domingo, 10 de maio de 2015

O Açude e a dor da indiferença.

Por Fernando Antonio Bezerra*

Era uma vez uma cidade nordestina que tinha um açude. Era um lindo açude que, cheio, espalhava água por recôncavos e planícies brotando esperança e gerando vida!

À cidade foi dado um nome: Ociac. Ao seu formoso açude também foi dado um outro sugestivo nome: Snati.
Não foi fácil construir o Açude. Reuniram-se centenas de trabalhadores em uma época onde não existiam máquinas potentes. Era a força do trabalhador aliada a rusticidade de animais e alguns poucos veículos sob um comando alemão. O Açude foi construído. Nunca foi gravemente danificado. Suportou invernos e memoráveis sangrias d’água. Foi durante décadas a maior alegria da cidade...

Mas, a estiagem prolongada foi despindo o velho Açude que, constrangido, parecia ter vergonha de se mostrar. A terra, antes escondida pela verve da água, aflorou em bancos de areia, tornando impossível a travessia, a pesca, o mergulho, o empréstimo para as fruteiras e capineiras. A água, antes reinante, deu lugar a sisudez da terra que, seca, infelizmente, apenas recepciona o cansaço, a angústia e a incerteza.

Nos tempos de Seca, contudo, poderiam ter revitalizado o velho Açude. É natural que a água, nos invernos, traga partículas de areia e, pouco a pouco, diminua a capacidade de armazenamento do reservatório. O Açude, como qualquer outro empreendimento, precisa de cuidados, manutenção e reparos. Dizem, os mais velhos, que a Seca pode ser uma rica oportunidade para manutenção, ampliação e construção de reservatórios d’água. Poucos, entretanto, aproveitam a Seca.

O velho Açude, enfim, assistiu a tudo com a mesma fidalguia, esperando que o homem, qualificado pelas letras universitárias e ungido como autoridade, promovesse sua modesta recuperação. Não o fez. Infelizmente. Na cidade Ociac tinha mobilização para tudo, desde jogo de bozó até o mais alto interesse, mas faltou a defesa do Açude que tantas alegrias havia lhe dado.

A Seca impiedosa foi se repetindo, mudando valores, impondo hábitos, deixando quase ao abandono a dor do Açude que se viu abandonado pelas águas e pelos amigos. A Seca é feroz e, quando chega, bate em todas as portas, sem qualquer distinção.
O Açude, por sua vez, sangrando pela indiferença do homem e pela dor da Seca, resignadamente, aceitou seu destino. A Seca lhe tirou tudo!

Açude seco, terreno,
Só mesmo quem te conhece
Pensa em fazer uma prece
Pra que o sol fique ameno;
E a chuva que abastece
Ver se logo em ti desce
Este é o melhor aceno.
(Walter Medeiros, DRT RN)

Hoje, com limitações, a estória foi genericamente contada e serve como um primeiro alerta. Seria muito bom que ao final do artigo as perspectivas fossem diferentes, mas, pelo ouvimos até hoje, também o Açude Itans, lamentavelmente, está secando em decorrência da grave e atual estiagem que começou em 2012.

