DUVIDAR E QUESTIONAR SEMPRE
Pronunciamento do jornalista Carlos Chagas ao receber o título de Professor Emérito da Universidade de Brasília em 31.10.2011.
Pela bondade de meus colegas professores, retorno à UNB, agora aposentado depois de 25 anos lecionando Ética, mas sempre aqui me refugiando nas horas de dúvida e de questionamento, santuário para os anos de contestação e de resistência.Aqui encontrei e continuarei encontrando forças para a rejeição das verdades absolutas, dos dogmas e das teorias definitivas.A razão é simples: aqui duvidamos, questionamos, contestamos e resistimos. Somos o que toda universidade deveria ser: uma fonte de discordâncias, um centro de não aceitação do mundo à nossa volta.Não estamos, com isso, renegando o passado, que sempre será o nosso maior tesouro, não na medida em que apontará o que devemos fazer, mas precisamente pelo contrário: o passado dirá sempre o que devemos evitar, no plano das idéias e das ações. Nós, professores, devemos essa dádiva aos alunos que aqui ingressam atrás de respostas, mas daqui saem repletos de mais perguntas. Houve tempo em que nossas carteiras escolares literalmente transformaram-se em barricadas. Hoje, formam estruturas para a permanente busca do desconhecido que se desata à frente. Devemos, nós da Comunicação Social, ter o sentido do conjunto, sobrepondo-se à particularização sempre maior e mais perigosa. Torna-se necessário superar o risco de sabermos cada vez mais sobre o menos, e cada vez menos sobre o mais. Conhecer muita mais a floresta do que as árvores.Uma palavra sobre a profissão. Enfrentamos de tempos em tempos batalhas em defesa do diploma, e até perdemos a última, em 2009, quando o Supremo Tribunal Federal extinguiu sua obrigatoriedade. Dizem alguns ingênuos e muitos malandros que o dom de escrever nasce com o indivíduo, tornando-se desnecessário o diploma para o exercício do jornalismo.Ora, o dom de escrever faz o escritor, essa criatura reverenciada por todos nós. O escritor pode publicar sua criação nos jornais e revistas, assim como apresentá-la no rádio, na televisão e agora nessas maquininhas eletrônicas diabólicas que nos assolam 24 horas por dia. Mas estará atuando como escritor, não como jornalista.O jornalista não é nem melhor nem pior do que o escritor. É apenas diferente, quando exercita a profissão.O “seu” Manoel, dono do açougue ali da esquina, é um craque na arte de cortar carne. Tira cada filet e cada costela que aguçam nosso apetite. Por conta disso deve trocar o avental pelo jaleco, entrar no Hospital Distrital e operar alguém de apendicite? O camelô da estação rodoviária é um astro da palavra. Convence todo mundo. Vende tudo o que apregoa em sua banca. Tem o dom da palavra. Por isso, deve entrar no Supremo Tribunal Federal e defender alguma causa?Ser jornalista é estar dotado de conhecimentos adquiridos ordenada e sistematicamente, e nenhum lugar parece melhor do que a universidade, para isso. Precisa, o jornalista, conhecer detalhes de redação, edição, diagramação, seleção, circulação e demais matérias inerentes à sua ação diária, estendidas aos correspondentes da mídia eletrônica. Precisa, porem, mais ainda, dominar a História, a Política, a Economia, a Geografia, a Filosofia e quanto segmentos a mais do conhecimento humano?Já imaginaram a ausência do diploma na Medicina? Quanto curandeiros ocupariam o lugar dos médicos? E no Direito, sem o diploma, como estariam os tribunais? O mundo progride e a progressão exige aperfeiçoamento. Quem lhes fala é um velho jornalista com diploma de advogado. Lamento até hoje o que tive de aprender na prática das redações e na agonia das improvisações. No tempo em que comecei a trabalhar como repórter inexistia a obrigatoriedade do diploma. Talvez nem o diploma. Exceção dos que por boa fé insurgem-se contra o diploma, que são os ingênuos, há que referir os malandros. Aqueles que por interesse rejeitam uma categoria altiva e organizada, forjada nos bancos universitários, acima e além de ideologias, doutrinas, partidos e inclinações sociais, pessoais ou políticas. Os estudantes de Comunicação Social deixam a universidade amalgamados pela dignidade. Em condições de exigir melhores salários, melhores condições de trabalho e, mais importante ainda, de respeito à notícia. De culto à verdade, condição facilmente adquirida quando se recebe o diploma. Tremem de medo dos jovens diplomados aqueles que fazem da notícia um trampolim para enriquecer, ganhar poder ou posicionar-se politicamente. Preferem ter em suas empresas jornalistas acomodados que não ousam defender a notícia honesta e verdadeira quando ela se choca com os interesses, a vontade e as idiossincrasias do patrão, seja público, seja privado. Para este, torna-se mais fácil abrigar nas redações jornalistas amorfos, insossos e inodoros.
