segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Estados Unidos e a China: farinha do mesmo saco.

Excelente visão de nosso competente economista prof. Adriano Benayon, dirigida a politicólogo. A pertinente e abalizada opinião vem à propósito de magnata chinês que quer adquirir o The New York Times.

  "A antítese da democracia é o totalitarismo. Não é a ditadura. Ditadura é um conceito do direito romano: trata-se de um regime sob a chefia de um cidadão, incumbido temporariamente de pôr a casa em ordem numa situação caótica especial ou no caso de guerra. Ou seja, a ditadura, em si, não é antidemocrática, ou, pelo menos, não é anti-republicana."
 

Abraspas:
 
A meu ver, você trabalha frequentemente com conceitos construídos mais por ideologia do que com base na realidade: a ideologia dos lugares comuns, decorrentes das aparências e das manipulações correntes na mídia e através da maioria dos formadores de opinião, no sistema movido a dinheiro, independentemente das posições e inclinações individuais serem de esquerda ou de direita.

Um exemplo disso é supor que existe mais democracia no Brasil, do que na China, apenas porque aqui existem muitos partidos e na China há um partido único. 

A antítese da democracia é o totalitarismo. Não é a ditadura. Ditadura é um conceito do direito romano: trata-se de um regime sob a chefia de um cidadão, incumbido temporariamente de pôr a casa em ordem numa situação caótica especial ou no caso de guerra. Ou seja, a ditadura, em si, não é antidemocrática, ou, pelo menos, não é anti-republicana.

Vejamos  quem é totalitário. Está mais para os que têm sistemas políticos como o prevalecente no Brasil, México e outros países submetidos não só ao capitalismo, mas ainda por cima à subordinação colonial, que envolve graus de desemprego real, subemprego e condições de vida ainda mais aviltantes que os de povos como o estadunidense, canadense etc. muito menos sugados – embora não pouco - pela oligarquia financeira.

Ora, nem nos EUA, na Inglaterra, França etc., os partidos políticos plurais significam possibilidade de escolha popular. Isso porque, que todos os  partidos com alguma chance de ocupar os postos governamentais, realizam as mesmas políticas que os demais: as políticas determinadas pela oligarquia superior, a cúpula da finança capitalista.

Comparemos com a China. Lá realmente existe o partido único. Mas a cúpula dirigente, que comanda de modo centralizado a política do país, atua dentro de uma organização, de uma estrutura que envolve razoável grau de democracia na base, i.é.,e, no plano local, das comunidades rurais e das cidades, onde há bastante autonomia e competição entre lideranças, geralmente de cidadãos mais aptos, observados desde a escola primária por seus méritos, conforme a tradição dos mandarins do Império do Meio, que, desde priscas eras, os selecionava por concurso.   Então as lideranças vão surgindo de baixo para cima, e as reivindicações da base de algum modo têm de ser consideradas na cúpula.

Então, a China não é uma ditadura (o que não interessa, pois o que interessa para definir como antidemocrático é se é totalitária), E não é totalitária, o que não pode ser dito do Brasil, onde se caminha para a destruição material e moral, sob a “direção” de um sistema cujo objetivo central é explorar os recursos naturais fabulosos do País e subjugar sua população.

Ora, como as pessoas são condicionadas a avaliar as coisas pelo rótulo e não pelo produto em si, pela exterioridade e não pela substância, há milhões que se iludem com o espetáculo das eleições pró-forma, vinculadas aos dinheiros do caixa um e do caixa dois nas campanhas, e no acesso à grande mídia, exclusivo para os servidores do sistema de exploração e de aviltamento do povo. Para qualificar tal sistema como totalitário, nem precisava o requinte brasileiro da urna eletrônica completamente fraudada. Outros países que não a aceitam, não se aproximam da democracia só por causa disso.

Outro ponto: não estou em condições de afirmar que a China já seja um capitalista. Talvez poderá ser assim considerada, justamente quando implantar um regime político com eleições do tipo das pseudodemocracias ocidentais. Por que? Porque aí os “eleitos” por diferentes partidos estarão dependendo das contribuições dos capitalistas e do acesso à mídia comercial. Boa pergunta: quem controla na China as TVs mais acessadas pela população?

