quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Qual o DNA de Renan?
Tomislav Femenick - Historiador

A notícia bomba deste inicio de semana foi o afastamento de Renan Calheiros da presidência do Senado. Isso me fez voltar no tempo, para o ano de 1951, quando eu tinha doze anos e fui morar em Maceió. A capital das Alagoas era uma cidade pequena, com cerca de cem mil habitantes, muito bela e com um povo muito afável e acolhedor. Suas ruas tinham pouco movimento e, de quando em quando, passava um bonde. Eu estudava no Colégio Guido de Fontgalan, tomava banho de mar em Pajuçara e na Praia da Avenida e ia às vesperais dançantes do Clube Fênix; vez ou outra acompanhado de Marcelo Lavenère.
No ano seguinte, com treze anos de idade, comecei a trabalhar como repórter no Jornal de Alagoas, órgão dos Diários Associados, então a maior cadeia jornalística do país. Fiquei conhecido como o benjamim da imprensa alagoana, isso é, o mais jovem dos jornalistas (Benjamim foi o filho mais novo de Jacó, líder de uma das tribos de Israel). Entre outras ousadias, entrevistei Juscelino Kubitschek, quando ainda candidato a presidente; Gilberto Freyre; o governador Arnon de Melo, o pai do ex-presidente Collor; o general Janari Nunes, presidente da Petrobrás; João Agripino Filho, então secretário geral da UDN e futuro governador da Paraíba; o almirante Álvares Câmara, Ministro da Marinha; os escritores Jorge Amado e Eneida e os pintores José Pancetti, Pierre Chalita e Maria Tereza. Dois anos mais tarde, fui nomeado para o cargo de subsecretário da redação e admitido como o mais novo sócio na história da Associação Alagoana de Imprensa. No jornal fiz amizade com Otacílio Colares, Carivaldo Brandão, Aldo Ivo, os irmãos Arnoldo e Aroldo Jambo, Dóris Cristiano, Josué Jr., o Zuza da clicheria, o Arnaldo linotipista e muitos outros, inclusive com um cirurgião-dentista que, nas horas vagas, era repórter fotográfico do jornal. Até então, para mim, Alagoas era uma terra risonha e franca.
No dia 11 de novembro de 1955 – dia do chamado “golpe de Lott”, quando o então Ministro da Guerra impediu que Café Filho continuasse presidente da República – o Secretário de Segurança do governo estadual, ligou para a redação convidando-me para acompanhar uma importante ação policial. Era o empastelamento do jornal comunista “A Voz do Povo”, que tinha transcrito algumas matérias minhas; inclusive a entrevista que fiz com Juscelino. Fui, vi e fiquei preso por algumas horas. Depois, quando acumulei as funções de subsecretário com a de cronista parlamentar na Assembleia Legislativa, me deparei com a barricada de sacos de areia que havia por trás das mesas da presidência, da secretaria da casa e da “bancada” de imprensa. É que os senhores deputados eram muito afobados e costumavam andar armados, até no Plenário.
Nesse período conheci também Donizete Calheiros, um dos ícones do jornalismo da terra e pai de minha amiga Leige. Donizete usava muletas, pois tinha perdido uma perna, “lembrança” de quando os Góis Monteiros dominavam Alagoas e o tinham prendido e torturado. Fui percebendo, então, que a terra dos Marechais tinha um lado que não era assim tão risonho; um lado obscuro e não totalmente franco. Anos depois voltei para o meu Rio Grande, o do Norte, fui para o sul que eu pensava ser maravilha, andei por esse mundão de Deus e mais uma vez voltei para o meu Estado. Entretanto, sempre que possível, passo por Maceió ou telefono para um dos meus amigos alagoanos, pois lá desfrutei de alguns dos melhores anos da minha adolescência. Há alguns anos redescobri Carivaldo Brandão e com ele falava por telefone.
Uma figura recorrente em nossas conversas com Carivaldo era Donizete Calheiros, um exemplo para todos nós daquela época, em que o jornalismo era uma profissão de idealistas e o exercício da honra uma constante. Na última conversa lhe perguntei:
– O Renan Calheiros é parente do Donizete Calheiros?
– Acho que não. Só se o DNA foi trocado – A resposta lacônica, mas que disse tudo.

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