sábado, 27 de junho de 2015

A UTOPIA E A MENTIRA
Tomislav R. Femenick - Economista e Auditor Independente

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Todos os esforços empregados pelos historiadores, jornalistas e outros pesquisadores têm como objeto a busca da verdade. Aqui nos deparamos com um problema: o que é verdade? Para se estudar a verdade, tem-se que enveredar pelos caminhos de outra disciplina; tem-se que se debruçar sobre os “conceitos filosóficos de verdade”, que são múltiplos e às vezes contradissestes e contestadores entre si. O problema torna-se mais complicado quando se sabe que cada um desses conceitos exige um tratamento diferente da verdade.

Essa adjetivação da verdade cria um procedimento coadjuvante para a sua investigação. Se os conceitos sobre a verdade têm origem em definições filosóficas, tem-se que concluir que a verdade como coisa única, eterna e irrefutável não existe. Essa concepção sincrética ou eterna (philosophia perenis) da filosofia morreu por volta do século XVII, quando da ruptura entre a filosofia e a ciência.

Segundo o filósofo norte-americano Donald Davidson a “verdade é uma locução que só depende de duas coisas: do que as palavras significam e de como o mundo está ordenado. Não há nada mais relativo do que isso”. Sendo assim, a verdade não poderia ser encontrada e muito menos enquadrada em uma fórmula. A verdade verdadeira, a “verdade real” seria, pois, uma “noção primitiva”. Em determinadas circunstâncias, poderiam perfeitamente ser aceitas noções múltiplas de verdade.
Outro conceito filosófico sobre o tema é aquele que busca fazer a “adequação da coisa e da ideia(adequatio res et intellectu), encontrado no pensamento de Aristóteles e de São Tomás de Aquino. Embora seja das mais antigas, essa visão da verdade é uma das mais falhas e sua falha maior está em apresentar uma adequação perfeita entre o fato e o elemento de sua comprovação. É a “certeza” não cientifica da verdade, que acaba por induzir certos estudiosos a fazer a adequação dos acontecimentos à “sua certeza da verdade”, muitas vezes nascidas de perspectivas nada científicas, tais como a fé e a ideologia. Ai, então, cria-se mitos e não relatos verdadeiros.
E por que todo esse falar sobre a verdade; perdão, sobre as verdades? É que certo cronista publicou, em uma dessas revistas mantidas por verbas públicas, um alentado estudo pseudocientífico falando sobre “os novos tempos da vigorosa economia brasileira, sob a bandeira do pensamento e do governo petista”. Seria risível se não fosse tolo, irresponsavelmente, propagandístico. Suas teses são como as folhas de outono: voam, mas não nem se sustentam no ar. Vejamos alguns pontos levantados pelo “eminente” sábio petista. A primeira delas é pretensiosa demais da conta, como dizem meus alunos: a inflação somente teria ido embora (e foi?) por causa da atuação firme de três pilares da política econômica dos governos Lula e Dilma, Antonio Palocci, Henrique Meirelles e Guido Mantega. Outra: a primeira política social do governo brasileiro foi a campanha “Fome Zero”, implantada logo no início da gestão lulista. Mais uma: foi nos governos do operário-presidente e da gerentona que a Polícia Federal começou a prender bandidos de colarinho branco e não só os “três pés”; pobre, preto e puta.
            Grande cronista... Grande petista... Grande bajulador...
            Vejamos o quando tem de verdade nessa versão de bajulice explicita. Não há como não concordar que a política econômica dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva foi a coisa mais certa dos seus dois mandatos. Todavia, ela foi uma “herança bendita” do governo de Fernando Henrique Cardoso, simplesmente continuada por Palocci e Henrique Meirelles; depois Mantega bagunçou tudo. Aliás, Meirelles quando foi convidado para assumir o Banco Central era deputado eleito pelo PSDB, partido do governo anterior. Ora, todo mundo sabe que o tiro mortal contra a inflação teve arma e autor identificados; o plano real (ao qual o PT foi contra) e FHC, na época ministro de Itamar Franco. Como também todo mundo sabe, a política econômica do primeiro mandato de Dilma Rousseff foi um desastre completo.
            Quanto a “Fome Zero”, as torcidas do Flamengo e do Corinthians sabem que ela é irmã gêmea da Viúva Porcina, a que foi sem nunca ter sido. Sem sombra de dúvida, a grande atuação social do governo Lula foi a Bolsa Família; que teve origem na Bolsa Escola, no Vale Gás e outras do governo anterior. Mas, justiça se faça, sua amplitude a transformou numa das melhores, não fossem as maracutaias nela embutidas.
            Dizer que a Polícia Federal somente começou a trabalhar agora é o mesmo que dizer que seus delegados e agentes nunca trabalharam; é uma inverdade e até uma ofensa. Eles sempre trabalharam, acontece que só agora há tantos desmandos com o dinheiro público: petrolão, mansalão, dólares na cueca, sanguessugas e muito mais. E ainda estão por vir o eletrolão, o os financiamentos acertados do BNDES “aos amigos do rei e da rainha” e, por certo, muitos outros mais. Numa coisa Lula tem razão, a utopia do PT acabou.

