1935 – A grande forja de Heróis – De Doidinho a Batalha de Itararé
Volney Liberato
Nos anos 30, nossa época de maior efervescência política e social, já não bastava a
simbologia que encerrava Luiz Carlos Prestes, Getúlio Vargas, Plínio Salgado, Café
Filho, Juarez Távora, José Américo de Almeida e de todos aqueles que levavam o
povo a pensamentos e ações. Já não bastavam os ânimos sempre acirrados, a
propaganda e a contra-propaganda ideológicas, os dogmas e as doutrinas... Já não
bastava simplesmente semear as idéias utópicas da luta sem a realidade da luta. Já
não bastavam as idéias, mas sim a prática.
Para se vivenciar a prática ideológica, fez-se necessária á constituição de “heróis”,
para que assim pudessem ser erguidos os totens e os monumentos eméritos e
beneméritos para a posteridade. Não a quem realmente de direito, mas sim para
aqueles a quem as circunstâncias e as oportunidades concederam toda a honra, mas
nenhuma glória, como é comum nesses partos ideológicos.
Um certo “soldado” chamado Luiz Gonzaga.
Durante sete décadas acreditou-se – porque assim foi oficialmente instituído – o fato
de que um certo “soldado” chamado Luiz Gonzaga, pertencente à corporação da
Polícia Militar do Rio Grande do Norte, teria sido o único e grande herói da
Inssurreição Comunista de 1935, que ocorreu em Natal, quando rebeldes do 21 º
Batalhão de Caçadores, liderados pelo sargento Quintino Clementino de Barros e pelo
cabo Giocondo Alves Dias, aliançados com células do Partido Comunista do Brasil
(na época PCB) e com organizações de esquerda da capital, dominaram a sede do
batalhão e metralharam o quartel da PM, saindo vencedores, materializando assim o
primeiro governo marxista-leninista das Américas, que durou exatamente 82 horas, do
dia 23 ao dia 27/11/1935, para o qual foi constituída um Comitê Popular
Revolucionário (CPR), composto pelos seguintes membros:
Quintino Clementino de Barros, 36 anos, sargento-músico do Exército – Secretário de
Defesa;
Lauro Cortês Lago, 36 anos, funcionário público estadual – Secretário do Interior e
Justiça;
José Macedo, 33 anos, Diretor dos Correios – Secretário de Finanças;
João Galvão, 33 anos, Secretário do Atheneu – Secretário de Viação;
José Praxedes, 36 anos, sapateiro – Secretário de Aprovisionamento.
Geralmente, quando se fala na Intentona Comunista de 35, relembra-se logo as
quarteladas do Recife e do Rio de Janeiro, e incluí-se aí, erroneamente, Natal como
parte integrante dessas quarteladas. É bem verdade que os movimentos comunistas
deflagrados no Recife e no Rio de Janeiro, foram realmente intentonas, pois lá,
nessas capitais, o movimento não tomou corpo e forma, como ocorreu em Natal. Na
capital potiguar houve realmente uma inssurreição, onde progrediu para o
enfrentamento bélico, culminando com a vitória dos inssurretos e a instalação de um
governo provisório, mesmo que esse tenha durado tão somente 82 horas. Mas, é uma
pena que alguns autores não queiram aceitar essa verdade histórica e ainda
prossigam subvertendo a ordem natural do desenrolar dos nossos fatos históricos.
Assim conta a história permitida ...
Após ás 14h00 do dia 24 de novembro, quando a resistência do Quartel da Polícia,
representada por dois oficiais e quarenta e seis soldados, sem munição, é obrigada a
abandonar o front pelos fundos do prédio, numa passagem que dava para o Rio
Potengí, retirada esta comandada pelos majores Luís Júlio e Pinto Soares, um
inssurreto defronta-se com um “soldado” agachado, ás margens do Rio, portando um
fuzil. Quando o tal “soldado” avistou os inssurretos, levantou-se rapidamente, aidna
segurando a arma, quando foi alvejado por um único e certeiro tiro, tombando sem
vida. Sobre isso escreveu Home Costa:...No combate do quartel da polícia militar
foram feridos os sargentos Celso Anselmo Pinheiro e Celso Dantas Neto, o cabo
Severino Mendes e os soldados Antônio Jósimo e Antônio Gervásio de Medeiros –
todos com ferimentos leves. Houve um morto: Luiz Gonzaga”. O autor do comentário
declina as graduações dos militares feridos no combate, não referindo-se a Luiz
Gonzaga como soldado ou integrante da defesa do quartel.
