Agente da Polícia antecipou a revolta,mas houve
MUITA CONFUSÃO E TRAIÇÃO NA INTENTONA
Após a prisão de Luís Carlos Prestes, em 1936, no Rio de
Janeiro, pela Polícia Especial, chefiada por Filinto Muller, foram apreendidos
diversos documentos de membros do Partido Comunista do Brasil-PCB e da Aliança
Nacional Libertadora, procedentes de diversos pontos do País. Entre eles,
diversas cartas do comunista conhecido por “Santa”, que esteve em Natal
dirigindo ações que culminaram com a insurreição de novembro de 1935.
Alguns desses documentos foram impressos pela Imprensa
Oficial do RN, em Natal, 1938, sob o título Movimento Comunista de 1935 -
Excertos da publicação: “Arquivos da Delegacia Especial de Segurança Política e
Social Volume III - Polícia Civil do Distrito Federal-Rio 1938”. A carta de
‘Santa’ (1), cuja cópia da transcrição foi localizada em Natal, no arquivo
particular de João Alfredo de Lima, revela detalhes interessantes sobre as
ações dos revolucionários potiguares e
as rivalidades dos dirigentes da precipitada revolução que ficou conhecida por
“Intentona Comunista” na historiografia oficial.
Parte dos documentos apreendidos nos arquivos dos chefes
comunistas, segundo a Polícia do então Distrito Federal, tem o seguinte teor:
“DOCUMENTO 6 - C
Recife. Caros camaradas do S. do N. e do CC.
Prezados camaradas, este é o meu informe o qual faço para
ser transmitido ao CC com urgência.
NATAL
1) Começou o movimento no dia
24 (aqui deve haver engano de data pois que já sabemos que começou no dia 23).
Neste mesmo dia estava reunindo o CR; começou às 9h da manhã e terminou às 14h
da tarde. Na reunião se tratava de diversos assuntos, menos do levante do 21 BC
por que não se sabia desse movimento. Fui a esta reunião e pedi o informe ao
Secretário que estava ligado a este setor; ele não informou nada sobre este
respeito. Só nos informou que o trabalho estava bem animado neste setor, já se
contavam com grande números de aderentes, e que este setor estava ciente da
transferência de unidades do norte para o sul e do sul para o norte, de acordo
com uma carta do S. do N. nos mandou que na mesma nos pedia que o momento não
permitia que se fizesse alguma loucura. Tudo isso foi bem discutido e todos
cientes.
Terminando a reunião às 14h, retiramo-nos todos; estava
junto conosco o camarada Dante. Passando eu pelo ponto de ligação achei um
aparelho procurando o camarada secretário. Eram 15 horas. Então eu indaguei o
que queria com o secretário, me disseram que andavam 3 militares do 21 a
procura dele. Eu então me retirei para encontrar com o secretário para saber do
que se tratava. Quando eu andava rua acima fui chamado a voltar à dita casa de
ligação do israelita M. onde encontrei os três militares. Conheci o músico
Quintino e mais dois jovens sargentos. Eram três da tarde e então eles me
diziam que ia levantar o movimento às 4h da tarde. Eu combati muito esta
atitude deles, dizendo que esperassem mais dois dias ao menos. Eles não
aceitaram a minha proposta e me informaram que (hoje) na parada da manhã tinha
sido desincorporado 28 militares inclusive sargentos, cabos e soldados, todos
da confiança dele, era denúncia e eu então disse a eles que não resolvia nada
individual e ia reunir o restrito mas que às 16 horas não podia ser o levante.
E ele então deu-me mais 2 horas de prazo. Eu não aceitei, fui reunir o
restrito. Já o secretário estaca ciente de tudo e andavam a minha procura.
Encontramos todo o restrito às 15h30, mandei chamar o camarada Dante que tomou
parte na reunião com o restrito. Meu ponto de vista foi contra se fazer esse
movimento sem avisar o S. do N. Resolvemos mandar um companheiro para Recife de
avião, quando vimos o avião já estava de partida, saiu o secretário e o
camarada Dante para reunir com quatro militares e convencê-los de seu
desespero. Reuniram às 4h30 com os militares, não puderam convencê-los. Então o
camarada secretário e o camarada Dante trataram para às 8h da noite.
Mobilizamos mais de 150 homens e mulheres. Dei as instruções das linhas
traçadas, o desespero da traição de Quintino foi tanto que às 7h45 ele rompeu o
movimento no quartel do 21. Não dei um só tiro contra. Todos aderiram com
simpatia: foram presos todos os oficiais que estavam de serviço sem
resistência. Os planos traçados na reunião que o secretário e Dante estiveram
com os militares, não foram cumpridos. Quintino modificou tudo. Não fez as
prisões dos grandes homens que estavam todos reunidos numa festa no teatro
Carlos Gomes, que ficaram com medo de sair para a rua, que só saíram às 10h30
da noite e fugiram para uma casa onde toda hora chegavam notícias ao
conhecimento de Quintino e ele fazia-se de surdo. Quando rompeu o movimento,
nós, o secretário restrito, às 9h30 da noite nos reunimos para ver se a tarefa
estava sendo posta em prática. Logo eu notei que não estava, mandei chamar
Dante informamos o que tínhamos visto na rua, durante 1h45 de luta. Neste
momento, chega o aparelho de ligação com Quintino e nos dá o informe: Quintino
já estava desanimado porque a polícia estava resistindo. O povo estava na rua,
os soldados do 21 com uma coragem bruta. Quando eram 24 horas da noite tínhamos
mais de 3.000 mulheres e crianças em luta tomando de arranco e em 3 horas de
combate tomando a praça da Detenção (há uma emenda ilegível sobre uma única
perda) soltando todos os presos e ainda seguiram para o Esquadrão da Cavalaria
que o fogo durou das 3 da manhã até às 7 horas. A massa e os soldados tomam o
esquadrão. Com o informe do aparelho de ligação nos deu a vacilação de Quintino,
o secretário resolveu que fôssemos dirigir no quartel a luta. Eram 6h da manhã
de 25 (?) quando chegamos ao pé de Quintino e Elizeiel, sargento, e Guerreiro,
cabo, e Agapito, sargento, os dois últimos uns heróis, aplicavam todas as
diretivas mas Quintino e Lesiel (o nome correto é Eliziel) nada. Chegando nós
no quartel, Quintino nos disse que estava má a situação; perguntamos por quê
isto, pois só é a polícia que está resistindo? E nós animávamos ele. Tomamos
diversas diretivas, armamos muitos trabalhadores que ele não queria dar armas.