            O espaço é curto para falar no desemprego, nos juros altos, no aumento dos impostos, na conta de luz, nos déficits na balança comercial, no preço do dólar et cetera e et cetera e tal; tudo com digital petista. 

O Brasil está atolado em dívidas.

Stiglitz: lição aos vira-latas tupiniquins
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Joseph Stiglitz, prêmio nobel de economia, assessor econômico de Hillary Clinton, candidata do Partido Democrata à Casa Branca: o Brasil está atolado em dívidas que são produzidas pelas expansões monetárias promovidas pelos países ricos, cujos efeitos são pressões inflacionárias. A saída não é austeridade, como tenta impor o ajuste fiscal do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, cortando gastos e investimentos públicos. O correto, diz, é promover reforma financeira, para dar um tranco nos especuladores que invadem a economia nacional para fugir da eutanásia do rentista em vigor nos países capitalistas ricos. O tranco nos especuladores deve, portanto, começar por cobrar mais impostos dos ricos, para distribuir aos mais pobres, em forma de mais investimentos produtivos. Ao mesmo tempo, deve ser atacado o subproduto da desigualdade social gerada pela especulação: os monopólios e oligopólios, aos quais não interessam a economia de mercado, que reduz os preços na concorrência. Mas, como tornar a economia competitiva, se o juro brasileiro é o mais alto do mundo, para enxugar o excesso de moeda especulativa que está entraando no país, sobrevalorizando o câmbio, inviabilizando exportações, e destruindo os empregos, a renda, os investimentos e o progresso? Atacar os gastos públicos e os investimentos, aplicando dura austeridade monetarista, é, portanto, atacar as consequências e não as causas que estão produzindo o subdesenvolvimento nacional em escala acelerada. Ou seja, Stiglitz faz o discurso oposto ao dos neoliberais que fazem a cabeça dos comentaristas econômicos da grande mídia, cuja missão é de culpar os fatores internos e não os externos pelo aprofundamento da crise financeira nacional. Estão dominados, como diria Nelson Rodrigues, pelo espírito de vira latas.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Secretas expõem nomes de candidatos a espiões por e-mail

por Valentina MarcelinoHoje43 comentários
O secretário-geral das secretas, Júlio Pereira, foi nomeado em 2005, no governo de José Sócrates. Resistiu ao governo PSD-CDS, apesar do escândalo que abalou os serviços com o caso Silva Carvalho e outras situações polémicas. A sua presença tem, no entanto, sido determinante para o apoio do PS ao governo nesta área, em que o “bloco central” funciona ao melhor nível. É chamado o “sobrevivente”
O secretário-geral das secretas, Júlio Pereira, foi nomeado em 2005, no governo de José Sócrates. Resistiu ao governo PSD-CDS, apesar do escândalo que abalou os serviços com o caso Silva Carvalho e outras situações polémicas. A sua presença tem, no entanto, sido determinante para o apoio do PS ao governo nesta área, em que o “bloco central” funciona ao melhor nível. É chamado o “sobrevivente”
Os serviços de informações enviaram um e-mail a 383 candidatos a espiões pedindo-lhes que confirmassem o interesse na vaga. Mas na lista de destinatários estavam os endereços de todos os concorrentes.
A identificação de 383 candidatos a espiões foi divulgada, alegadamente por lapso, pelos Serviços de Informações da República Portuguesa (SIRP) durante um processo de recrutamento que está a decorrer para as secretas. Os candidatos receberam um e-mail dos serviços para que confirmassem o seu interesse e na lista de destinatários estava, não só o seu endereço, como o dos outros concorrentes.
O ex-presidente do Conselho de Fiscalização do SIRP, Jorge Bacelar Gouveia, entende que só há uma solução: "anular este concurso e começar do zero". O constitucionalista Bacelar Gouveia salienta que "o sigilo foi comprometido, não só da identidade dos candidatos, como do próprio processo de recrutamento, e por isso o melhor é começar de novo".
O secretário-geral do SIRP, Júlio Pereira, não respondeu às questões do DN para justificar aquele procedimento, nem sobre que medidas iriam ser tomadas. O atual presidente dos fiscais das secretas, o deputado social-democrata Paulo Mota Pinto, também se remeteu ao silêncio sobre este caso, a fazer lembrar o episódio Veiga Simão. Embora desta vez, os potenciais futuros espiões tenha sido denunciados antes de o chegarem a ser.
Leia mais na edição impressa ou em DN e-paper.