Sobre a conturbada figura de Luiz Gonzaga, muita polêmica foi travada. Agora, á luz
dos acontecimentos históricos, sem paixões e sem ideologias, procuramos pesquisar
a vida do tal “soldado” na bibliografia disponível, chegando á conclusão de que,
realmente, Luiz Gonzaga nunca pertenceu aos quadros da Polícia Militar do Rio
Grande do Norte, pelo menos até novembro de 1935. Era um débil mental, natural de
Santana do Matos, que residia nas imediações do quartel, e que costumeiramente
vivia a fazer mandados da soldadesca, recebendo deles gorros, gandolas, calças e
botas usadas, com o que passou a se trajar, por força das necessidades. Era
comensal do quartel da polícia. Sobre isso escreveu o desembargador João Maria
Furtado: (...) sempre afirmaram que, realmente morreu nas proximidades do quartel
da polícia um pobre demente que vivia perambulando pelas ruas de Natal, ms nunca
fora soldado da polícia militar (...)
Sizenando Figueira, então militante do Partido Comunista, que participou ativamente
do movimento de novembro de 1935, disse, referindo-se a Luiz Gonzaga: “(...) ele não
era nem herói nem militar na época. Era apenas um débil mental (...). Afirma o Sr.
Sizenando Figueira que foi quem matou o tal “soldado”, “em legítima defesa”,
adiantou.
Passado o período do movimento, resolveu então o comando da Polícia Militar alistar,
com data retroativa, o tal “Luiz Gonzaga”, única vítima fatal do movimento, como bem
disse o desembargador João Maria Furtado: “Entretanto, o major Luiz Júlio resolveu
alistar depois de morto Luiz Gonzaga como soldado da polícia que, assim, teve uma
morte de herói(...) Segundo um artigo do jornalista Luiz Gonzaga Cortez, intitulado “O
Comunismo e as Lutas Políticas no Rio Grande do Norte na Década de 30”, publicado
no Jornal “O Poti”, edição de 29/09/1985, diz: (...) Houve uma adulteração no relatório
da inssurreição, no qual Luiz Gonzaga teria sido inscrito como soldado depois dos
acontecimentos (...) O escritor Manuel Rodrigues de Melo, integralista á época dos
acontecimentos, comentou em entrevista: Muitos anos depois é que começaram a
falar nesse soldado...” No livro “Meu Depoimento”, publicado em 1937, o Dr. João
Medeiros Filho exibe anexo um relatório do delegado auxiliar Enock Garcia, que
referindo-se ás vítimas do movimento, não aparece o nome de Luiz Gonzaga. O
professor Homero Costa prossegue: “No dia 30 de novembro de 1935, portanto, logo
após a derrota da inssurreição, o governador Rafael Fernandes visita os quartéis do
21º BC e da Polícia Militar. Acompanhado pela imprensa, e não faz qualquer
referência á morte de soldado da polícia militar. No dia 5 de dezembro de 1935, o
coronel Otaviano Pinto Soares, comandante do 21º BC, em longa entrevista que
concedeu ao jornal “Correio da Manhã”, do Rio de Janeiro, detalha sua participação e
não faz também qualquer referência á morte de soldado da polícia militar. No entanto,
em documento datado de 7 de janeiro de 1936, o governador do estado envia ao
comandante da 7ª Região Militar o relatório do comandante da Polícia Militar (anexos
2, 3 e 4) datado de 23 de dezembro de 1935, em que diz: “... Após a retirada do
quartel foi atingido e morto por certeiros tiros do inimigo o soldado Luiz Gonzaga, que
na metralhadora pesada se salientara como um bravo(...). O fato mais curioso é que o
jornal oficial do governo do estado “A República” publica diversas matérias nos dias
subseqüentes á insurreição e não faz qualquer referência á morte de soldado da
polícia militar, nem que existisse tal soldado manobrando essa tal “metralhadora
pesada”.
