sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A herança da globalização: os pobres que foram ricos.

Pobres como nós

Pobres como nós

por Ricardo J. Rodrigues Fotografia de Pedro Loureiro
Fonte: dn.pt

Ter emprego, ter um curso superior, ter casa nos subúrbios, ter carro, ter cabo e acesso à net, ter telemóvel, ter os filhos na creche, ter contas para pagar, ter visa, ter dívidas, ter fome. A notícia incomoda, parece que não existe. Mas a verdade é que já se contam por 300 mil os portugueses que não se conseguem alimentar. Os novos casos não estão nos escalões mais excluídos da sociedade. Estão na classe média, na geração em idade activa, nos que têm mais aptidões académicas e maiores expectativas de conforto. Esta é a história do seu vizinho do lado.
«Boa tarde. Encontro-me numa situação muito difícil. Sou empregada de escritório, divorciada, tenho dois filhos menores. Para fazer face a todas as despesas (de água, luz, habitação) resta-me muito pouco para a alimentação. Gostaria de saber quais as condições necessárias para receber ajuda alimentar. Estamos a passar fome e precisamos da vossa colaboração.» Isto é um e-mail recebido no Banco Alimentar Contra a Fome em finais de 2008. O Banco Alimentar recebe e-mails destes todos os dias, às dezenas. Se o desespero chega por internet, então a pobreza atingiu definitivamente a pós-modernidade.
Os anos noventa ficaram marcados em Portugal pelo aparecimento dos novos ricos, empresários que ganharam dinheiro rapidamente e não se inibiram de mostrar a sua fortuna aos demais. Esta primeira década do século XXI, pelo contrário, salientou outra figura social - os novos pobres. Gente qualificada e habituada a um nível de vida confortável, que perdeu poder de compra e empobreceu repentinamente. Por culpa da crise, da precariedade laboral, do endividamento, de um divórcio, do desemprego. Muitos novos ricos são hoje novos pobres. E um dos traços mais distintos dos neo-aflitos é precisamente o de serem indistintos. Estas pessoas têm bom aspecto, casa, carro, telemóvel, internet. Mas passam fome.
Ao primeiro esgar, tem-se a impressão de que a angústia dos novos pobres é auto-inflingida. Mas se se perguntar a Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, se ela associa a pobreza de bens a uma certa pobreza de espírito, a resposta é directa: «Estas pessoas estão endividadas porque, durante anos, lhes foi vendido um sonho de um mundo maravilhoso que não é real. Quando acordam, percebem que foi tudo uma ilusão. Os novos pobres já tiveram acesso a bens de consumo, depois perderam-no. E agora tentam disfarçar, têm vergonha do seu novo estatuto social.» A pobreza é um catálogo pesado. Depois de se entrar na espiral, é muito mais difícil sair.
Que o diga Adelina Santos, 41 anos, que, ao contrário da maioria, dá a cara pela fome que passa. Há dez anos, a vida corria-lhe de feição, era empresária e tinha o seu próprio negócio, no mercado de peixe de Ermesinde. A crise bateu-lhe à porta sem avisos prévios. O marido abalou, o mercado fechou e a mulher viu-se subitamente desempregada, sozinha com três filhos nos braços e uma renda de casa para pagar. «Tentei arranjar um emprego em condições, como secretária, ou num escritório, mas não havia vagas.» Como precisava mesmo de ganhar dinheiro, meteu-se no emprego que conseguiu - a limpar o lixo das ruas para uma junta de freguesia.
Com a renda e a comida não havia dinheiro para o passe social e, por isso, Adelina saía de casa duas horas antes de pegar ao serviço, cumprindo a pé, na ida e na volta, um percurso que não lhe levaria mais de vinte minutos de autocarro. O contrato acabou passados nove meses, não o renovaram para não terem de a tornar efectiva. Continuou à procura, mas assim que dizia que tinha trabalhado a limpar lixo recusavam-lhe os empregos mais qualificados. «Tive de me pôr a fazer limpezas, a tomar conta de pessoas idosas, a desenrascar-me como podia. E ando há cinco anos nisto, sempre a mudar de casa porque não consigo pagar a renda, às escuras porque não tenho dinheiro para a luz, a passar a ferro às vizinhas a troco de uma garrafa de azeite ou de um pacote de arroz. Nunca imaginei que a minha vida se ia tornar nisto.» Há dias, discutiu com a filha adolescente, que queria comprar roupa nova, brincos e ténis como os outros miúdos da escola. «Eu gostava de oferecer-lhe essas coisas, mas não posso. Ela diz que eu dei tudo aos irmãos, quando tinham a idade dela. É verdade, mas nessa altura eu tinha dinheiro. Agora tenho de tratar a mais nova de maneira diferente. E isso dói-me tanto. Mas tanto.»