Chamamos 135 estivadores e mandamos para a tomada do quartel de Polícia que fez
4 horas de fogo cerrado. A massa atirava de bomba de mão no meio de fuzil e
metralhadora. A tomada do quartel de polícia às 10h da manhã, expedimos grupos
para ocupação dos impressos; imprimimos folhetos e mais folhetos, comícios em
toda parte, distribuição de víveres para todos os cantos da cidade, tiramos um
jornal com o nome LIBERDADE. Nas feiras, prendemos os cobradores de impostos e
pagamos todos os vencimentos de todos os funcionários nas repartições onde se
achavam eles aguardando ordens nossas. Queimamos todas as papeletas de
cartórios, mesa de rendas, etc. Abatemos os bondes para funcionar a 100 réis,
pão a 100 réis. Apoderamo-nos dos telégrafos, rádios, casa do governador,
instalamos uma Junta Revolucionária na Vila Ceci e no outro dia 26 (?) já se
estava senhor da cidade, já se seguiu tomando 7 municípios e Quintino
continuava convidando-nos para abandonar-mos a luta dizendo que estávamos
cercados. No dia 26 grande era a quantidade de massa na rua armados mais com
arma curta e branca - os armamentos não aparecerem - cortamos mais de 500
metros de E. de Ferro de todos os setores. Esteve preso o chefe de polícia e
comandante da polícia e uns oficiais do 21. - Quintino não nos quis entregar
estes presos Fizemos diversas tentativas para arrancar estes para a massa, ele
não quis e somente respondia “mais tarde”. Eu compreendi bem sua traição, comuniquei
a todo o CR, logo separamos a junta de perto dele e então eram 4h da tarde do
dia 26(?). A situação melhorou muito para a aplicação de nossas diretivas.
Botamos a Junta na sua sede e entramos a agir. Quintino, vendo-se isolado por
nós e a massa, nos acompanhava e os soldados do seu comando atendia mais a nós
do que a ele, chegou a ponto de um cabo dizer a Quintino, este papel que ele
estava fazendo dando toda a liberdade a proteção aos presos estava muito mal;
ele só dizia para mim que eu estava muito afobado, que isto não era assim, que
ele estava a par das leis e eu dizia a ele que no momento de uma revolução de
massas as leis burguesas desapareciam. No momento em que nas massas andam
mulher, criança, soldado pela rua afora, cantando os hinos da ANL e da
Internacional, o povo, já está convicto de nossa vitória, parecem (aqui está
incompreensível) a média (cremos que no meio dia) aparece Quintino com seu
estado maior para propor a retirada de noite; resistimos porque não havia
motivo para tal; dava a notícia de que Recife estava perdido, eles não acharam
o nosso apoio, só tiverem apoio foi dos 3 da Junta, João Batista Galvão, Lauro
Lago (2) e José Macedo, e eu então chamei Mamede e Dante e todo o CR e
discutimos a traição”.
NOTA:
1 – O original do documento foi encontrado em Natal, em 1998, em poder
do funcionário público estadual aposentado João Sizenando Pinheiro Filho. O
texto faz parte do livreto “Rio Grande do Norte – Movimento Comunista de 1935”-
Natal – Imp. Oficial – 1938. (Aposentado tem impresso original da intentona,
Diário de Natal, 28.06.1998, p.13).
2- Segundo informações prestadas por Lauro
Lago, filho de Lauro Cortez Pereira do Lago, um dos dirigentes da Junta
Governativa que se instalou em Natal, após a insurreição de 23 novembro de
1935, faleceu a 26 de abril de 1961, no Rio de Janeiro, onde residia desde
1945. Lauro C. P. do Lago era contabilista e durante décadas manteve o “Escritório
Técnico-Comercial Ltda-ETECO”, na rua Barata Ribeiro, em Copacabana. Foi
anistiado quando faltavam cinco meses para cumprir a pena, na Ilha Grande. Foi
casado com Renê Barbosa Lago e Vanda Galvão do Lago (esta ainda vivia em Natal
no início de 1990). Em 1935, Lauro Lago era diretor da Casa de Detenção de
Natal. Um filho de Lauro C.P. do Lago do seu primeiro matrimônio é geólogo em
Natal. Lauro Lago, filho do revoltoso de novembro de 35, é comerciante e reside
na rua Praia de Camurupim, 8999, Conjunto Ponta Negra, em Natal.