Em 1980, o Dr. João Medeiros Filho, em outro livro - “82 Horas de Subversão” - ao
transcrever o mesmo relatório, acrescenta, como primeiro da lista, o “soldado” Luiz
Gonzaga, do batalhão Policial. Finalmente, no dia 12 de outubro de 1985, o jornal
publica uma carta do Dr. João Medeiros Filho, chefe de polícia á época, autor do livro
anteriormente citado, afirmando o mesmo que, “reconhece ter adulterado o relatório,
mas que o fez de boa fé”. Esta foi a prova maior de que a farsa foi realmente feita,
resistindo até os nossos dias, onde o “soldado” Luiz Gonzaga nasceu por “obra e
graça” do major Luiz Júlio, então comandante da Polícia Militar do RN, e que foi,
posteriormente, transformado em mártir e herói da “Intentona Comunista de 1935”,
Infelizmente, aquela era a hora de se fabricar “heróis”, e o herói foi feito. Hoje, Luiz
Gonzaga, o “soldado” mártir, é reverenciado como patrono da PM, tendo inclusive
uma medalha de mérito da corporação que leva o seu nome e um mausoléu no
cemitério do alecrim. “O feitichismo político exigia manipansos de farda. Escolheramno
para novo ídolo”.
A Batalha de Itararé
Em 1930, Getúlio Vargas e seus tenentes necessitavam urgentemente de um motivo
incisivo para deflagrar a Revolução. O assassinato á bala do seu candidato a vicepresidente
pela Aliança Liberal, João Pessoa, na Confeitaria Glória, no Recife, pelas
mãos do advogado João Dantas, serviu de estopim e motivo para a deflagração,
mesmo se sabendo hoje que o assassinato de João Pessoa tenha se dado por
motivos meramente passionais e nunca políticos, que envolveu Anaíde Beiriz,
namorada de João Dantas e a publicação de cartas amorosas pela imprensa.
Getúlio Vargas precisava urgentemente de um objeto de culto para impressionar s
sugestionar o povo. O corpo de João Pessoa foi esse objeto sugestivo, tanto que,
andaram com seu esquife, “país acima, país abaixo”, servindo de bandeira ao
movimento dos tenentes.
Mais tarde, em Natal...
Assim como Luiz Gonzaga de Souza ou “doidinho”, como era mais conhecido em
Natal, foi feito herói e mártir da Inssurreição Comunista de 1935, o ex-Governador
Dinarte de Medeiros Mariz também o foi. Não foi Dinarte um herói fabricado por uma
corporação ou sistema, mas foi um herói forjado nele próprio e por ele próprio, diante
do aproveitamento das circunstâncias, e que também foi instituído no consciente
coletivo do povo do Rio Grande do Norte, principalmente no povo do Seridó, de onde
era natural e exercia as suas atividades comerciais e políticas.
É sabido por toda a população do estado, que o político e empresário do ramo de
algodão Dinarte Mariz, natural de Serra Negra do Norte, mas com domicílio em Caicó,
município no qual mantinha o seu grande reduto eleitoral, que naquele fim de tarde de
26 de novembro de 1935, havia ele pegado em armas e tiroteado contra comunistas
em retirada da capital, na Serra do Doutor. Esse episódio da história política do Rio
Grande do Norte foi passado para as gerações futuras sob diversos prismas. Da parte
do ex-senador e do seu sistema político, a verdade consta que Dinarte realmente foi o
grande contra-revolucionário da Inssurreição, entretanto, para os seus opositores ou
mesmo para alguns pesquisadores e até mesmo para integralistas e comunistas que
participaram ativamente do movimento e da ofensiva na Serra do Doutor, tudo não
passou de um jogo de cena inteligente e eficiente. Porém, os fatos não foram
relatados pela mídia da época como realmente aconteceram. Leiamos o que diz o
escritor Homero Costa, sobre a inicial da questão:
“... no dia 26 de novembro de 1935, praticamente 41 municípios do estado estavam
ocupados pelos rebeldes. À tarde, uma parte da tropa que estava na cidade de Santa
Cruz se desloca pra a vizinha cidade de Currais Novos. No caminho, numa serra
conhecida como “Serra do Doutor”, são surpreendidos por uma grande fuzilaria.
