sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Donald Trump: 5 respostas surpreendentes ou polêmicas da 1ª grande entrevista coletiva do presidente dos EUA

  • BBC de Londes
  • Há 3 horas
Donald TrumpDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionPrimeira entrevista de Trump a jornalistas desde posse foi marcada por intervenções acaloradas
Durante aproximadamente 1 hora e 15 minutos, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou por uma prova de fogo na quinta-feira.
Ele convocou uma entrevista coletiva com jornalistas, a primeira depois de sua posse, com o objetivo de fazer um balanço do "progresso" alcançado no primeiro mês de governo.
O encontro acabou pontuado por intervenções acaloradas do republicano em resposta aos questionamentos duros dos repórteres.
"Foi uma entrevista coletiva clássica do período de campanha de Trump. Em alguns momentos, estava combativo, divertido, na defensiva e jovial. Em várias ocasiões, o presidente desviou-se das perguntas até que finalmente voltou aos padrões normais", disse Anthony Zurcher, correspondente da BBC em Washington.
E embora seus críticos o tenham elogiado por se submeter ao interrogatório, houve quem viu no episódio uma estratégia para tirar a atenção do escândalo da demissão do assessor de segurança nacional (Michael Flynn) e dos supostos contatos de sua equipe de campanha com a Rússia.
Segundo Zurcher, na entrevista coletiva, que não estava prevista na agenda presidencial, o presidente americano tentou transmitir a mensagem de que estava trabalhando ativamente para cumprir suas promessas eleitorais e mostrar que o governo já opera como uma máquina "bem azeitada".
Mas, na realidade, Trump acabou dedicando mais tempo a criticar os meios de comunicação do que falar de seus planos de ação para o futuro. E houve momentos surpreendentes. Saiba quais foram eles.
Donald TrumpDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionTrump respondeu perguntas de jornalistas durante aproximamente 1h15

1. Críticas a Obama

Durante os primeiros minutos, Trump falou sobre a "herança maldita" que recebeu de seu antecessor, Barack Obama.
"Nosso governo herdou muitos problemas administrativos e econômicos. Para ser honesto, herdei um desastre, é um desastre, em casa e no exterior. Os empregos estão deixando o país, os salários são baixos", assinalou o republicano.
A afirmação contrasta com o fato de que, ao Obama deixar o poder, os Estados Unidos já estavam havia 75 trimestres consecutivos criando empregos e que, durante seus dois mandatos, foram gerados 11,3 milhões de postos de trabalho.
Vale ressaltar ainda que Obama chegou à Casa Branca em meio à pior crise financeira dos últimos tempos.
"Estou aqui para atualizar os cidadãos americanos sobre o progresso incrível que fizemos nas últimas quatro semanas desde que tomei posse. Não acredito que tenha havido um presidente eleito que, em um curto período de tempo, tenha feito o que fizemos", acrescentou.

2. Ataques à imprensa

Embora tenha convocado os jornalistas, Trump anunciou que sua intenção era se dirigir diretamente aos cidadãos americanos.
"Faço essa apresentação diretamente para os cidadãos americanos na presença da imprensa", disse ele, antes de voltar a acusar os repórteres de "desonestidade".
"Temos que descobrir o que ocorre com a imprensa porque, honestamente, está fora de controle. O nível de desonestidade está fora de controle", disse.
"O público já não acredita mais em vocês", acrescentou, em seguida.
Jornalistas durante entrevista coletiva com TrumpDireito de imagemAP
Image captionImprensa fez perguntas duras a Trump

3. Desconfiança

Durante sua apresentação, Trump se gabou do triunfo eleitoral que obteve nas eleições presidenciais de 8 de novembro, ao alcançar 306 votos nos colégios eleitorais (apesar de ter perdido no voto popular), e disse se tratar da maior vitória desde Ronald Reagan (1981-1989).
Após a renúncia de Michael Flynn, Trump disse não saber de nenhum outro membro de sua equipe que tenha mantido conversas com a Rússia antes de ter chegado ao governo.
A afirmação não passou em branco.
"Por que os cidadãos deveriam confiar em vocês?", perguntou um repórter da rede de TV americana NBC depois de rebater a comparação de Trump.
O jornalista lembrou ao republicano que Reagan teve 350 votos no colégio eleitoral, Barack Obama, 365 e George W. Bush, 426.

