sábado, 21 de julho de 2012

Três candidatos a presidente no Instituto Histórico.

Carlos Roberto de Miranda Gomes, Marcos César Cavalcanti de Moraes e Severino Vicente são os candidatos a presidente do Instituto Histórico do RN. A eleição está prevista para novembro vindouro. O presidente Jurandir Navarro, 83, não quer se candidatar à reeleição, mas vai nomear um sócio para presidir a Comissão Eleitoral. Até agora, não apareceu nenhum candidato das hostes oposicionistas, isto é, de um daqueles que viviam baixando o pau na administração do IHGRN. Muitas críticas eram procedentes e, graças a elas, a administração está procurando concluir algumas ações.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Um Cardeal sem passado?

Carta O Berro..........................................................repassem

Manaus, Segunda-feira, 16 de julho de 2012



UM CARDEAL SEM PASSADO
José Ribamar Bessa Freire
15/07/2012 - Diário do Amazonas
O tratamento que a mídia deu à morte do cardeal dom Eugenio Sales, ocorrida na última segunda-feira, com direito à pomba branca no velório, me fez lembrar o filme alemão "Uma cidade sem passado", de 1990, dirigido por Michael Verhoven. Os dois casos são exemplos típicos de como o poder manipula as versões sobre a história, promove o esquecimento de fatos vergonhosos, inventa despudoradamente novas lembranças e usa a memória, assim construída, como um instrumento de controle e coerção.
O filme
Comecemos pelo filme, que se baseia em fatos históricos. Na década de 1980, o Ministério da Educação da Alemanha realiza um concurso de redação escolar, de âmbito nacional, cujo tema é "Minha cidade natal na época do III Reich". Milhares de estudantes se inscrevem, entre eles a jovem Sônia Rosenberger, que busca reconstituir a história de sua cidade, Pfilzing - como é denominada no filme - considerada até então baluarte da resistência antinazista.
Mas a estudante encontra oposição. As instituições locais de memória - o arquivo municipal, a biblioteca, a igreja e até mesmo o jornal Pfilzinger Morgen - fecham-lhe suas portas, apresentando desculpas esfarrapadas. Ninguém quer que uma "judia e comunista" futuque o passado. Sônia, porém, não desiste. Corre atrás. Busca os documentos orais. Entrevista pessoas próximas, familiares, vizinhos, que sobreviveram ao nazismo. As lembranças, contudo, são fragmentadas, descosturadas, não passam de fiapos sem sentido.
A jovem pesquisadora procura, então, as autoridades locais, que se recusam a falar e ainda consideram sua insistência como uma ameaça à manutenção da memória oficial, que é a garantia da ordem vigente. Por não ter acesso aos documentos, Sônia perde os prazos do concurso. Desconfiada, porém, de que debaixo daquele angu tinha caroço - perdão, de que sob aquele chucrute havia salsicha - resolve continuar pesquisando por conta própria, mesmo depois de formada, casada e com filhos, numa batalha desigual que durou alguns anos.
Hostilizada pelo poder civil e religioso, Sônia recorre ao Judiciário e entra com uma ação na qual reivindica o direito à informação. Ganha o processo e, finalmente, consegue ingressar nos arquivos. Foi aí, no meio da papelada, que ela descobriu, horrorizada, as razões da cortina de silêncio: sua cidade, longe de ter sido um bastião da resistência ao nazismo, havia sediado um campo de concentração. Lá, os nazistas prenderam, torturaram e mataram muita gente, com a cumplicidade ou a omissão de moradores, que tentaram, depois, apagar essa mancha vergonhosa da memória, forjando um passado que nunca existiu.
Os documentos registraram inclusive a prisão de um judeu, denunciado na época por dois padres, que no momento da pesquisa continuavam ainda vivos, vivíssimos, tentando impedir o acesso de Sônia aos registros. No entanto, o mais doloroso, era que aqueles que, ontem, haviam sido carrascos, cúmplices da opressão, posavam, hoje, como heróis da resistência e parceiros da liberdade. Quanto escárnio! Os safados haviam invertido os papéis. Por isso, ocultavam os documentos.
Deus tá vendo
E é aqui que entra a forma como a mídia cobriu a morte do cardeal dom Eugênio Sales, que comandou a Arquidiocese do Rio, com mão forte, ao longo de 30 anos (1971-2001), incluindo os anos de chumbo da ditadura militar. O que aconteceu nesse período? O Brasil já elegeu três presidentes que foram reprimidos pela ditadura, mas até hoje, não temos acesso aos principais documentos da repressão.
