sábado, 24 de março de 2012

sexta-feira, 23 de março de 2012


Memorial do Guerrilheiro Glênio Sá – Cidadão Natalense - VI


--- Walter Medeiros
Glênio Sá era o dirigente maior do Partido no Rio Grande do Norte, e considerado um dos membros do partido mais preparados em todo o Brasil. Este fato era também do conhecimento de lideranças dos partidos convencionais, que demonstravam por ele um grande respeito e admiração. O ingresso de novos militantes, vindos do Movimento Estudantil e de movimentos sociais em bairros, fazia o crescimento da organização, ao ponto de decidirem alugar uma ampla sala que serviria de sede, em um prédio situado nas proximidades da casa de Glênio. Ali passaram a promover reuniões com o fim de preparar melhor as atividades.
Em meio às articulações políticas que fazia, o PC do B sentia a necessidade de ocupar espaços nas eleições. Foi assim que em 1984 resolveu participar da campanha apoiando a candidatura do então deputado Garibaldi Filho (PMDB) para prefeito da Capital. Era a primeira eleição direta para prefeito desde o início da ditadura. Até então, os prefeitos das capitais eram nomeados pelos governadores dos estados. O partido participou da campanha, devido a uma aproximação promovida por amigos, que tinham relacionamento profissional com a família do candidato. Garibaldi foi eleito.
Na campanha seguinte, o Partido decidiu lançar Glênio como candidato a Deputado Estadual, pelo PMDB. Era a seqüência de atividades que haviam-se iniciado com a realização de um considerável ato público no dia 11 de abril de 1985, no Teatro do bairro, pela Comissão pela legalidade do PC do B. O slogan divulgado na ocasião era: “O direito à liberdade não se mendiga, se conquista”. Em campanha ele sofreu um acidente de automóvel que o deixou imobilizado por várias semanas e sem mais condições de disputa naquele pleito.
Até 1985, aquelas atividades partidárias eram consideradas clandestinas. O envolvimento com as atividades socialistas faziam Glênio visado e prejudicavam qualquer tentativa de exercer atividade profissional regular, embora tenha tido por alguns meses um emprego na empresa de informática Sistema. Ele foi, entre 1984 e 1990, candidato sucessivamente a vereador, deputado estadual e senador, representando frentes de esquerda, o que somou experiências para o Partido obter mais adiante bons resultados eleitorais.
Em julho de 1990, uma notícia da televisão chocou a todos. Um acidente de automóvel tirou a vida de Glênio e do seu companheiro de viagem Alírio Guerra. Eles passavam pelo município de Jaçanã, quando o carro em que viajavam foi colidido de frente por outro que trafegava em sentido contrário cheio de pessoas embriagadas. A movimentação foi imensa, desde a chegada da notícia, o velório e o enterro, ao som da música “Canção da América”. E a imprensa destacou os dois, dando-lhes o título de “Caminhantes dos Sonhos”.
Na despedida os familiares e amigos destacavam que ficava a lembrança inapagável da sua presença física, que transmitia tanto amor, confiança, certeza, força, lealdade, dignidade, simplicidade, justiça, ânimo e pureza. Além de alistá-los entre os “imprescindíveis”.
Glênio morreu sem receber as reparações devidas pelo Estado, que fez da sua vida um período de desassossego e mazelas. Por causa das torturas sofridas nos cárceres da ditadura militar, vivia sobressaltado e demonstrava impaciência e incômodo, resultado do período em que teve de ficar confinado em ambientes impróprios para a permanência de qualquer ser humano.
Nesta sexta-feira, 23 de março de 2012, Glênio Sá recebe – in memorian – o honroso Título de Cidadão Natalense. Na sua simplicidade gigante, imagino seu discreto sorriso, ao tomar conhecimento da honraria a ele destinada por esta cidade, onde viveu tão intensamente sua vida, ceifada ainda na mocidade dos seus 40 anos. E diria mais uma vez frase que ressoou anos seguidos em seus lábios, nos dias, noites e madrugadas de militância: “Um por todos, todos por um!”.
*Jornalista

sexta-feira, 23 de março de 2012

Tribuna do Norte.

ARTIGO.

