sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Deputados da Frente Parlamentar da Água participam de reunião em Recife

Crédito da foto: Assessoria de Comunicação

 
A Frente Parlamentar da Água do Rio Grande do Norte, presidida pelo deputado estadual Galeno Torquato (PSD), participa nesta segunda-feira (16), às 9h, de reunião do movimento União pelo Nordeste na Assembleia Legislativa de Pernambuco (ALPE). Estarão reunidas, além do Estado anfitrião, as frentes parlamentares dos estados do Maranhão, Ceará, Bahia, Paraíba, Alagoas e Rio Grande do Norte, Alagoas e Ceará.

O Rio Grande do Norte será representado pelos deputados Gustavo Fernandes (PMDB), Tomba Farias (PSB), Carlos Augusto Maia (PTdoB), George Soares (PR) e Galeno Torquato (PSD), da frente no RN. “Iremos elencar as prioridades dos estados nordestinos diante da seca, além de fortalecer a união das bancadas desses estados com o objetivo de cobrar recursos do Governo Federal, sobretudo para obras de enfrentamento à seca de curto prazo”, afirma Galeno.

O parlamentar reforçou a necessidade de união das classes políticas dos estados nordestinos afetados pela seca na busca por soluções para a crise hídrica. Segundo Galeno, a queda no repasse de recursos da União também será discutida durante a audiência na capital pernambucana. “Além de não nos enviar o aporte financeiro de R$ 63 milhões solicitados pelo Governo do Estado ao Ministério da Integração, o Governo Federal reduziu o valor dos repasses feitos mensalmente ao Estado para obras hídricas”, observa Galeno.

De acordo com dados da Companhia de Águas e Esgotos (CAERN), o Rio Grande do Norte registra atualmente 153 cidades em estado de emergência, sendo 80 delas atendidas em sistema de rodízio e 13 em colapso no abastecimento de água. Segundo o Governo do Estado, esta é a pior seca dos últimos 100 anos.

Ações do Legislativo Estadual
A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte vem realizando um conjunto de ações para o enfrentamento da crise hídrica no Estado, como a criação do Comitê de Ações de Combate à Seca, representada pelo deputado Ezequiel Ferreira de Souza (PMDB), e a Frente Parlamentar da Água, liderada pelo deputado Galeno Torquato (PSD). Desde o início do ano, a temática vem sendo trabalhada, inclusive em nível regional, pelo Legislativo Estadual por meio de audiências públicas, reuniões e visitas a obras de beneficiamento hídrico.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

50 anos da Barreira do Inferno.

 As duas fotos registram um lançamento de foguete americano, nos anos 80, no Centro de Lançamento de Foguetes da Barreira do Inferno/RN. As fotos foram feitas pelo fotógrafo Paulo Saulo, do Diário de Natal, no final de uma tarde de espera dos jornalistas. Paulo Saulo portava uma velha máquina (Kodak?) e disse que mirou a plataforma de lançamentos e apertou o dedo. Outros disseram que foi um fotógrafo do Estúdio de Jaeci que bateu as fotos e entregou para Luiz Maria Alves. Não sei se a versão é verídica, mas Saulo gostava de presentear os colegas com cópias que não seriam aproveitadas pelo editor.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

BRICS e o Poder Mundial.

O BRICS é muito mais que um acrônimo criado pelo Goldman Sachs: entrevista com Diego Pautasso


