segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Rizolete Fernandes lança mais uma obra: Tecelãs.

O poetisa e escritora Rizolete Fernandes, na próxima 5ª feira, às 18 horas, na Academia de Letras, lançará "Tecelãs", seu mais livro. Para a professora Conceição Flores, "é um livro surpreendente, arquitetado com maestria, que demandou de Rizolete Fernandes uma pesquisa acurada sobre as 20 mulheres às quais a autora cede a palavra para que elas contem suas histórias, suas lutas". A editora é a Sarau de Letras.
A Academia fica na rua Mipibu, nº 443.

A vida era pálida, até que...

Tomislav R. Femenick – Escritor

Sua vida sempre foi previsível e pálida. Teve asma na infância, começou a usar óculos quando estava fazendo o segundo grau, tentou e não conseguiu entrar na universidade pública. Seus pais, funcionários, de classe média-média, tiveram que bancar a mensalidade de uma faculdade particular noturna. Não era das melhores, mas também não era das piores. Como eles, estava um pouco abaixo da média. Comprar livros nem pensar. A grana não dava. O jeito era apelar para os parcos livros da pobre biblioteca da escola, ou tirar xerox. Dava sempre um jeito de estudar. Quando “fazia” o segundo ano, conseguiu, por intercessão de um primo de sua mãe, entrar em um banco como estagiário. Como era esforçado, aprendia fácil a burocracia daquele mundo de papéis e informações digitalizadas e trabalhava além do expediente normal, acabou sendo efetivado como funcionário. Aí já sobrava um dinheirinho que dava para sair com os amigos, em alguns finais de semana.
Entre as colegas de faculdade, na mesma sala havia uma que era de classe média como ele, igualmente estudiosa, que trabalhava na lojinha do pai, era acanhada e frágil e deveria ter uma vida tão insípida como a dele. E tinha, como veio a saber mais tarde. O nariz é que era um pouquinho grande demais e, dizia ela, por causa disso tinha uma rinite alérgica permanente. Fez dela a sua eleita. A progressão amizade, namoro, noivado e casamento acompanhou as suas promoções no banco; auxiliar, escriturário, caixa, encarregado e supervisor administrativo de uma agência recém-inaugurada.
Ainda no tempo do namoro fez amizade com o sogro. Um cara legal, que gostava de fazer churrasco, tomar cerveja (só em lata e só Brahma), dormir depois do almoço quando não estava trabalhando. Era pequeno comerciante de produtos populares. Bem populares: vendia refugo das fábricas de roupa. A sogra, como todas as sogras, era embirrenta, queixosa e toda cuidadosa no querer saber aonde eles iam, que horas a filha estaria de volta em casa. Seus pais gostaram da moça.
A grande surpresa veio quando eles foram à igreja, marcar a data do casamento. Lá, ela quis fazer uma confissão, não ao padre, mas a ele. Revelou que não era mais virgem. Que foi há muitos anos, com um primo, que hoje mora longe, lá pras bandas de Altamira, no Pará. Que foi algo sem importância, mas que ela se achava na obrigação de contar. Foi um choque. Matou no peito, ajeitou com a cabeça e, só depois de muito pensar, é que chegou a conclusão que foi um ato de sinceridade por parte dela. Depois até se esqueceu de tudo, que passou a ser apenas um pormenor.
Já tinham terminado o curso quando se casaram. Foi uma festa simples, com a mesma simplicidade que cercava as duas famílias. Foram morar em um condomínio da periferia, com muitos prédios de poucos andares e sem elevador. Por causa da coriza, ela fez uma operação plástica no nariz. Ganhou um afilado e arrebitado, mas não perdeu a rinite. Deixou de trabalhar, pois queria se acostumar a ser dona de casa. Tomava a pílula, porque acha muito cedo para ter filhos. Primeiro haveriam que gozar a vida, dizia. Dormia até tarde, fazia comida que já desse para o almoço e o jantar; à noite assistiam à novela e nos finais de semana almoçavam na casa dos pais dela ou dele. Ela não gostava de praia. Para ele a vida voltou a ser pálida e rotineira.
Um dia, estava no banco quando lhe chamaram ao telefone. Era um vizinho de seu pai. “Venha urgente, aconteceu uma tragédia. Seu pai descobrira que sua mãe, há muitos anos, mantinha um caso com aquele primo que lhe arranjou o emprego no banco e que, talvez, você não seja filho dele. Seu pai matou a sua mãe e se entregado à polícia”. Na hora não assimilou totalmente a tragédia; sua mãe assassinada pelo seu pai, seu pai era outro. Só ficou pensando em como dizer isso para a esposa. Não era notícia para se dar por telefone, tinha que ser ao vivo e com muito cuidado, pois ela era uma criatura frágil. Em casa, para não acordá-la de chofre, silenciosamente abriu a porta com sua chave e... sua mulher, de nariz novo e sem nada no corpo, estava na cama com aquele primo que ela dizia morar lá pras bandas de Altamira. Matou os dois.
Hoje a sua vida é bastante movimentada. Preso, com 30 anos para cumprir, é o dono de pedaço na Penitenciaria e por isso goza de algumas regalias. Controla o tráfico de drogas na cadeia, os outros lhe temem, recebe visitas íntimas quando as quer, sua alimentação é igual a dos administradores do presídio, já saiu algumas vezes por “licença de natal” e recebe, por conta do governo, assistência médica e dentária. Só tem uma queixa da vida: seu pai, que está na mesma prisão, não fala mais com ele.
Tribuna do Norte. Natal, 13 ago. 2017