 

Homenagem e solidariedade

Publicação: 21 de Março de 2012 às 00:00

Ticiano Duarte - jornalista

Sábado passado, dia 17, estava em Recife quando recebi a notícia pelo telefone. Do outro lado da linha era Fernando Paiva anunciando a morte de Ernani Silveira. Estava impossibilitado de comparecer às últimas homenagens ao velho amigo, companheiro de trabalho na prefeitura de Natal, sob o comando de Djalma Maranhão, onde o conheci mais de perto e depois na maçonaria, como venerável da Loja "Bartolomeu Fagundes" e Grão-Mestre do Grande Oriente Independente do Estado do Rio Grande do Norte (GOIERN).

À frente da Prefeitura de Natal, no tumultuado processo de posse, como vice-prefeito, após a prisão e deposição do prefeito Agnelo Alves, deu prova cabal de sua honorabilidade, de correção, de conduta inatacável como gestor, no que diz respeito aos negócios da administração pública. Como desportista toda cidade aplaudiu a aplaude sua ação e sua obra de dirigente do ABC e porque não dizer em favor das nossas Federações, de futebol, de profissionais e de atletas amadores.

Ernani Silveira ex-seminarista, músico, maestro do coral da igreja Bom Jesus das Dores, nasceu em Macau, na cidade que o poeta Gilberto Avelino dizia que adormecia sob o vento leste, sua "angra solitária" que "Entre ferrugens e sombras descansa âncoras, e navegam/Fantasmas de barcos cinzentos". Ele, sobrinho do santo monsenhor Honório, era marcado pelo mesmo sentimento do poeta, que a cidade conhecera ainda menino: Volto/Ao meu chão de sal./Sempre volto/Ele o agasalha/Sara/encanta/embala/E nutre-me/com a mesma seiva/do leite materno".

Há um episódio na maçonaria em que ele é personagem, que registro, para exaltar sua lealdade e dignidade. Um ex-dirigente da sua Potência Maçônica, num momento de fraqueza ou de ambição pessoal, deixara a casa paterna, por assim dizer, e se fora para outras bandas levando algumas Lojas num gesto inopinado, com o objetivo de enfraquecer o GOIERN, instituição que ele (Ernani) ocupava a vice-presidência, como Grão-Mestre Adjunto. Sua reação foi de indignação e lealdade. Imediatamente assumiu o comando da Potência e deu rumo e caminho ao Grande Oriente Independente do Estado do Rio Grande do Norte, hoje incontestavelmente, vivendo sua fase áurea, de trabalho, de respeitabilidade, no cenário nacional, com três dos seus filiados alçados à Presidência da Confederação Maçônica do Brasil (COMAB).

Ele sempre buscou unir os homens, como na lição de João Evangelista, que está também no lema da bandeira de nossa COMAB: Ut Omnes Sint! - Que todos sejam um só! O amor fraternal, que segundo o apóstolo Paulo, supera a Fé e a Esperança, juntando-se às duas, com as quais se formam às três virtudes principais.

Antônio do Carmo Ferreira, meu querido Grão-Mestre de Pernambuco, em pronunciamento recente enfatizou que "Não há passagem sequer nos ensinamentos da Maçonaria que não seja de exaltação ao amor". E cita uma declaração de Frei Caneca, em sua X Carta a Damão, que assinava como Pítia... "Os estatutos maçônicos são extratos dos Evangelhos". E o Grão-Mestre pernambucano conclui: "E que são os Evangelhos, senão uma história de Amor, não a uma porção, mas a toda a humanidade?".

Nesta hora quero prestar minha solidariedade ao amigo Onofre Junior, que agiu em legítima defesa e de sua mulher Sílvia, ameaçados pela arma do bandido posta em suas cabeças. Não faz muito que meus netinhos passaram por maus momentos, no calçadão da praia dos Artistas, numa tarde de sol. Os bandidos de armas em punho ameaçavam atirar se não entregassem os seus pertences. Um deles gritava para o outro: "Atira! Atira de todo o jeito... Atira...

