terça-feira, 18 de novembro de 2014

Polícia. E quem precisa?

Polícia. E quem precisa?
Postado em 12 Nov 2014 17 36 Outro Olhar










A reinvenção da violenta polícia brasileira  
exige a mudança da ideologia de segurança, o fim  
da corrupção e a excelência na formação profissional  


por JOMAR MORAIS


Dados da ONG Fórum Brasileiro de Segurança Pública deixariam o país estarrecido, não fosse a vitoriosa cultura do medo que há décadas vem sendo promovida pelas autoridades de segurança, com a conivência interesseira de certos comunicadores e empresas de mídia, como forma de sustentar, de um lado, uma máquina policial falida e o sistema de corrupção no serviço público do qual ela é uma das jóias da coroa e, de outro, os lucros advindos de uma guerra por audiência imoral e hipócrita.

Segundo o Fórum, entre 2009 e 2013 a polícia brasileira matou 11.197 pessoas, mais do que a polícia dos Estados Unidos nos últimos 30 anos (11.090 mortos)! 

À primeira vista o número já é um horror e mostra que algo essencial está falhando em nossas corporações policiais. Mas isso se torna mais grave quando se leva em conta que a comparação foi feita com um país que não é exemplo de sociedade pacificada e com uma polícia que não se destaca pela abordagem civilizada. Que o digam os negros americanos e a própria estatística estadunidense. Mais de um 11 000 assassinatos cometidos por policiais em 30 anos é um escândalo, se comparados à eficiente polícia do Reino Unido, que até há pouco -- antes que a Grã- Bretanha virasse alvo do terrorismo –   não raro disparava apenas uma bala por ano, sem registro de vítima fatal.

Que a polícia brasileira precisa ser reinventada, é uma conclusão quase consensual, ainda que não sejam as mesmas as motivações dos brasileiros que apontam para esse rumo. Mas qualquer reforma do aparelho policial se perderá no nascedouro, se não focar as raízes dessa crise institucional: a ideologia de segurança, que até aqui serve para assegurar privilégios e reprimir os mais pobres; o sistema corrupto gerido fora da corporação policial, no ambiente político, que sustenta e protege o mar de lama dos policiais truculentos ou corruptos; e a formação profissional – a seleção, a instrução e o cuidado humano com o policial.

Por escassez de espaço, concentro-me aqui em apenas um dos itens: o da formação profissional, o mais importante, pois interage diretamente com a população que paga impostos e deveria ser beneficiada com serviços eficientes.

Desconfio que, no Brasil, a polícia se tornou o desaguadouro de jovens que, incapacitados para outras funções numa sociedade competitiva, encontram na corporação policial um porto de estabilidade e status. Não são, portanto, vocacionados para a missão. Entre esses, muitos são portadores de transtornos de personalidade que não são detectados em testes psicológicos superficiais e que se agravam no dia a dia tenso de uma profissão crítica. 

Some-se isso a falta de instrução sobre leis, psicologia, direitos humanos e, sobretudo, nenhuma aplicação de técnicas de centramento da mente e controle das emoções no treinamento do profissional e se terá, no fim da linha, o desequilibrado perfeito para enfrentar a violência com o único recurso possível a quem está dominado pelo medo: a violência.

Bingo! O sistema venceu.

[ Publicado na edição do Novo Jornal de 11/11/14 ]