quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Somos uma república sem povo?
(*) Rinaldo Barros
Estava eu posto em sossego quando um amigo telefona comentando sobre a confusão posta na atual conjuntura. Sem dúvida, uma crise na jovem democracia brasileira.
Compartilho com o leitor minha opinião: acho toda crise uma benção, porque nos indica que temos que abandonar o cadáver de nossas desilusões e trocá-lo pela inquietante lufada de ar do imponderável.
Preocupa-me bastante a crise generalizada da ausência de idéias e de projetos políticos.
Ensinava o saudoso Arcebispo honorário de Natal, Dom Nivaldo Monte, que a verdadeira fome não é de alimentos físicos, mas grave mesmo é a fome espiritual.
Ou seja, a pior miséria não é a material, mas a de conhecimento, miséria de espírito.
Outro sábio, o qual vive afirmando não entender de política, o filósofo e jornalista Agnelo Alves, tem-nos alertado para o fato de que, no Rio Grande do Norte, como de resto em todo o país, existem muitos candidatos; mas impera a escassez de projetos de desenvolvimento para a nossa sociedade. Como se fossem candidatos de si mesmos.
Nessa pobreza espiritual generalizada, ao eleitorado resta a alternativa de escolher entre nomes de pessoas, sem saber ao certo o que cada candidatura significa em termos de propostas. Por isso mesmo, ninguém deve estranhar o desencanto da nossa juventude pela dimensão política da vida. Há realmente pouco sinal de vida inteligente no planeta político brasileiro.
Quem são os candidatos, em termos de idéias ou projetos? Defendem quais bandeiras de luta? O que pensam sobre a Agenda 21? Quais deveriam ser as prioridades do PPA? Quais os melhores programas de desenvolvimento do BNDES? O que acham do conceito de construção sustentável? O que pensam sobre a Lei de Inovação Tecnológica? Que soluções propõem para a mobilidade urbana? Quais as propostas para reduzir a evasão nas escolas públicas? O que fazer para garantir segurança e o direito de ir e vir para quem estuda ou trabalha? Como melhorar a resolutividade das unidades de saúde pública? Para quê, enfim, desejam ser candidatos?
Uma eleição para Presidente da República, Governadores, Senadores e Deputados deveria representar um momento-chave para a manutenção do equilíbrio sócio-econômico e para que, a contento e com clareza, pudéssemos participar do processo de escolha.
A maioria dos partidos sequer formula programas de governo e, se for publicado algum documento semelhante, a maioria do eleitorado não tomará conhecimento; até porque não foi dessa forma que as alianças foram seladas. Foram outros os instrumentos para costurá-las.
Tudo depende da capacidade do candidato, na arte de se manter dentro do jogo.
Quem sabe compreender o que não é dito pelo que é dito, quem consegue questionar o "não poder" como sendo "não querer" e que dispõe de condições para (re) contextualizar situações acaba por romper inúmeras das "cascas" com as quais a realidade se reveste; também consegue desmontar a dissimulação e distinguir os amigos dos inimigos. Ou não, pois a traição também é uma possibilidade.
Pensando na Copa do Mundo, relembro também do escritor peruano Mario Vargas Llosa, o qual nos ensina que: "O futebol é o ideal de uma sociedade perfeita: poucas regras, claras, simples, que garantem a liberdade e a igualdade dentro do campo, com a garantia do espaço para a competência individual".
Ao contrário, constata-se que nossa sociedade está longe de exibir a singela virtude futebolística referida por Llosa.
Aqui no patropi, o fim da escravidão e do Império, e o surgimento da igualdade jurídica republicana e das relações do trabalho livre assalariado, lamentavelmente, ainda não superaram alguns vícios aristocráticos dos tempos coloniais.
Será que ainda somos uma república sem povo?

(*) Rinaldo Barros é professor – rb@opiniaopolitica.com

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