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O enigma da reencarnação
Postado em 10 Aug 2017 02 28 OutroOlhar-provisori

Provavelmente, hoje os físicos têm mais  
a contribuir sobre o tema reencarnação  
do que religiosos atados a suas certezas  


por JOMAR MORAIS



Dois anos antes de morrer, de câncer, um grande amigo, jornalista, desabafou, em um texto brilhante, que, para além da morte, nada esperava. Não pensava em continuar vivo e consciente e, sobretudo, em retornar ao mundo, reencarnar. Queria apenas desaparecer.

Meu amigo ainda não sabia do câncer que já lhe corroía as entranhas, mas estava amargurado com os reveses da vida e a injustiça dos homens, contra a qual lutou bravamente em seus últimos anos de vida. Tornara-se ateu e materialista contumaz.

Não sei se o seu ateísmo e materialismo tinham base filosófica ou emocional. Não é fácil conservar a imagem primitiva e convencional de um Deus pessoal, protetor e exigente quando a vida confronta e derrota nossos desejos. Quanto à reencarnação, acho que ele lidava com o conceito mais popular e ocidental daquilo que o oriente, em passado remoto, chamava de transmigração.

Ao contrário de meu amigo, acredito em reencarnação, mas meu conceito sobre esse evento há muito está efervescente e não para de desconstruir-me as certezas. Nossas crenças interagem o tempo todo com nossas experiências e conhecimento acumulado. Também a fé se move no fluxo incessante da criação. Não reconhecer essa evidência é, talvez, a maior fragilidade da maioria das religiões e dos religiosos que gostariam de encontrar na prática espiritual a segurança de um universo estático e acabado.

Anos atrás, cheguei a vivenciar supostas recordações de vida passada que até hoje me impactam a emoção e a percepção sem que isso tenha desvendado o enigma. O que encarna? O que reencarna? Quando relatei uma de minhas experiências na Internet, cheguei a ser contatado pela produção da TV Globo, que então preparava a novela “Além do Tempo”, e por uma produtora de filmes que viam a possibilidade de agregar meu relato a seus projetos literários, mas fiz questão de baixar a bola e explicar que, no texto, eu deixara aberta a possibilidade de o evento narrado ter diferentes explicações, conforme a linha conceitual adotada. Um espírita talvez considerasse a reencarnação de uma estrutura completa, um eu e, quem sabe, um ego; um budista, que não trabalha com a ideia de um “eu” inerente, poderia ver ali apenas a manifestação de agregados energéticos, memórias da consciência única; já um psicólogo junguiano faria considerações sobre o inconsciente coletivo.

Provavelmente, na atualidade, os físicos teóricos têm mais a contribuir para o entendimento dessa questão que os religiosos superficiais, que costumam estacionar sobre “certezas” indiscutíveis. 