AGENTE DA POLÍCIA ANTECIPOU A REVOLTA
“A quartelada de 1935 foi um dos grandes erros cometidos
por Luiz Carlos Prestes, pois as condições eram adversas (1). A quartelada foi
decidida em Moscou, pela III Internacional Comunista. Naquele tempo os
comunistas tinham a sua Internacional, assim como hoje os sociais-democratas
tem a sua Internacional Socialista. 35 foi arquitetada em Moscou com base em
relatórios falsos, triunfalistas, elaborados por Miranda, um professor, que era
o Secretário-geral do PCB. Miranda mandava para Prestes e o Comintern
relatórios e subsídios que não correspondiam à realidade. Em 1934, Prestes saiu
da União Soviética para liderar a revolução no Brasil, onde chegou com
passaporte português, com nome de Antônio Vilar. Prestes tinha o renome de
“Cavaleiro da Esperança” e pensava que isso iria contribuir para êxito da
revolução. Os tenentes, os que participaram da Coluna Prestes-Miguel Costa, não
tinham o cunho ideológico que Aliança Nacional Libertadora tinha. A ANL queria
o fim do latifúndio, nacionalização das empresas estrangeiras, a moratória, a
reforma agrária, etc. Isso era um avanço para a época. Antes de 35, Prestes, a
personalidade mais importante da época, foi convidado para chefiar o comando
militar da Revolução de 30, mas ele não aceitou. Foi outro erro. Apesar de ser
um movimento intra-oligárquico e
burguês, Prestes teria dado uma guinada à esquerda no tenentismo. Então, o
movimento de 35, foi mal pensado e mal encaminhado. Eu digo que não nos
envergonhamos de 35, pois fazemos autocrítica”, disse o escritor pernambucano
Paulo Cavalcante, durante uma conferência sobre o “Levante Armado de 35”, proferida
no auditório da reitoria da UFRN, na manhã de 26 de setembro de 1985.
Ele veio a Natal a convite da Universidade e dos cursos
de Mestrado em Educação e História da UFRN, promotores do Seminário “Sociedade
e História do RN nas décadas de 20 e 30”, para falar sobre comunismo e lançar o
seu último livro de memórias, “A Luta Clandestina”, no qual relembra fatos que
presenciou como militantes do Partido Comunista Brasileiro-PCB, no Estado de
Pernambuco.
JUDEU TRAIU A REVOLUÇÃO
Cavalcante reconhece que a revolução comunista de 1935
(ele afirma que não foi uma quartelada comunista mas da Aliança Nacional
Libertadora) marcou com graves seqüelas o Partido Comunista do Brasil-PCB que,
apesar das dolorosas lições aprendidas não corrigiu seus erros e tentou reeditar
35 em 1950, através do célebre “Manifesto de Agosto”, que pregava a extinção do
Exército Brasileiro e a sua substituição por um “Exercito Popular Revolucionário”.
“O esquerdismo e o sectarismo da década de 30 retornaram
em 1950. Somente depois de 1957 o PCB levou em conta as experiências de 35”,
segundo Paulo Cavalcante. “Com a campanha nacional de “O Petróleo é Nosso” foi
retomada uma política sensata e nos curamos do sectarismo com a última campanha
pela anistia. No partido havia homens bem intencionados mas que não se
conduziam de acordo com a realidade. Lênin dizia que “ai do partido que ocultar
do povo os seus erros”. Nós nos curamos dos erros do passado. A linha do PCB
hoje é saudável, de frente ampla, de manter as conquistas democráticas de Tancredo
e Sarney e aprofundá-las”.
Depois de falar sobre a tática e a estratégica do
Partidão, a linha política do PC do B, religião e as oligarquias nordestinas,
Paulo Cavalcante foi indagado sobre a opinião de Prestes a respeito da
intentona de 1935.
“Prestes acha que 35 foi um movimento válido. Ele rompeu
amizade comigo. Prestes se recusa a fazer autocrítica a respeito de 35. Só
aceita autocrítica depois de 45. “35 evitou que Plínio Salgado fosse Ministro
da Educação de Getúlio Vargas”, dizia Prestes. Mas o Estado Novo, a ditadura de
Getúlio, foi o fascismo, o integralismo sem Plínio Salgado”.
E sobre os propalados assassinatos de oficiais
legalistas, no Rio de Janeiro, durante a insurreição nas guarnições militares?
É verdade que mataram oficiais legalistas quando estavam dormindo?
“Olha, o escritor Hélio Silva, um conservador, portanto
uma pessoa que nunca esteve simpatias pelo comunismo, autor do célebre livro “A
Revolta Vermelha”, manuseou laudos médicos, inquéritos e relatórios policiais,
processos, boletins... Em nenhum documento oficial ele encontrou qualquer
referência de que tenham morrido oficiais legalistas dormindo. Nos relatórios
dos delegados auxiliares de Recife e do Rio de Janeiro, Etelvino Lins de
Albuquerque e Hugo Belens Porto, respectivamente, e os documentos estudados por
Hélio Silva, não há uma referência, nem de leve, as mortes de oficiais
dormindo. Essa história é uma deslavada mentira. Os quartéis estavam de
prontidão. Dos dois lados quem morreu estava com farda de combate! Dizer que
morreram ou fuzilaram oficiais dormindo é uma ofensa que se repete todos os
anos, é uma balela que atinge a dignidade dos oficiais mortos dos dois lados,
pois eles estavam de prontidão e não poderiam dormir. Essa versão foi criado no
Estado Novo e repetida como um realejo para atingir a dignidade dos oficiais e
enganar a opinião pública, como recentemente fez o general Euclides
Figueiredo”.
Por que o movimento começou em Natal?
Bom. Muniz de Faria, militar reformado da Polícia Militar
de Pernambuco, foi enviado do Rio de Janeiro pela ANL, para contactar com
Recife e Natal. Ele não chegou a vir a Natal, pois viajou de navio do Rio para
Recife, onde mantivera contacto com o Comitê Central do PCB. Faria chegou de
madrugada e disse a Alceu Coutinho que o movimento tinha sido detectado pela
inteligência inglesa e pelo Governo e que tinha que ser sustado, pois havia
interesse do governo na sua eclosão em dias diferentes. Coronel Muniz de Faria
não fez nada porque a revolução já estava nas ruas do Recife. Isto é, não deu
tempo para chegar a contra-ordem. Infiltrado no PCB havia um judeu brasileiro,
conhecido por Maurício, que trabalhava para a polícia. Dias antes da
insurreição, no Recife, ele ficou perguntando pelas armas que “vieram da União
Soviética”, “Não existem essas armas, vamos fazer a revolução com as nossas
próprias armas”, responderam os revoltosos do Recife. De lá, esse tal Maurício
veio para Natal e aqui manteve contatos com a tarefa de precipitar o movimento.