Até o momento, enquanto o partido único detém a direção política e a da economia, não se pode dizer que a China seja capitalista. Só o será quando os capitalistas assumirem a direção do Estado, e isso é algo que tem que ser verificado na essência e não na forma. Aqui os capitalistas não estão oficialmente na direção do governo, mas exercem seu império sobre o governo, através de indivíduos completamente subordinados e controlados por eles.

Bem, faltou responder a pergunta de Mtnos: por que o capitalismo chinês seria diferente?

Para responder, é preciso saber se o capitalismo é o regime existente na China. Se for, ele não será diferente do ocidental, na medida em que na China o campo esteja aberto à concentração econômica irrestrita

Mas a questão é saber se isso está ocorrendo na China, ou se ali os dirigentes políticos ainda se mantêm independentes da classe de bilionários que surgiu no rápido processo de desenvolvimento econômico por que esse país passou. Resta saber se os mandarins do partido comunista ainda sofrem maior influência das bases e da cultura tradicional chinesa mesclada com o marxismo, ou se essas influências estão sendo suplantadas pela lógica capitalista inculcada por aqueles bilionários. As centenas de milhares de milionários também podem influir na direção capitalista, embora menos que os bilionários, em menor número.

O que ainda faz a diferença do sistema chinês é o fato de a quase totalidade dos bancos serem estatais, pois o poder sobre os bancos  é determinante de quem manda num país. Além disso, a diferença na evolução da China para o desenvolvimento, comparada com os processos mais antigos ocorridos na Inglaterra, EUA, Alemanha, França, Japão etc., é que, embora em todos o papel do Estado tenha sido decisivo, a China partiu de um sistema muito mais estatizado, e foi o único desses, e também entre os demais países, que logrou manter as empresas transnacionais estrangeiras, que admitiu, obedientes às suas regras.

Então, se você equalizar os conceitos de democracia e casa da mãe Joana, o Brasil poderá ser considerado o supra sumo da democracia, pois aqui -  de resto a partir de um golpe de Estado, nada democrático, o de 1954 - as transnacionais foram convidadas e subsidiadas para ocupar o mercado e fazer gato e sapato do País.

Em suma, a meu ver, a China não é um país capitalista, pois a direção dele não está nas mãos de uma oligarquia financeira “privada” detentora dos cordéis que manejam os bonecos investidos dos cargos eletivos e públicos, o que não exclui a possibilidade de vir a sê-lo.

Abraço,

Adriano Benayon

Fechaspas.


 Abraspas:

Muita gente confunde capitalismo com democracia. É óbvio que o capitalismo pode existir sob uma ditadura como está provando o Estado Chinês. Com magnatas como esse da matéria abaixo, o capitalismo chinês fará da China um "estado do bem estar social"? (welfare state?) . Há um fator psico-ideológico em que se alicerça  a crença de que o capitalismo chinês será mais humanizado que o americano, devido à forte intervenção do estado. Ocorre que a economia capitalista tem suas leis próprias sendo um delas a concorrência predatória. Um exemplo: duas empresas concorrem entre si para ver quem assume a liderança no mercado. Uma das táticas mais comuns para essa conquista é a redução preço. Para obter essa vantagem as empresas precisam fabricar maior quantidade de produtos. Quanto maior for essa quantidade menor será o preço. Ora que chance tem a outra empresa que produz menos de prosperar no mercado, fazendo o mesmo produto? Uma das formas mais elementares de aumentar a produção é COMPRANDO A EMPRESA CONCORRENTE. O resultado deste processo é a crescente concentração de capital que beneficia uma minoria em detrimento da maioria. A concorrência leva inevitavelmente a essa concentração. Por que o capitalismo chinês seria diferente? Passamos a palavra para um especialista no assunto: Adriano Benayon.  

Mtnos. 

   Fechaspas.

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