segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O debate sobre os médicos e a assistência médica no Brasil

Amigos, desculpem-me os que já receberam, mas houve uma falha parcial no envio. Abraços, Armando Negreiros.

RESPOSTA A UMA TRÉPLICA
Meu caro Miguel Aiub Hijjar, como não costumo deixar nada sem resposta passarei a abordar alguns pontos que necessitam ser esclarecidos. De antemão asseguro que não há nada de pessoal e, com absoluta certeza, nossa amizade se consolidará, pois a discussão é no campo das ideias.
Caríssimo Armando, gostaria de lembrá-lo que respondi seu e-mail (foi você quem começou tudo isto ao me enviar suas ácidas considerações, sendo você um bom escritor sarcástico não poderia ser diferente) ressaltando que não gostaria de polemizar por e-mail, mas pelo visto não poderemos nos furtar de tão acalorada discussão. Espero que isso não comprometa nossa amizade, apenas evidencie nossas discordâncias.
ARMANDO: obrigado pelo elogio, mas não fui ácido ou sarcástico, apenas expus um quadro que conforme comentarei adiante poderá produzir um estrago grande com a tentativa de desmoralização da classe – ou categoria – médica.
MIGUEL: Empatamos quanto aos empregos públicos. Entrei no Serviço público, por concurso - e consegui trabalhar e me sustentar com os salários que recebi somadas ás gratificações de chefia. Felizmente, hoje na Fiocruz e com cargo de chefia, recebo um salário digno, juntamente com o salário de minha esposa, que também é médica aposentada pela Fiocruz. Isto nos permite pagar o aluguel de minha residência na esquina da Avenida Atlântica. Aliás, com o seu salário de sua aposentadoria, você também poderia pagá-lo, o que seria um prazer tê-lo como vizinho.
Quanto a atuar no setor privado, nada contra. Inclusive sou contra a exploração aos médicos efetuada pela maioria dos planos de saúde. Quando afirmei que nunca trabalhei no setor privado apenas estava firmando minha posição de coerência com minhas considerações.
ARMANDO: conheço a sua competência e seriedade no exercício dos seus empregos, gratificações e chefias. Mas você criticou repetidas vezes, diferentemente de agora, a cobrança de honorários particulares – “uma anestesia por valor superior a um salário mínimo” – cobrados honestamente a quem pode pagar evitando, dessa forma, a exploração pelos planos de saúde e os preços humilhantes pagos pelo SUS. Aliás, nunca revelei que cobrava mais ou menos do que um salário mínimo. Não é sequer aconselhável vincular qualquer cobrança ao salário mínimo, pois, como o próprio nome indica, é mínimo.
MIGUEL: Nada contra o exercício liberal da medicina. Estou aqui defendendo o direito á saúde, como consta em nossa Constituição, através de um Sistema de Saúde Público de qualidade. Reafirmo minha posição em prol de melhorias de condições de trabalho e salários decentes para a categoria. Participei do histórico movimento sindical na década de 80 em que essas bandeiras foram levantadas inclusive tendo sido perseguido, na época, pela ditadura. Ultimamente não tenho visto um movimento propositivo e efetivo de melhorias nesse sentido, nem de fortalecimento do SUS. Ao contrário vejo o crescimento e fortalecimento de uma terceirização (criação de OS, etc.) e precarização do setor público.
ARMANDO: a Constituição assegura alguns direitos sociais como educação, saúde, trabalho, moradia, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância e a assistência aos desamparados. Lutamos pela volta à democracia e o que vemos hoje é um governo corrupto que não cumpre a Constituição e quer se perpetuar no poder com um projeto de comprar políticos e dar esmola à população. Quem danado é contra um “sistema de saúde pública de qualidade ... melhorias de condições de trabalho e salários decentes para a categoria”? O que o partido que está no poder há mais de dez anos tem feito? Alguns discursos até dão para pensar que ainda estamos sob a égide da ditadura. Quem tem que melhorar o SUS? O dinheiro gasto na copa do mundo, com construção de elefantes brancos e muita corrupção e superfaturamento, resolveria o problema da saúde no Brasil inteiro.
MIGUEL: Não sou demagogo. Se desejar posso lhe mostrar meu currículo nesses quase 40 anos de Servidor Público em que percorri todo o Brasil construindo, definindo, implantando, pesquisando e ensinando. Enfim, defendendo políticas e diretrizes de saúde em prol de imenso contingente da população brasileira. No Rio de Janeiro, que lhe parece causar uma mágoa doentia em ter a beleza de uma praia de Copacabana, atuei com populações carentes com doenças consequentes de determinantes sociais. Foi assim desde quando fiz minha tese de mestrado numa população favelada do município do Rio de Janeiro, abordando o tema da tuberculose.
ARMANDO: não há necessidade, pois conheço o seu currículo, como já afirmei acima. Não há mágoa doentia nenhuma em relação a essa bela cidade do Rio de Janeiro, onde morei dez anos e visito todos os anos. Apenas analisei a contradição, o paradoxo, em não querer aceitar a cobrança de honorários particulares por parte dos médicos que não tem a sua privilegiada e mais do que merecida aposentadoria. Os preços pagos aos médicos pelo SUS são incompatíveis com o mínimo necessário.