Hoje não se sabe que fim levou esse tal Maurício”, respondeu o escritor Paulo
Cavalcante.
Segundo ele a ditadura getulista, o Estado Novo, viria de
qualquer maneira e que a insurreição de 1935 foi somente um pretexto e não a
causa de sua implantação pelo grupo militar que mantinha Getúlio Vargas no
poder, Hitler e Mussolini estavam no poder na Alemanha e Itália e a ascensão
mundial do fascismo foram os motivos principais que levaram o Brasil ao “Estado
Novo”, principalmente depois da divulgação do “Plano Cohen”, documento falso
elaborado pelo capitão Mourão Filho, do Estado Maior do Exército e Chefe do
serviço secreto da Ação Integralista Brasileira.
“Não vim aqui para repudiar o movimento de 35, mas para
fazer uma autocrítica. Por causa do espírito tenentista, golpista e pequeno
burguês, que predominava no Exército, 35 foi um movimento precipitado, não
tenho dúvidas”, completou Paulo Cavalcante, autor de quatro volumes de memórias
(“O Caso eu conto como o caso foi”).
No final de sua conferência, Cavalcante homenageou três
comunistas do Rio Grande do Norte, mortos; Luiz Maranhão Filho, Vivaldo Ramos
de Vasconcelos e Hiram Pereira de Lima. Vivaldo Vasconcelos, em Natal, foi
elemento de ligação entre os que faziam os preparativos para a insurreição
militar de 23 novembro de 1935, que ontem completou 50 anos.
NADA DE ALIANÇA. FOI COMUNISTA
MESMO
O professor Homero Costa, da UFRN, que faz mestrado na
Universidade de Campinas-SP, estudioso dos movimentos comunistas no Brasil,
disse durante o seminário que a revolução de 1935, ocorrida em Natal, Recife e
Rio de Janeiro, foi um movimento estritamente comunista, planejado e executado
pelo Comitê Central do Partido Comunista do Brasil-PCB.
O professor Homero disse que a Internacional Comunista,
sediada em Moscou, mandou para o Brasil, clandestinamente, Luiz Carlos Prestes
e a sua mulher Olga Benário, Artur Ewert (Harry Berger) um ex-deputado
comunista alemão, Rodolfo Ghioldi, secretário Geral do Partido Comunista
Argentino, todos “figuras importantes da Internacional Comunista”.
“A insurreição de 35 foi uma decisão do Partido e não da
Aliança Nacional Libertadora. Paulo Gruber era elemento infiltrado pela
polícia. A ANL foi uma frente do PCB para a insurreição militar. Em Natal, toda
a junta governativa era do Partido Comunista. Era uma junta comunista e não uma
junta aliancista. Houve planejamento bem elaborado para a insurreição e o CC do
PCB foi quem autorizou o levante”, garantiu Homero Costa, que está preparando
uma tese de mestrado sobre a Revolução de 35.( Ler “carta do professor Homero
Costa em notas da reportagem “Na praia do meio se tramou a revolta”.
A DEPUTADA MARIA DO CÉU DISCURSOU NA ASSEMBLÉIA
SAUDANDO O FRACASSO DA REVOLTA COMUNISTA
Na décima página, a edição de “A República”, de 1º de
dezembro de 1935 (n.º 1.468), publicou um pequeno artigo de autoria da deputada
estadual Maria do Céu Pereira Fernandes, do Partido Popular, a agremiação dos
políticos conservadores e carcomidos do Rio Grande do Norte. Cinco dias depois
do fracasso da revolução comunista de 1935, o órgão noticioso oficial não publicava
uma linha sobre a existência de qualquer herói, civil ou militar.
A transcrição do artigo foi feita pela nossa auxiliar
Maria Igacir Ribeiro da Silva. A sua publicação nesta série de reportagens
sobre o comunismo no RN deve-se ao fato de não existir nenhuma referência aos
debates ocorridos na Assembléia Constituinte Estadual, depois da intentona, nos
livros e trabalhos publicados após 1937. “O Hosanna da Victoria”, de Maria do
Céu, é transcrito aqui com a ortografia da época, (Maria do Céu foi a primeira
mulher deputada no Brasil. É mãe do ex-deputado Paulo de Tarso Fernandes,
ex-presidente do Diretório Estadual do PMDB-RN).
“O HOSSANNA DA VICTORIA“
Não seria por certo, lícito a quem nada tem com que pagar
a ousadia de pedir. E eu que nada possuo para ressarcir a generosidade com que
sempre me acolhe a gente boa e magnânima da minha grande terra, ouso ainda
pedir que consinta em que, vez por outra, desdobre as páginas do nosso órgão
oficial.
Louvável e merecedora dos nossos melhores aplausos é a
iniciativa do muito digno diretor de “A República” dando-lhe domingueiras
roupagens no dia consagrado ao Senhor. À página literária feita semanalmente
hão de todos a correr porque nossa gente é sedenta do que é bom e são, é ávida
do que é bello. Hoje que, louvado seja Deus, já sentimos brilhar sobre nossas
cabeças a luz de uma abóbada sem nuvens, onde rutilam o direito e a justiça,
sob cuja iluminura de debuxa o vulto da paz, é justo, é imprescindível que “A
República” se dê cores diversas, tintas outras que não só as que de que se
revestem os decretos e actos officiaes.
