Livro inédito será publicado com fotos de Exupéry em Natal.
Fonte:www.candelariaeasuarealidade.blogspot.com
Natal, 01 de janeiro de 2012.
Exupéry em Natal. Quem está com a verdade?
Luiz Gonzaga Cortez.
Antoine-Jean-Pierre-Baptiste-Marie-Roger Foscolombe de Saint Exupéry: o nome do piloto francês que esteve em Natal.
Quem
é o dono da verdade na polêmica sobre o piloto Antoine Exupéry em
Natal? O leitor sabe? Quem foi que inventou essa história do francês que
dormiu, tomou café, e almoçou e jantou na Ribeira, no final dos anos 20
do século passado? A edição de O POTI de 10 de fevereiro passado, traz
uma reportagem de Hayssa Pacheco sobre a propalada presença do aviador
francês em Natal, sem novidades a respeito do assunto, à exceção da
assertiva de que o então secretário municipal Raniére Barbosa, pretendia
colocar um busto de Exupéry no Canto do Mangue. Ainda bem que não
colocaram o busto, pois jamais se ouviu falar de que tenha saído alguma
notícia a respeito, nem um boatinho de pé de ouvido. Deve ter sido
invenção de algum biriteiro com saudades do Cova da Onça. Ou
invencionice de algum intelectual da província potengina.
Lendo
e analisando o noticiário a respeito do piloto francês, na taba
potinatalense, resolvi escrever uma matéria para O POTI (vide edição de
06.04.2008, p.11), na qual transcrevi um pequeno trecho de uma
entrevista concedida pela minha mãe, Maria Natividade Cortez Gomes, à
jornalista Vânia Marinho, no programa Memória Viva, da TV-Universitária
da UFRN, além de curtas declarações de Célia de Lima Dantas e Cecília
Cortez Gomes, que corroboraram as informações de Nati Cortez. A
reportagem não se restringiu a declarações de ouvir dizer e quem assim
entendeu, não leu o texto integral ou não está em condições de entender.
Quem inventou essa “história”?
Os
relatos sobre os vôos da travessia do Atlântico não são novidades para
os pesquisadores veteranos e novatos. Todos já sabem, há muito tempo, de
que os arquivos da Air France, sucessora da Latécoère, não registram a
passagem de Saint Exupéry em Natal. E aí? Quais os “historiadores
apressados” que inventaram essa “história”. Quem são os intelectuais
responsáveis por essas “invencionices”? E
as pessoas que deram entrevistas ou deixaram depoimentos sobre Exupéry
em Natal eram delirantes, mentirosas? O que consta das páginas 66 e 67
do livro “Epopéia nos Ares”, do pesquisador Hipérydes Lamartine de
Faria? São resumos de declarações de Rocco Rosso, Amelinha Machado, Nati
Cortez, jornalista Nilo Pereira, Severina Alvesd Barbosa e Lair Tinoco.
O que concluiu o autor do importante livro? “Não dá para por dúvidas
nos depoimentos aqui apresentados pois se trata de pessoas idôneas que
jamais fantasiariam histórias dessa natureza, pois eles nada tinham a
lucrar com isso”, concluiu o autor,na página 67, no capítulo sobre
“Saint-Exupéry em Natal”. O ilustre advogado e pesquisador Carlos
Roberto de Miranda Gomes acata, sem restrições, a conclusão de Pery
Lamartine sobre o assunto, no livro citado. Carlos Gomes acrescenta:
Gostaria de enfatizar a frase que o próprio Pery transcreve na
apresentação do seu livro e atribuída ao brigadeiro do ar João Eduardo
Magalhães Motta: “se cada um de nós se dispuser a registrar sua
participação, será possível recompor opassado”. Ele defende que se deve
continuar pesquisando, com calma, seja novato ou veterano, pois ninguém é
dono da verdade. Carlos Gomes autorizou-me a publicar um texto de sua
autoria, recentemente publicado na imprensa sobre Exupéry, um homem que
já se tornou imotal em Natal, haja vista que é nome de rua, no bairro
San Valle, na zona sul, ao lado de Cidade Satélite. Agora estou
procurando um compositor para compor um hino em homenagem aos aviadores
francêses dos anos 20/30, destacando o piloto e executivo da “Laté”. Eis
a carta do dr. Carlos Gomes:
Prezado Cortez,
É
uma satisfação, pela primeira vez, fazer contato com você, coroando uma
admiração que sempre tive pelos seus trabalhos e livros, que os tenho
em minha biblioteca. Sobre Exupèry fiz correspondência para nosso amigo
Serejo, a qual foi publicada no JH desta data, nos seguintes termos,
adiantando, contudo, que a fotografia que foi publicada não é a que
tenho em meus arquivos, tirada por Rosso, onde aparece Exupèry sozinho e
num ângulo bem mais próximo, em que é mais nítida a sua aparência
física:
"Prezado Serejo:
A
propósito da vinda ou não de Saint-Exupèry a Natal tem sido assunto
requentado desde dezembro de 2007, quando do lançamento do “Caminho do
Avião”. Já em 2008 novas matérias foram ventiladas onde você desponta
como aquele que mais tem se aprofundado no tema.
