinha do Banco do Brasil, José Soares e José Cidalino de Almeida estudantes. Houve debates sobre a conjuntura nacional e internacional e a possibilidade de início de um foco guerrilheiro. A segunda subida já foi mais completa e organizada dentro das técnicas da guerrilha rural, nossos equipamentos já indicavam uma preparação para combates com mochilas facões cordas redes coturnos e botas. (...) livros de Chê Guevara, GUERRA de GUERRILHAS, REVOLUÇÃO na REVOLUÇÃO de Carlos Debray, o LIVRO VERMELHO de MAO, um manual de contra guerrilha do exército e tudo que sabíamos sobre Canudos, Zumbi, Lampião, Princesa todo conhecimento sobre guerra de resistência da Revolução chinesa Russa, Guerra do Vietnã. (Ubiratan, entrevista escrita, fevereiro de 2012)

Escolheram a Serra do Capim-Açu, nas imediações de Catolé do Rocha, não por acreditarem que nela era possível fazer movimentações militares, mas por estar mais próxima da cidade e por ser suficientemente grande para realização de trilhas, subida em pedras, montagem de acampamento e outros treinamentos. Imaginavam que a serra era isolada das demais, o que facilitaria o cerco e dificultaria ações de fuga durante os futuros combates.
Para os pais, amigos e vizinhos, diziam que estavam indo caçar. Alguém chegou a “pensar alto” que eles eram “os escoteiros”.
Além dos livros e do conhecimento, tinham como armas: uma submetralhadora cal. 38 de fabricação caseira com pente, mas que dava apenas um tiro e depois tinha que ser rearmada; um mosquete cal. 38 fabricado a partir de um mosquetão por um armeiro “nas margens do Rio Piranhas”; um histórico “Rifle Papo Amarelo do meu avô que pertenceu ao meu bisavô trazido do acre e que foi usado na guerra do Acre sob o comando de Plácido de Castro” (Ubiratan, fev/2012); uma pistola Luger 7mm sem munição; dois revolveres 38; uma espingarda de cartucho; e uma “soca-soca”. A maior parte foi conseguida entre os bens familiares.
Algumas dessas armas resistiram ao tempo e ainda hoje existem, como a pistola Luger, mas não tivemos a possibilidade de ver e realizar uma fotografia pessoalmente. O único material de época que encontramos foi o desenho abaixo (feito possivelmente em 1968): um projeto para fabricação de submetralhadora. Pelo que sabemos até agora, ela foi construída, mas tinha um problema na alimentação e, após um disparo, engasgava e tinha que ser novamente armada. 



 
Imagem 07 –Desenho para fabricação caseira de um submetralha (1968)



Quanto ao grupo dos envolvidos, ele era “(...) bastante heterogêneo, constituído, em sua grande maioria de jovens menores de 18 anos, sem nenhuma experiência política, com pouca formação política. (...) Ari, juntamente com Ubiratan, começaram a organização da militância em torno da perspectiva revolucionária.” (José Soares)
Alguns nomes podem não constar a seguir, mas entre os que participaram dos treinamentos estão: Ariosvaldo da Silva Diniz, os irmãos Francisco Alves Dantas e Flavio Alves Dantas, os irmãos Ubiratan Cortez Costa, Irapuan Cortez Costa, Ubiraci Cortez Costa, Jose Soares Dantas, Carlos Ribeiro de Sá, Rogério Ribeiro de Sá, Manoel  Pedro e irmão, Ronaldo de Jeová, Orinaldo, Luiz Gonzaga, Gildásio de Rui, Santino Rocha, João Salustiano e Noel Veras.
Parece que os jovens catoleenses estavam tão instigados com a ideia de revolução e tão dispostos a pegar em armas por conta disso que ironicamente chegou a surgir uma dissidência formando um novo grupo de guerrilheiros.

(...) depois do exercício da serra, do primeiro treino nas férias de julho de 69 voltamos à capital, dando continuidade aos estudos e a resistência. Em Catolé havíamos sentido uma aproximação de Zezito, Jose Otavio de Vasconcelos filho de Jose Sérgio o “coronel” que vinha do movimento estudantil do Rio Grande do Norte. Achávamos que era um “infiltrado” da oligarquia local mas suas atitudes e coerência  traduzia um honesto interesse pela causa revolucionária mudou essa opinião, então no vazio criado pela nossa ausência, ele junto com Cacheado (Francisco Alves Dantas) e Zeínha (Rogério Ribeiro de Sá) se organizaram e fundaram uma dissidência denominada MR-8 ou  MR-3, morte de Chê ou Ho-Chi-Min e começaram juntando algumas armas, expropriaram o mimíografo do Colégio Estadual, feita antes de uma visita do Governador João Agripino, acelerou uma tomada de posição dos orgãos de segurança uma máquina de descrever da Escola Agrícola, isso no intervalo das férias de julho e o mês de outubro quando fomos presos. (Ubiratan, entrevista por escrito, fevereiro de 2012)

Outras fontes apontam a formação desse “segundo grupo guerrilheiro na mesma cidade e suas ações”, como sendo provavelmente o fator que acelerou o início da repressão contra as movimentações que estavam ocorrendo. Além da expropriação do mimeógrafo ocorrida entes da visita a Catolé do Rocha do então governador do estado em 1969, esse grupo chegou a tramar um plano para matar o delegado da cidade, mas não executaram tal ação.
Possivelmente ao ter conhecimento com maiores detalhes sobre o que ocorria em Catolé do Rocha, e possivelmente tendo recebido uma ordem superior, o secretário de segurança pública do Estado da Paraíba mandou prender os envolvidos.