Tudo o que hoje nos punge relembrar já passou. O mal
sempre flue para o seu ponto de partida. A procella, os ciclones, as trombas
que devastam, que danificam, que destroem, não tem durações de eternidades. O
oceano é que não passou, o bem é o que não morre, a verdade é que jamais
sucumbe aos embates dos vendavais furibundos da anarchia e do crime. Passada a
tormenta ella assoma, inalterável como sempre viveu, com serenidade de bonança
para gáudio da virtude, e para vergonha do vício.
“O Rio Grande do Norte que teve em cinco anos o seu longo
calvário, a sua dolorosa peregrinação por ínvios caminhos com o cruento
holocauto de uns pela liberdade collectiva, ouve agora, cantada por todos os
corações, a epopeia inenarrável”, do seu civismo, vê agora enaltecido pela
gente deste grande Brasil o seu heroísmo que não tem confronto, assiste agora
glorificada a sua ressurreição no Thabor de Luz que seus filhos lhe prepararam,
e que há de iluminar imensidade a dentro e os tempos para orgulho das gentes
que hão de vir.
Tudo hoje se alegra, tudo rejuvenesce, tudo entoa o
Hosanna Magnífico da grande victoria. Maria do Céu. Essa foi saudação de Maria
do Céu Pereira Fernandes à vitória sobre o comunismo”.
NOTA:
1- Carta
de Miguel Costa, de 05/08/35,(general da Coluna Prestes de 1926) ao Cavaleiro
da Esperança, publicada no volume 1930/1935, da coletânea “Nosso Século”,
edição da Abril, pág. 119:
“Estou hoje convencido de que realmente
não há possibilidade de um meio termo no acerto de contas entre explorados e
exploradores. Mas, se na luta em favor dos explorados os fins justificam os
meios, parece-me que tem havido erros na luta, escolha e na aplicação desses
meios. A ANL foi lançada no momento preciso. O seu programa anti-imperialista,
pela libertação nacional do Brasil, antifascista e pela divisão dos
latifúndios, realmente empolgou, não apenas as massas trabalhadoras, mas até a
pequena-burguesia e mais fundamente os meios intelectuais honestos.
Defendendo-se da ilegalidade em que seria fatalmente posta pela Lei de
Segurança Nacional, a ANL propôs-se a resolver aquelas questões dentro da
ordem. Fez a sua profissão de fé nacionalista e por último negou qualquer
ligação mais estreita com o Partido Comunista. Nessa sua primeira fase, a ANL
estancou desde logo o surto integralista no país. Veio o 5 de Julho. Você
naturalmente pouco ou mal informado, supondo que o movimento da ANL tivesse
tanto de profundidade como de extensão, lançou o seu manifesto dando a sua palavra
de ordem de “Todo Poder à Aliança Nacional Libertadora”, brado profundamente
revolucionário, subversivo, aconselhável aos momentos que devem preceder a
ação. Grito que deveria, para estar
certo, ser respondido pela insurreição. No entanto, aí estão os fatos: veio o
seu manifesto, veio o decreto de fechamento da ANL e este movimento popular,
que parecia à primeira vista ter tomado todo o país, não reagiu nem com duas
greves organizadas. O golpe reacionário do Governo, amparando-se nos termos de
seu manifesto, pode ser desferido antes da hora que nos convinha. Não foi
possível revidá-lo. Mas, se você tivesse, em vez de pregar o assalto ao poder,
recomendado a mais viva consagração em torno da Aliança, não se teriam
precipitado os acontecimentos”.
O FIM DA REVOLUÇÃO PARECEU CARNAVAL
Por sugestão do advogado Bianor Medeiros, o hoteleiro
José Pacheco, 68 anos, proprietário do Hotel Tirol, testemunha dos
acontecimentos de novembro de 1935, na região Seridó do Estado, prestou
depoimento a “O POTI” sobre a participação do então padre Walfredo Gurgel, que
mais tarde viria a ser governador do Rio Grande do Norte, com o apoio decisivo
de Aluízio Alves, na chamada Batalha de Itararé, o famoso tiroteio da Serra do
Doutor, no município de Campo Redondo-RN.
Pacheco também participou do tiroteio ocorrido na cidade
de Panelas, hoje Bom Jesus, a 60 quilômetros de Natal, um dia antes da refrega
na Serra do Doutor. Ele confirma o que Seráfico Batista, ex-prefeito de Santana
do Seridó, disse a O POTI sobre a fuga em massa dos combatentes sertanejos,
após o tiroteio com os revolucionários de 35, em Panelas.
Dinarte Mariz e Enoque Garcia, cada um com uma
metralhadora de mão, chegaram em Santa Cruz e passaram a fazer discursos,
conclamando o povo a pegar em armas para defender a sociedade contra o
comunismo. Enoque era quem falava mais, pois Dinarte ainda não era político,
mas foi grande aliciador de sertanejos para os combates de Panelas e Serra do
Doutor. Os caminhões deles, do Dr. Flávio Mafra e Theodorico Bezerra foram
usados para transportar os sertanejos. Descemos para Panelas e, no meio do
trajeto encontramos uma Limousine, que os revoltosos tomaram do doutor Osvaldo
Medeiros, com uma bandeira do Brasil cobrindo o capuz e dirigida pelo Sargento
Wanderley, do Exército. “Vim me
entregar”, disse Wanderley, que entregou as suas armas e as que eram conduzidas
por dois soldados, que lhes faziam companhia. Eu peguei um mosquetão e um
bornal cheio de balas, me enchendo de entusiasmo para a luta. Quando começou o
tiroteio em Panelas, eu estava detrás da igreja da cidade, sem disparar um tiro
sequer, quando eu vi o carro fugindo. Ai resolvi fugir também, mas um comando
de Dinarte Mariz parou a Limousine e mandou que a gente fugisse num caminhão,
que estava cheio de carne de charque, rapadura, queijo e carne de sol, os
alimentos das nossas tropas. Essa comida farta foi providenciada por Dinarte,
que não participou dos tiroteios, mas foi peça importante porque atuou como um
verdadeiro general. Descarregamos o caminhão, a cinco quilômetros de Panelas, e
fugimos para Santa Cruz,, onde fomos dormir. Lá, estavam dizendo “tá todo mundo
fugindo de Panelas”, disse José Pacheco, acrescentando, ainda, que cerca de 30
camisas-verdes, liderados por Walfredo Gurgel, participaram dos preparativos e
da luta na Serra do Doutor, cujo número de mortes não soube precisar.