Por Rennan Martins | Vila Velha, 10/11/2015
O BRICS vai além de um conceito meramente econômico/financeiro e reflete, na realidade, um bloco que almeja a pró-atividade na reformulação do tabuleiro geopolítico, visto que consideram “que a correlação de forças no mundo não corresponde mais aos arranjos de poder e de instituições forjados ao final da II Guerra Mundial.”
As esferas de cooperação são das mais diversas e o Brasil, por sua vez, é liderança crucial no processo de construção e projeção do bloco, dispondo de ilhas tecnológicas relevantes e grande disponibilidade de recursos. Carece, todavia, de uma elite comprometida com a “a inserção internacional do país em termos estratégicos.”
Para ser uma real alternativa a unipolaridade irradiada de Washington é necessário que o BRICS priorize a agenda do desenvolvimento e inclusão, fortaleça a capacidade de intervenção dos Estados, ampliando sua autonomia e soberania.
Esta é a avaliação do professor Diego Pautasso, professor de Relações Internacionais da Unisinos. Na semana em que o Goldman Sachsanuncia a dissolução do fundo de investimento BRIC e no ano em que o Brasil entra em recessão, a Rússia se vê as voltas com grandes impedimentos decorrentes das sanções econômicas e a China desacelera, esta entrevista ganha ainda mais relevância justamente por sua visão desprendida dos vícios de nossa imprensa cartelizada e cooptada.
Confira a íntegra:
Quais os propósitos e objetivos principais do BRICS? O que há de convergente e divergente nesses países?
Pautasso: O BRICS é muito mais que um jogo de letrinhas ou um acrônimo criado em 2001 pelo Goldman Sachs. Tem, é claro, seus interesses imediatos de intensificar as parcerias intra-bloco, dado que estes países de grandes dimensões econômicas, territoriais e demográficas possuíam uma interação relativamente baixa em muitos casos, notadamente nas relações do Brasil com Índia e Rússia, por exemplo. Contudo, é muito mais que um agrupamento voltado a interesses comerciais e imediatistas. Trata-se, ao contrário, de uma coalizão de poder voltada a influir sobre o reordenamento de poder em curso no mundo. Afinal, estes países entendem que a correlação de forças no mundo não corresponde mais aos arranjos de poder e de instituições forjados ao final da II Guerra Mundial.
Nesse sentido, diante da emergência de uma nova geografia do poder mundial, há uma tentativa sistemática de desdenhar o BRICS. Tais críticas ao BRICS, como a mais recente feita por Chris Blackhurst no artigo “Tudo Acabado para os Países do BRICS”, publicado no “The Independent”, são sintomáticos justamente das preocupações e reações às mudanças em curso. Isso é parte do jogo político das potências antigas e dos segmentos da elite nacional saudosa do alinhamento com tais países ocidentais, como destaquei em entrevista à Sputnik Brasil. Definitivamente, o argumento recorrente de que as agendas dos integrantes do grupo BRICS têm ênfases e prioridades distintas não é suficiente, afinal, divergências e assimetrias são intrínsecos a qualquer agrupamento, bloco ou coalizão.
Que áreas e projetos se destacam em termos de cooperação intrabloco? Já existem projetos ativos?
Diego Pautasso
Pautasso: Embora se dê maior cobertura às cúpulas dos chefes de Estados do BRICS, existem diversas iniciativas, em todas as áreas importantes, voltadas a intensificar a cooperação intra-bloco. Deve-se destacar que Ministros de Finanças dos BRICS reúnem-se regularmente à margem dos encontros do G-20 e das sessões semestrais do FMI e do Banco Mundial, o Grupo de Contato para Temas Econômicos e Comerciais, o Foro Financeiro, o Conselho de Think Tanks, o Foro Acadêmico, a reunião dos Ministros da área de ciência e tecnologia, a reunião dos Altos Representantes da área de Segurança, o Fórum de Agronegócio, a criação do Marco do BRICS para a Colaboração em Projetos Estratégicos em Saúde. Em suma, a sinergia tem se multiplicado e os efeitos já começam a aparecer. Poderia citar também a concertação em foros multilaterais (CSNU, CDH, OPAQ, etc.)
Como se insere, nesse contexto, o Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido informalmente como Banco do BRICS? Sua gestão será ortodoxa como as do FMI e Banco Mundial?
Pautasso: O Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) foi criado em 2014 na VI Cúpula do BRICS em Fortaleza e começou a operar em julho de 2015, após a VII Cúpula, em Ufá, na Rússia. É um banco de fomento voltado a financiar projetos de desenvolvimento, em especial infraestrutura dos membros e de países em desenvolvimento. Aqui aparece toda a força do agrupamento. Primeiro, foi uma resposta às dificuldades de reforma das instituições de Bretton Woods, Banco Mundial e FMI, cuja representatividade não corresponde à distribuição atual das capacidades financeiras. Segundo, ao oferecer uma alternativa à supremacia ocidental oriunda dessas instituições, estes países se projetam globalmente, dado que financiar implica influenciar fluxos de investimento, comércio e, por óbvio, decisões políticas. Terceiro, o NBD pode representar a grande diferença de fundo do BRICS em relação à ordem liderada pelos EUA e seus aliados europeus, ou seja, tornar-se um banco de fomento que não imponha a agenda liberalizante como fizera o FMI a partir dos anos 1980.
Quais os efeitos econômicos e geopolíticos da ascensão do bloco? Que mudanças podemos esperar em termos de poder global?
Pautasso: Para ser mais do que um agrupamento voltado a intensificar a cooperação intra-bloco, que já seria um sentido importante, o BRICS deve fornecer alternativas econômicas e políticas à ordem hegemonizada pelos EUA. Em outras palavras, precisa 1) colocar a agenda do desenvolvimento e da inclusão à frente das políticas neoliberais, 2) fortalecer, ao invés de fragilizar, as capacidades estatais e 3) ampliar a autonomia e soberania dos atores estatais diante do unilateralismo e militarismo com que os EUA e seus aliados conduzem a política internacional. Em última instância, se o BRICS tornar-se representante dos Cinco Princípios da Coexistência Pacífica (soberania, não agressão, não intervenção nos assuntos internos de um país, benefícios recíprocos e coexistência pacífica entre Estados), base do neutralismo e não alinhamento, tornar-se-á elemento chave na emergente nova ordem mundial.