Einstein, informa o físico Amit Goswami, em seu livro “A Física da Alma”, afirmava que “passado, presente e futuro existem, em algum nível, simultaneamente”. Ele consolou a viúva de seu amigo Michelangelo Besso dizendo que “para nós, físicos convictos, a diferença entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão, por mais persistente que seja”.

Goswami acha que Einstein intuiu que “as pessoas vivem em seus respectivos quadros temporais” e, a partir daí, desenvolve hipóteses no livro citado. As pessoas viveriam em quadros temporais correlacionados. O significado estaria na mente do experimentador, “a consciência individual específica, que se sintoniza com alguma coisa do parque temático não local, no melodrama específico dessa pessoa”.

As elaborações de Goswami não cabem, completas e íntegras, em um texto genérico e conciso de um mero jornalista. Mas, sem dúvida, são uma provocação a que pensemos de um jeito novo nas questões emaranhadas do ser, do tempo e da influência recíproca entre passado, futuro e presente.

[ Publicado na edição do Novonoticias.com de 08/08/17 ]

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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

EM MATO GROSSO.

Primo de governador, ex-secretário é preso suspeito de mandar grampear políticos e jornalista

Paulo Taques foi secretário chefe da Casa Civil na gestão de Pedro Taques (PSDB). Ele foi preso nesta sexta-feira (4).

Por G1 MT
 
Ex-secretário da Casa Civil de Mato Grosso, Paulo Taques, foi preso nesta sexta-feira (4) (Foto: Mayke Toscano/Secom-MT)Ex-secretário da Casa Civil de Mato Grosso, Paulo Taques, foi preso nesta sexta-feira (4) (Foto: Mayke Toscano/Secom-MT)
Ex-secretário da Casa Civil de Mato Grosso, Paulo Taques, foi preso nesta sexta-feira (4) (Foto: Mayke Toscano/Secom-MT)
O ex-secretário chefe da Casa Civil, Paulo Taques, que é primo do governador de Mato Grosso, Pedro Taques (PSDB) foi preso preventivamente nesta sexta-feira (4) suspeito de envolvimento esquema de grampos clandestinos operados pela Polícia Militar no estado. Ele foi levado para a sede da Polinter, em Cuiabá, onde deve prestar depoimento. O esquema foi denunciado em uma reportagem do Fantástico em maio deste ano.
A prisão foi determinada pelo desembargado do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), Orlando Perri, relator no órgão sobre a investigação dos grampos clandestinos. A decisão foi assinada na quinta-feira (3) e cumprida hoje.
Paulo Taques foi levado para a sede da Polinter, em Cuiabá, onde deve prestar depoimento (Foto: Lislaine dos Anjos/G1)Paulo Taques foi levado para a sede da Polinter, em Cuiabá, onde deve prestar depoimento (Foto: Lislaine dos Anjos/G1)
Paulo Taques foi levado para a sede da Polinter, em Cuiabá, onde deve prestar depoimento (Foto: Lislaine dos Anjos/G1)
Na decisão, o desembargador afirma que, mesmo em liberdade, o ex-secretário "vem buscando, de todas as formas, interferir diretamente na apuração dos fatos, mediante a utilização dos meios de comunicação, sobretudo pelo forte prestígio que ainda possui perante a imprensa de uma forma geral, ou, quiçá, de espaços decorrentes de suas relações com o governo".
Segundo a denúncia, mais de 100 pessoas tiveram as conversas grampeadas, entre elas políticos de oposição ao atual governo de Mato Grosso, advogados, médicos e jornalistas.
Os telefones foram incluídos indevidamente em uma investigação sobre tráfico de drogas que teria o suposto envolvimento de policiais militares. O resultado dessa investigação, porém, não foi informado pelo governo até hoje.
Paulo Taques, que é advogado, deixou o comando da Casa Civil em maio deste ano. À época, ele alegou que voltaria a se dedicar à advocacia e que reassumiria o papel de advogado pessoal de Pedro Taques, primo dele.
Além de Paulo Taques, estão presos por envolvimento no esquema o coronel Zaqueu Barbosa, os coronéis Evandro Lesco e Ronelson Barros, ex-chefe e ex-adjunto da Casa Militar, e o cabo o cabo Gerson Correa Junior. Eles estão foram presos entre maio e junho deste ano.
"Os mesmos argumentos aduzidos por ocasião da prisão preventiva de vários policiais militares também se aplicam ao caso em apreço, máxime porque há fortíssimos indícios da ligação entre Paulo Taques com o grupo criminoso formado para implantação de diversas escutas telefônicas ilegais", diz trecho da decisão.