Bianor Medeiros, que foi integralista, afirma “qual a
criança que ouvindo falar em Deus, Pátria e Família não se entusiasmava? A
criança não via política (não sabia sequer o que seria) e sim via as figuras de
envergadura e altura de Seabra Fagundes, Otto Guerra, Felipe Neri, Ewerton
Cortez, Câmara Cascudo, Walfredo Gurgel, Mário Negócio, José Augusto Rodrigues,
Manuel Genésio, Carlos Gondim, Luiz
Veiga, os Lúcio e Bilé, do Acari, todos sem exceção, eram bons oradores e
comunicadores de massa”. (Retificação: em 1935, Clóvis T. Sarinho não era
integralista. Sua entrada na Ação Integralista Brasileira/RN ocorreu em 1937).
“É COMUNISMO, MENINO!”
O escritor Otacílio Cardoso prestou depoimento sobre a
revolução de 35 em Natal. Na íntegra, eis o seu relato que propiciou a manchete
desta reportagem sobre o comunismo no RN.
“Quando da chamada intentona comunista de novembro de
1935 andava aqui o degas nos seus fagueiros 16 anos. Dezesseis anos daquele
tempo, no que tange conhecimentos e esperteza, correspondem a uns 12 de hoje -
e olhe lá!
Residia eu então na casa pastoral da Igreja Presbiteriana
- uma pequena construção imprensada entre a Igreja e a prefeitura. Morava em
companhia de duas irmãs mais velhas, das quais uma sobrevive. E foi esta
justamente, que se encontrava em casa, naquela memorável noite. A outra logo
depois da ceia, se deslocara até a casa de minha tia Ana, na Praça André de
Albuquerque, 578 (onde é hoje uma lanchonete) a fim de saber como ia passando o
nosso tio Gedeão, acometido por um derrame alguns dias antes.
Naquele tempo eu tinha uma paixão avassaladora pelo
romance policial, devorava um atrás do outro, volumes de Conan Coyle, Agata
Christie, Edgar Wallace, S.S. Van Dine... Justamente naquele dia (não havia
ainda aqui a semana inglesa), eu adquirira no sebo do João Nicodemos, uma
novela de Edgar Wallace, e tão logo terminei o café, “agarrei” a ler. Ao
acender um “Yolanda” verifiquei, com desagrado, que apenas dois outros me
restavam no maço. Iria um pouco mais renovar o estoque no Bar Teutônia, um café
que existia então defronte da Prefeitura, bem pertinho, portanto. Mas a leitura
era de tal modo absorvente, que eu ia passando de um capítulo a outro, e
deixando o cigarro pra depois.
Seriam aproximadamente 7h - talvez um pouco mais - quando
minha irmã chamou-me a atenção para um alarido qualquer ao lado do quartel do
21 BC, que era ali onde é hoje o Colégio Churchill. Só então emergi do “fog”
londrino. Tão absorvido estava na trama do romance que não ouvira absolutamente
nada...
Vou dar uma olhada - disse minha irmã dirigindo-se para o
oitão da Igreja. Havia, nos fundos, uma saída para a Praça João Tibúrcio.
Aí começou o tiroteio. Minha irmã tornou às pressas e por
pouco não corta a garganta num arame de estender roupa. Primeira vítima da
rebordosa apenas um arranhão que a tintura de iodo logo sarou.
O tiroteio era cerrado, as balas por vezes ricocheteavam
nos postes, sibilavam... Que diabo disto seria aquilo? Eu não sabia nem imaginava o que pudesse ser. Depois da posse do Dr.
Rafael Fernandes, menos de um mês antes, tudo parecia tão calmo...
Fechada a casa, ficamos, minha irmã e eu, a ouvir os
disparos. Um tanto apreensivos, evidentemente. E ouvimo-los pela noite a
dentro, pois a verdade é que, não só ruído dos disparos como a tensão nervosa
não permitiam que nos entregássemos ao sono. Dei logo conta dos dois cigarros -
e me arrependi pra burro. Sabe lá o que seria para um fumante passar uma noite
sem pescar uma simples traíra, a escutar tiros e mais tiros, sem ter um cigarro
para abrandar a tensão?
Ao amanhecer do domingo o tiroteio já não tinha a mesma
intensidade, era, ao contrário, esparsos, pelo menos aqueles disparados nas
proximidades. Mas lá pros lados da Praça André, a coisa continuava.
Ansioso por saber o que se passava, enchi-me de coragem,
abri a porta e fui até o portão. Nessa ocasião vi, subindo a pé a rua Junqueira
Aires, uma pessoa minha conhecida: era o dentista João Abdon, cujo gabinete
dentário ficava no mesmo prédio da “A Razão”, jornal do qual fora eu tipógrafo
até recentemente.
Que é que está havendo doutor?
Sem querer preguei-lhe um susto, decerto ignorava que eu
morasse ali.