Não pode ser nosso propósito analisar as diversas facetas desse complicado poliedro que é a Comunicação Social. Mesmo assim, vale observar a postura adotada por muitos de nós, impulsionada pela empáfia e a presunção, de julgarem-se partícipes da notícia, não apenas seus observadores. Nariz em pé e impostação de voz, rotulam-se formadores de opinião, quando na verdade somos apenas informadores da sociedade. Será conhecendo tudo o que se passa nela de bom e de mau, de certo e de errado, de ódio e de amor, que a sociedade, informada, terá condições de formar-se. Estimulada por mil outros fatores, dos quais somos apenas um.Pertenço, ironicamente com muito orgulho, à escola da humildade, tantas vezes atropelada pelo ego de companheiros. Não falo da humildade dos hipócritas ou dos subservientes, mas daquela que nasce do reconhecimento de sabermos que nada sabemos e que repudiamos a prevalência dos que se apregoam donos da verdade. Uma falsa humildade expressa na erudição de uns poucos nada mais significa do que a credulidade de muitos.Uma idéia, depois de pensada, não pertence apenas a quem pensou. Pertence à humanidade, que deu ao pensador as condições para pensar. Assim também as descobertas.Indagam os céticos quem deu a nós, jornalistas, o direito de decidir o que é notícia e o que vai para os jornais, as telinhas e os microfones. A partir dessa questão complicada, vicejam as propostas de censura e controle do conteúdo da informação jornalística. Respondo com uma pequena história, até para confirmar que por 25 anos fui tido por meus colegas professores e por montes de alunos como um contador de histórias. Nos anos sessenta ganhou a mídia mundial um escritor russo, Alexandre Solghenitzin, que nem tão brilhante assim era, mas criticava o regime soviético em seus romances. Imediatamente descoberto pela CIA, tanto fizeram do lado de cá que ele acabou proscrito do lado de lá. Cassaram-lhe a carteira do sindicato dos escritores. Pior ficou sua situação quando, sabe-se lá porque desígnios, foi-lhe dado o Prêmio Nobel de Literatura.Expulso da União Soviética, imaginaram passear com ele pelos Estados Unidos e pelo mundo como a prova viva da falência do sistema socialista. Negando-se a parecer como a girafa do Jardim Zoológico, Solghenitzin recusou polpudos empregos de garoto-propaganda do capitalismo e aceitou modesto convite para professor de literatura russa numa pequena universidade do meio-oeste. Recusou-se a conceder qualquer entrevista e lá ficou por cinco anos. Passado esse tempo, convocou jornais e jornalistas, anunciando estar agora preparado para falar de seu país natal, depois de conhecer em parte a vida em seu país de adoção.Lá compareceram os luminares da imprensa americana, inclusive Walter Cronkite, o Papa dos comentaristas políticos.Sem poupar o regime soviético, o singular escritor começou a falar da sociedade americana, batendo firme em suas contradições. Quando chegou a vez das imprensa, foi cruel. “Quem lhes deu o direito de saber e de decidir o que é notícia? De apresentar e de omitir informações do público, como se fossem deuses?”Uma pergunta dos diabos. Foi quando, interrompendo o entrevistado, Cronkite levantou-se num gesto teatral, com a mão no peito e exclamou: “Estou tendo uma ataque cardíaco!”Estabeleceu-se a confusão e o russo, com o microfone na mão, começou a exortar a platéia: “chamem um médico! Chamem um médico!”Nessa hora, o americano ficou bom e declarou apenas: “está respondida a sua pergunta...”Quando se tem uma dor no peito, a solução é chamar um médico. Quando se prepara um jornal, quem melhores condições para selecionar as notícias e saber o que deve ser impresso, é o jornalista. Aquele que se preparou para a função.Concluo com mais uma história, um episódio que tantas vezes transmiti a meus alunos. Nos primeiros aos do século passado um ilustríssimo lente de Física na Sorbonne, o professor Lipmann, costumava dar a aula inaugural aos calouros dirigindo-se a eles de forma pejorativa. Dizia ter pena deles. Dó. Comiseração. Por que haviam decidido estudar Física quando a Física estava pronta, acabada, arrumada e empacotada? Nada havia mais a pesquisar ou descobrir.Pobre professor Lipmann, que para sorte dele morreu antes de saber da existência de Albert Einstein, da Física Quântica, dos buracos-negros, da incerteza do universo e quanta coisa mais, descoberta e por descobrir? Despeço-me como antípoda do professor Lipmann. Não tenho pena dos meus alunos, nem dos mais jovens que agora cursam a Faculdade de Comunicação. Tenho é uma profunda inveja deles, que chegarão a patamares que a natureza não me permitirá chegar – espero que ainda demore muito.Não deixo lição alguma, por conta desse imerecido título de Professor Emérito. Ficam apenas exortações:Devemos rebelar-nos contra os que pretendem resumir a vida a um sistema, qualquer que seja esse sistema.Precisamos insurgir-nos diante de ideologias, doutrinas, correntes ou religiões que apregoam dispor de resposta para todas as perguntas. Havemos de cultuar o na seio irresistível da liberdade tanto quanto o senso grave da ordem.É essencial sacudirmos a poeira da intolerância dos que apresentam o ser humano como merco conjunto químico dotado de inteligência, Mas importa relegar ao lixo da História a afirmação oposta, de que precisamos nos conformar com a injustiça, o obscurantismo, a fome e a miséria nesta vida para recebermos a compensação numa outra, incerta e indemonstrável. É preciso que nos levantemos contra a ditadura das teorias, tanto quando da teoria das ditaduras. Acima de tudo, devemos crer no poder da razão, porque da razão nasce a liberdade, da liberdade a justiça, da justiça, o bem-comum, e do bem-comum, o amor. O amor, a derradeira oferta do indivíduo à sociedade. E de um velho professor a quantos fizeram o sacrifício de ouvi-lo.