Se a Comissão Nacional da Verdade, instalada em maio último pela presidente Dilma Rousseff, pudesse criar, no campo da memória, algo similar à operação "Deus tá vendo", organizada pela Policia Civil do Rio Grande do Sul, talvez encontrássemos a resposta. Na tal operação, a Polícia prendeu na última quinta-feira quatro pastores evangélicos envolvidos em golpes na venda de automóveis. Seria o caso de perguntar: o que foi que Deus viu na época da ditadura militar?
Tem coisas que até Ele duvida. Tive a oportunidade de acompanhar a trajetória do cardeal Eugênio Sales, na qualidade de repórter da ASAPRESS, uma agência nacional de notícias arrendada pela CNBB em 1967. Também, cobri reuniões e assembleias da Conferência dos Bispos para os jornais do Rio - O Sol, O Paiz e Correio da Manhã, quando dom Eugênio era Arcebispo Primaz de Salvador. É a partir desse lugar que posso dar um modesto testemunho.
Os bispos que lutavam contra as arbitrariedades eram Helder Câmara, Waldir Calheiros, Cândido Padin, Paulo Evaristo Arns e alguns outros mais que foram vigiados e perseguidos. Mas não dom Eugênio, que jogava no time contrário. Um dos auxiliares de dom Helder, o padre Henrique, foi torturado até a morte em 1969, num crime que continua atravessado na garganta de todos nós e que esperamos seja esclarecido pela Comissão da Verdade. Padres e leigos foram presos e torturados, sem que escutássemos um pio de protesto de dom Eugênio, contrário à teologia da libertação e ao envolvimento da Igreja com os pobres.
O cardeal Eugenio Sales era um homem do poder, que amava a pompa e o rapapé, muito atuante no campo político. Foi ele um dos inspiradores das "candocas" - como Stanislaw Ponte Preta chamava as senhoras da CAMDE, a Campanha da Mulher pela Democracia. As "candocas" desenvolveram trabalhos sociais nas favelas exclusivamente com o objetivo de mobilizar setores pobres para seus objetivos golpistas. Foram elas, as "candocas", que organizaram manifestações de rua contra o governo democraticamente eleito de João Goulart, incluindo a famigerada "Marcha da família com Deus pela liberdade", que apoiou o golpe militar, com financiamento de multinacionais, o que foi muito bem documentado pelo cientista político René Dreifuss, em seu livro "1964: A Conquista do Estado" (Vozes, 1981). Ele teve acesso ao Caixa 2 do IPES/IBAD.
Nós, toda a torcida do Flamengo e Deus que estava vendo tudo, sabíamos que dom Eugênio era, com todo o respeito, o cardeal da ditadura. Se não sofro de amnésia - e não sofro de amnésia ou de qualquer doença neurodegenerativa - posso garantir que na época ele nem disfarçava, ao contrário manifestava publicamente orgulho do livre trânsito que tinha entre os militares e os poderosos.
- "Quem tem dúvidas...basta pesquisar os textos assinados por ele no JB e n'O Globo" - escreve a jornalista Hildegard Angel, que foi colunista dos dois jornais e avaliou assim a opção preferencial do cardeal:
- A Igreja Católica, no Rio, sob a égide de dom Eugenio Salles, foi cada vez mais se distanciando dos pobres e se aproximando, cultivando, cortejando as estruturas do poder. Isso não poderia acabar bem. Acabou no menor percentual de católicos no país: 45,8%...
Portões do Sumaré
Por isso, a jornalista estranhou - e nós também - a forma como o cardeal Eugenio Sales foi retratado no velório pelas autoridades. Ele foi apresentado como um combatente contra a ditadura, que abriu os portões da residência episcopal para abrigar os perseguidos políticos. O prefeito Eduardo Paes, em campanha eleitoral, declarou que o cardeal "defendeu a liberdade e os direitos individuais". O governador Sérgio Cabral e até o presidente do Senado, José Sarney, insistiram no mesmo tema, apresentando dom Eugênio como o campeão "do respeito às pessoas e aos direitos humanos".
Não foram só os políticos. O jornalista e acadêmico Luiz Paulo Horta escreveu que dom Eugênio chegou a abrigar no Rio "uma quantidade enorme de asilados políticos", calculada, por baixo, numa estimativa do Globo, em "mais de quatro mil pessoas perseguidas por regimes militares da América do Sul". Outro jornalista, José Casado, elevou o número para cinco mil. Ou seja, o cardeal era um agente duplo. Publicamente, apoiava a ditadura e, por baixo dos panos, na clandestinidade, ajudava quem lutava contra. Só faltou arranjarem um codinome para ele, denominado pelo papa Bento XVI como "o intrépido pastor".