O braço de Deus evitou uma tragédia. Os marginais continuam agindo impunemente. Onofre Junior é um médico que salvou muitas vidas, professor da nossa Faculdade de Medicina. Um homem correto e íntegro que orgulha sua geração e seus amigos.

quinta-feira, 22 de março de 2012

quarta-feira, 21 de março de 2012


Memorial do Guerrilheiro Glênio Sá – Cidadão Natalense – IV

--- Walter Medeiros*
A têmpera revolucionária de Glênio fazia-o buscar incessantemente a reimplantação do Partido na região, através dos contatos possíveis. Noites, madrugadas e dias afora ele tentava reconstituir os documentos, entre eles os Estatutos, ao mesmo tempo em que procurava participar dos raros eventos democráticos que eram programados. Corajosamente, fundou, juntamente com outros militantes políticos, no início de 1980, no bairro de Igapó, uma Sociedade de Defesa dos Direitos Humanos - SDDH.
A SDDH foi a forma encontrada para aglutinar as pessoas e organizar as reivindicações populares, que eram muitas. Mesmo localizada em Igapó, a entidade tinha um trabalho abrangente e seus representantes tornavam-se propagadores das idéias libertárias que tomavam corpo a cada dia. Além do que se tratava de uma associação criada e registrada dentro de todas as exigências da legislação civil.
Tratava-se de uma entidade democrática e comprometida com a luta dos setores populares, que reunia um grupo considerável de pessoas e discutia os assuntos políticos do momento. A primeira grande luta da sociedade foi contra a poluição provocada por uma fábrica de diatomita – Diafil - que afetava os moradores do bairro. Manifestações, atos e ações de protesto contavam com a participação de operários, donas de casa, clubes de mães e de jovens, estudantes e profissionais liberais.
Daquele movimento surgiu a necessidade de reproduzir documentos, algo proibitivo à época; as gráficas eram ambientes muito visados pela repressão. Optaram, então, por fazer um jornalzinho mimeografado, num mimeógrafo a álcool que adquiriram disfarçadamente na Loja Sosic e que era capaz de fazer 50 cópias, em tinta azul, datilografando folhas de stêncil.
Havia uma movimentação revolucionária, onde as exigências por democracia aumentavam e o povo clamava por uma Constituinte que substituísse o autoritarismo da Emenda Constitucional Nº 1, chamada de Constituição de 1967. Era conseqüência da experiência dos anti-candidatos Ulisses Guimarães e Barbosa Lima Sobrinho, para Presidente e Vice-Presidente da República e outros momentos de luta nos meios partidários e estudantis, uma vez que os sindicatos quase não participavam de atividades que entrassem em confronto com a ditadura.
Algum contato feito pelos partidos clandestinos eram avaliados muito cuidadosamente, pois podiam tratar-se de ciladas da repressão. Tempo em que até as informações tinham que ser decoradas e não anotadas, para não deixar pistas. Um dos amigos comentava sobre a dificuldade que teve para transmitir uma mensagem a um dos seus camaradas, um endereço em Paris, que decorou completamente. E o camarada que recebeu a informação também decorou. Ninguém podia se arriscar.
Depois de retomado o contato com o Partido, periodicamente recebiam a visita de membros do Comitê Central, que traziam documentos e informações, além de realizar reuniões completas para atualizar a todos. Eram antigos camaradas, que traziam grandes experiências da luta revolucionária e novos militantes, que estavam exercendo funções importantes na política nacional ou regional. As reuniões eram sempre um período de total tensão. O aparelho tinha que ser mantido na mais perfeita camuflagem e o sigilo sobre a presença do representante nacional era total. Nada podia ser revelado nem mesmo aos familiares que não estivessem envolvidos com o Partido, pois tratava-se de questão de vida ou morte.
*Jornalista
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O legado de Manxa.

O legado de Manxa
Sem grandes alardes, um dos mais importantes escultores e entalhadores do Rio Grande do Norte morreu na noite desta segunda-feira (19), em Currais Novos. Discreto e genial, Ziltamir "Manxa" Soares deixa legado artístico imortalizado por obras grandiosas como o painel no prédio da Reitoria da UFRN e os entalhes na agência centro do Banco do Brasil em Natal. Aos 63 anos, Manxa estava internado havia cerca de uma semana por causa de problemas renais e faleceu devido ao agravamento de seu estado de saúde. O corpo do escultor foi sepultado ontem (20) em São Vicente, distante 190km da capital potiguar, município onde nasceu e morava com a esposa. [Saiba mais sobre Manxa, nessa matéria da Tribuna do Norte]
- Outro painel muito famoso de Manxa foi o do Edifício Rio-Mar, condomínio residencial localizado na Avenida Deodoro da Fonseca, na ladeira da então Rádio Poti de Natal.