Não
pretendia entrar nessa polêmica, agora, mas como genro de Rocco Rosso, a
quem se aponta como fotógrafo de Exepèry em Parnamirim, venho
esclarecer que ele, em verdade era rádio técnico da Latécoère e, pelo
fato de estar perto do campo de Parnamirim, não perdia oportunidade de
fotografar quem por aqui passasse.
Ele
sempre defendeu a passagem de Exupèry por Natal e chegou a
fotografá-lo. Não tenho por que duvidar dessa afirmação, até em respeito
à idade vetusta que viveu, beirando um século e terminando os seus dias
em plena lucidez. Em segundo lugar, existem as entrevistas e
reportagens que você mesmo divulgou com D. Amélia, a Sra.. Nati Cortez e
a reportagem de Nilo Pereira. Em terceiro, nunca ninguém esclareceu se a
passagem de Exupèry por Natal tenha acontecido com ele mesmo pilotando
(dada a impossibilidade técnica, segundo o Coronel-Aviador Fernando
Hippólyto). Pode ter vindo em avião comercial ou por via marítima.
Ademais disso, naquela época o autor de O Pequeno Príncipe não tinha
nenhuma fama, daí a falta de interesse em divulgá-lo, ou fotografá-lo
por D. Amélia, como era costume e a própria falta de registro na
pesquisa de Cascudo.
O
que tive conhecimento é de que Exupéry era Diretor da Latécoère em
Buenos Aires, cargo que exercia sem muito entusiasmo e, em certo período
de depressão e saudade do continente europeu teria resolvido visitar o
seu compatriota e amigo Jean Mermoz, que morava em Natal.
Na sua coluna do JH de 18 de fevereiro último você volta ao assunto com
a transcrição de carta do poeta e escritor Virgílio Maia onde abre uma
janela sobre o tema divulgando texto de um livro ‘Dopo 48 ore di
silenzio’. Acrescento a tudo isso correspondência que recebi do amigo e
colega José Antônio Pereira Rodrigues, Procurador do Estado, que em suas
pesquisas indica referências ao fato publicadas em ‘revista francesa por nome HISTORIA HISTORAMA, edition
nº 572 (août 1994), contendo uma rica pesquisa sobre aquela plêiade de
desbravadores de mares, de neves, de noturnos, de enigmas, e de
infinitos, e que pode contribuir para desfazer essa aura de mistificação
que envolve o discutido tema da presença de Exupérie em Natal. A partir
da ilustração (colorida) da capa: um avião fazendo a ligação
DAKAR/NATAL, com a legenda:”AÉROPOSTALE:L’ÉPOPÉE DE MERMOZ ET DE SAINT-EXUPÉRY”. Na
revista a que me refiro há uma série de 8 reportagens, em 36 páginas
ilustradas com fotos, abordando as figuras dos aviadores Jean Mermoz,
Antoine de Saint Exupérie, Didier Daurat e Henri Guillaumet. Numa delas,
o radionavegador Jean Macaigne, um dos últimos sobreviventes da Aéropostale, conta
ter voado com Mermoz e Saint Exupérie. ... Há, na matéria jornalística,
outros enfoques sobre a nossa cidade que, caracterizando a sua
importância, naqueles esquemas de vôos, levam a crer que Exupérie teria
passado, realmente, por Natal, até por dever de ofício. Sendo ele
Diretor da Aeropostale, em Buenos Ayres, haveria também de marcar
presença aqui, pois esta cidade não representava um ponto minúsculo
qualquer perdido na imensidão do mapa, resumindo-se a mero objeto de
sobrevôo. Ela era, mais do que qualquer outra, que lhe fosse próxima ou
até relativamente distante, uma referência para as equipes de vôo,
enquanto suporte material, como estrutura física de apoio, na sua
condição de último reduto rumo ao longo curso das incertezas
transoceânicas. Da mesma forma, no sentido inverso, quando se
apresentava como verdadeira catapulta, a fazer projetar as areonaves
para dentro do continente, nas trilhas poéticas do correio sul. A esta
cidade esteve reservado, então, um papel de relevo na estratégia de
objetivação de um sonho: “O tronco Natal-Buenos Ayres (5.000 km)
constitui a coluna vertebral da linha sul-americana da Aeropostale (...)
Natal não foi escolhida por acaso. Esta cidade brasileira representa o
ponto geográfico mais próximo de Dakar, terminal africano da linha.”
(Historama, p. 7).’
A
correspondência tem mais detalhes, os quais ficam para posterior
análise, pois estou escrevendo um livro a respeito, aproveitando as
inúmeras fotografias que nos deixou Rocco Rosso.
Um abraço do seu admirador Carlos Roberto de Miranda Gomes".
Luiz Gonzaga Cortez é jornalista e pesquisador.
Sócio do Instituto Histórico e Geográfico do RN.
.
Nota:
anuncia-se que a Fundação José Augusto vai publicar um livro de João
Alves de Melo contendo duas fotos de Exupéry em Natal. As três pessoas que
Edmundo, filho do autor, exibiu as fotos (não permitiu que ninguém
pegasse ou reproduzisse) foram : Olimpio Maciel, médico, Vicente Serejo,
jornalista, e Carlos Roberto Miranda Gomes, advogado e pesquisador.


Foto de Hart Preston, da revista TIME,mostrando trecho do bairro das Rocas com o alagado da Ribeira e a igreja de São João no alto, à direita. Fonte: Google