Segundo o Instituto Nacional de Estatística, existem dois milhões de pobres em Portugal, com rendimentos inferiores a 360 euros mensais. Na maioria dos casos, são reformados, toxicodependentes, deficientes mentais, sem-abrigo, famílias numerosas. Estes são os número da pobreza estrutural do país - um em cada cinco habitantes. Mas a crise económica e o desemprego estão a criar uma pobreza mais conjuntural, e é essa que está a crescer a uma velocidade vertiginosa. Fala Isabel Jonet: «A classe média em Portugal está cada vez mais empobrecida e esvaziada - e o que se passa agora é apenas a ponta do iceberg. A crise económica de 2009 vai seguramente traduzir-se numa gravíssima crise alimentar. É absolutamente aberrante o que se está a passar. Temos gente que tem emprego, mas para quem é matematicamente impossível pagar as contas. Temos uma geração inteira, jovem, a ganhar 400 euros mensais, por mais qualificações e competências que apresente.» O fosso entre ricos e pobres em Portugal é o maior da União Europeia. O rendimento dos dois milhões de portugueses mais ricos é sete vezes maior do que o dos dois milhões mais pobres. Um terço dos jovens entre os 16 e os 34 anos seriam pobres se dependessem apenas dos seus rendimentos. Não são sintomas da crise. São sinais de subdesenvolvimento.
Portugal 2009
Estão 20 pessoas à porta de um centro comercial decrépito junto a Rio Tinto, nos arredores do Porto. Está uma velhota de calça e casaco, um lenço de seda e brincos que podiam ser de ouro, estão duas reformadas encasacadas que conversam animadamente sobre a queda da bolsa de Nova Iorque, está um par de gaiatos com o cabelo cortado ralo e uma bola de futebol velha aos pés. Sentados nos degraus da escadaria do edifício antiquado e escuro estão também alguns idosos carregados de sacos vazios, duas ou três mulheres de meia idade, com os olhos postos no chão, à espera. Estão todos a aguardar o badalar das nove, quando a Liga Nacional Contra a Fome (LNCF) começa a distribuir pão. Grande parte dos que estão ali vêm em nome de alguém. Dos filhos, das filhas, dos pais, dos avós - dos que estão a trabalhar e não podem ir receber ajuda.
A senhora elegante de pendentes dourados é das primeiras a recolher o pão num saco de plástico. Fala sem nome nem cara, fala com vergonha. «Eu nunca tive uma vida fácil, só tenho a quarta classe, trabalhei que me desunhei a vida inteira. Fui modista, funcionária das limpezas, criada e depois entrei para uma fábrica onde cresci a pulso, até me tornar assessora de direcção. O meu marido batia-me e roubava-me dinheiro, tive que pô-lo fora de casa para conseguir criar a minha filha. À gaiata dei tudo o que podia e o que não podia. Ela estudou, aprendeu serviço social, queria tomar conta dos outros. Era uma menina muito generosa e, quando a vida dela se estava a endireitar, veio a desgraça.»
A rapariga trabalhava então num lar de idosos, a recibos verdes. «Entrava ao serviço de noite e de noite saía.» Há cinco anos, quando acabou o turno, foi vítima de atropelamento e fuga. Um pé esmagado, três hérnias discais e uma incapacidade para sempre. O lar desresponsabilizou-se, não era funcionária do quadro. A mãe, reformada, tentou aguentar o barco com uma reforma de trezentos euros e a vender roupa de umas lojas para outras. Mas os medicamentos eram caros, as operações foram muitas, o dinheiro começou a escassear. «Gastei as minhas economias todas e de repente percebemos que não tínhamos o que comer.» Durante semanas, foram almoços de arroz com arroz e jantares de pão sem queijo. Depois passaram a fazer uma refeição por dia. Por fim nem isso e, com a barriga num tumulto, encontraram a LNCF, uma associação de solidariedade social que apoia 100 almas famintas nos subúrbios do Porto.