Investigações

O promotor de Justiça Mauro Zaque, que comandou a Secretaria de Segurança Pública em 2015, denunciou o caso à Procuradoria-Geral da República, afirmando que alertou o governador Pedro Taques (PSBD) sobre a existência de um "escritório clandestino de espionagem" por meio de dois ofícios. O primeiro chegou a ser enviado para o MPE, mas a investigação foi arquivada por falta de provas.
O segundo, que o governador alega nunca ter recebido, foi protocolado na Casa Civil, mas cancelado no mesmo dia e substituído por outro, conforme apontou auditoria da Controladoria Geral do Estado. Antes do relatório da CGE vir à tona, Taques chegou a entrar com representação contra Zaque em instituições como o Conselho Nacional do Ministério Público e a PGR, acusando-o de falsificação de documento público.
Dias antes do escândalo ser revelado em reportagem do Fantástico, em maio, o secretário-chefe da Casa Civil, Paulo Taques, primo do governador, deixou o cargo. O próprio Paulo Taques, alegando estar sofrendo ameaças, pediu à Sesp para que fossem investigados um jornalista, uma ex-secretária e uma ex-amante dele.

Envolvimento do governador

Em depoimento encaminhado à PGR, o ex-secretário Mauro Zaque afirmou que em 2015, época em que ainda estava no governo, ouviu o coronel Zaqueu Barbosa, comandante da PM à época, dizer que as interceptações telefônicas eram feitas por determinação de Pedro Taques. Ele alega ainda que levou o assunto a Taques e que o governador ficou constrangido, mas não fez nenhum comentário.
Em entrevista ao Fantástico, o secretário de Comunicação, Kléber Lima, negou o envolvimento do governador no esquema.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Ensino de História em Portugal perpetua mito do 'bom colonizador' e banaliza escravidão, diz pesquisadora

Escravos por DebretDireito de imagemJEAN-BAPTISTE DEBRET
Image captionPintura do francês Jean-Baptiste Debret de 1826 retrata escravos no Brasil
"De igual modo, em virtude dos descobrimentos, movimentaram-se povos para outros continentes (sobretudo europeus e escravos africanos)."
É dessa forma - "como se os negros tivessem optado por emigrar em vez de terem sido levados à força" - que o colonialismo ainda é ensinado em Portugal.
Quem critica é a portuguesa Marta Araújo, investigadora principal do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra.
De setembro de 2008 a fevereiro de 2012, ela coordenou uma minuciosa pesquisa ao fim da qual concluiu que os livros didáticos do país "escondem o racismo no colonialismo português e naturalizam a escravatura".
Além disso, segundo Araújo, "persiste até hoje a visão romântica de que cumprimos uma missão civilizatória, ou seja, de que fomos bons colonizadores, mais benevolentes do que outros povos europeus".
"A escravatura não ocupa mais de duas ou três páginas nesses livros, sendo tratada de forma vaga e superficial. Também propagam ideias tortuosas. Por exemplo, quando falam sobre as consequências da escravatura, o único país a ganhar maior destaque é o Brasil e mesmo assim para falar sobre a miscigenação", explica.
"Por trás disso, está o propósito de destacar a suposta multirracialidade da nossa maior colônia que, neste sentido, seria um exemplo do sucesso das políticas de miscigenação. Na prática, porém, sabemos que isso não ocorreu da forma como é tratada", questiona.
Araújo diz que "nada mudou" desde 2012 e argumenta que a falta de compreensão sobre o assunto traz prejuízos.
"Essa narrativa gera uma série de consequências, desde a menor coleta de dados sobre a discriminação étnico-racial até a própria não admissão de que temos um problema de racismo", afirma.
Escravos por DebretDireito de imagemJEAN-BAPTISTE DEBRET
Image captionSegundo Araújo, livros didáticos portugueses continuam a apregoar visão "romântica" sobre colonialismo português

'Vítimas passivas?'