4. Ligações com a Rússia

Apesar da recente renúncia do assessor de segurança nacional, Michael Flynn, depois de revelações de que ele havia mantido conversas extraoficiais com o embaixador da Rússia em Washington, e das notícias veiculadas pela imprensa segundo as quais outros membros da equipe de Trump estiveram em contato com funcionários russos, o presidente americano desviou-se do assunto.
"Podem falar tudo o que quiserem sobre a Rússia. São notícias falsas (...) Não devo nada na Rússia, não tenho empréstimos na Rússia, não tenho acordos na Rússia", disse.
Trump reiterou que as informações "falsas" e "horríveis" que a imprensa publica sobre o assunto torna "muito mais difícil" para os Estados Unidos firmarem um acordo com a Rússia.
E quando questionado sobre um barco espião da Marinha russa que foi flagrado perto do litoral do Estado americano de Connecticut, respondeu que seus críticos provavelmente achariam "que a melhor coisa que poderia fazer é destruir esse barco, que está a 50 km do litoral". "Todo mundo neste país diria: 'Ah, isso é ótimo'. Mas não é. Isso não é ótimo."
No entanto, ao ser perguntado sobre se poderia confirmar que nenhum outro membro de sua equipe manteve contato com funcionários russos, evitou colocar suas mãos no fogo. "Ninguém que eu saiba", disse.
Michael FlynnDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionEx-assessor de segurança nacional, Michael Flynn perdeu emprego após revelações de que teria mantido contatos extraoficiais com Rússia

5. Momentos constrangedores

Em alguns momentos, na entrevista coletiva a jornalistas, houve momentos embaraçosos.
Um deles ocorreu quando Trump foi questionado por uma repórter negra se ele pensava incluir o Congressional Black Caucus, um grupo que reúne membros da comunidade afroamericana do Congresso dos Estados Unidos, nas reuniões sobre as cidades.
"Você quer organizar a reunião?", respondeu Trump.
"Não, não, não. Sou apenas uma repórter", replicou a repórter.
"São amigos seus?", perguntou Trump.
"Conheço algumas pessoas", respondeu a repórter.
"Siga em frente. Organize a reunião. Vamos. Adoraria me reunir com o Black Caucus. Acho maravilhoso", finalizou Trump.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

