Por Francisco de Assis Cortez Gomes (*)
 

A Internet aboliu a distância causando problemas ao Direito, ao Estado e à Soberania. O salto, o avanço tecnológico, submeteu todo o sistema do Estado a sua vassalagem, insinuando-se aos poucos para depois dominá-lo, tanto as funções administrativas como as de governo. Julian Assange e Edward Snowden são considerados heróis, agora “apátridas”, ao denunciarem as perversidades cometidas por essa ficção armada – Sub Armas Regis, o Estado. Alguém já fotografou um Estado ? Clama Régis Débray.
O cassino, também chamado Mercado, reina absoluto. A ficção, portanto, segue no rastro das ordens que emanam das bolsas, do mercado e dos seus paraísos, tendo na retaguarda o grampo e a araponga, aéticos, amorais, venenosos, escondidos … mas com pernas curtas como a maior das mentiras.
Como ponto de partida os indicadores econômicos calculam nosso destino, antecipadamente. Fazem milionários hoje, pobres e perseguidos amanhã. Engendram toda sorte de pura malandragem – palavra do momento. Ontem foi o “Crash”, hoje o “subprime”, na realidade, o que houve foi uma crise estrutural do capital, diz István Meszárós.
O Japan Weekly Press de setembro-2008 deu-se à arrojada tarefa de penetrar no serpentário criado, basicamente, em Wall Street: globalmente, os empréstimos, investimentos de todos os bancos e financeiras do mundo na economia produtiva – indústria, comércio, serviços, somavam US$48 trilhões, e na economia especulativa – bolsas, depósitos em paraísos fiscais, em ações podres de empresas inexistentes, depósitos em “instituições” mafiosas, com “excelentes” remunerações, sem qualquer supervisão de bancos centrais, pasmem : US$300 trilhões.
O mundo inteiro a reboque de quadrilhas com endereço certo Sub Armas Regis, aos olhos do Estado. Segundo economistas consultados, os valores especulativos podem ter alcançado a soma de US$850 trilhões. Quer dizer US$48 trilhões sustentavam a economia produtiva mundial e US$850 trilhões, uma quadrilha parcialmente desbaratada.
Milhões perderam suas poupanças, suas casas, seu ganha-pão. Houve suicídios mundo afora, assassinatos, e ainda o rescaldo continua. Um lembrete : o PIB mundial está atualmente em torno de US$71 trilhões.
É importante apontar as farsas, tão em voga hoje como no passado sob economistas tais como Von Mises, Friedman, Frederico Hayek, cujos cumprimentos foram recusados – diante do rei sueco na entrega do Nobel de Economia de 1974, pela figura ímpar, estimada de Gunnar Myrdal, com quem o Prêmio compartilhava.
“Men die, Money not”, diziam os farsantes. A futurologia se encarrega de extrapolar dados e programas do presente. Eles escrevem equações fantásticas, análises perfeitas, números insofismáveis, regras ao gosto de dogmáticas religiosas, mas veem a realidade como o cego vê a flor. Para finalizar, relembro fato contado por Kierkegaard, o mestre filósofo dinamarquês autor de inúmeras obras a cerca da angústia universal, existencial, sobre o Louco de Copenhague.
Diz Kierkegaard que perambulava pelas ruas de Copenhague um homem com um bilboquê, um joguinho em que toda vez que ele acertava a argola no pino correspondente, gritava: Bum! A terra é redonda! É verdade que a terra é redonda, diz Kierkegaard, mas o cara é louco.
(*) Francisco de Assis Cortez Gomes é advogado, com diploma em Ciência Política (Sorbonne Panthéon/2002). Ex-Professor de filosofia, sociologia, jornalismo político, direito internacional no Uniceub. Ex-Representante do Banco do Brasil em Estocolmo, Los Angeles, Tóquio, Hong Kong e Beijing