É comunismo, menino. E o melhor que você faz é ir para
dentro!
Transmiti a irmã a informação. E passamos a cogitar sobre
o que deveríamos fazer, pois, na época, “comíamos de marmita”, como se diz, e a
casa, além de uns poucos pães e de algumas frutas não dispunha de mais nada no
que tange a alimentos. A solução era irmos para a casa do tio Gedeão. Mas... e
as balas? Não havia, contudo, outra saída, tínhamos que ir para a casa dos
tios.
Ao tentarmos fazê-lo, porém deparamos com um obstáculo.
Dois jovens soldados (ou pelo menos com a farda do exército), cada qual com um
fuzil, estavam postados - um na esquina da Prefeitura, outro na do Atheneu (O
Atheneu era onde ficam atualmente os fundos da Secretaria de Finanças do
Município). Achavam os rapazes que não era aconselhável sairmos, e muito menos
naquela direção.
Ali é que o fumo tá forte... disse um deles.
Minha irmã argumentou, expondo-lhes a nossa situação.
Mostraram-se compreensivos. Procuraram até orientar-nos no trajeto.
Vão indo aí por essa rua da farmácia, “se cosendo” na
parede...
A ‘Farmácia Maia’ antiga “Torres” era na esquina onde existe
hoje a “Paraguassu Festas”.
Aproveitei para perguntar:
O que é que estar havendo mesmo?
Sei não... Estamos
apenas cumprindo ordens.
Saímos, seguindo os conselhos do jovem. É sempre bom
seguir os conselhos dados por quem tem um pau-de-fogo na mão.
A fuzilaria continuava. Às vezes abrandava um pouco, para
recrudescer em seguida. Pelo menos, de munição, parecia haver bom estoque.
Felizmente fomos encontrar tudo em ordem na casa dos
tios. Meus três primos, rapazes, estavam em casa quando começara a inana, e lá
permaneceram, está visto. Conheci nesta ocasião um rapaz que se tornaria
posteriormente meu amigo - Lídio Madureira -, que fora surpreendido pelo
tiroteio quando, vindo do Baldo, se dirigia para casa na Gonçalves Dias.
Mostrava-se excessivamente nervoso, preocupado com a mãe, dona Nhazinha. Aliás,
todos se mostravam naturalmente preocupados e perplexos, e também apreensivos
com o que corria lá fora, que ninguém - nós, pelos menos - sabia ao certo o que
diabo fosse. (O Dr. Abdon falara em comunismo, mas o número de comunista em
Natal daria para fazer uma revolução? Mesmo com a nossa inexperiência achávamos
impossível isso). O meu tio, numa
preguiçosa, olhava para um e para outro sem conseguir articular uma palavra,
coitado. Uma preocupação, pelo menos fora afastada: havia em casa o bastante
para as refeições do dia. “Aquilo” não ia durar muito, não era possível. Logo
mais cessaria e tudo entraria nos eixos. Era o que pensávamos.
Umas 3 casas depois da 578 ficava a de seu Chico Teófilo,
que alguns chamavam a “casa dos 3 anões” (tinha ele 3 filhos anões: Ester,
Oscar e Lulu). A casa ficava na esquina da rua João da Mata, onde é hoje uma
farmácia. Na calçada, um tanto elevado na extremidade fora postada uma
metralhadora. (Ouvi dizer que se tratava
duma “metralhadora pesada”, não sei; graças a Deus nunca tive necessidade de
entender dessas coisas). A tal metralhadora, apontada para o quartel da Polícia
funcionava com eficiência, de quando em quando ouvíamo-lhe o ta-ra-ta-ta duma
rajada. (Contam que, a certa altura a um recrudescimento do tiroteio, o Oscar
aconselhara ao irmão: - Mano, te abaixa! Ao que Lulu, do alto dos seus setenta
e pouco centímetros, retrucara: - Besteira, Oscar. Eu já sou baixo por natureza...!
O certo é que as horas iam se escoando – horas de
apreensões para quem não tinha a menor idéia do que significava aquele
entrevero. Chegou a hora do almoço, e por pouca
que tivesse sido a comida, teria
dado de sobra. Quem, naquela situação, teria disposição para encher
o bandulho? Nós,
homens, vingavamo-nos no
cigarro. (Meus primos costumavam comprar
cigarros em pacotes – cigarros “ Lulu
n.º 2”, produção local da Fábrica Vigilante).
Aí por volta das duas horas da tarde, talvez um pouco
antes, o fogo cessou. E cessou mesmo por
completo. Um dos primos, chegando à
janela, soube por um soldado que viera pedir um pouco d´água, que a Polícia
acabava de render-se.
Uma meia hora depois assisti à passagem, pela nossa
porta, provavelmente em direção ao quartel do 21, dos integrantes da PM, que haviam
resistido até há pouco. Nunca esqueci o
espetáculo. Impressionante. Parecia cena de um filme. Um reduzido grupo de homens cabisbaixo,
suados, abatidos dentro das fardas sujas, os rostos macilentos mostrando sinais evidentes de cansaço ( Identifiquei, entre eles, alguns
componentes da banda de música, que eu conhecera dois anos atrás, quando
residira nas proximidades do quartel ).
Deveriam estar mesmo exaustos, pois haviam passado a noite inteira e
toda a manhã manobrando os seus fuzis, sustentando fogo ininterrupto. E agora ali iam, escoltados, naturalmente
cheios de apreensão quanto ao que lhes poderia estar reservado. E deveriam estar, além do mais, famintos. No intimo fiz votos para que nada de mal lhes
acontecesse. E creio que não passaram
por maiores vexames, apenas ficaram detidos por 2 ou 3 dias.
