HUGO CHÁVEZ MORREU MAS O CHAVISMO
VIVE
José
Brendan Macdonald
A recente morte precoce de Hugo Rafael Chávez Frias (1954-2013),
carinhosamente tratado por milhões de seus compatriotas como Comandante Chávez
e presidente da Venezuela de 1999 a princípios de 2013, ou seja, ao longo de 14
anos e eleito quatro vezes por eleições democráticas, nos faz pensar na
significativíssima história da America Latina destes albores do século
XXI. Hugo Chávez com seu “socialismo do
século XXI” é um sinal de esperança para a America Latina e o Terceiro Mundo
(vão desculpando o anacronismo do termo) em geral. Seus funerais atraíram a presença de 33
chefes de Estado da America Latina e alhures.
Depois da ascensão de Fidel Castro em Cuba em 1959 foi necessário o
espaço de quatro décadas para algum governo latino-americano ganhar fôlego
suficiente para desafiar ao imperialismo e implantar um projeto alternativo ao
capitalismo em alguma medida notória.
Coragem para tanto não é para qualquer um. Neste sentido Chávez alentou uma rebeldia
dormente na alma dos oprimidos e de seus simpatizantes. Dos seus simpatizantes sim pois não se
acomodar com as benesses de uma apaziguada carreira de oficial do exército como
Hugo Chávez e conduzir um levante militar frustrado contra um governo de um
presidente tão corrupto, corrupto até o pescoço, como o do Presidente Carlos
Andrés Pérez só pode ser um percurso de rebeldes idealistas e abnegados
condoídos com o sofrimento dos pobres, de longe a maioria dos seus
compatriotas. Isso semelhantemente ao
exemplo do filho de usineiro Fidel Castro que se escondeu e arriscou sua vida
durante longo tempo na serra.
A Venezuela não está só na America Latina como país em tempos recentes a
se rebelar na medida do possível contra o imperialismo e fazer experimentos com
pendores para um modo de produção anti-capitalista e daí com um projeto ao
menos intuitiva e implicitamente construtor do que eventualmente poderá chegar
a ser uma futura civilização apto a brindar uma eventual sociedade sem classes,
a única onde cada um/a recebe de acordo com suas necessidades e contribui de
acordo com suas capacidades.
Nestes albores do terceiro milênio na America Latina há também outros
países onde ocorrem tentativas de seguir um destino promissor que o capitalismo
e a civilização burguesa não possibilitam.
Nos últimos anos do século XX surgiram poderosos movimentos indigenistas
de forte caráter reivindicatório na Bolívia e no Equador, ambos países com
altíssimo porcentual de ameríndios. O
único movimento social, se é que podemos caracterizá-lo como tal, na Venezuela
com semelhantes reivindicações a favor da maioria da população explorada foi um
movimento clandestino de jovens oficiais das forças armadas. Uma amiga minha, quando prefeita da cidade
interiorana de Acarigua na Venezuela me contou como em 1992 foi abordada por
jovens oficiais do exército à paisana que lhe fizeram uma visita. Falaram com ela sobre seu movimento e seus
ideais para a libertação do povo. Mas a
prefeita, desconfiada, desconversou. Não
confiava em militares que queriam se rebelar contra um governo, se bem que
notoriamente corrupto, era formalmente democrático. É que, conforme eu lhe sugeri, com a idéia na
cabeça de que, depois de tantas ditaduras sanguinárias conduzidas por militares
na America Latina, um certo ceticismo era recomendável. Mas depois da derrota do Tenente Coronel Hugo
Chávez e do então evidente comprometimento seu com os interesses populares, a
prefeita reviu sua reação e foi visitar Chávez na cadeia. As ditaduras militares realmente criaram uma
desconfiança, quando não preconceito, contra os militares no sentido de se
achar que todos eles seriam incapazes de
abraçar a causa popular. Mas a história
dá umas voltas e nos ensina que nem sempre essa desconfiança procede.
Não surpreendentemente o levante de Chávez o fez conhecido em toda a
Venezuela e aumentou sua popularidade sobremaneira. Foi anistiado pelo próximo presidente, Rafael
Caldera, em 1994, aquele que sucedeu a Carlos Andrés Pérez após a renúncia forçada
deste em razão de seu envolvimento em enriquecimento ilícito.
. Em 1998 Chávez se candidatou à
presidência da república e foi eleito.
Ele e muitos outros oriundos em larga medida de movimentos populares
redigiram uma nova constituição muito diferente da clássica constituição das
democracias tradicionais. É claro que
permanecem no quadro nacional instituições burguesas como o latifúndio, a
grande corporação capitalista nacional e transnacional e outras. Procura-se eliminar o latifúndio mas não de
um só golpe. Uma sociedade alternativa
jamais pode entrar em efeito em 24 horas.