«Hoje temos pão, sempre dá para fazer uma açorda. Acredite que, mesmo assim, a nossa fome não é pouca. E não há direito disto nos acontecer. Eu trabalhei toda a minha vida, a minha filha estudou e tinha emprego, vivíamos bem - pois se ela andava a pensar comprar casa e tudo! E agora esta vergonha, termos de pedir comida para não morrer.» Quando irrompe aos soluços, a mulher mantém a pose digna, uma mão a tapar-lhe a boca, um suspiro de desculpas. «A minha filha continua em casa, mal pode sair da cama, mas agora arranjou uns biscates de modista, para fazer um dinheirinho. Eu, sempre que aqui passo a buscar o pão, corro também as lojas a vender roupa. Talvez agora as coisas se componham.» Talvez.
«Ninguém está livre de cair em desgraça.» Gaspar Pessoa, presidente da LNCF, assume que a sua luta parece cada vez mais perdida. «Há mais e mais gente a precisar de ajuda. Há mais e mais gente que tinha uma vida boa e que, de repente, se vê na estaca zero. E o pior é que, ao primeiro impacto, ninguém dá a mão a ninguém. O Estado vai tapando buracos, nós vamos fazendo o nosso trabalho com financiamentos precários. Era preciso haver uma campanha séria de prevenção da fome, sobretudo agora, que os riscos de uma crise alimentar são elevadíssimos. A minha experiência nesta área diz-me que as pessoas, sobretudo estes novos pobres, só nos procuram quando estão desesperadas, quando deram voltas e mais voltas até esgotarem todas as soluções de recurso. Além de passarem fome, estão psicologicamente muito fragilizados. E isso é um entrave a que saiam do buraco e dêem a volta por cima.»
Risco de ruptura
Nas instalações da Santa Casa da Misericórdia de Sintra (SCMS) há um cartaz pendurado junto a uma cruz, onde se pode ler a inscrição «Não temos leite.» Até Maio de 2008, a instituição sintrense recebia cinco toneladas anuais de leite em pó para distribuir pelos recém-nascidos em situação de carência. Com o patrocínio do Governo Civil de Lisboa, que um dia mandou uma carta a anunciar que, a partir do quinto mês do ano, acabariam as remessas, por questões de redução de orçamento. Os funcionários da Santa Casa tentaram encontrar alternativas, o Governo Civil indicou o Banco Alimentar - que está dependente de excedentes e donativos e não consegue distribuir um produto tão caro de forma continuada. O facto é inequívoco. Desde Maio, as famílias carenciadas do segundo concelho mais populoso do país não têm comida para os seus bebés. «Não temos leite.»
«A partir de Setembro, a coisa tornou-se explosiva», diz Ana Carrilho, coordenadora do departamento de acção social da SCMS. «Tivemos um aumento muito grande de pedidos de ajuda. E o número que mais cresce são de pessoas que nos habituámos a considerar das classes alta ou média-alta. São licenciados que não conseguem a integração no mercado de trabalho, são sobretudo mulheres entre os trinta e os quarenta anos, com empregos, com os filhos na creche, com dívidas. Os homens ficam no carro, por vergonha. Elas também têm vergonha, não querem perder a única coisa que lhes resta da vida anterior, que é a sua dignidade. Por isso, tivemos de criar novas medidas para um novo tipo de pobreza. Apesar de funcionarmos apenas até às cinco da tarde, é raro o dia em que saio daqui antes das oito da noite. Para atendermos estas pessoas longe da vista de toda a gente, para que elas não se cruzem com ninguém, ficamos abertos até mais tarde.»
Em Novembro de 2008, o Jornal de Negócios falava em 600 famílias apoiadas pela casa de Sintra. No final de Dezembro, o número tinha subido para mais de 800. «Todos os dias aparecem-me entre 15 a 30 novos pedidos de auxílio no departamento de acção social. Há quem peça comida, mas também quem queira ajuda para pagar a prestação ou a renda da casa, os medicamentos, as contas de água e luz. E esqueça tudo o que pensava sobre o pobre. Antes, o pobre era o pobre, tinha uma apresentação pobre, um rosto pobre, era identificável. Agora são pessoas como nós, bem vestidas, com bons carros. É neste sector da população, nos subúrbios das grandes cidades, que o problema da fome está a crescer.» A Misericórdia sintrense tem pouca margem de manobra: recebe apenas os excedentes de dois supermercados da região e algum apoio do Banco Alimentar. «Tenho sérios receios que, se o aumento da procura continuar a este ritmo, cheguemos a um ponto de ruptura alimentar.»
