sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Para conservadores nos EUA, papa é 'marxista' e 'ambientalista radical'

  • Há 6 horas
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Reuters
Direita dos EUA tem menos estima por Francisco em comparação com os papas anteriores
Menos de dois anos se passaram desde que o argentino Jorge Mario Bergoglio foi designado para ser o novo papa.
E se, por um lado, conquistou admiradores entre fiéis pelo seu carisma, por se mostrar disposto a romper protocolos e por não ter papas na língua - e dar declarações surpreendentes e, às vezes, polêmicas -, pelo outro, se tornou alvo de críticas de um setor feroz e ressonante: a direita americana.
Ao condenar o "capitalismo selvagem", a "ditadura da economia" e a "obsessão" da Igreja Católica com aborto e gays - além de apontar para a responsabilidade da ação humana nas mudanças climáticas - ele causou grande descontentamento entre setores mais conservadores do catolicismo americano.
Segundo um artigo publicado esta semana na revista Time, sua recente decisão de abrir caminho para a beatificação do arcebispo salvadorenho Óscar Romero, chamado de "comunista" por alguns, foi bastante criticada por estes setores, que não escondem ter tido mais admiração pelos antecessores de Francisco, os europeus João Paulo 2º e Bento 16.
Estrelas do ultraconservador Tea Party, como Sarah Palin ou Rick Santorum, não poupam críticas à "agenda liberal" do papa.
Santorum, pai de uma família numerosa, chegou a falar que "às vezes é difícil escutar" o papa Francisco, após a polêmica declaração deste dizendo que "ser um bom católico não significa ter filhos como coelhos".

'Puro marxismo'

Getty
Radialista conservador Rush Limbaugh disse que ideias de Francisco são 'marxistas'
Em entrevista ao jornal italiano La Stampa, o papa defendeu que sua visão sobre a redistribuição da riqueza, as injustiças do sistema capitalista e a necessidade de ajudar os mais pobres é inspirada no Evangelho e não tem nada a ver com marxismo ou comunismo.
O pontífice respondia assim a seus críticos nos EUA, que, liderados pelo influente radialista Rush Limbaugh, tinham atacado o papa pela publicação da exortação apostólica Evangelii Gaudium, na qual, entre outras coisas, rejeitava as teorias que afirmam que o livre mercado faz com que a riqueza, cedo ou tarde, seja distribuída.
"Isso é puro marxismo saindo da boca do papa", disse Limbaugh em seu programa diário de rádio no fim de 2013, depois da publicação do documento. O programa conta com uma audiência de milhões.
As críticas ao pontífice também chegaram à rede conservadora Fox News. O jornalista do canal Adam Shaw comparou a popularidade de Francisco com a de Barack Obama em seus primeiros dias de presidência.
"Como o presidente Obama, que foi uma decepção para os Estados Unidos, o papa Francisco demonstrará ser um desastre para a Igreja Católica", escreveu Shaw.
O anúncio de que o papa cogita publicar uma encíclica sobre ecologia e mudança climática, prevista para junho ou julho, antes da reunião da ONU sobre o tema em Paris, levou conservadores a dizer que Francisco "tinha uma pauta ambientalista radical".

'Surpresa'

"Acho que chamaram o papa de marxista porque ele usa uma linguagem mais própria da esquerda do que da Igreja Católica e isso foi uma surpresa para muitos nos EUA", disse James Pethokoukis, jornalista e analista do American Entreprise Institute (AEI, na sigla em inglês), centro de estudos conservador de Washington.
Getty
Sarah Palin e o ultraconservador Tea Party não poupam críticas à 'pauta liberal' do pontífice
"Seus comentários sobre o capitalismo são surpreendentes. Parece que ele não valoriza o fato de que o capitalismo foi e continua sendo uma força incrível nos últimos 200 anos para aumentar os níveis de vida de milhões de pessoas em todo o mundo", disse o jornalista em entrevista à BBC Mundo.
Pethokoukis acredita que "muitos conservadores dos EUA sentem que João Paulo 2º e Bento 16 estavam do lado deles, pois pareciam apreciar que o livre mercado é algo bom para criar" riquezas e oportunidades.
"Os conservadores dos EUA que não são católicos e que não estão muito familiarizados com a Igreja Católica e sua doutrina acreditam que (a instituição) passou de um papa conservador e de direita para um de esquerda, radical e até marxista", acrescentou.

Outra conversa

William Doyle, professor de economia da Universidade de Dallas, no Texas, instituição católica, se diz surpreso com a noção de que o papa seria marxista, já que considera que "muitas de suas ideias se encontram implícita ou explícitamente nos evangelhos".
"João Paulo 2º e Bento 16 são mais bem vistos entre conservadores porque passaram muito mais tempo falando dos dogmas do catolicismo, sobretudo os relacionados à moral sexual."
Reuters
Os analistas ouvidos pela BBC acreditam que papa será bem recebido quando visitar os EUA
"(...) O papa Francisco desviou a conversa para o sofrimento que causa a pobreza e a indiferença diante dela, o que acredito que gera incômodos a alguns dos que tem muito dinheiro", afirma o professor.
Para Doyle, apesar das críticas da direita americana, a hostilidade à Igreja Católica seria ainda maior entre os liberais nos EUA, devido aos escândalos de abusos sexuais contra menores envolvendo membros da instituição e por sua postura em relação a questões morais.
O jornalista britânico Austen Ivereigh, autor da recente biografia do pontífice O Grande Reformador, acredita que muitos nos EUA não entendem a mensagem do papa.
"Quando fala da economia e dos mercados, o faz seguindo a tradição da educação social da Igreja Católica. Não está falando de um ponto de vista ideológico."
"Suas críticas aos mercados estão relacionadas com o que chamou de 'cultura do descarte', que estaria na origem de um grande número de desempregados que vivem abaixo do nível da pobreza", disse o jornalista à BBC Mundo.
"Acho que os conservadores nos EUA suspeitam do papa Francisco pois ele vem de uma tradição latino-americana que dá ênfase ao Estado e não entende os benefícios e as virtudes da liberdade de mercado."
Apesar da polêmica que está gerando em alguns setores, alguns analistas consultados pela BBC Mundo acreditam que, quando o papa visitar os EUA em setembro, será bem recebido.
"As pessoas se interessam por este papa porque tem um discurso diferente em muitos assuntos e uma personalidade muito atraente", disse James Pethokoukis.
"Garanto que tanto democratas como republicanos vão querer fazer uma foto com ele."

