segunda-feira, 28 de abril de 2014

Desinternacionalização prematura?

Rubens Ricúpero

Fonte: folha de s.paulo. 28.04.14

Não contente com a contribuição que deu à desindustrialização precoce, a fúria arrecadadora ameaça colocar ponto final em mais um episódio prematuro de internacionalização das empresas brasileiras.
O episódio anterior, envolvendo a Interbras, a proliferação de agências do Banco do Brasil, do finado Banespa e da Petrobras, prosperou na era Geisel e acabou vítima da crise da dívida a partir de 1982. Uma das consequências foi a liquidação do ciclo dos grandes projetos de infraestrutura.
Antes do desastre, o setor público investia 6% do PIB em infraestrutura. Essa idade de ouro terminou para sempre quando o investimento desabou para menos de 2%. O encolhimento deixou capacidade ociosa em construção, que teve de se expatriar para não morrer.
Ajudadas pelos créditos do BNDES, duas ou três companhias de excelência no ramo da construção provaram ser capazes de vencer no competitivo mercado mundial. Mais tarde, a duras penas, lograram repetir a proeza algumas poucas empresas de excelência tecnológica das quais a Embraer é expressão emblemática, seguidas pelos exportadores de produtos oriundos de recursos naturais: minérios, grãos, carnes, cosméticos.
O êxito desses exemplos de internacionalização é notável por ter sido alcançado contra todas as chances. Na experiência mundial, as firmas que se tornaram multinacionais foram impulsionadas por longos períodos de crescimento acelerado de seus países, caso do Japão, da Coreia do Sul e agora da China. No Brasil, é o contrário: o baixo crescimento, a crise econômica é que forçaram a internacionalização.
Na origem do fenômeno, a Inglaterra vitoriana, a acumulação de superávits crescentes no balanço de pagamentos gerou os excedentes de capital que possibilitaram os investimentos externos britânicos, suplantados depois de 1914 pelos EUA e hoje da China. Nesse particular, o Brasil também é anomalia, pois sofre de problema crônico no balanço de pagamentos e de carência de poupança e capital doméstico.
As multinacionais brasileiras vinham sendo pressionadas de três lados: baixo crescimento, alto custo de capital e assustador aumento do deficit em conta corrente. A isso se somavam inflação crescente, ameaça de rebaixamento de crédito, taxa de câmbio errática.
Pelo menos uma multinacional que se tornara brasileira, fugindo da Argentina, decidiu virar americana para melhorar seu custo de capital e escapar do risco Brasil.
Ora, é nesse momento que o governo resolve aprovar a MP 627 criando alíquota de 35% sobre lucros no exterior de empresas que enfrentam já concorrentes favorecidas em todos esses quesitos!
Trata-se do mesmo governo que, através do BNDES, até ontem estimulava a criação de "campeões nacionais" para competir lá fora.
Não há escolha: como a escala da competição é global, e não nacional, quem não se globaliza acaba comprado, como ocorreu com a Metal Leve, a Cofap e uma infinidade de antigas estrelas da indústria. Ao liquidar as multinacionais brasileiras, o governo arrisca estimular a colonização do Brasil pelas multinacionais estrangeiras.


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domingo, 27 de abril de 2014

No Maranhão tudo é ão.

ÃOS E INHAS

Públio José – jornalista

                                     
                   Todos sabem que no Maranhão os superlativos começam pelo nome do estado, com um ão no final. E, ao se dar uma espiada mais acurada em sua história ao longo do tempo, vê-se que no Maranhão tudo é ão mesmo. A miséria maranhense é ão; a pobreza generalizada é ão; o analfabetismo também não fica atrás e é ão; a escravidão política do povo maranhense também é ão; a educação por lá também é ão pela péssima qualidade; a saúde não fica atrás de ruim e se perfila aos demais aspectos da realidade do estado também sendo ão; a economia, de tão concentrada, também é ão; as estradas, quase inexistentes, também são ão; enfim, tudo no Maranhão é ão. Tudo lá é aumentativo – com viés e essência negativos. Para completar a realidade ão do Maranhão, a Procuradoria Geral da República está em vias de entrar na Justiça do Estado pedindo a intervenção pela crise de segurança que atinge o Maranhão.
                        E, numa região do Brasil em que tudo é ão, aparece um diminutivo para confundir as coisas e criar um paradoxo digno das criações mais tresloucadas do mais tresloucado roteirista. Refiro-me ao CDP – Centro de Detenção Provisória de Pedrinhas. Ironizando ainda mais a história do Estado, esse CDP que atende pelo nome de Pedrinhas é a instituição mais ão do Maranhão, uma verdadeira casa de horrores. Segundo levantamento do jornal Folha de São Paulo, o inha do Maranhão é responsável pela morte de sete detentos só nos quatro meses deste ano, de um total de dez assassinatos ocorridos no interior do sistema prisional maranhense. E são mortes de deixar boquiabertos os piores matadores da história da humanidade, a ponto de chamar a atenção da imprensa internacional e levar a Procuradoria Geral da República, como já dito, a solicitar à Justiça a intervenção federal no Estado.
                        Segundo a Folha, para a imprensa estrangeira, “Pedrinhas tornou-se, desde o ano passado, sinônimo de violência e barbárie do que ocorre nas cadeias brasileiras”. Ou seja, do bárbaro, insano e bestial sistema prisional brasileiro, Pedrinhas se destaca por ser ainda mais bárbaro, mais insano, mais bestial. Por lá, com a capacidade gerencial ão do governo, as coisas alcançaram o mais alto patamar do ão, do absurdo. Vídeo da Folha mostra em detalhes o horror de três presos sendo decapitados, “enquanto seus algozes comemoram, com deboche, o assassinato frio”. E isso tudo acontecendo em um Estado dominado pelo poderoso senador José Sarney, cujo staff – entre asseclas, correligionários, lideranças as mais diversas e familiares em abundância – faz o Maranhão permanecer no mais baixo degrau da escala da pobreza, da miséria, da ignorância, da violência, do analfabetismo.   
                        E Pedrinhas? Não é uma graça esse nome? Pedrinhas... Parece até literatura infantil. Pedrinhas... Em criança, lembro de passar tempo na praia recolhendo pedrinhas. Com elas eu cultivava a imaginação, além de usá-las para várias atividades de lazer. Pedrinhas eram dinheiro nos jogos da meninada; pedrinhas eram munição para baladeiras; pedrinhas eram veículos nas estradas da imaginação; pedrinhas eram elementos de decoração na sala de estar da família; pedrinhas, nas aulas de desenho da escola, eram elementos para exercitar os dotes artísticos de futuros pintores e desenhistas. Tudo muito inocente; tudo muito inhas. Hoje, o Brasil descobre que em um ambiente ão, como o do Maranhão, o inha representa o lado mais negro, mais sórdido da perversidade humana agregada à incompetência – a ponto de tornar o já enorme ão do Maranhão muito mais ão. Pedrinhas... Pobre Maranhão...