quarta-feira, 21 de março de 2012

Memorial do Guerrilheiro Glênio Sá – Cidadão Natalense – III

--- Walter Medeiros*
Sempre que falava sobre sua vida de lutas, Glênio Sá não podia evitar que transparecesse forte emoção, pois era como que reviver cada momento dramático da sua vida. Numa das nossas conversas dos anos 80, ele relatou que em 1970 partiu para São Paulo e depois se engajou no então clandestino Partido Comunista do Brasil – PC do B, indo atuar no sul do Estado do Pará. Participou da Guerrilha do Araguaia, onde foi recebido por João Amazonas e dedicou-se ao trabalho no campo. Num momento de infortúnio, ele buscava tratamento para malária, mas foi delatado e findou preso pelo Exército, que ocupava vastas áreas da região. Passou, então, um novo período de prisão, no qual esteve em vários quartéis.
“Fui torturado e submetido a diversos outros atos desumanos, entre eles a permanência em cela solitária, na qual sequer podia ficar em pé”, revelava. Os companheiros ouviam aquela surpreendente narrativa sem pestanejar e cheios de curiosidade pelas informações. Até porque nenhuma notícia sobre a Guerrilha do Araguaia havia chegado a público pela imprensa brasileira; tinham conhecimento apenas de um registro numa nota do jornal “O Estado de S. Paulo” sobre um movimento no Sul do Pará. Qualquer informação a respeito do assunto era censurada. Glênio situava no tempo cada momento, e contou como sua família tomou conhecimento do seu estado, já que pensava que ele estava estudando em São Paulo, mesmo com a ausência de notícias. Jamais imaginava o que havia ocorrido e estava ocorrendo.
Em 16 de junho de 1973 uma jovem chamada Dalvina, residente no interior de Goiás, escreveu uma carta dirigida à Farmácia Minan, para a sua Família, no município potiguar de Caraúbas. A carta era datada de 16/06/73. Dizia mais ou menos assim: “O motivo desta é comunicar-lhe que seu filho se encontra preso no setor dos militares no Pique (PIC) em Brasília. Querendo maiores informações, procure-me. Estou comunicando ao senhor pelo fato de meu pai estar preso junto a ele. Então ele pediu-nos que escrevesse avisando a vocês. Se vocês receberem esta carta responda-me. Seu filho Glênio pede que vocês compareçam em breve”. Ela pedia que acusassem o recebimento, porque naquela época ninguém tinha certeza de que a correspondência chegava.
Glênio contava que algumas providências foram adotadas pela família, que conseguiu localizá-lo em seu cárcere, e com quem manteve correspondência enquanto tomava as medidas jurídicas cabíveis. A localização do preso se deu graças a um pedido do Senador Dinarte Mariz. Daquela correspondência Glênio lembrava bem uma carta da sua mãe, Dona Mimosa, enviada de Fortaleza, em 24.08.74, a qual foi censurada. E prometeu mostrar depois o documento, com o carimbo da censura. Vivenciadas todas estas atribulações, em 10 de setembro de 1974 Glênio voltou para Fortaleza depois de identificado pela advogada Eva Ribeiro Monteiro, que conduzia documento lacônico registrando sua prisão:
“MINISTÉRIO DO EXÉRCITO - COMANDO DO I EXÉRCITO – CHEFIA DE POLÍCIA - DECLARAÇÃO - Declaro que o portador da presente, GLÊNIO FERNANDES DE SÁ, esteve à disposição do I Exército, achando-se atualmente liberado, podendo deslocar-se para FORTALEZA, sua cidade natal. Rio, GB, 05 de Setembro de 1974 (a.) MILTON BARBOSA DOS SANTOS – Ten Cel - CHEFE DE POLÍCIA DO I EXÉRCITO”.
Glênio voltou ao convívio da família em setembro de 1974, mudando-se em seguida para Natal, onde prestou vestibular e começou a cursar Geologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN. Retomou contato com o movimento estudantil, onde foi dirigente do Centro Acadêmico de Ciências Exatas, e liderou a reestruturação do Partido Comunista do Brasil. Era uma pessoa extremamente disciplinada  e organizada, com a agenda sempre preenchida por eventos, estudos e outros afazeres. Acima de tudo, entretanto, era clara a dedicação 24 horas de cada dia à militância pólítica.
*Jornalista
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Memorial do Guerrilheiro Glênio Sá – Cidadão Natalense - II