No que se refere aos focos de tensão bélica, com destaque para a Ucrânia e Síria, há alguma influência do bloco nesses conflitos? Como se relacionam a desmoralização do neoliberalismo e da liderança norteamericana com esses conflitos?
Pautasso: Evidentemente, os integrantes do agrupamento BRICS não possuem o mesmo nível de interesse e de capacidade geopolíticas nesses importantes temas do cenário internacional, como os conflitos na Ucrânia e na Síria. Em ambos a Rússia assume um protagonismo que nenhum outro aspira a ter. Ressalte-se, porém, que a relevância do BRICS na ordem mundial dependerá de um maior ativismo de seus membros em temas sensíveis. No discurso de Putin relativo à anexação da Crimeia, o líder russo agradeceu a solidariedade de China e Índia. Obviamente que o silêncio brasileiro em temas sensíveis ou mesmo a não participação no evento de comemoração dos 70 anos do Dia da Vitória Russa acabam por implicar reciprocidade em outros temas de nosso interesse, como a reforma do Conselho de Segurança da ONU. (mais recentemente: Brasil apoiou proposta francesa de restrição do uso do veto, que nenhum membro permanente apoiou, e semanas após o MNE Lavrov afirmar que a Rússia considerava o Brasil como candidato a membro permanente).
É sabida a complementaridade de tecnologia militar e poder econômico entre a Rússia e a China, também do interesse chinês no acesso contínuo as reservas energéticas russas. No caso do Brasil, o que teria a oferecer a estas potências? O que os parceiros do bloco esperam do Brasil?
Pautasso: O Brasil é um país de suma importância para os demais integrantes do BRICS. É a principal potência da América do Sul e líder do processo de integração. Possui um estoque de energia, recursos naturais e alimentos invejável. Tem ilhas de excelência tecnológicas nada desprezíveis, como saúde, agricultura e indústria aeronáutica. É um país de dimensões continentais com um gigantesco mercado interno. Tem demandas em diversos setores, do setor de defesa ao de componentes eletrônico, para ser suprido pelos parceiros.
O Brasil, contudo, carece de uma elite (política, acadêmica e empresarial) que avalie a inserção internacional do país em termos estratégicos. É comum a agenda eleitoral e as consequentes disputas ideológico-partidárias comprometerem objetivos de longo prazo, como a consolidação do nosso espaço regional e de seus mecanismos de integração, em favor de supostas oportunidades comercias pragmáticas (Aliança do Pacífico e acordos de livre comércio).
O governo brasileiro guinou à direita em vários campos neste último ano, ao passo que no Congresso vemos ainda mais pressão neste sentido. Tal quadro pode influenciar na evolução do bloco? É possível que haja esvaziamento do bloco por parte do Brasil?
Pautasso: Sem dúvida a falta de uma clareza acerca da inserção internacional do país, combinada com as disputas políticas, fazem do Brasil um parceiro menos estável – na perspectiva dos demais membros do BRICS. E certamente uma vitória dos segmentos mais à direita do espectro político alteraria a agenda internacional do Brasil. Basta ler os programas partidários ou as declarações de suas lideranças para ver que a integração sul-americana perderia relevância e/ou mudaria de forma em favor de um perfil mais comercialista. Da mesma forma, a ênfase voltaria a ser o Atlântico Norte e não mais o Eixo Sul-Sul e os emergentes (BRICS).
Relatório da Stratfor, um dos principais think thanks geopolíticos dos EUA, intitulado “Geopolitical Diary: ‘Blue Skying’ Brazil”, discorre, ainda em 2008, sobre o então BRIC, da seguinte maneira:
Com o Brasil sendo um produtor significativo de petróleo, o interesse global na América Latina aumentaria na mesma proporção – não somente por parte dos EUA, mas da China, Russia, Europa e outros. A competição por acesso – e potencialmente controle – a estes recursos, para segurança das rotas marítimas e até mesmo para influenciar o governo brasileiro e suas companhias energéticas também cresceria. Um Brasil potência em recursos aliado a força de trabalho chinesa, ao conhecimento tecnológico indiano e as reservas energéticas e forças armadas russas daria vida ao conceito do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), talvez tornando-os um bloco viável de potências, o que se traduziria num contrapeso a hegemonia global norteamericana.
Diante disso, temos dois questionamentos. É possível que futuramente Washington escale em termo de hostilidade contra o Brasil? Por que o debate público nacional praticamente desconhece e/ou não aborda este tema?
Pautasso: Primeiro, devemos reconhecer que os interesses dos EUA estão arraigados na estrutura política brasileira historicamente – de antes de 1964 até a atualidade. Deve-se lembrar que o então ex-candidato à Presidência José Serra tinha prometido à Chevron – segundo documento liberado pelo Wikileaks – mudar as regras do Pré-Sal em favor da empresa estadunidense. Agora Senador, ele encaminhou o projeto de Lei 131/2015 querevogaria tanto a participação obrigatória da Petrobras no modelo de exploração de partilha quanto a condicionante de participação mínima da estatal em pelo menos 30% em cada licitação.
Deve-se lembrar que as escutas da NSA grampearam a alta cúpula do governo, incluindo a presidência, e a Petrobrás. E que curiosamente a Operação Lava Jato, desencadeada logo em seguida, atingiu justamente os dois centros nevrálgicos da economia nacional, talvez os últimos internacionalizados de propriedade e tecnologia nacionais: as empreiteiras e o setor petrolífero.