Seria possível acreditar nisso, se o jornal tivesse entrevistado um por cento das vítimas. Bastaria 50 perseguidos nos contarem como o cardeal com eles se solidarizou. No entanto, o jornal não dá o nome de uma só - umazinha - dessas cinco mil pessoas. Enquanto isto não acontecer, preferimos ficar com o corajoso depoimento de Hildegard Angel, cujo irmão Stuart, foi torturado e morto pelo Serviço de Inteligência da Aeronáutica. Sua mãe, a estilista Zuzu Angel, procurou o cardeal e bateu com a cara na porta do palácio episcopal.
Segundo Hilde, dom Eugênio "fechou os olhos às maldades cometidas durante a ditadura, fechando seus ouvidos e os portões do Sumaré aos familiares dos jovens ditos "subversivos" que lá iam levar suas súplicas, como fez com minha mãe Zuzu Angel (e isso está documentado)". Ela acha surpreendente que os jornais queiram nos fazer acreditar "que ocorreu justo o contrário!", como no filme "Uma cidade sem passado".
Mas não é tão surpreendente assim. O texto de Hildegard menciona a grande habilidade, em vida, de dom Eugenio, em "manter ótimas relações com os grandes jornais, para os quais contribuiu regularmente com artigos". As azeitadas relações com os donos dos jornais e com alguns jornalistas em postos-chave continuaram depois da morte, como é possível constatar com a cobertura do velório. A defesa de dom Eugênio, na realidade, funciona aqui como uma autodefesa da mídia e do poder.
Os jornais elogiaram, como uma virtude e uma delicadeza, o gesto do cardeal Eugenio Sales que cada vez que ia a Roma levava mamão-papaia para o papa João Paulo II, com o mesmo zelo e unção com que o senador Alfredo Nascimento levava tucumã já descascado para o café da manhã do então governador Amazonino Mendes. São os rituais do poder com seus rapapés.
- Dentro de uma sociedade, assim como os discursos, as memórias são controladas e negociadas entre diferentes grupos e diferentes sistemas de poder. Ainda que não possam ser confundidas com a "verdade", as memórias têm valor social de "verdade" e podem ser difundidas e reproduzidas como se fossem "a verdade" - escreve Teun A. van Dijk, doutor pela Universidade de Amsterdã.
A "verdade" construída pela mídia foi capaz de fotografar até "a presença do Espírito Santo" no funeral. Um voluntário da Cruz Vermelha, Gilberto de Almeida, 59 anos, corretor de imóveis, no caminho ao velório de dom Eugênio, passou pelo abatedouro, no Engenho de Dentro, comprou uma pomba por R$ 25 e a soltou dentro da catedral. A ave voou e posou sobre o caixão: "Foi um sinal de Deus, é a presença do Espírito Santo" - berraram os jornais. Parece que vale tudo para controlar a memória, até mesmo estabelecer preço tão baixo para uma das pessoas da Santíssima Trindade. É muita falta de respeito com a fé das pessoas.
- "A mídia deve ser pensada não como um lugar neutro de observação, mas como um agente produtor de imagens, representações e memória" nos diz o citado pesquisador holandês, que estudou o tratamento racista dispensado às minorias étnicas pela imprensa europeia. Para ele, os modos de produção e os meios de produção de uma imagem social sobre o passado são usados no campo da disputa política.
Nessa disputa, a mídia nos forçou a fazer os comentários que você acaba de ler, o que pode parecer indelicadeza num momento como esse de morte, de perda e de dor para os amigos do cardeal. Mas se a gente não falar agora, quando então? Stuart Angel e os que combateram a ditadura merecem que a gente corra o risco de parecer indelicado. É preciso dizer, em respeito à memória deles, que Dom Eugênio tinha suas virtudes, mas uma delas não foi, certamente, a solidariedade aos perseguidos políticos para quem os portões do Sumaré, até prova em contrário, permaneceram fechados. Que ele descanse em paz!
P.S. - O jornalista amazonense Fábio Alencar foi quem me repassou o texto de Hildegard Angel, que circulou nas redes sociais. O doutor Geraldo Sá Peixoto Pinheiro, historiador e professor da Universidade Federal do Amazonas, foi quem me indicou, há anos, o filme "Uma cidade sem passado". Quem me permitiu discutir o conceito de memória foram minhas colegas doutoras Jô Gondar e Vera Dodebei, organizadoras do livro "O que é Memória Social" (Rio de Janeiro: Contra Capa/ Programa de Pós- Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2005). Nenhum deles tem qualquer responsabilidade sobre os juízos por mim aqui emitidos.
P.S. - A ilustração que foi acrescentada é do meu querido parceirinho Fernando Assaz Atroz

