segunda-feira, 9 de junho de 2014

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Livro de Ivoncísio vai além da história

Nelson Patriota - escritor

Mais do que um livro de história, esse novo livro que o professor Ivoncísio Meira de Medeiros intitulou de “Contando histórias: ensaios históricos e biográficos” (Natal: FJA, 2014 – Coleção Cultura Potiguar, n. 51), é um volume que, embora se constitua num empreendimento bem-acabado no gênero, o extrapola, na medida em que se reinventa como lugar também da poesia, da literatura e das artes plásticas.

Nesse sentido, o autor conta histórias que dizem respeito a um amplo espectro de interesses, seja em sua cronologia – onde uma vasta gama de temas da história colonial potiguar, bem como de sua história mais ou menos recente – desfila aos olhos do leitor como um rico caleidoscópio de cores em permanente mobilidade, seja em sua vertente ensaística, que traz à tona temas correlatos de literatura e artes plásticas.

Mas à diferença de um compêndio regular de ensaios de história, esse novo livro de Ivoncísio não se limita a tocar em temas ou fatos consagrados pela historiografia oficial. Seu espectro de interesses inclui a análise das fontes primárias em quase todos os seus capítulos, o que revela o perfil de pesquisador do autor por trás dos textos, checando-os e confrontando-os, e deixando ao leitor as ferramentas da análise.

A esse respeito basta que se acompanhe a correspondência entre os líderes tapuias Pedro Poti, Felipe Camarão e Antônio Paraupeba, que expõe as fraturas da luta indígena no contexto das guerras coloniais potiguares que os coloca em posições contrárias e irreconciliáveis.

O capítulo que trata da carta de Feliciano Coelho de Carvalho para o rei Felipe II é outra pérola da história colonial que precisa de mais visibilidade na nossa história devido à riqueza de fatos que se cruzam na missiva. Em igual medida, a leitura do ensaio “A viagem de 1501”, bem como o texto que o segue, “Rio Grande, capitania de Sua Majestade”, são inovadores e elucidativos do estilo de Ivoncísio no trato dos temas históricos potiguares.

Aliás, esse é um tema dominante em quase toda a primeira parte do livro. Basta que se passe a vista pelo sumário da obra, que se abre para um vasto painel de história potiguar, campo em que se destacam ainda um capítulo sobre o pintor batavo Frans Post e o outro sobre o mártir potiguar Padre Miguelinho.

Os assuntos seguintes como que dão um salto no tempo para recair sobre o século 20, respingando ainda na contemporaneidade. Aí cabem discussões sobre a justiça eleitoral, o julgamento contra a diplomação do monsenhor Walfredo Gurgel, a questão autoral do hino do Rio Grande do Norte, as cinco décadas da Aliança Francesa em Natal, entre outros.

Em sua segunda parte, denominada de “Ensaios biográficos”, o livro se detém sobre personagens da vida cultural potiguar. E aí deve-se prestar especial atenção aos perfis de Jayme Adour da Câmara, Clarice Palma e José Mauro de Vasconcelos, não somente pelo que estes representam culturalmente, mas pela riqueza de informações que o autor reúne em torno deles e que poderiam servir de ponto de partida para uma futura biografia de cada um desses personagens. Isso também vale, naturalmente, para os demais perfis que compõem o capítulo.

É nesse aspecto que “Contando Histórias: ensaios históricos e biográficos” extrapola os limites da pesquisa propriamente histórica e envereda pela sociologia da cultura, etnografia, história das artes e outros temas afins. O que, de certo modo, retoma a vereda aberta com os estudos sobre duas telas, constantes na primeira parte do livro: “Frans Post e o quadro ‘Kastel Keulen aan Rio Grande’”, e “O quadro histórico de ‘Miguelinho perante o tribunal’”. 

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