Segundo, esse tema não tem sido devidamente abordado pois nos falta uma elite com pensamento nacional – e a que que existe vê-se bloqueada pelo restrição do espaço público. Por diversas razões: não temos uma direita nacionalista, mas entreguista; os meios de comunicação estão diretamente vinculado a tais interesses e atuam de forma oligopólica; a maior parte da academia contenta-se em satisfazer os requisitos institucionais de currículo e distancia-se dos grandes temas de interesse público; e, por fim, muitos setores progressistas contentam-se com agendas específicas de “reconhecimento” completamente desarticuladas do centro político-econômico dos conflitos. Aliás, cabe ler “Luta de Classes” de Domenico Losurdo, quando este mostre reconhecimento tem de estar articulado com redistribuição e que as lutas de classes têm diversas formas e dimensões múltiplas. Nesse sentido, o atual papel do BRICS na arena internacional, apesar de suas intrínsecas contradições, representa um movimento progressista diante do unilateralismo e hegemonismo dos EUA e seus aliados com sua agenda de liberalização e redução das conquistas sociais.

terça-feira, 10 de novembro de 2015



 O PRESIDENTE TRAVESSO
Tomislav R. Femenick


Estávamos em um dia do início do mês de abril do ano de 1961, quando recebi um telegrama. Era sucinto e estava escrito quase que em linguagem cifrada. Dizia, mais os menos: “Entrevista marcada próximo dia dezenove pt Esteja no local ptpt alvorecer das 16h. Cabral”. Era parte de uma verdadeira operação de guerra, montada pelos Diários Associados a meu pedido. Foi operacionalizada pelo quartel-general aqui do Nordeste, da então maior cadeia jornalística da América Latina. Os chefões eram Paulo Cabral, Otacílio Colares, Manuelito Eduardo, Antonio Camelo, Hilton Mota, Fernando Trigueiro e Arnoldo Jambo. Depois eu soube que foi importante a participação do jornalista Carlos Castelo Branco, o Castelinho, secretário de impressa da presidência. Objetivo: entrevistar o presidente Jânio Quadros. Então, a “tradução” do telegrama seria: “O presidente Jânio concordou com a entrevista, marcando-a para o dia 19 de abril, no Palácio da Alvorada, às quatro horas da tarde. Assinado Paulo Cabral”. Guardei o dia porque era meu aniversário.
Já contei em artigo anterior a minha entrada no jornalismo, aos treze anos de idade, e a minha nomeação para o cargo de subsecretário (corresponderia hoje, mais ou menos, ao de chefe de redação) do Jornal de Alagoas, dois anos depois. Ocupei esse cargo até 1956, quando voltei para o Rio Grande do Norte. Mesmo aqui, eu mantinha contatos regulares com o Diário de Pernambuco, Jornal de Alagoas, Unitário, Correio do Ceará e, como não poderia deixar de ser, com o Diário de Natal. Em março de 1961, eu estava de férias no Recife quando, em visita ao velho Diário, me encontrei com o jornalista Paulo Cabral e sugerir a ideia da entrevista com o presidente. A operação foi montada e o telegrama era o “abre-te sésamo” das portas do Palácio Presidencial. Depois houve um adiamento e a entrevista foi remarcada para o dia 25 de abril, uma terça-feira, no mesmo horário.
Chegou o grande dia. Nervoso, lá estava eu meia hora antes. Já tinha entrevistado Juscelino, mas na ocasião ele era só candidato. Presidente da república, não. Nenhum. Jânio ia ser o primeiro. Fui recebido por Carlos Castelo Branco, uma figura emblemática do jornalismo brasileiro. As horas foram se passando. De vez em quando alguém vinha me avisar que o presidente estava pondo em dia a sua agenda que estava muito atrasada, mas que ele iria me receber. Por volta das dez da noite, Castelinho se despediu de mim, pois tinha compromissos fora, e mandou que me servissem uns sanduíches e guaraná. Li todos os jornais e revistas que estavam disponíveis nas mesas da Secretaria de Imprensa, até que as três e 25 minutos da manhã do dia seguinte (olhei no relógio) um funcionário me levou para uma sala pequena e estreita do Alvorada. Lá estava o presidente.
O local estava com o ar condicionado ligado em frio máximo; por isso o presidente usava colete e casaco. Sua excelência estava com cabelos assanhados, com os olhos arregalados e em um estado que preconizava êxtase. Pensei que ele estivesse cansado de tanto trabalhar. Até que pressenti um halo, uma auréola etílica. Mais adiante ouvi um arroubo, que recendeu a whisky. Veio o fotógrafo, o presidente penteou os cabelos, arrumou a roupa. Do ponto de vista jornalístico, a entrevista foi um verdadeiro fracasso. Jânio somente reafirmava posições já conhecidas por todos: defendeu o comércio e as relações diplomáticas com a União Soviética e com as chamadas Democracias Populares da leste europeu; a desvalorização da moeda; a retirada do subsídio governamental ao petróleo, fertilizantes agrícolas, farinha de trigo e do papel de imprensa; a interdição das brigas de galo, dos desfiles com biquínis, das corridas de cavalos durante a semana, e o uso do uniforme tipo safári para os funcionários públicos.
Todas as perguntas que eu fazia eram desviadas para esses assuntos. Quando eu sugeri ao presidente que ele fosse mais preciso em suas respostas, ele saiu da sala, mas antes pegou uma garrafa de whisky Cutty Sark que estava embaixo de uma mesa. Entendi que a entrevista tinha sido dada por encerrada. Na tarde desse mesmo dia, voltei a me encontrar com Castelinho e juntos fizemos o maior malabarismo para conferir algum interesse jornalístico para a matéria, inclusive fazendo comentários sobre as dificuldades de Jânio em dialogar com o Congresso Nacional.
Anos depois, entrevistei Jânio Quadros outra vez. Ele agora disputava novamente o governo do Estado de São Paulo. Estava bem diferente. Quase humilde, respondeu a todas as minhas perguntas, mesmo tangenciado aquelas relacionadas com a sua renúncia. A matéria foi publicada no Diário de São Paulo e distribuída por todos os outros órgãos da cadeia Associada. Só para informar aos leitores mais jovens, nessa eleição ele foi derrotado por Ademar de Barros.