MIGUEL: Parece que aqui não temos grandes discordâncias. Porém, veja quantos médicos brasileiros se inscreveram e foram selecionados. Número ínfimo diante das vagas disponibilizadas. NÃO PRECISARÍAMOS DISCUTIR MAIS NADA. ESTÁ PROVADA NA PRÁTICA A MINHA TESE!!!
ARMANDO: nós não podemos criticar, pois nem eu, nem você, nos inscrevemos. O governo está completamente sem rumo. O que danado um médico vai fazer no interior sem as menores condições de trabalho? Veja a entrevista de Miguel Srougi no Salomão Schwartz (está no You tube). São seis anos no curso de graduação, pelo menos três anos de Residência Médica, para ir para um lugar onde não se pode aplicar nada do que se aprendeu, além da frustração em não poder atender ao povo que necessita. Os gestores sabem que primeiramente terão que ser criadas as condições de trabalho, a infraestrutura, o mínimo necessário, para somente depois contratar pessoal e botar para funcionar. Não adianta querer inverter essa lógica. O SUS precisa se estruturar para depois dispensar a terceirização e não ao contrário como o Ministério Público quis fazer há alguns anos. Repito: somente quando os três poderes forem atendidos obrigatoriamente na rede pública teremos um SUS digno para todos.
MIGUEL: Não creio que tenhamos alguma divergência quanto á corrupção. Somos contra e sempre vamos combatê-la. Vou sempre defender que devemos matar o carrapato e não o boi. Se temos carrapatos em algum partido político temos que matá-lo. Não podemos matar o boi (as ideias e os princípios), muito menos a democracia. Discurso raivoso como este seu beira um discurso fascista (mesmo sabendo que você não é). Aliás, você poderia também olhar para o escândalo do Mensalão Mineiro, para o dos trens de São Paulo com o Serra, Alckmin e quem diria Mario Covas...
ARMANDO: você querendo matar tanto carrapato e no final o fascista sou eu? Só porque falei a verdade sobre Lula e sua corja. Esse grande líder – hoje uma das maiores fortunas do país - que é amigo de Paulo Maluf, José Sarney, Fernando Collor, Jader Barbalho e Renan Calheiros? E então, não é verdade que quando os líderes petistas adoecem se tratam no Sírio Libanês e querem obrigar o restante da população aos corredores lotados dos hospitais públicos?
MIGUEL: Novamente estamos em acordo quanto ao bom destino dos recursos financeiros nas três esferas de governo, mas sinceramente, gosto de futebol, acho que temos que ter estádios decentes e esporte também é saúde. Mas claro, nunca em detrimento de suprir primeiramente as prioridades, principalmente de educação.
ARMANDO: esse seu último parágrafo está hilário e mostra que você continua muito bem humorado. A dinheirama que está sendo derramada é justamente em detrimento de todas os direitos sociais elencados no artigo sexto da Constituição: educação, saúde, trabalho, moradia, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância e a assistência aos desamparados.
MIGUEL: Falei do povo brasileiro para mostrar a contradição da luta dos médicos por melhores salários na rede pública, com valores de consultas privadas, baixas remunerações dos planos de saúde, e rendimentos pequenos da maioria da população brasileira (por ex. salário mínimo). Acho que todos deveriam ganhar como um anestesista: esse seria o verdadeiro socialismo. 
Obrigado por me parabenizar ser carioca, viver na Cidade Maravilhosa e poder pagar o aluguel em Copacabana. Gostaria que você também aproveitasse as belíssimas vistas de Natal sem nenhum constrangimento, crítica ou inveja de minha parte.
Finalmente creio que esse Plano de contratar médicos (sejam brasileiros, estrangeiros ou extraterrestres) somente beneficiará a população brasileira, que sei e vi e vivi ainda carece muito de médicos e serviços de qualidade.
ESPERO SINCERAMENTE CONTINUAR PODENDO MANTER UMA "VERVE" COM VOCÊ, MAS DE PREFERÊNCIA COM TEMAS MENOS POLÊMICOS E QUE NO NOSSO PRÓXIMO ENCONTRO VOCÊ NÃO PRECISE LEVAR UMA PEIXEIRA NEM EU UMA AR-15.
GRANDE ABRAÇO
Miguel Aiub Hijjar
ARMANDO: confesso que não entendi essa afirmação: “mostrar a contradição da luta dos médicos por melhores salários na rede pública, com valores de consultas privadas, baixas remunerações dos planos de saúde, e rendimentos pequenos da maioria da população brasileira (por ex. salário mínimo).” Um verdadeiro “samba do crioulo doido”. O que o médico precisa, repito, é de um plano de carreira com remuneração justa. Porque esse sarcasmo com o suposto ganho dos anestesiologistas? Não seria bom nivelar os honorários por cima, num nível digno? Ou sempre terá que existir alguns mais iguais do que outros?
Enfim, meu caro Miguel, nossa amizade jamais irá se abalar por conta dessas querelas. Você é meu convidado para se hospedar no meu apartamento quando me der o prazer de vir a Natal, juntamente com a sua esposa. Viva a verve!
FORTE ABRAÇO,
Armando Aurélio Fernandes de Negreiros

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