domingo, 13 de abril de 2014

Um primoroso artigo de Cláudio Emerenciano. Quadrantes de hoje só teve artigos de primeira.

Encontros da vida

Publicação: 13 de Abril de 2014 às 00:00 | Comentários: 0
Tribuna do Norte
Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

Madrugada. A cidade dorme. Abro a janela do meu mundo e contemplo minhas raízes sentimentais. Ingressei anos atrás na chamada terceira idade. Transpus há algum tempo o “rubicão” dos sessenta anos. O silencio da cidade é cúmplice na tentativa de reencontrar afeições, sonhos, esperanças, alegrias, tristezas e motivações do seu universo humano. A cidade sofreu, desde minha infância, fantástica, inesperada e imprevisível transformação. Metamorfose igual ao desabrochar de uma rosa. As pétalas se abriram e revelam outro ser. Semelhante também à transfiguração de uma moça. Ontem menina, amanhã mulher. Inquieta-me a dúvida sobre a maneira de ser dos seus habitantes. Tempo entre minha infância e, agora, esse “novo mundo”.

As ventanias, bruscas e fortes, sobretudo na imensidão da noite, rompem a calmaria do sono da cidade. Os morros que a adornam parecem declamar, aos primeiros clarões da aurora, a poesia da natureza. Ostentam sua indumentária verdejante e albergam pássaros, que cantam sua renovada saudação ao novo dia. É uma espécie de sinfonia pastoral, que, infelizmente, é despercebida por maioria da população.

Há conceitos sedimentados séculos e séculos atrás. Alguns emergiram da aurora dos tempos. Homero, na Ilíada e na Odisséia, decantou o espírito libertário de povos que habitavam margens de mares e oceanos. Seu mais notável personagem, Ulisses, possuía os atributos da coragem e da ousadia ante o desconhecido por vir de uma ilha, Ítaca. A provinciana Natal dos anos vinte, trinta e quarenta, cenário das emulações e confrontos entre xarruas (moradores da Cidade Alta) e canguleiros (habitantes da Ribeira e das Rocas), está consagrada nas “Actas Diurnas” de Cascudo. Essas crônicas sublimam hábitos, costumes e sonhos de uma cidade voltada para o mar. Cidade livre, aberta, imbuída de um espírito talássico, como sempre dizia e repetia o saudoso Odilon Ribeiro Coutinho. Espírito e circunstâncias genialmente captados por Newton Navarro.

Somos universais. Temos sonhos estendidos e debruçados sobre o mundo. Sentimos, sofremos ou desfrutamos alegrias e tristezas. O amor à mulher amada, à terra e aos seus encantamentos. Eis o tema exclusivo dos nossos poetas. Reporto-me ao meu tio-avô, Gotardo Neto, cujos poemas suspiraram a amargura do amor perdido, a desilusão da paixão desfeita, a perda, mas não o esquecimento, da musa de sua vida e dos seus sonhos. As cartas de Heloísa eternizaram seu amor por Abelardo. As de Gotardo projetam seus sentimentos no infinito. O mesmo aconteceu com Ferreira Itajubá e Otoniel Menezes. Laura e Petrarca, Beatriz e Dante, Julieta e Romeu, assumiram nesses poetas versões locais dos seus dramas e tragédias.

Há um contraponto afetivo e nostálgico. Subitamente me sinto arrebatado e reconduzido ao passado. Natal dos anos quarenta e cinquenta. Cidade da minha infância. A Avenida Rio Branco, centro e coração da cidade, era um largo e extenso corredor onde se alternavam, predominantemente, casas em estilo “belle époque” e as grandes lojas da cidade. Suas amplas calçadas eram assombreadas por abundantes “ficus de bejamim”.  Suas cercanias, onde ainda hoje se incluem o “Grande Ponto”, as avenidas João Pessoa e Ulisses Caldas, as Praças João Maria, Sete de Setembro e André de Albuquerque, formavam, naquele tempo, um conjunto harmonioso, bucólico e saudosista. Subsistia um climax evocativo do pós-guerra. As pessoas viviam descontraidamente. A placidez do cotidiano era contagiante. Laços provincianos coexistiam com as inovações trazidas pela Guerra nos hábitos e costumes. Germinava latente, desde os tempos épicos da aviação, uma vocação cosmopolita.

Bares, restaurantes, casas de lanche e sorveterias, confeitarias, o célebre “Natal Clube”, os cinemas Rex e Rio Grande, a Praça Pio X, ainda exibem, em minha memória, as marcas de uma época em que o regional incorporava espontaneamente o universal. Sem rendição nem mácula. Os bondes circulavam em quase toda cidade.  Seus passageiros, sem a pressa dos dias de hoje, deixavam entrar em seus corações a beleza singela da cidade que amavam. Êxtase num pomar. Esplendor de vida e sentimentos. O ritmo da vida na cidade não conhecia o estresse nem a ansiedade.

Os homens capturam sentimentos, sonhos e experiências do passado para legitimar seu presente. A alma da cidade hoje é o que ela foi no passado. É intemporal, como disse João do Rio em “A Alma encantadora das Ruas”. São vivências. Como as que ganharam perenidade em “Cabra das Rocas” de Homero Homem. Em todas as manhãs, o sol despontando e o dia nascendo, a cidade vive, unindo passado e presente...   

Li, recentemente, belíssima crônica de Rubem Braga. Decantando o viver no Rio de Janeiro. Chamando-o de “paraíso terrestre”. O meu paraíso é Natal.  Sempre viva na ternura dos que verdadeiramente a amam e liricamente a possuem.  

Um comentário:

  1. Acho sempre lindos, os artigos do professor Cláudio Emerenciano. Leio os publicados na coluna quadrantes da Tribuna do Norte. Parabéns e minha admiração.

    ResponderExcluir