segunda-feira, 23 de junho de 2014

Ulisses de Góes, o criador de escolas e cooperativas de crédito em Natal.

Ulisses de Góes (2) – Jurandyr Navarro


A Educação, com “a Escola de Comércio do Professor Ulisses de Góes”, serviu de alavanca para muitos dos seus alunos ocuparem, na maioridade, posição de relevo na sociedade da Cidade dos Reis Magos.
Cooperativismo – na gestão do Bispo D. José Pereira Alves, em Agosto de 1926, é fundada a Caixa Rural e Operária de Natal, com Ulysses de Góes à sua frente.
A primeira Cooperativa de Crédito de Natal foi composta de Ulisses de Góes, Perceval Caldas, Juvino dos Santos, Felipe Nery de Andrade e Clidenor Pereira. O seu número teve um crescendo significativo em pouco tempo, levando-se em conta o natural atraso da época. Mesmo assim, no curto período de seis anos – 1931-37, já contava cerca de vinte e quatro Cooperativas, sendo dezessete Caixas Rurais, uma Caixa de Crédito operária e uma Cooperativa de Consumo de Funcionários Públicos.
No início dos anos cinquenta já existiam sessenta e dois estabelecimentos de crédito cooperativos no Estado do Rio Grande do Norte. O trabalho encetado pelo Professor Ulisses granjeou adeptos e seus frutos se multiplicaram.
Em 1951, a 16 de Julho, a Congregação Mariana criou o Instituto de Assistência aos Cegos e Surdo-Mudos, que ficou sob a direção criteriosa do médico Ricardo Barreto. Mantinha tal Instituto, uma Escola de leitura do método Braile.
Desenvolvimento Econômico – Dotado de um cérebro atilado para liderar e administrar não podia ficar insensível à necessidade inadiável, naquele tempo, da implantação da eletrificação, para acionar a incipiente indústria riograndense. Foi com denodo que Ulisses de Góes se atirou de corpo e alma nessa Campanha, nos anos cinquenta para os anos sessenta, até a sua consumação no Governo Aluízio Alves.
Imprensa – Em 1922 o Bispo D. Antônio dos Santos Cabral cria o jornal “A Palavra”, como órgão da Congregação Mariana. Dois anos depois, o então grande orador sacro, D. José Pereira Alves, funda o jornal “Diário de Natal”. Neste matutino o Professor Ulisses teve participação ativa ao lado do Monsenhor João da Matha Paiva, Alberto Roselli, José Ferreira de Souza, Oscar Wanderley e outros. Perdurou até 1932. Neste ano foi criado o “Centro de Imprensa” da Diocese, a 30 de setembro. Inicialmente foi dirigido pela cúpula do marianismo: organizado o centro, surgiu o vespertino “A Ordem”! Compunham a organização Otto de Brito Guerra, o Padre Luiz Monte, Ulisses de Góes, Felipe Nery, Francisco de Oliveira Neco, Francisco Veras Bezerra, Hemetério Serrano Lyra, José Borges de Oliveira, Manoel Genésio Gomes, Vital Joffili, Manoel Rodrigues de Melo, Monsenhor Alves Landim e outros. O seu primeiro número circulou a 14 de Julho de 1935, com o Editorial escrito pelo Padre Luiz Monte, intitulado “Nossos Propósitos”. O jornal durou cerca de trinta e cinco anos, até o final da gestão de D. Eugênio Sales como Bispo de Natal.
Esse grupo enxergou a grande força do jornal numa comunidade. Na Igreja, o Púlpito deveria ser ampliado.
É o jornal o arauto dos tempos modernos. A mensagem humana sempre teve a necessidade de uma tribuna para ditar as normas da sociedade politicamente organizada. Com os Hebreus a Assembleia dos Anciãos pregava a palavra da experiência. Surgiu a Agora da Polis, o Aerópago Ateniense, o Fórum, o Senado Romano. Hoje, a sua voz ecoa do Parlamento político, do Púlpito dos templos religiosos, da Praça pública.
Ulisses de Góes visualizava o jornal não com o prisma encarado pela maioria das pessoas, ou seja, de mero divulgador de noticias, espécie de mensageiro que se conduz à frente das revistas e dos livros, a notícia em primeiro lugar, o mensageiro das novidades da política, da economia, das descobertas científicas, registrando a evolução das religiões, o desenvolvimento dos esportes, noticiando a tragédia e a comédia da vida, enfim, tudo que merecesse divulgação.
Para ele o jornal não era somente esse diário noticioso, propagador de eventos sociais tinha ele, também, sobretudo, o seu valor intrínseco, como arma poderosa, podendo, com os livros e revistas, ser instrumento do bem ou do mal.