domingo, 8 de novembro de 2015

Jornalista monta exposição de sua arte.

O muro em branco é um espaço aberto para uma intervenção artística. Arte de Emanuel Neri, em sua residência, São Miguel do Gostoso, Rn.

Dos tempos verdes, não se esquece da zanga dos companheiros do Rio Grande do Norte com as baforadas do folclorista Câmara Cascudo. "Deixem-me fumar um charuto, senão vou embora", ameaçava o escritor nas reuniões.

Editor que revelou Rubem Fonseca combatia comunismo para os EUA

UBLICIDADE
Gravadas nas capas de livros, as iniciais GRD escondem o baiano Gumercindo Rocha Dorea, tão lendário quanto discreto. Primeiro editor dos escritores Rubem Fonseca, Nélida Piñon e Fausto Cunha, além de criador de um selo pioneiro de ficção científica, Gumercindo se dedica a uma nova tarefa, aos 91 anos: "Quero recuperar livros jogados de escanteio ou pela ignorância, ou pela boçalidade cultural, ou pelo desinteresse".
Perto de comemorar os 60 anos da Edições GRD, fundada em 1956, ele não desiste de correr atrás de livros, a julgar pela frequência com que interrompe as conversas para buscar uma obra rara ou esquecida, sempre arisco entre as pilhas de jornais e documentos espalhados em seu apartamento no bairro da Aclimação, em São Paulo.
A missão de nonagenário começou com "Fausto - Ensaio sobre o Problema do Ser" (1922), de Renato Almeida. O próximo será "Pascal e a Inquietação Moderna" (1924), do pensador católico Jackson de Figueiredo.
Bruno Santos/Folhapress
São Paulo, SP, BRASIL- 21-10-2015: O editor Gumercindo Rocha Dórea (91), da G.R.D., posa para foto em seu apartamento, no bairro Aclimação, Zona Sul de São Paulo. (Foto: Bruno Santos/ Folhapress) *** ILUSTRADA *** EXCLUSIVO FOLHA***
Criador da lendária Edições GRD, Gumercindo Dorea, em seu apartamento na Aclimação
A ausência de patrocínio o obrigou a adaptar-se a uma carpintaria caseira. Sua filha mais velha, Tera, digita os originais que são rodados em tiragens pequenuchas de 30 exemplares. O dinheiro das vendas é investido na publicação de outra obra. "A gente nasce com esse verme, com esse visgo, com esse vírus. Minha mãe (Emérita) era cronista e poeta. Eu cresci com sete irmãos. Somente eu herdei isso dela", ele conta.
Este semestre, organizou a coletânea "Existe um pensamento político brasileiro? Existe, sim, Raymundo Faoro: o Integralismo!", em que dez jovens intelectuais analisam o Manifesto Integralista de Outubro de 1932.
Queixa-se da marginalização da GRD e culpa o preconceito ideológico de jornalistas e acadêmicos contra seu passado integralista jamais renegado, pois continua a defender as ideias de Plínio Salgado, amigo e ex-editado. "Nunca alimentei ódio contra ninguém. Mas ódios se voltaram contra mim", lastima. "Quando comecei a lançar os grandes romances, não era nada com a revolução de 1964 ou com o integralismo, mas com o meu espírito de respeito à liberdade e à dignidade alheia. Eu lia, gostava, botava meu selo".
Nascido em Ilhéus (BA), em 4 de agosto de 1924, Gumercindo concluiu o ensino médio em Salvador. Meninote de oito anos, participava das atividades da Ação Integralista Brasileira (AIB), cujo legado protegeria mais tarde, tornando-se editor do líder Plínio Salgado. Residente no Rio de Janeiro desde 1944, ele fundou a GRD em 1956, com a edição de "Filosofia da linguagem", de Herbert Parentes Fortes. Formado em Direito, migrou para São Paulo no final dos anos 60. O baiano estima ter lançado cerca de 300 livros em seis décadas.
REVELAÇÃO DE RUBEM
A estreia de Rubem Fonseca, 90, talvez seja o maior orgulho profissional. No início da década de 60, o romancista baiano Adonias Filho apresentou Gumercindo ao general Golbery do Couto e Silva, na sede do Ipês (Instituto de Estudos e Pesquisas Sociais). Criada em 1962, congregando militares e empresários, a entidade promoveu uma campanha de desestabilização do governo João Goulart (1961-64).
Fonseca dirigia a área de estudos e divulgação de projetos. No artigo "Anotações de uma pequena história", publicado na Folha (27/03/1994), o escritor argumentou que integrava a "corrente democrática" do Ipês, contrária à "ruptura da ordem constitucional".