--- Walter Medeiros*
Uma das fortes lembranças que guardo de Glênio Sá é de uma semana que passamos com as famílias em Pititinga e, na beira da praia, passos lentos, ele disse que uma barreira roxa do caminho trazia-lhe de volta uma lembrança muito emocionante da juventude. E começou a cantar uma música de Gilberto Gil que marcou seu tempo de secundarista em Fortaleza. - "O dinheiro que eu lhe dei, p'ro tamborim..." - Você não conhece essa música? – perguntou-me. - Conheço. Um sambinha gostoso. Mas nunca ouvi a letra. - É assim... Tentou rememorar, mas não conseguiu completamente.
Outra forte lembrança vem de uma noite de 1976, na qual, por acaso, conheci o amigo, futuro cunhado da minha mulher e vizinho. Foi no Braseiro, um bar da orla marítima de Natal, um dos pontos preferidos pelos estudantes universitários para conversar sobre política, mesmo cientes de que eram sempre observados por policiais disfarçados. Naquela noite, como que num desabafo incontido, o ex-guerrilheiro contou parte da sua história a três companheiros. Desde as lutas como secundarista, em Fortaleza, até a vida clandestina no Norte, a peregrinação pelas prisões e a libertação. Ele trabalhava pela implantação do Partido, cujos documentos reconstituía através de citações ouvidas nas transmissões da Rádio Tirana, da Albânia ou de algum registro em jornais alternativos.
Minha chegada à Universidade se deu em 1974. Fazia o curso de Direito, que dividia um bloco com o Curso de Serviço Social. Aos poucos os alunos reestruturavam suas entidades dentro do que permitia o Decreto 477, uma norma que proibia estudante de se manifestar e fazer política partidária. O campus era coalhado de policiais disfarçados nas salas de aula e corredores. Qualquer assunto político, para eles, comprometia a segurança nacional e era motivo para o estudante ser chamado a depor na Assessoria de Segurança e Informação - ASI.
Era, porém intrínseco o sentimento de revolta pela falta de liberdade de expressão no país, onde havia também uma Lei de Segurança Nacional que proibia a imprensa de divulgar informações que não passassem pela censura. Alguns jornais tentavam levar uma mensagem democrática, mas eram perseguidos e empastelados freqüentemente. Os estudantes sentiam prazer, apesar do medo, em ajudar jornais chamados de alternativos, como o Movimento, Em Tempo e EX, que noticiavam fatos não divulgados pelos jornais convencionais.
Reunidos num aparelho que funcionava no quarto dos fundos de uma casa, Glênio, eu e Graça sintonizávamos a Rádio Tirana, da Albânia. Em meio à audição, o guerrilheiro lembrou dos tempos em que não sabia ainda qual seria seu destino. E começou, emocionado, a falar sobre suas lembranças. Recordou que em maio de 1969 era estudante e foi preso no Crato, porque estava tentando junto aos meus colegas rearticular a União de Estudantes. A prisão foi divulgada no Correio do Ceará, quando ele foi recambiado para Fortaleza. O jornal dizia que ele tentava fazer uma rearticulação subversiva. Dizia também que tinha participado de uma reunião secreta, na qual fizera severas críticas ao regime e ao mesmo tempo conclamara a participação de uma representação da região caririense em uma reunião grande que seria realizada em Fortaleza, em fins daquele mês.
A primeira prisão tinha sido tão marcante, que ele lembrava mais detalhes da notícia, a qual chamava a sua participação de manobras. A notícia dizia ainda que ele tinha distribuído boletins considerados subversivos pelas autoridades. Ele esteve preso na Delegacia Especial daquela cidade, do Crato – relembrava. Lembrava também que somente no outro dia prestou depoimento, sendo ouvido oficialmente pela Polícia Federal. Eles achavam que o seu depoimento poderia determinar a efetivação de novas prisões, inclusive dos demais que participaram do encontro secreto. Glênio ficou recolhido a um dos xadrezes da Polícia Militar, em Fortaleza, e no dia seguinte saiu outra notícia no jornal. Desde 1968 ele participava ativamente do movimento estudantil secundarista. Foi preso outra vez, depois de liberado, em 1969.
*Jornalista

terça-feira, 20 de março de 2012

Os tigres de papel.