Para realizar a pesquisa, Araújo contou com a ajuda de outros pesquisadores. O foco principal foi a análise dos cinco livros didáticos de História mais vendidos no país para alunos do chamado 3º Ciclo do Ensino Básico (12 a 14 anos), que compreende do 7º ao 9º ano.
Além disso, a equipe também examinou políticas públicas, entrevistou historiadores e educadores, assistiu a aulas e conduziu workshops com estudantes.
Em um deles, as pesquisadoras presenciaram uma cena que chamou a atenção, lembra Araújo.
Na ocasião, os alunos ficaram surpresos ao saber de revoltas das próprias populações escravizadas. E também sobre o verdadeiro significado dos quilombos ─ destino dos escravos que fugiam, normalmente locais escondidos e fortificados no meio das matas.
"Em outros países, há uma abertura muito maior para discutir como essas populações lutavam contra a opressão. Mas, no caso português, os alunos nem sequer poderiam imaginar que eles se libertavam sozinhos e continuavam a acreditar que todos eram vítimas passivas da situação. É uma ideia muito resignada", diz.
Araújo destaca que nos livros analisados "não há nenhuma alusão à Revolução do Haiti (conflito sangrento que culminou na abolição da escravidão e na independência do país, que passou a ser a primeira república governada por pessoas de ascendência africana)".
Já os quilombos são representados, acrescenta a pesquisadora, como "locais onde os negros dançavam em um dia de festa".
"Como resultado, essas versões acabam sendo consensualizadas e não levantam as polêmicas necessárias para problematizarmos o ensino da História da África."

'Visão romântica'

Araújo diz que, diferentemente de outros países, os livros didáticos portugueses continuam a apregoar uma visão "romântica" sobre o colonialismo português.
"Perdura a narrativa de que nosso colonialismo foi um colonialismo amigável, do qual resultaram sociedades multiculturais e multirraciais - e o Brasil seria um exemplo", diz.
Ironicamente, contudo, outras potências colonizadoras daquele tempo não são retratadas de igual forma, observa ela.
"Quando falamos da descoberta das Américas, os espanhóis são descritos como extremamente violentos sempre em contraste com a suposta benevolência do colonialismo português. Já os impérios francês, britânico e belga são tachados de racistas", assinala.
"Por outro lado, nunca se fala da questão racial em relação ao colonialismo português. Há despolitização crescente. Os livros didáticos holandeses, por exemplo, atribuem a escravatura aos portugueses", acrescenta.
Segundo ela, essa ideia da "benevolência do colonizador português" acabou encontrando eco no luso-tropicalismo, tese desenvolvida pelo cientista social brasileiro Gilberto Freire sobre a relação de Portugal com os trópicos.
Em linhas gerais, Freire defendia que a capacidade do português de se relacionar com os trópicos ─ não por interesse político ou econômico, mas por suposta empatia inata ─ resultaria de sua própria origem ética híbrida, da sua bicontinentalidade e do longo contato com mouros e judeus na Península Ibérica.
Apesar de rejeitado pelo Estado Novo de Getúlio Vargas (1930-1945), por causa da importância que conferia à miscigenação e à interpenetração de culturas, o luso-tropicalismo ganhou força como peça de propaganda durante a ditadura do português António de Oliveira Salazar (1932-1968). Uma versão simplificada e nacionalista da tese acabou guiando a política externa do regime.
"Ocorre que a questão racial nunca foi debatida em Portugal", ressalta Araújo.
Passagem de livro didático em PortugalDireito de imagemMARTA ARAÚJO
Image captionLivro didático português diz que escravos africanos "movimentaram-se para outros continentes"

'Sem resposta'

A pesquisadora alega que enviou os resultados da pesquisa ao Ministério da Educação português, mas nunca obteve resposta.
"Nossa percepção é que os responsáveis acreditam que tudo está bem assim e que medidas paliativas, como festivais culturais sazonais, podem substituir a problematização de um assunto tão importante", critica.
Nesse sentido, Araújo elogia a iniciativa brasileira de 2003 que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio.
"Precisamos combater o racismo, mas isso não será possível se não mudarmos a forma como ensinamos nossa História", conclui.
Procurado pela BBC Brasil, o Ministério da Educação português não havia respondido até a publicação desta reportagem.