"No primeiro contato percebi que Rubem, que assessorava o general, não era de muita conversa. Aconteceu porém que a secretária de Rubem (Fernanda Gurjan) me informou ter ele alguns contos na gaveta. Em confiança, me emprestou os originais", recorda Gumercindo.
Convencido pela força das primeiras páginas, decidiu enviar o inédito para a gráfica da Revista dos Tribunais, em São Paulo. Não demorou a receber as provas de "Os prisioneiros". Fonseca esbravejou, deu palavrões, pediu uma semana para pensar, e finalmente impôs uma condição: a capa deveria ser feita pelo filho, Zeca, de 5 anos. "Qual é o problema? Já vou economizar, porque não pagarei a seu filho. Quem sabe não temos um Mozart brasileiro nas artes gráficas?", brincou o editor, que também lançaria "A coleira do cão" em 1965.
Contatado por meio de sua filha, Bia Corrêa do Lago, Rubem Fonseca aceitou falar sobre a experiência com a GRD. "Conheci o Gumercindo Dorea muito superficialmente e pouco posso falar sobre a sua personalidade. Sei que ele era honesto com aqueles que editava, como eu, Nélida Piñon, Gerardo Mello Mourão e outros. Foi importante para mim, e certamente para os demais escritores que citei, o fato de a GRD ter lançado os nossos livros. Eu logo fui procurado por editoras de maior prestígio. Lembro-me que ele gostava de editar livros de ficção científica", declarou à Folha, por e-mail.
"É o maior presente dos meus 91 anos", emociona-se Gumercindo, assinalando que este é o primeiro depoimento de Fonseca, avesso a entrevistas, sobre seu trabalho. Lamenta não possuir nenhum exemplar autografado pelo mais célebre ex-editado.
Rogerio Cassimiro/Folhapress
ORG XMIT: 403801_0.tif 04.05.05 - foto: Rogerio Cassimiro/Folhapress - ILUSTRADA - Gumercindo Rocha Dorea, primeiro editor de Rubem Fonseca, nos livros, A Coleira do Cao e Os Prisioneiros, cuja capa e do filho de Rubem que na epoca tinha 5 anos. Gumercindo foi fotografado em seu apartamento no bairro da Aclimacao, zona sul de SP
Os livros "A Coleira do Cão" e "Os Prisioneiros", de Rubem Fonseca, editados por Gumercindo Rocha Dorea
APOIO AMERICANO
O catálogo político da editora foi pesquisado pela doutora em História e professora da Universidade Federal da Bahia, Laura de Oliveira, que lançou este ano o livro "Guerra Fria e política editorial - A trajetória da Edições GRD e a campanha anticomunista dos Estados Unidos no Brasil (1956-1968)".
"Embora, quando da inauguração da GRD, a editora tenha se dedicado mais a textos de linguística e filologia, bem como à literatura de ficção científica, os temas eminentemente políticos não tardaram a aparecer", observa Laura. "Além da Enciclopédia do Integralismo, publicada em parceria com a LCB (Livraria Clássica Brasileira), a GRD publicou dezenas de livros de cunho político entre as décadas de 50 e 60, que tinham como tônica principal o anticomunismo".
"Esses livros ajudaram a constituir uma ambiência intelectual favorável ao golpe civil militar e à legitimação do regime instaurado a partir de 1964", avalia. Nas pesquisas, contabilizou 48 livros "traduzidos, editorados, impressos e distribuídos no Brasil com recursos do governo norte-americano, através da United States Information Agency, a USIA, que operava dentro da Embaixada dos Estados Unidos no Rio de Janeiro". O Ipês atuava, principalmente, na distribuição de obras como "Anatomia do comunismo", de Walter Kolarz (e outros), e "Cuba, nação independente ou satélite?", de Michel Aubry, ambos de 1963.
A professora ressalva que "mais de 60 editoras brasileiras publicaram livros com subsídios da USIA nos seus pelo menos 20 anos de atuação no país". A GRD virou uma parceira tímida dos americanos entre 1962 e 1968 - "as principais foram a Fundo de Cultura, a Record e a Lidador" -, mas "seu perfil editorial a colocou no centro do debate politico desencadeado no Brasil entre as décadas de 50 e 60. Cada editor tinha autonomia para escolher os livros que queria publicar, no interior de uma lista aprioristicamente elaborada pela agência norte-americana".