Em 2006, o Banco Alimentar Contra a Fome entregava comida a 200 mil pessoas, dois anos depois o número subiu para 250 mil. Há pelo menos 50 mil casos de cidadãos que recorrem a instituições que não estão sob a alçada do BACF, como paróquias, juntas de freguesia, organizações não-governamentais e instituições de solidariedade social. Mas esse número pode ser muito maior. E continua a crescer. Até quando? Fernando Nobre, presidente da Assistência Médica Internacional (AMI), que apoia mais de sete mil pessoas nos seus oito centros Porta Amiga, é firme em exigir responsabilidade social às empresas e à população - em Maio de 2008, já o rosto da AMI dizia à agência Lusa que «o combate à fome, à pobreza e à exclusão tem de ser um desígnio nacional.» O discurso foi repetido inúmeras vezes - por vozes como a de Nobre, Isabel Jonet, Gaspar Pessoa ou Ana Carrilho. Mas a fome não está na agenda política. Nem nos planos das empresas. Nem sequer está na consciência dos cidadãos.
As manhas do estômago
Ao fim de três dias sem comer, H. decidiu finalmente pedir ajuda. Chegou a um refeitório social no Porto, sentiu as pernas fraquejarem assim que o mandaram sentar, lembra-se que mal tinha forças para segurar a colher da sopa. Os dias anteriores tinham sido um suplício. «Há técnicas para enganar a fome, sabe? Beber café ou chá, beber muita água, comer papel, comer pacotes de açúcar ou aqueles saquinhos de ketchup que oferecem no McDonalds.» Ri-se. «Ao que eu cheguei.»
H. tem 56 anos. Até há seis meses, viveu uma vida larga. Tinha uma vivenda e duas lojas na Invicta - uma de roupa, outra de perfumes. Tinha semanas de vender 20 mil euros em camisas, gravatas e botões de punho. Tinha férias no estrangeiro com a família, um carro para cada membro da casa, jantaradas com os amigos. Mas a mulher morreu de cancro, abriram quatro hipermercados e centros comerciais no raio de um quilómetro em redor das lojas, e o homem começou a perder o fio à meada. «Acumulei dívidas com os fornecedores, porque com uma loja vazia é que não me safava. O comércio de perfumes ficou com a minha filha, a casa também, eu tentei aguentar o embate, modernizar a casa, mas não podia concorrer com os preços dos outros, que compram em grandes quantidades e por isso vendem mais barato. Quando dei por isso, já não havia nada a fazer. Fechei a loja, deixei a casa e fui para Espanha trabalhar como motorista.»
H. é um cavalheiro, aquilo a que se costuma chamar um homem de fino trato. Tivesse ele chapéu e seguramente tirá-lo-ia à passagem de uma senhora. É daquele tipo de pessoas que só sabem saudar um homem usando as duas mãos, que se levantam para abrir uma porta se topam que alguém está prestes a entrar, que matam o vício inquirindo: «Vossa excelência não se importa de que me oferecer um cigarro?» Tirou um curso na escola comercial, no tempo do outro senhor. Montou o seu negócio. «E depois tremi, ou desactualizei-me, ou simplesmente tramaram-me, desculpe a expressão.» Em Espanha ficou uns meses, com tecto e comida, mas sem nunca sentir o cheio do salário. Voltou de mãos a abanar. Com uma pensão de viuvez de 175 euros, alugou um quarto por 150. E foi nessa altura que começou a passar fome. Aguentou dois meses. Depois não aguentou mais.
P. é uma mulher bonita. Alta, esguia, de gestos delicados. As fotografias que tem em sua casa mostram um rosto mais cheio, uns olhos mais felizes. «Perdi dez quilos nos últimos oito meses», assume. «Não tinha o que comer.» Tem 38 anos, um filho de 12, o 12º ano completo e nunca tinha trabalhado na vida. «O meu marido ganhava bastante dinheiro, era ele que tomava conta de mim. Eu geria a casa, a educação do miúdo, as compras. Vivíamos bem, não éramos ricos mas também não passávamos dificuldades. Mas um dia decidi separar-me do meu companheiro, a nossa relação era muito má. Fiquei com o meu filho e descobri as dívidas do meu marido. Não fiquei com mais nada.»
Tentou uma imensidão de empregos e só conseguiu arranjar um - como funcionária de limpeza no hospital de São João. Salário: 430 euros mensais. A casa onde vivia serviu para saldar créditos, conseguiu alugar um cubículo de paredes esfareladas e janelas partidas, sem casa de banho, por cem euros. O resto vai para o passe social, água, luz, gás e para a escola do filho. «Habituei-me, logo a seguir à separação, a ir comendo pouco.»