As prisões aconteceram na cidade quase todas ao mesmo tempo, com exceção de Ariosvaldo da Silva Diniz que, segundo Ubiratan, foi preso no Colégio Liceu, em João Pessoa. Edmilson foi preso em outra circunstância, enquanto distribuía panfletos em João Pessoa.
Acima, na IMAGEM 06, podemos ver a Antiga Cadeia Pública de Catolé do Rocha, com inscrição “Onde fomos prêsos em 22/10/69”.
Parece que os menores de idade permaneceram em Catolé, em prisão domiciliar (não sabemos se a decisão foi judicial ou prática), enquanto que os maiores de idade seguiram para João Pessoa.
Talvez os primeiros que tenham sido levados de Catolé foram Ubiratan e Neto de Boca Rica (este foi presidente do Centro Estudantil). Foram levados para Patos e de lá agentes do DOPS os levaram para a capital. Ficaram por 15 dias incomunicáveis; passaram pela delegacia da polícia federal e pelo quartel da polícia. Aí ficaram por alguns meses até julgamento.
       Através de dois documentos oficiais da ditadura (Certidão emitida pela Auditoria da 7ᵃ Circunscrição Judiciária Militar em Recife/PE, 19 de julho de 1971, e Declaração de Soltura da Penitenciária Modelo de João Pessoa/PB, 29 de outubro de 1970), ficamos sabendo um pouco da história processual de Ubiratan Cortez Costa, depois de ter sido preso:

* em 12 de janeiro de 1970 foi denunciado pelo Ministério Público Militar, com base no decreto-lei 510/69 que seguiu o AI-5 (Ato Institucional n° 5), sendo acusado pelos: “Art. 33 – Incitar: I – à guerra ou à subversão da ordem político-social; II – à desobediência coletiva às leis; (...) IV – à luta pela violência entre as classes sociais; (...) Pena: Detenção, de 1 a 3 anos.” e “Art. 40 – Importar, fabricar, ter em depósito ou sob sua guarda, comprar, vender, doar, ou ceder, transportar ou trazer consigo armas de fogo ou engenhos privativos das Fôrças Armadas, ou quaisquer instrumentos de destruição ou terror. Pena: Reclusão, de 1 a 3 anos";

* foi processado, julgado e condenado pelo Conselho Permanente de Justiça do Exército em sessão realizada em 11 de maio de 1970, sendo condenado a pena de um (01) ano de detenção;

* a defesa recorreu ao Superior Tribunal Militar na data de 01 de junho de 1970;

* Ubiratan Cortez Costa foi solto da Penitenciária Modelo em João Pessoa/PB no dia 29 de outubro de 1970, por cumprimento de pena;

* depois de cumprida a pena e da soltura, o Superior Tribunal Militar informa em comunicado oficial (datado de 17-05-1971) que foi discutido e resolvido o caso, sendo o réu obsorvido de apenas uma das acusações, restando a acusação referente a fabricação, porte e transporte de armas.

     Poderíamos continuar com essa mesma linha investigativa. Falar o que aconteceu com os jovens catoleenses na prisão, os diferentes tipos e níveis de tortura que passaram. Falar dos anos seguintes a saída da prisão, o engajamento deles no movimento hippie, entre outras histórias. Entretanto, para não nos alongarmos em um texto já longo, a partir de agora iremos trilhar os caminhos da nossa outra história.

     Em outubro de 1969 é divulgada uma notícia que agitou Catolé do Rocha: a morte de um estudante por afogamento, tendo seu corpo sido encontrado no açude Olho D’água. Depois confirmaram a identidade do falecido, e este era João Roberto.
   Estudando e militando em João Pessoa, João Roberto se tornou uma grande liderança do movimento estudantil paraibano. Vinha sendo perseguido pela ditadura militar desde a primeira vez que foi preso e fichado pelos órgãos da repressão, no mais que conhecido Congresso da UNE em Ibiúna/SP (1968).    
   Já vimos que a “Guerrilha de Catolé” foi desbaratada ainda na fase muito inicial, quando alguns envolvidos com o movimento foram presos possivelmente em 22 de outubro de 1969.
    Por sua vez, João Roberto “apareceu” morto em 10 de outubro de 1969.

Continua.

Nenhum comentário:

Postar um comentário