Bem orientado e bem dirigido, sustentado pela alavanca da Moral, seria educador por excelência, complementando a pedagogia das escolas. E, inversamente, acarretaria consequências danosas à sociedade.
Daí a diferença entre a chamada imprensa noticiosa e a imprensa educativa. E se esta última envolver em suas matérias o bálsamo salutar da Religião, poderá ser chamada de Boa Imprensa.
Esta, a imprensa de Ulisses de Góes.
E não somente isto. Ele fazia jornalismo, não por diletantismo ou prazer pessoal, ou ainda profissionalismo; mas, imbuído do intento primacial de difundir o Bem: utilizar um dos veículos mais importantes da comunicação do mundo para essa finalidade, sem a qual, a imprensa seria transformada em balcão para negócios ou servir à politicalha, “a velha barregã e a malária dos povos”, no dizer de Rui Barbosa.
Incomensurável o valor do jornal, tal, o dos livros, revistas, rádio, televisão. A informação destes últimos são mais voláteis, desaparecendo com o efeito da imagem e do som, em minutos, da nossa percepção sensorial. O efeito do jornal, pelo contrário, perdura como do cinema gravado e da Internet. Passa o jornal de mão em mão, podendo ser lido e relido, continuamente, conduzindo o facho sempre aceso da informação.
Ulysses de Góes sabia da importância fundamental da imprensa escrita, do seu fascínio, da sua alta literatura e do seu poder. Antes dele, Pio XI já havia alcançado e percebido o concurso valioso da imprensa católica, ao ponto de declarar ser ela a sua própria voz! Da mesma forma se expressou o seu sucessor, em relação à sua imperiosa necessidade.
As afirmações dos dois Pontífices do mundo moderno foram postas em prática pela comunidade do catolicismo universal.
São Francisco de Sales, no seu tempo, sentiu, também, a força da palavra escrita, enxergando que os Sermões proferidos dos púlpitos da sua Igreja, somente eram ouvidos por reduzido numero de fiéis. E teve a feliz ideia de redigir boletins e distribuí-los no seio da comunidade em que vivia, Anecí; e, depois, em Genebra, combatendo as heresias de Calvino, alcançando, dessa forma, um dilatado conglomerado social. Depois, essas notas avulsas receberam a denominação de “Controvérsias”, por meio das quais, conseguiu converter inúmeros incrédulos.
Foi São Francisco de Sales o primeiro jornalista católico, e, por tal, é hoje o Patrono dessa categoria profissional.
Ulisses de Góes não só incentivou, e ajudou a criar jornais, mas, neles dava o seu testemunho eloquente, escrevendo muitos artigos e concedendo entrevistas as mais diversas. Pertenceu aos quadros da Associação Brasileira de Imprensa – ABI, e tem matrícula número 01 (um), na Associação do Rio Grande do Norte.
O jornal, igualmente ao coração, marca o pulsar de uma sociedade: os seus propósitos, os seus anseios, as suas desditas, a sua esperança… Já houve quem dissesse ser ele uma enciclopédia. Notícias, divulgações, ilustrações de todos os matizes dão um colorido vivo às suas páginas. Cérebros inteligentes descortinam nos seus escritos paisagens de sabedoria Peças literárias radiografam a cultura de um povo. O legado do passado constrói a sua história. Heróis da santidade, do civismo pátrio, imolados da ciência nele recebem a sua homenagem. O jornal tudo registra: o crepúsculo do ancião, a sua dor; a aurora do jovem, a sua felicidade; o sorriso da criança, a sua alegria; o amor dos amantes, a prece do penitente, o heroísmo do mártir, a pureza da donzela, o triunfo do espírito sobre a matéria. A tudo o jornal noticia, fotografa e comenta.
E ele o professor, o médico, o advogado, o padre. Podendo, também, ser o bandido…
Nas suas linhas a sociedade é retratada e delas se utiliza para o intercambio da linguagem escrita; delas se utiliza para a cobrança de seus direitos postergados; utiliza-se delas para firmar sua cidadania amparada pela justiça e pelas normas civilizatórias.
Das suas páginas partiu o J’Acuse! de Zola, que pôs em liberdade um inocente, limpando a honra vilipendiada.
Tal o dever da Imprensa. Disto ela não pode se arredar sob pena de se transformar em instrumento propagador do maléfico. A Boa Imprensa, a imprensa católica, a imprensa de Ulysses de Góes, não pode fugir aos ditames das consciências sociais e patrióticas.

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