Se fazia sopa para o rapaz, ela não lhe tocava. Cozinhava um bife ou uma perna de frango para o miúdo, ao domingo. Para ela, um caldo de cebola ou o que o pequeno havia deixado de sobra no prato. «Depois comecei a comer dia sim, dia não, a ver se me habituava. Desmaiava muitas vezes, quando estava a trabalhar. E um dia perdi finalmente a vergonha. Entrei no refeitório de Rio Tinto e pedi comida.» Desde então vai lá todos os dias, recolher o almoço. Não come ali, não se quer misturar. E também porque, da refeição que lhe dão, ela consegue inventar três. Um almoço para ela, que o filho tem alimento na escola, e dois jantares à noitinha. Encostada à porta de casa, tentando ignorar o frio, P. pára de falar para desatar num pranto desgraçado. «Ontem comecei a comer o almoço e soube-me tão bem que me apeteceu comê-lo todo. Mas eu não podia, eu não posso. O que é que hei-de fazer à minha vida?»
O fim da linha
A meio da Avenida Almirante Reis, mesmo em frente à igreja dos Anjos, fica o que os lisboetas se habituaram a chamar a Sopa dos Pobres, mas que na verdade tem o nome de Centro de Apoio Social dos Anjos, ou CASA. São quatro pisos que albergam quartos, gabinetes médicos, salas de actividades, lavandaria e refeitório. Todos os dias, em média, são servidas 500 refeições. Sobretudo a homens e mulheres sem-abrigo, a toxicodependentes e alcoólicos, a pessoas com problemas mentais, a desempregados de longa duração. Por aqui passam diariamente os rostos da pobreza estrutural do país. «Os que chegaram ao fim da linha», nas palavras de Julieta Martins, directora da unidade de emergência e apoio à inserção da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
Nos últimos meses, e apesar da Santa Casa querer separar o apoio à pobreza estrutural do auxílio aos novos pobres, tem aumentado o vaivém de caras anónimas, discretas, que precisam de apoio imediato e depois desaparecem sem deixar vestígios. «Cada utilizador do CASA tem um processo, mas a verdade é que se nos aparecer aqui alguém com fome não lhe recusamos comida», diz António Antunes, director do centro dos Anjos. «Nos tempos de crise, nota-se mais o aparecimento de casos com necessidade de alimentação imediata. São pessoas que se aguentam uns tempos, com o apoio da família e dos amigos, mas que um dia têm fome e passam aqui. Ou deixam de pedir ajuda às pessoas mais próximas e recorrem aos nossos serviços.»
Foi o que aconteceu com Frederico Matias, 26 anos, sorriso pacato, olhar magoado. Filho de mãe portuguesa e pai crioulo, tem dupla nacionalidade. Cresceu em Cabo Verde e decidiu fugir à secura do arquipélago já lá vão três anos. A família ficou em Santiago, ele fez-se ao mundo sozinho. Com um curso técnico de cozinheiro arranjou trabalho facilmente, na copa de um estaleiro em Tomar. Passou lá nove meses, mas ao fim do contrato aconteceu a história do costume: para ficar, tinha de ser nos quadros. Foi dispensado. Rumou a Lisboa e arranjou novo emprego, na cozinha de um restaurante, num centro comercial. «Deixei crescer uma crista no cabelo, mas faziam-me a vida negra e acabei por me despedir. Prefiro passar fome a perder a dignidade». Não bebe, não fuma, nunca tomou drogas. Alugou um quarto numa pensão e já encontrou novo trabalho. Enquanto não chega o primeiro salário, vem almoçar e jantar aos Anjos. Em silêncio, sem conversar com ninguém.
Fred, como gosta de ser chamado, conhece casos de pessoas como ele, que estudaram como ele, que trabalharam com ele, que passam fome como ele. Mas que não pedem ajuda. Ainda não. Só se anuncia a desgraça quando não sobram alternativas. São sete da tarde e o refeitório dos Anjos está agora cheio. O polícia de serviço anda de um lado para o outro a acalmar as hostes - há sempre um ou outro utente a desafiar a ordem da cantina, a querer entrar para os gabinetes, a provocar alguém que está sentado à mesa. Vista de fora, a Sopa dos Pobres tem dois mundos - um barulhento e pobre, outro silencioso e pobre. E é então que, no meio da multidão, se descobre uma memória do passado. O tipo com quem jogávamos à bola em miúdos, um colega da escola, um vizinho do lado. Um ser familiar e mudo, que se tornou invisível, que chegou ao fim da linha. E esse é o momento da bofetada. Alguém que conhecemos passa fome. E nem sequer tínhamos reparado.

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