COMBATENDO TIGRES DE PAPEL



Públio José – jornalista


                            O ser humano tem a tendência natural de ampliar em demasia seus problemas, suas preocupações. Apesar de sermos dotados de uma capacidade extraordinária de criar soluções, temos o hábito de enxergar nossos conflitos numa dimensão muito superior à dimensão real em que devem ser focalizados. Exemplo? A mulher diante de uma barata. Se um extraterrestre chegasse numa casa qualquer e visse primeiramente a mulher, seu porte, sua graça, sua valentia (muitas dão ordem até nos maridos) e depois tivesse contato com uma barata (sim, aquele bicho fedorento, desprezível, horroroso), em quem apostaria? Na mulher, não é verdade? E o que vemos, seja em Natal, Patu, Nova Iorque ou Honolulu? Mulheres intelectualmente bem dotadas, mulheres empresárias, mulheres atletas, médicas, professoras, aboletadas em cadeiras, com medo de uma diminuta barata. Há exceções, é claro.....
                                 Diante dos conflitos que a vida nos oferece tendemos naturalmente a criar tigres de papel. Fatos, episódios, pessoas, tudo nós superestimamos em detrimento da real dimensão que de fato esses elementos devem ter. Basta você assistir a uma partida de futebol da seleção brasileira. Galvão Bueno vai logo comentando “esse camisa 10 da Inglaterra é muito perigoso”. Termina o jogo, o Brasil vence e fica demonstrado que o que parecia ser não era. É claro que, de vez em quando, ocorre uma zebra. Mas a realidade é que os tigres de papel estão sempre à nossa frente. O vestibular, o teste para o emprego, a concorrência da vida em geral, os conflitos... Nossos adversários assumem proporções enormes diante de nós, enquanto a nossa capacidade de luta, de encontrar soluções permanece muitas vezes embutida num lugarzinho escondido do nosso cérebro.
                                  Na vida o combate é uma constante. O nascer é um ato de combate entre a perspectiva de vida e a realidade da morte. Sair do aconchego do ventre materno para o enfrentamento da pedreira da vida configura-se um desafio e tanto. Enfim, para onde você se volta, a necessidade do combater estará sempre adiante, logo ali. O aprender, o se relacionar, o se mover, tudo se constitui em uma operação constante a ser desafiada e vencida – diariamente. Mas, além dessas dificuldades naturais, queremos aqui ressaltar mais, nos fixar mais na figura do tigre de papel. Aquela dificuldade, aquele adversário que nós fazemos bem maior do que realmente são. Hoje em dia, com as vaidades e os egos atingindo proporções avantajadas, com o individualismo e o egoísmo se fazendo a cada dia mais forte na vida das pessoas, os tigres de papel pululam em todo lugar.
                                   São pessoas que, movidas por sentimentos e instintos altamente centrados em si mesmo, levam a vida sem considerar o espaço e os direitos do próximo. Pensam que são espertas, inteligentes, sabidas, competentes. Na verdade, são pobres tigres de papel, desprovidas do conteúdo interior que transforma fracos em fortes, pequenos em grandes, derrotados em vencedores. Hitler, por exemplo, é um digno representante desse rebanho. Enquanto teve um forte exército à sua disposição vociferava feito leão para seus inimigos. Desprovido da espada, quedou-se feito gelo ao sol, entregando-se à morte através de um ato covarde de suicídio. Pilatos diante de Jesus, tendo o poderio romano à mão, bradou ao Mestre “fala que eu posso te salvar”. Dos dois, sabe-se que Jesus ressuscitou, enquanto Pilatos não suportou atrelar aos seus dias o peso da morte de um justo. Suicidou-se também meses depois.
                                   Está na hora de você começar a identificar e combater com destemor os tigres de papel que a vida coloca à sua frente. Na África, conta-se que a gazela está na mata fechada onde o leão não pode lhe devorar. Aí o leão ruge, a gazela se assusta e, inocentemente, vai para o descampado – onde é caçada facilmente pelo leão. Tem muita gente agindo como a gazela, se assustando a toa, perdendo a capacidade de raciocinar, de analisar as condições reais da luta, a força do adversário, a dimensão da dificuldade e desistindo de lutar. Ou lutando sem a convicção necessária para a conquista da vitória. Lembro-me agora de Davi diante de Golias. Preferiu escolher sua própria arma, ao invés de ir na conversa do gigante. Uma simples pedra entre os olhos pôs fim à vida de um tigre que rugia como tigre, mas que na verdade era recoberto de papel. Aliás, você já sabe onde encontrar a sua pedrinha?         