HISTÓRIA

dw.de

O alemão que mapeou o Brasil

Há dois séculos, Carl von Martius chegou ao país junto com a imperatriz Leopoldina. Partiu após três anos, deixando como legado um meticuloso levantamento da flora brasileira: o maior já realizado até hoje.
Ausstellung Carl Friedrich Philipp von Martius - Lithografie Brasilien (Moreira Salles Institut)
Von Martius retratou as paisagens em litografias, compiladas na obra "Flora brasiliensis", até hoje uma referência
Há 200 anos, Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868) chegava ao Brasil como um dos integrantes da Missão Austríaca – que acompanhava a imperatriz Leopoldina por ocasião de seu casamento com dom Pedro 1º. A aventura do jovem botânico alemão, que percorreu mais de dez mil quilômetros por um Brasil inóspito, marcaria um dos mais importantes momentos para o conhecimento da flora nacional até então exótica e inatingível no imaginário mundial.
Carl Friedrich Philipp von Martius (public domain)
Von Martius ajudou a decifrar o Brasil
Durante os três anos em que passou no país (entre 1817 e 1820), Von Martius fez um meticuloso levantamento da flora brasileira – o maior já realizado. E a partir deste estudo, ele dividiu o Brasil em cinco biomas (Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Selva Amazônica e Pampas), uma divisão usada até hoje.
Para marcar a data, foi aberta no último fim de semana, no Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio, a exposição "O mapa de Von Martius ou como escrever a história natural do Brasil". A exposição tem justamente como ponto de partida o mapa criado em 1858, em que o botânico propõe uma divisão regional para o país a partir dos biomas detalhados em sua expedição.
"Von Martius não foi o único a fazer uma proposta de regionalização do Brasil, mas teve essa visão de tentar compreender o território todo", explica a coordenadora de iconografia do IMS e curadora da exposição, Julia Kovensky. "Com o levantamento das plantas, ele visualizou esses grandes conjuntos, definiu biomas, e transferiu isso para uma divisão territorial do país."
Ausstellung Carl Friedrich Philipp von Martius - Lithografie Brasilien (Moreira Salles Institut )
Cachoeira do Rio São Francisco, chamada então de Paulo Afonso (c.1840)
Em companhia do zoólogo Johann Baptist von Spix, Von Martius fez expedições pelas regiões Norte, Nordeste e Sudeste, colhendo e catalogando uma vasta quantidade de espécimes vegetais. Ele retratou as paisagens em litografias, compiladas na obra Flora brasiliensis (até hoje uma referência), reunindo 20 mil espécimes vegetais em 40 volumes. A exposição reúne 50 dessas paisagens, além do mapa.
"Estamos apresentando um pequeno conjunto de obras do primeiro volume da Flora brasiliensis, que são dedicados às paisagens brasileiras com as plantas inseridas", explica Julia. "São litografias com paisagens de diferentes regiões do Brasil, além do mapa com os biomas e algumas obras complementares."
Ausstellung Carl Friedrich Philipp von Martius - Lithografie Brasilien (Moreira Salles Institut )
As árvores que nasceram antes de Cristo na floresta às margens do Rio Amazonas (c.1840)
O mapa dá um pouco da dimensão da aventura de se lançar pelo interior do país naquela época, até a região da atual fronteira com a Colômbia, saga relatada pelo naturalista nos três volumes do livroReise in Brasilien ("Viagem pelo Brasil"), publicado entre 1823 e 1831. O trabalho vai além da questão da flora e retrata um país em transformação, que se tornara a capital do Império português poucos anos antes e se abria para o mundo.
 "Ele tinha um grande interesse por ciências naturais, mais especificamente por botânica", conta Júlia. "Mas, como muitos outros homens de sua época, tinha uma visão muito ampla e atuou em diferentes frentes."
De acordo com a historiadora Iris Kantor, da Universidade de São Paulo (USP), que também participou da curadoria da exposição, o levantamento feito por Von Martius produziu uma imagem do Brasil que até hoje está incorporada ao imaginário das elites. Para ela, analisar criticamente essa imagem é um desafio importante para compreender o país.
Ausstellung Carl Friedrich Philipp von Martius - Lithografie Brasilien (Moreira Salles Institut)
Floresta que sombreia as encostas das montanhas da Serra dos Órgãos, na Província do Rio de Janeiro (c.1840)
"Ele foi sem dúvida um dos pais fundadores da historiografia brasileira e de uma certa maneira de se fazer história", afirma Iris.
Em 1843, de Munique, Von Martius encaminhou uma proposta de como se deveria escrever a História do Brasil para um concurso organizado pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Seu programa de estudos incluía, pela primeira vez, a incorporação da participação popular na grande narrativa sobre a formação da nacionalidade.
"Assim, além dos indígenas e dos portugueses, ele sugeria a inclusão das populações de origem africana", diz Iris. "Algo muito atual como, por exemplo, o estudo da história do tráfico negreiro e das feitorias portuguesas no continente africano. Ele também chamou a atenção para a necessidade de investigar os mitos e tradições indígenas, por meio da incorporação da documentação oral."
A exposição no IMS pode ser vista até 16 de abril.

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