*Fernando Antonio Bezerra é seridoense de Caicó

-Com post no Blog Bar de Ferreirinha

Estão brincando com nossos impostos
Tomislav R. Femenick – Contador e Economista

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Após a Segunda Grande Guerra, Edward Murphy, um engenheiro da Força Aérea americana, estudava os efeitos que a rápida desaceleração das aeronaves causava nas pessoas, usando equipamentos que registravam os batimentos cardíacos e a cadência da respiração dos pilotos. Ao realizar um desses testes, constatou que a instalação da engenhoca estava toda errada e cunhou uma frase que deu origem a chamada Lei de Murphy: “Se alguma coisa tem a mais remota chance de dar errado, certamente dará”.
Em 1969, o professor canadense Laurence Peter, publicou com seu colega Raymond Hull, um livreto com o titulo de “The Peter Principle” (O principio de Peter). O tema era o grau da incompetência, existente no gerenciamento dos negócios. Uma das frases mais citadas da obra é esta: “toda organização em expansão caracterizar-se-á pelo acúmulo de peso morto no nível executivo, composto de sublimados por percussão”. Soblimado é aquele tornado sublime; elevado a um alto patamar de grandeza. Percussão aplica-se aos executivos que realizam atos que visam simplesmente produzir evidências de sua atuação, embora essa não agregue nenhum valor ao produto da organização.
Ora tudo o mundo sabe da grande expansão do Estado Brasileiro nas duas últimas décadas. Em contrapartida ao encolhimento do número de funcionários públicos na era FHC, houve um brutal aumento na era PT, isso tanto na esfera federal, estadual e nos municípios. E qual o critério para as contratações? O celebre QI; não o Quociente de Inteligência, mas “quem indicou”. Então se criou um mostro. Um Estado composto por pessoas levadas a um alto patamar de grandeza, que cultivam a sabedoria de fazer as coisas erradas, ocultando tudo isso pela burocracia sublimada às alturas. Não que não haja funcionários públicos competentes e esforçados. O problema é que eles são sufocados pela falta de habilidade e de aptidão e pela inabilidade de seus “chefes da ocasião”.
Nos meus dois últimos artigos citei alguns casos de incompetência e descasos com obras públicas, onde são empregados os impostos que nós, simples e mortais cidadãos, pagamos. Aqui vão outras. Por burocracia, as obras de recuperação de desmoronamento de Mãe Luiza e de recuperação da Biblioteca Câmara Cascudo andam a passos de cágados e as reformas do Forte dos Reis Magos ainda estão na dependência de projetos, licenciamento e licitação.
No capítulo dos absurdos destacam-se os calçadões das praias urbanas de Natal. Todas elas apresentam problemas. Serviços que são realizados há anos sofrem paralisações constantes. Nesse aspecto a Praia de Ponta Negra, nosso principal cartão postal turístico, é imbatível. É um anda e para sem fim. Nas praias do Forte, dos Artistas, Areia Preta e mesmo na Via Costeira há um histórico de fazer e refazer reparos que logo são desfeitos pela natureza, de tão mal feitos como são realizados.
As obras de engenharia dos presídios parecem até que são realizadas com papel machê, tão frágeis que são. O resultado é fuga de presos a toda hora. Todo o trabalho da polícia e da justiça de investigar, prender e julgar criminosos é desperdiçado, é dinheiro jogado fora pela falta de segurança onde ela deveria existir. Resultado: mais assaltos, roubos e assassinatos – sofrimento da sociedade – que demandam por mais trabalho para a polícia e para a justiça. E toda esta calamidade acontece à sombra de 13 convênios assinados com o governo federal e que se vencem ainda no decorrer deste ano, com investimentos previstos na ordem de R$ 43,6 milhões. O mais importante deles, no valor de R$ 14,7 milhões, tem por objetivo a construção da Penitenciaria de Ceará-Mirim, que o prefeito daquele Município agora quer inviabilizar. 
Outras obras no Estado, que contariam com recursos federais, também estão ameaçadas de não sair do papel, principalmente no setor de abastecimento de água. As barragens de Santa Cruz, de Oiticica e do Alto Oeste, estão com seus trabalhos de ampliação, reforço e construção ameaçados pelo contingenciamento fiscal. Enquanto isso, a duplicação da Reta Tabajara, na BR 304, pode virar em mera quimera; pelo menos a curto e médio prazos.
A conclusão que se tira de todos esses desmandos é que a Lei de Murphy estava certa e que o Principio de Peter é perfeitamente aplicável ao serviço público brasileiro. Ou, ainda, que estão brincando com o dinheiro dos impostos que pagamos.
Tribuna do Norte. Natal, 10 maio 2014.