Lembrando Glênio Sá - I

Memorial do Guerrilheiro Glênio Sá - Cidadão Natalense

--- Walter Medeiros*
Último dia do ano de 1999. Uma jovem repórter percorre os arredores da Torre de TV de Brasília. Olhar atento, ela observa cada pessoa, dos turistas aos hippyes, principalmente olhando para os seus braços esquerdos e mãos direitas. Procurava alguém que tivesse um cordão amarrado no braço esquerdo e uma Bíblia na mão direita. Aproximava-se da meia-noite. Em menos de uma hora chegaria o ano 2000, que tanto trabalho deu para entenderem tratar-se do último ano do Século XX e não o início do novo século. Ela procurava não dar na vista, mas olhava para todos que encontrava, preocupada em não deixar de enxergar ninguém. Se aquela pessoa que procurava estivesse no local ela não poderia deixar de localizá-la.
O frio era grande, mas ela era acostumada com aquelas temperaturas do cerrado e sempre saía de casa com o agasalho certo; não teria nenhum problema. Não tinha perigo de deixar de ver a pessoa que procurava, se ela estivesse no local, pois ela conhecia cada canto da torre. Estava acostumada a fazer reportagens e visitas ao local, às vezes até para almoçar no seu restaurante. Ou mesmo para levar amigos de outros estados a fazerem compras na tradicional feirinha do local. Havia uma ansiedade muito grande, pois o encontro com aquela pessoa poderia ser emocionante. Ela queria saber aonde e como teria sido a vida da outra pessoa nos últimos 26 anos.
A ansiedade aumentava na medida em que aproximava-se da meia-noite. Seria a passagem do ano e início do reveillon de Brasília. Através de um pequeno televisor a pilha, ela vira de relance festejos da chegada do ano em outras partes do mundo. Na solidão de sua missão jornalística, via a beleza dos fogos de artifício iluminando o céu da sua amada cidade. Correu do seu rosto uma lágrima. Era a emoção da chegada do ano 2000, a frustração por não ter encontrado a pessoa que esperava e o calor anônimo das pessoas que a cumprimentavam e desejavam “Feliz Ano Novo!” e “Feliz Ano 2000!”. Não encontrou o homem do cordão no braço e a Bíblia na mão. Mesmo assim aproveitou aquele ambiente que viu e juntou dados para uma matéria, na qual contaria o que tinha ido fazer na Torre de TV naquela hora e revelaria para seus leitores tudo que sabia a respeito do homem que fora esperar. 
A imprensa nacional atentou para o encontro marcado por Glênio Sá, ex-guerrilheiro do Araguaia, com um ex-companheiro de cela. Eles combinaram que passariam o réveillon juntos na Torre de TV de Brasília. Um jornal da cidade registrou a história em grande reportagem com a chamada: “Torre de TV: local em que dois ex-presos do regime militar marcaram um encontro 25 anos atrás para comemorar a liberdade”. Glênio sobreviveu ao regime militar, sem dedurar ninguém, mas não pôde contar ao amigo sobre a nova etapa da sua vida, quando reestruturou o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em Natal, casou-se, teve um casal de filhos, acreditava na revolução. Não conseguiu encontrar o amigo para falar de coisas boas. Seus contatos resumiram-se ao período da prisão, havia tantos anos.
Enquanto Glênio estava preso por motivos políticos, o outro fora parar no Pelotão de Investigações Criminais (PIC), no Setor Militar Urbano acusado de desviar armas do Exército. Era um recruta, preso num cela vizinha. Ninguém sabia o seu nome. Constava que era paranaense e fazia contato com o vizinho de cela, apavorado com os gritos vindos das sessões de tortura. A Torre de TV era a única vista externa que os dois tinham a partir da prisão. Eles subiam numa pia para contemplá-la, enquanto sonhavam com a liberdade.
A forma de se identificarem depois de tantos anos seria usar um cordão amarrado no braço esquerdo e conduzir uma Bíblia na mão direita. Mesmo Glênio tendo vivido fora de atividades religiosas, demonstrava grande respeito pelas Igrejas e o uso da Bíblia no encontro não seria totalmente despropositado, pois o seu amigo era evangélico.  Todos estavam atentos no dia. Mas Glênio não poderia estar lá. Seu amigo também não foi ao encontro. Talvez jamais saibamos porquê. A jornalista lançou um olhar no infinito, para onde mandava em pensamento suas homenagens a Glênio e dava por encerrada a busca pelo encontro que o tempo e a vida desfizeram.
*Jornalista.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Até governadores do PT cortam salários dos servidores.