domingo, 21 de junho de 2015

O fator preço e o faturamento da empresa
Tomislav R. Femenick – Contador e Mestre em Economia

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Em tempos de crises iguais a esta por que passamos, uma das preocupações de nove entre dez executivos está ligada a importância da variável preço de vendas dos produtos da empresa e seu reflexo no faturamento total da organização.
Há vários fatores envolvidos nessa estratégia mercadológica, resultando em que o preço de venda seja determinado por uma série de vetores, entre os quais a estrutura de custos da própria empresa, decorrente dos seus custos fixos e variáveis. Se o faturamento ótimo depende de como a demanda reage a diferentes níveis de preços, esses componentes (custos fixos e variáveis) são determinantes na fixação dos preços e, consequentemente, do faturamento. Também importantes são os aspectos organizacionais, notadamente aqueles ligados à tomada de decisão de preços. Destaque-se que nas empresas cuja direção é altamente centralizada, os preços de venda geralmente fogem ao composto tecnológico, o que acaba por apresentar uma distorção mercadológica. 
Todavia, em um ambiente de retração do mercado consumidor, os compradores reagem de três formas aos preços praticados por uma dada organização. Primeiro cada consumidor tem uma percepção individual do fator valor. Em segundo lugar, o preço seria o valor percebido pelo comprador, em função dos benefícios que a mercadoria possa lhe dar. Depois, o conjunto de clientes (o mercado comprador) reagiria de maneira diferente a diferentes níveis de preço.
Nessas condições o aspecto concorrencial assume um papel determinante sobre o faturamento da empresa. Citando o professor Ricardo Fausti (2006), “o conhecimento da estrutura de custos do concorrente é fundamental para o estabelecimento do preço do produto, na medida em que o piso do preço do mercado é dado pela estrutura de custos dos concorrentes”.
Por último temos os fatores ambientais externos à empresa, tais como as ações governamentais (legislações ambientais, fixação de tributos, concessões de incentivos fiscais, majoração de alíquotas, custos dos juros e dos insumos com preços controlados), novas tecnologias e entrada de novas empresas no mesmo segmento de mercado.
Há situações que obrigam certas empresas a se comportar de forma a não considerar algumas desses fatores, principalmente aquelas organizações de menor porte. Essas empresas não têm condições concretas para se apresentar ao mercado considerando preferencialmente sua estrutura de custos, suas características organizacionais e seus clientes. Segundo Kotler (1980), sua política de preços baseia-se “no que seus concorrentes estão cobrando, sua política de preços pode ser descrita como orien­tada para a concorrência. Não é preciso cobrar o mesmo preço que a concorrência, embora isso seja um grande exemplo dessa política. A empresa que fixa os preços orientada para a concorrência poderá procurar manter seus preços mais baixos ou mais elevados que a concorrência, em certo percentual”.
Esses conceitos valem tanto para empresas que têm como compradores de seus produtos outras empresas; organizações fornecedoras de insumos para a indústria e o setor rural e produtos acabados para o comércio, bem como para aquelas que têm como clientes o consumidor final. Entretanto é no primeiro segmento (os fornecedores de insumos especialmente e com preços não controlados pelo governo) que essa realidade se faz mais presente e exige mais acuidades dos seus executivos. Qualquer passo em falso pode significar perdas irrecuperáveis de compradores – nada é mais instável que a fidelidade de um cliente que tem dinheiro na mão.
Conclui-se, portanto, que a variável preço tem importância determinante para a projeção de faturamento de uma empresa. Todavia há que se considerar em que circunstância concorrencial essa mesma empresa participa do mercado.
Tribuna do Norte. Natal, 21 jun. 2015