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Descompromisso explica seca
(*) Rinaldo Barros
Em nosso tempo, a cidade amplia cada vez mais seus horizontes, integra-se ao mundo, universaliza-se, expande-se desordenadamente, rebela-se contra toda tentativa de ordenação do seu crescimento. Sem, contudo, deixar de ser o habitat do homem moderno, o espaço da vida, da cultura, da arte, do lazer, do desenvolvimento e da civilização.
As cidades são a chave para a compreensão do atual processo de desenvolvimento. O século XX presenciou um processo de franca urbanização em todo o mundo, consagrando como modo de vida dominante a vida citadina. A urbanização quase que total dos espaços habitados pelo homem praticamente anula modos de vida alternativos. Não resta, portanto, dúvidas quanto ao predomínio das cidades no terceiro milênio.
Daí porque a qualidade de vida nas cidades é tema obrigatório dos fóruns internacionais e a preocupação central dos líderes políticos, pelo menos dos que têm uma visão bem informada sobre as tendências em curso.
O Brasil vive perigosamente, e tem encontro marcado com a tragédia todos os anos na estação chuvosa. A natureza não vai amenizar suas explosões de energia; e uma estiagem histórica atinge principalmente o Sudeste. Por que?
Os estudiosos explicam que há uma variação no clima da Terra provocada por um ciclo natural no Oceano Pacífico e no Atlântico. O oceano passa por fases em que está retirando energia da atmosfera e absorvendo-a em suas águas profundas. Isso tem impacto em todo o planeta. Uma zona de alta pressão se forma no Atlântico e impede a entrada das frentes frias, uma espécie de bloqueio atmosférico, impedindo a formação de nuvens de chuva.
Para complicar ainda mais, os modelos da Meteorologia não permitem mais fazer previsões confiáveis. As séries históricas não estão mais valendo. As mudanças climáticas estão alterando todos os padrões. Não adianta mais olhar os valores históricos e imaginar que continuarão a se repetir no futuro. Ninguém sabe quando a seca vai terminar.
Por outro lado, o descaso com a ocupação e destruição de áreas de proteção ambiental, matas, margens de rios e topos de morros; hoje pode ser explicado pelo baixo lucro eleitoral de medidas preventivas e saneadoras.
O governo federal nunca esteve presente antes, nem está presente durante e, provavelmente, não estará depois da tragédia; notadamente quando se trata de regiões habitadas por pobres, sem poder de pressão.
Fiquemos apenas na questão do sistema Cantareira, que abastece São Paulo.
A seca é produto de um conjunto de fatores. Primeiro, o aumento da temperatura associado ao aquecimento global (que, ao contrário do que diz o ministro Aldo Rebelo – é assustadoramente real) gera mais evaporação nos reservatórios.
Para piorar, o descaso permitiu que a região sofresse com a destruição da vegetação natural.
Acreditem, na área do Cantareira, só restam 11% (onze por cento) da cobertura florestal. A água da chuva bate no solo, escorre e evapora; não infiltra no solo para alimentar o lençol freático nem para alimentar as represas e nascentes. Constata-se um déficit de mais de 32 mil hectares de vegetação, protegida por Lei.
O descaso permitiu o desmatamento irregular, tanto nas margens dos rios quanto nos topos dos morros, onde estão as nascentes dos cursos d’água.
Só não vê quem não quer: se a vegetação estivesse lá, não faltaria água.
Tanto que, em Extrema, na mesma região do Cantareira, onde ainda há vegetação nas nascentes, a água já voltou a fluir com as poucas chuvas que caíram.
Uma informação, apenas para comparar: a cidade de Nova Iorque - onde não existe descaso - comprou áreas montanhosas na região dos mananciais próximos. Pagou bem para os fazendeiros da região reflorestarem e preservarem. Hoje, Nova Iorque tem segurança no abastecimento hídrico.
Nem vou citar o exemplo de Israel que, no meio do deserto, tem água em abundância.
Mas, no patropi, o cenário é diferente. O Brasil está – temporariamente - dominado pelo improviso, pelo descompromisso, pelo jeitinho, pela propaganda política enganosa, pelo instituto da reeleição a qualquer preço, pela malandragem e pela corrupção destruidora de valores necessários à construção do futuro com dignidade.
Resumo: a fúria da mãe Natureza, reforçada pelo descompromisso, explica a seca.

(*) Rinaldo Barros é professor – rb@opiniaopolitica.com