Gasto com pessoal cresce e cria risco para governadores

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DE SÃO PAULO
Hoje na Folha Em um intervalo de apenas quatro semanas, dois governadores petistas anunciaram medidas para cortar despesas com a folha de salários dos servidores públicos.
A infomação está na reportagem de Gustavo Patu, publicada na Folha desta segunda-feira (a íntegra está disponível para assinantes do jornal e do UOL, empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha).
Primeiro, Marcelo Déda, de Sergipe, avisou a seu secretariado que será necessária neste ano uma economia equivalente a quase um quinto das receitas do Executivo.
No fim de fevereiro, Agnelo Queiroz, do Distrito Federal, apresentou um pacote que incluiu suspensão de reajustes salariais, redução do número de cargos de confiança e dos salários oferecidos aos seus ocupantes.
Não se trata de um surto de austeridade no partido mais identificado com os sindicatos do funcionalismo --nem tampouco a tendência está restrita a governos do PT. Estados são forçados a conter reajustes e reduzir cargos para cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Leia a reportagem completa na Folha desta segunda-feira que já está nas bancas.

Editoria de Arte/Folhapress

domingo, 18 de março de 2012

Tuberculose. Artigo de Paulo Tarcisio Neto.

Tuberculose

A tuberculose é uma doença infectocontagiosa provocada pelo
Mycobacterium tuberculosis ou bacilo de Koch, como é mais conhecido.
No passado, ser portador de tuberculose representava praticamente uma
sentença de morte. Não existia tratamento eficaz. Hoje em dia, no
entanto, a terapia contra a doença é eficaz e gratuita para todo
cidadão brasileiro.
Muita gente acredita que devido ao fato de ter tomado a vacina contra
a tuberculose deveria ser imune contra a patologia. Trata-se, pois, de
uma vacina especial. Chamada de Bacilo de Calmette Guérin, ou BCG, tal
vacina não nos protege contra a infecção do bacilo, mas sim contra as
apresentações graves da doença. Apesar de a tuberculose pulmonar ser
uma doença séria, muito pior é a tuberculose no sistema nervoso (ou
miningite tuberculosa), nos ossos e nos rins.
É clássico, quando se pensa em tuberculose, imaginar um paciente
tossindo sangue. Entretanto, essa já é uma fase bem mais avançada da
doença. Qualquer pessoa com tosse há mais de 3 semanas pode ser
portadora de tuberculose. Perda de peso e febre no final da tarde
também costumam acontecer. Toma-se em consideração, além do quadro
clínico, o chamado “exame de escarro” e o Rx de tórax para o
diagnóstico. O acompanhamento da resposta ao tratamento é feito com a
reavaliação desses três parâmetros, especialmente do exame de escarro.
Fato é que a tuberculose é uma patologia que em geral acomete pessoas
de baixa renda, com péssimas condições alimentares, alcoólatras e
pacientes imunodeprimidos, como os portadores da Síndrome da
Imunodeficiência Adquirida, ou AIDS. Claro que há as exceções à regra,
mas, de maneira geral, a presença da tuberculose como uma doença de
tão alta prevalência em nosso meio é um símbolo de que ainda estamos
muito longe de nos tornar um país de primeiro mundo.
O tratamento da tuberculose é gratuito, eficaz e acessível para todo
cidadão brasileiro na rede pública de saúde. Tem duração de 6 meses
nos casos sem complicação e deve ser realizado até o fim, mesmo que o
paciente já esteja “se sentindo bem”. Caso tenha tosse há mais de 21
dias, procure seu médico!

Paulo Tarcísio Neto
Medicina UFRN
paulo_tarcisio@hotmail.com