Gumercindo ainda não recebeu o livro e prefere não comentá-lo. Questionado, faz revelações sobre o período: "Com o que sobrava do dinheiro que eu recebia da aquisição pela embaixada (americana) dos volumes contratados, renovei a literatura brasileira publicando Rubem Fonseca, Nélida Piñon, Gerardo Mello Mourão, José Alcides Pinto, Marcos Santarrita, Samuel Rawet, Astrid Cabral, Fausto Cunha, Maria Alice Barroso e alguns que no momento me esqueço. Houve outros editores que enriqueceram (com o convênio). Não citarei nomes. A GRD não ficou rica". O Instituto Nacional do Livro o apoiava na mesma época.
O editor limita a influência do fundador do Ipês: "Do Golbery, acho que um ou dois livros, que ele me sugeriu, eu gostei e publiquei". Em 1964, estava ligado ao general e a Adonias Filho, eleito no ano seguinte para a cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras.
"Eles nem sabiam, mas eu pertencia a um grupo de quatro pessoas de confiança da Marinha. Não conhecia os outros três. Cada um recebeu uma pistola. Nunca tinha usado nenhuma! Saí pela avenida Rio Branco e graças a Deus não aconteceu nada. Depois um oficial foi pegar de volta a pistola", relata. "Não tenho arrependimento de nenhum passo que dei em minha vida, salvo não saber ganhar dinheiro", diz Gumercindo, viúvo e pai de quatro filhos. Sobrevive com uma aposentadoria.
Apesar da militância integralista, garante que se dava "muito bem" com os comunistas e cita a amizade do romancista Jorge Amado, seu ex-adversário. "Houve uma época em que se ele me encontrasse na esquina, eu com uma pistola, ele com outra, o tiro pipocava. Começamos a ficar amigos depois da editora".
Em vez de aproximá-los, o golpe de 1964 provocou uma ruptura com o antigo aliado e criador do SNI (Serviço Nacional de Informações). "Adonias era candidato ao governo da Bahia em 1966, mas Golbery tirou o corpo e indicaram outro (Luiz Viana Filho). Adonias foi relegado", explica.
GARIMPOS
Pelo ineditismo, a "Antologia Brasileira de Ficção Científica" (1961) tornou-se um marco do gênero literário no país, reunindo André Carneiro, Antonio Olinto, Dinah Silveira de Queiroz, Fausto Cunha, Jerônymo Monteiro e Rubens Teixeira Scavone, entre outros. Despontava ali a "Geração GRD".
"Antes da atividade de Dorea, o gênero no Brasil era esporádico e inconstante, embora presente desde meados do século 19. Com a coleção Ficção Científica GRD, iniciada em 1958, a publicação constante e com obras de qualidade deu visibilidade ao gênero e sua escolha de temas (com a recorrência da guerra atômica) ajudou a caracterizar a Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira (1957 a 1972)", reconhece o escritor Roberto de Sousa Causo. "Ele é o mais importante editor para a história da FC no Brasil". O americano Ray Bradbury seria incorporado ao catálogo.
A descoberta de pepitas literárias era o aspecto prazeroso de seu ofício, logo abalado pelas chateações nas livrarias. Gumercindo suava: "Eu mesmo fazia a apresentação de meu editado e normalmente deixava o livro em consignação. Afinal, quem era GRD frente aos grandes editores? O drama era receber o pagamento".
Uma de suas revelações veio do garimpo de Guimarães Rosa. "Ô Gumercindo! Tenho um bom livro pra você editar!", anunciou Rosa, na Biblioteca Nacional do Rio, antes de recomendar "Serras Azuis" (1961), de Geraldo França de Lima.
Há os arrependimentos, encabeçados pela rejeição ao primeiro romance de João Ubaldo Ribeiro, "Setembro não tem sentido", concluído em 1963 e somente lançado em 1968 pela José Álvaro. "Para ser sincero, ainda não gosto desse livro", admite. Um possível consolo é esquecido. A GRD publicou "Josefina", um dos primeiros contos de Ubaldo, na coletânea "Histórias da Bahia", naquele mesmo 1963.
PLÍNIO E INTEGRALISMO
Último lançamento da GRD, o livro "Existe um pensamento político brasileiro?" traz um "Recado" de Gumercindo Rocha Dorea ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, apontado como caluniador do integralismo. O editor refuta as teses historiográficas sobre a aproximação de Plínio Salgado com as ideias nazi-fascistas na Europa.