Cessado o fogo, as ruas foram voltando devagarinho a ter
a presença de pessoas, não tantas como de costume, está visto. Bom,
tem gente que é exagerada em tudo, até no medo.
Em companhia de dois dos primos, saí para uma voltinha e
naturalmente a procura de notícias.
Pouca gente nas ruas, evidentemente, mas o bastante para que o jornal
“Bocório” fosse dando suas edições extras...
Que o movimento estava triunfante, apenas em Santa Catarina e Paraná os
inimigos do povo ainda estrebuchavam... Que o Cavaleiro da Esperança assumira o
poder... (As “manchetes” eram desse
tipo ). A certa altura escutamos um
alarido, era um grupo de rapazes a pular, gritando que haviam tomado Panelas...
(alguns deles, por gaiatice, traziam na extremidade de uma vara, uma panela de
barro...) parecia mais uma troça carnavalesca.
No dia em que o brasileiro levar alguma coisa a sério o mundo se acaba.
Na segunda-feira, pela manhã, fui a imprensa oficial,
onde a poucos dias começara a trabalhar.
Ali encontrei a maior parte dos colegas, mas nenhum sabia mais do que o
outro. Ninguém queria se comprometer
dando com a língua nos dentes.
Dizem que tiraram um jornal... – disse, já não me lembro quem. (Tirar queria
dizer fazer, imprimir).
Pouco depois recebemos ordem para ir embora, até que a
situação se normalizasse. Claro que
ninguém esperou que a ordem fosse repetida.
A propósito do jornal, “A Liberdade”, foi o mesmo composto e impresso nas oficinas
de “A República”, e não na “A Ordem”, como já chegou a ser dito.
(Meses depois, descobri em cima de um armário, na Seção
de Avulsos onde trabalhava, uns trezentos ou mais exemplares da
“Liberdade”. Procurei obter um, mas o
chefe negou. Um dia, aproveitando a
ausência do chefe, surrupiei um exemplar.
Depois me arrependi. Mas me
arrependi foi de não ter surrupiado uns dez...).
Agora já não tenho certeza se foi nesse dia ou no
imediato, terça, que fomos ao Hospital Juvino Barreto visitar um conhecido
nosso – Joaquim Barbosa – soldado da Polícia, que fora ferido no assédio ao
quartel. O ferimento, felizmente, não
era grave, o Joaquim ficou apenas com um braço ligeiramente defeituoso e foi
reformado como cabo. Mais tarde foi trabalhar na B. Naval, de onde
já deve ter-se aposentado.
Quando deixávamos o Hospital, vinham trazendo numa
padiola um rapaz, vítima de peixeirada lá pras bandas da Redinha. Conhecia-o de vista era filho do alfaiate
Joca Lira. Integralista ardoroso,
imprudentemente entrara a discutir com um adepto da revolução, que o ferira
mortalmente. Outro que morreu entre o
sábado e o domingo, atingido propositadamente por arma de fogo, foi o agente da
Costeira, Otacílio Werneck. Morava numa
casa nas proximidades da igreja do Bom Jesus.
Chegara ao portão, para saber o que estava ocorrendo, quando o
alvejaram. Conheci esse meu xará – como
ao outro – apenas de vista. De civis
mortos, só me recordo destes.
Parece-me que foi também na segunda-feira que os bondes
da Força e Luz passaram a cobrar pela metade o preço das passagens, ou seja, um
tostão (100 réis). É que houve, na
calçada do quartel do 21, distribuição de gêneros ( feijão, charque e farinha )
aos pobres.
Quanto aos exemplares de “Liberdade” de que já falei, não
sei que destino lhes deram, creio que foram destruídos.
...E eis aí, meu caro Cortez, o meu modesto
depoimento. Espremendo não dá quase nada
– mas eu lhe avisei que tinha muito pouco para contar.
Uns sete anos depois, em Aracaju fui apresentado a um
cidadão.
- Ah, o senhor é da terra do comunismo, hein?
Tentei esclarecer que Natal não era propriamente terra do
comunismo, que houvera uma revolução de caráter comunista, é certo, mas
engrossada pelos adversários do governo recém-empossado – e coisa e tal.
Não venha me dizer que aquilo ali não é um ninho de
comunistas. Se chegaram até a fazer
passeata de freiras nuas... foi ou não foi?
Desmenti a balela.
O homem insistia:
Mas se eu li nos jornais!
Resolvi sair pela tangente da ironia misturada com a
galhofa:
Bem parece que cogitaram disso, mas o número de freiras lá era muito
reduzido, e como não fosse possível mandar buscar as de Aracaju, desistiram da
idéia.
O olhar que o sujeito botou pra mim era como se dissesse:
Vá ver que você é um “deles”...
A revolução praticamente terminou na quarta-feira, à semelhança do
carnaval. Foi quando apareceu,
sobrevoando a cidade, um avião se não me engano da Marinha. ( O M. da Aeronáutica seria criado 5 anos
mais tarde). Aí houve a debandada, o
salve-se quem puder.
Depois, foi a
repressão. E aí surgiram as delações, as
denúncias abjetas, asquerosas. Alguns,
moralmente, se engrandeceram. Outros, ao
contrário, se apequenaram no afã deletério e torpe de destruir desafetos ou
simples adversários políticos. Mas isso
já são outros quinhentos.
N. A.: Otacílio Cardoso faleceu em dezembro de 1999.
Retrato falado da suposta fisionomia do "herói" da PM/RN, Luiz Gonzaga, feito com base nas informações do sr. André Batista, hoje com 95 anos, e que conheceu "Doidinho", no povoado Sacramento, atual município de Ipanguassú.
Doidinho, segundo João Maria Furtado, (vide "Vertentes", 1975) era um débil mental que perambulava nas proximidades do quartel da polícia militar, na Salgadeira,em Natal.