Mas na Venezuela de hoje está presente a intenção de construir uma
sociedade alternativa onde se torne impossível a manutenção dos extremos de uma
pobreza desumana e degradante e de uma riqueza obscenamente insaciável e sim se
torne possível, graças a novos mecanismos, uma autentica participação de todos
e todas na geração da coisa pública em prol de todos os cidadãos e cidadãs de
cada comunidade.
Como Chávez, alguns poucos outros políticos nos anos seguintes se
candidataram a presidente em países da
America Latina, prometendo a convocação de uma assembléia constituinte. Foi o que Rafael Correa prometeu e cumpriu no
Equador e Evo Morales também na Bolívia.
Mais tarde em Honduras, em 2009, o Presidente José Manuel Zelaya, já na
presidência havia alguns anos, quando ventilou a eventual convocação de uma
constituinte, foi deposto por um golpe de Estado e expulso do país de
madrugada. Assim, Honduras ia ser o
quinto país rebelde da America Latina depois de Cuba, Venezuela, Equador e
Bolívia.
Não somente em Honduras mas também na Venezuela houve tentativas de
remover o presidente pela força. Em
abril de 2002 foi abortado um complô cívico-militar para depor o
presidente. Em dezembro de 2002 e janeiro
de 2003 houve uma greve da aristocracia trabalhista da PDVSA, a empresa estatal
do petróleo da Venezuela, e uma campanha
diuturna pela poderosa mídia televisiva privada contra o governo. Os conspiradores não conseguiram seu golpe de
Estado mas causaram um estrago enorme à economia. Na Bolívia e no Equador também houve
tentativas marcantes de depor os presidentes Morales e Correa. Em ambos países essa subversão de direita foi
frustrada.
Hugo Chávez morreu. Mas a luta
pela afirmação dos direitos dos excluídos continua na Venezuela e continua em
toda a America Latina para a qual a memória de Chávez é uma referência
indelével e uma rica inspiração. Chávez
fundou as famosas missões: entre outras foi criada a Missão Mercal para
disponibilizar alimentos bons e baratos para milhões de necessitados, o que
também gera renda para muitos agricultores.
A Missão Barrio Adentro (Favela Adentro) leva hospitais, clinicas, enfim
facilidades médicas para as áreas dos excluídos. A Missão Ribas se dedica à preparação de
pessoas para terminar o segundo grau. A
Missão Zamora visa reorganizar padrões de propriedade agrícola, inclusive o uso
de terras ociosas para aproveitamento. A
idéia é eliminar o latifúndio na medida do possível. E há muitas outras missões também visando a
melhor cuidar da situação fundiária, da educação, da saúde, etc.
Chávez também inspirou o desenvolvimento e a cooperação regionais. Foi um dos mais dinâmicos promotores da
UNASUL ou União de Países Sulamericanas e posteriormente da CELAC ou Comunidade
dos Estados Latinoamericano e Caribenhos
que reúne todos
os países da America menos o Canadá e os Estados Unidos. Fez vários convênios com os pequenos países
do Caribe facilitando-lhes por preços menores o petróleo venezuelano. As duas organizações internacionais citadas
acima, especialmente a segunda, pretendem ultrapassar a influencia da
Organização dos Estados Americanos formada em 1889 e até hoje com sede em
Washington. Seu intuito era que os
Estados Unidos tivessem uma forte influência na América Latina ao nível das
iniciativas diplomáticas.
Há poucos dias Nicolas Maduro, o candidato do chavismo, ganhou as
eleições para a presidência da Venezuela por um triz. A propaganda da oposição, dizendo-se não
anti-chavista apesar de logicamente continuar a sê-lo, explica em parte essa
quase derrota do chavismo. A maior luta
certamente é a da conscientização do povo.
Aliás, dos povos. Pois o chavismo
é uma face de uma política nova de rebeldia contra o status quo. É preciso construir uma nova sociedade onde
todos e todas devem contribuir de acordo com suas capacidades e receber de
acordo com suas necessidades. Isso
significa a condução de uma revolução. A
maioria das pessoas ainda não percebe que esse tipo de sociedade é
possível. O comodismo nos acalma, nos
leva a pensar que as coisas não podem mudar.
Mas a necessidade é a mãe da invenção.
Por isso o chavismo surgiu como um modo peculiar de transformar uma
sociedade vitimada pela falta de vontade de criar uma sociedade onde todos
possam se desenvolver. Mas ele nos
ensina que já que a elite tenta manter o status quo as massas podem mudar esse
quadro. Foi a grande lição de Hugo
Chávez para o povo da Venezuela e, aliás, não só para o da Venezuela.