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terça-feira, 17 de julho de 2012

Antigos documentos no Fórum e no Museu de Macau
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
Quando estive em Macau, em uma das minhas primeiras viagens, Benito Barros me levou até o cartório para procurar por inventários antigos. Mas lá, soube que estava tudo no Fórum Emídio Avelino. Soube, ainda, por Benito, que havia documentos, como velhos alistamentos eleitorais, no Museu José Elviro. No Fórum, Daniel Nasser me explicou que tinha que fazer uma petição para ter acesso ao arquivo. No Museu, Gilson Barbosa desconhecia a existência de tais documentos.
Em uma segunda vez, quando fui acompanhar a reportagem da TVU da nossa UFRN, para fazer uma matéria sobre a Ilha de Manoel Gonçalves, estive no Museu José Elviro, mas, novamente, não tive notícias dos documentos que Benito citara.
Depois que estive no Fórum de Assú e vi quantos documentos importantes já tinham desaparecidos, apressei minha ida para Macau em busca de documentos arquivados no Fórum Emídio Avelino. Parti para lá no dia 11 deste mês de julho, pela manhã, pois pretendia fazer uma nova investida no Museu, na parte da tarde.
Desta vez, Nossa Senhora da Conceição e o capitão João Martins Ferreira me ajudaram. Gilson foi lá para o fundo do Museu, abriu um depósito quadrado, e arrastou para cima uma série de livros antigos de Macau. Folheei, imediatamente, aqueles velhos livros. Eram atas da Câmara Municipal de Macau e alistamentos eleitorais, como informara Benito. Selecionei alguns mais importantes e comecei a fotografá-los. Deixei um único livro, mais robusto, para o dia seguinte, na parte da tarde, pois pela manhã minha missão seria no Fórum. Não deveria sair de Macau, sem as imagens desse livro de atas da Câmara Municipal de Macau, cujos registros começavam em 1848, e continha, tal livro, em uma das suas partes, termos de posse e juramento, de vereadores e juízes.
No dia seguinte segui para o Fórum. Por algum tempo esperei Daniel, funcionário do mesmo, que me acompanharia até o arquivo. Ele, embora trabalhasse no centro de Macau, morava em Diogo Lopes. O arquivo estava em reforma e nenhuma providência tinha sido tomada para proteger as caixas com os velhos documentos. Como não havia uma mesa para que eu pudesse fotografar os documentos, Daniel sugeriu que eu escolhesse alguns para levar para o Fórum, onde encontraria um lugar para fazer o trabalho. A maioria era constituída de inventários e questões de terra. Abrimos cada caixa, sujas de material daquela reforma, e fui escolhendo os mais importantes, por conta do pouco tempo que tinha.
Já no Fórum, comecei a fotografar vários daqueles documentos. Por conta do tempo, fui escolhendo as partes que me interessavam do ponto de vista genealógico. Escolhia os testamentos, se estivessem presentes nos inventários, e, também, as listas de herdeiros, pois, sempre são parentes, filhos ou netos.
Na lista dos processos, encontrei os inventários de Joaquim Rodrigues Ferreira e Felis Rodrigues Ferreira, dois filhos de Manoel Rodrigues Ferreira, e de sua mulher Izabel Martins Ferreira, que moraram na Ilha de Manoel Gonçalves e fizeram parte dos primeiros povoadores de Macau. Joaquim é considerado um dos fundadores do Alto do Rodrigues e seu irmão, Felis, de Pendências.
Outro inventário encontrado foi o de Manoel Jerônimo Caminha Raposo da Câmara. Ele foi casado com minha tia bisavó, Francisca Xavier Professora, filha de Miguel Francisco da Costa Machado e Anna Barbosa da Conceição.
Um outro documento,  que me chamou a atenção, é o que envolve Anna Fragosa de Medeiros, concubina e herdeira de Jerônimo Cabral Pereira de Macedo, dono da Fazenda Morro. Há uma batalha de defesas nesse embargo de obras. Por isso, resolvi tirar uma cópia xerox do mesmo.
Todos esses documentos contêm muitas informações importantes para se reconstituir parte da História de Macau. Em um deles vi a cópia da escritura de venda de terras que Dona Francisca Rosa da Fonseca fez a Domingos Affonso Ferreira e ao tenente-coronel Bento José da Costa. Ainda está em tempo das autoridades se empenharem para preservação desses poucos documentos, antes que sejam destruídos de vez. Eles devem ser digitalizados, imediatamente. Por falar em digitalização, há um TAC entre a Fundação José Augusto e o IHGRN que não saiu do papel.
À medida que for examinando o que consegui copiar, irei postando neste jornal, na forma de artigos, ou no meu blog.
Os homens mudam as leis, mas as leis não mudam os homens. Está na hora de uma revolução na Educação.

"Sou ex-pobre. Todos querem me vender geladeira agora".