"Foi, com incontida revolta interior, que tive o desprazer de adquirir os dois últimos volumes de sua autoria ("O improvável presidente do Brasil" e "Pensadores que inventaram o Brasil"), um com Brian Winter, onde estão repetidas velhas e surradas calúnias contra o Integralismo e seus seguidores. Mais lamentável ainda por ter sido forjado o livro para 'deleite' de Bill Clinton e de alguns possíveis leitores da grande república americana", atacou o editor.
No ensaio "Fotógrafo amador", a respeito de Paulo Prado (autor do clássico Retrato do Brasil - Ensaio sobre a tristeza brasileira), FHC criticou o "desvio fascistizante do verde-amarelismo, que chegou a ser ridículo e falso, como em Plínio Salgado".
Nascida de um encontro não mais que ameno, a amizade com o líder integralista originaria uma parte relevante de suas aventuras editoriais. "Plínio Salgado havia retornado do exílio (1939-1945) e não era fácil chegar até ele. De longe é que podíamos vislumbrar a sua figura, desde o momento em que foi realizado um encontro de jovens, e eu estava presente. Éramos um grupo razoável, de 40 ou 50 assistentes. E o papo foi longo, eles nos falou sobre o exílio, principalmente, acentuando o quanto esperava, em seu retorno, da juventude brasileira", relembra Gumercindo.
Anos mais tarde, entrou com um pequeno grupo no elevador do prédio de Salgado, no Rio. O líder integralista perguntou "quem era Gumercindo", afirmando que o poeta Augusto Frederico Schmidt queria conhecê-lo, pois gostara de um artigo no semanário "Idade Nova". Surpreso com a presença de Gumercindo naquele metro quadrado, determinou à mulher, Carmela Patti Salgado, que marcasse um jantar.
"A surpresa tinha razão de ser: eu não era frequentador assíduo de sua residência e tinha ido ali buscar a colaboração dele para o semanário 'Idade Nova', onde o meu artigo sobre Schmidt fora publicado... Não consigo me esquecer a pronúncia caipira que ele jamais perdeu, com o 'r' bem acentuado", descreve. "Este foi o primeiro contato direto que tivemos e que se aprofundou longamente através dos anos - até a sua morte (em 1975). Já tinha lido todas as suas obras, publicadas até aquele momento, tanto as literárias, quanto as políticas e as religiosas".
Gumercindo coordenou os "Discursos parlamentares" do mentor integralista. Pela GRD, editou "A quarta humanidade" e "Vida de Jesus", além de incluí-lo na "Enciclopédia do Integralismo", associado à Livraria Clássica Brasileira. Um quadro de Plínio Salgado permanece na sala de seu apartamento.
Ex-integralistas, Abdias do Nascimento ("O negro revoltado"), Miguel Reale ("Variações") e Gerardo Mello Mourão ("O valete de espadas") foram editados pela GRD. Dos tempos verdes, não se esquece da zanga dos companheiros do Rio Grande do Norte com as baforadas do folclorista Câmara Cascudo. "Deixem-me fumar um charuto, senão vou embora", ameaçava o escritor nas reuniões.
Leitor de clássicos e contemporâneos, Gumercindo não identifica inovações recentes na literatura brasileira. "Comparando com os que lancei, por exemplo. Qual contista ombreia o Rubem dos dois primeiros livros? Qual poeta hoje se equipara a Gerardo Mello Mourão? Qual romancista se equipara a Nélida? Há um Samuel Rawet? José Alcides Pinto? Não tem".
Na mesa de sua sala, os pratos são encaixados nos pequenos clarões dos recortes de jornais. Gumercindo ainda cozinha, lava a própria louça e se vira no café. Em um dos seis encontros entre 2014 e 2015, encomendou uma feijoada no restaurante vizinho, sem rejeitar o acompanhamento de uma cerveja. "Não repare. É a casa de um homem desorganizado", advertiu.
Dias antes havia relido "As minas de prata", de José de Alencar. "Fiquei uma semana voltado pra isso, e pensei: o que está acontecendo? A juventude de hoje nem sabe que existe uma obra como esta. As editoras não têm interesse. E, no entanto, é excepcional". É com fascínio que insiste: "Se eu tivesse dinheiro, ia mostrar a essa gente o que é editar livros num país que tem fome".