quinta-feira, 20 de julho de 2017

As mocreias do senado federal



Tomislav R. Femenick – Jornalista

Comecei a escrever para jornais menino ainda; na primeira metade dos anos 1950. Foi no Jornal de Alagoas, órgão dos Diários Associados, então a maior cadeia de comunicação do Brasil. Naquela época, nos jornais matutinos as matérias eram redigidas à noite, nas redações, ao som do matraquear das teclas das máquinas de datilografia e de programas de rádio. Sempre sintonizávamos alguma estação “do sul”, para nos manter informados sobre os últimos acontecimentos. Não havia internet e a televisão – esta, insipiente – só existia no Rio e São Paulo. 
Uma das estações que mais ouvíamos era a Rádio Tupy do Rio de Janeiro, que naquelas horas transmitia o programa “Ali Babá e os Quarenta Garçons”, com humor e música, o qual durante algum tempo foi apresentado pelo genial Chacrinha. Um dos quadros retratava as Mocreias da Lapa, um grupo fictício de mulheres que frequentavam os bares (não os cabarés) do bairro boêmio carioca e que infernizavam a vida dos garçons, atrapalhando o seu trabalho e fazendo gozação com tudo. O termo “mocreias” não tinha nenhum significado pejorativo ou ofensivo que fosse, era entendido como “importunas, maldosas”. 
 Ao ver a impensada cena protagonizada pelas senadoras Fátima Bezerra (PT-RN), Gleisi Hoffmann (PT-PR), Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), Ângela Portela (PT-ES), Lídice de Mata (PSB-BA), Regina Sousa (PT-PI) e Kátia Abreu (PMDB-TO), ocupando a mesa do Senado Federal e impedindo que o presidente da casa presidisse os trabalhos, só me veio à memória as peripécias das Mocreias da Lapa. Foi uma ação deprimente, em meio a risos marotos, microfones sem som, luzes apagadas e, para completar, o quadro de decadência total: almoço servido em quentinhas. Parecia um amoral piquenique de colegiais que estavam faltando à aula, mas na verdade estavam faltando com o decoro que é exigido às senhoras e aos senhores representantes do povo. 
Tirado a senadora Kátia Abreu, que em outros tempos já foi odiada pela esquerda e lá estava simplesmente para obter visibilidade (ela é da bancada dos comendadores da ordem da melancia), todas as outras são de esquerda e veem o embate político como um meio para a imposição de suas ideias. Para elas a democracia é um meio para se alcançar o poder e estabelecer um regime de força; por isso é que tecem louvores a Cuba dos irmãos Castros e a Venezuela de Chaves (o sempre vivo que virou passarinho) e Maduro.
Será que a batalha travada pelas mulheres para participar ativamente da vida política do país foi para que agissem assim? Acho que não. Não custa relembrar que a luta pela participação das mulheres brasileiras na vida política começou em Mossoró. A base foi a Lei Estadual nº 660, de 25 de outubro de 1927, que fez do Rio Grande do Norte o primeiro a estender o direito do voto às mulheres. Um mês depois, no dia 25 de novembro, o nome de Celina Guimarães Vianna, foi incluído na lista de eleitores da cidade de Mossoró. O acontecimento teve repercussão até no exterior, pois ela não somente era a primeira eleitora do Brasil, mas, também, da primeira eleitora da América do Sul. Também foi em nosso Estado que, em 1929, foi eleita a primeira prefeita do Brasil, Alzira Soriano, na cidade de Lages. Além do mais, o Rio Grande do Norte, a nossa capital e muitas cidades do interior já foram ou são governadas por mulheres. 
Isso tudo foi resultado de muitas lutas que não devem ser esquecidas, pois elas têm uma visão muito peculiar sobre alguns problemas que nós homens não temos, daí a sua importância na vida política. Compreendem melhor as necessidades da população mais pobre, identificam com mais acuidade as lacunas do ensino e do sistema de saúde etc. Assim, as mulheres não devem e não podem se apequenar, tornassem pequenas praticando travessuras. 
E aqui vai um recado para a nossa representante que participou desse lastimável espetáculo de mau gosto: dona Fátima Bezerra, na Política com “P” maiúsculo o importante não é só aparecer ou vencer. Mais importante ainda é a natureza da luta e como se luta; os fins nunca justificam os meios. Receber propina para se eleger (seja o candidato da direita, do centro ou da esquerda) é jogo sujo. Jogar cometendo faltas (mesmo que o juiz não veja) também é jogo sujo. Jogar bonito para a plateia, para aparecer bem na fita e sem pensar no que resulta para seus representados (os leitores) é jogo feio que pode não merecer cartão vermelho do juiz, mas merece a reprovação dos eleitores. 

Tribuna do Norte. Natal, 20 jul. 2017

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