Alguns fazendeiros, tendo á frente o 'coronel' Dinarte Mariz, que residia na cidade de
Caicó, já informados sobre as ocorrências em Natal e o deslocamento de tropas para
o interior do estado, se articulam para resistir. Vão a Campina Grande, na Paraíba, e
conseguem, além de armas, arregimentar um considerável contingente (...) No
caminho, sabem da ocupação de Santa Cruz e ficam entrincheirados na Serra do
Doutor. Com a passagem de dois caminhões que saíam de Santa Cruz em direção a
Currais Novos, abrem fogo, pegando-os de surpresa, e impõem a primeira derrota
pelas armas aos inssurretos”.
Sobre os fatos ocorridos na Serra do Doutor, naquele fim de tarde do dia 26 de
novembro de 1935, há muitas versões, relatadas por jornalistas, militares, sitiantes da
região, integralistas, comunistas, etc., cada um, no caso dos sistemas políticos,
“puxando a brasa para as suas sardinhas”, a fim de colherem dividendos para si e
para os seus sistemas. Mas á luz dos acontecimentos históricos e da verdade dos
fatos, podemos afirmar que, Dinarte Mariz, muito embora tenha participado
ativamente da resistência aos inssurretos e ao próprio movimento de novembro de
1935, não encontrava-se presente, especificamente, á tardinha da quarta feira, dia 26
de novembro de 1935, na Serra do Doutor, quando se deu o confronto entre
comunistas e os sertanejos do Seridó. Sobre isso, atesta o jornalista Luiz Gonzaga
Cortez, escrevendo sobre entrevista que lhe foi concedida pelo senhor Manoel Lúcio
de Macedo Filho, um dos chefes integralistas do Acari, entre 1933 e 1937:
“A batalha da Serra do Doutor foi travada entre comunistas que viajavam em dois
caminhões e os integralistas aliciados pelo padre Walfredo Gurgel, que também era
integralista e vigário de Acari. Este, com medo, não foi até a serra, viajando para
Santa Luzia, no vizinho estado da Paraíba. Quanto a Dinarte Mariz, não participou de
qualquer combate, só aparecendo na serra por volta das 19h00, quando tudo havia
acabado”.
A Sra. Otávia Bezerra Dantas, esposa do Sr. Manoel Lúcio, dá também a sua versão
á luz dos fatos, como contemporânea e partícipe do movimento:
“Depois da debandada geral, sem nenhum integralista ferido, Dinarte apareceu. Padre
Walfredo e o seu motorista José Francisco Lúcio, apareceram no outro dia, de manhã,
num chevrolet. Dias depois, andaram dizendo que Dinarte foi o 'general' da Serra do
Doutor. Eu respondia na hora: “É mentira. Foram os doze “bobos” de carnaúba que
fizeram as bombas e estragou a fuga dos comunistas”.
As versões do Sr. Manoel Lúcio e da Sra. Otávia Bezerra Dantas são depois
confirmadas pelo próprio Enock Garcia (delegado auxiliar de Natal, na época) que, em
depoimento prestado em 1987, confirma que tanto ele como Dinarte Mariz só
chegaram ao local, com 400 homens, na madrugada de quarta feira, 26/11 –
apresentando outra versão de horário, mas que nada infere na afirmação do casal
integralista de Carnaúba dos Dantas.
Esses dois fatos aqui apresentados, falam por toda a convicção ideológica de uma
época, em que a bandeira do anticomunismo serviu de estandarte para emoldurar
campanhas políticas e fazer sobressair homens do quase anonimato para as lides do
poder e da glória. Naquela época – como ainda hoje reclama-se – necessitava-se de
“heróis” e de “mártires”. O poder estadual (e mesmo federal) carecia de que o
capitalismo, sustentáculo e esteio da “livre iniciativa” e da manutenção dos grandes
latifúndios – eleitorais e agrários – fosse mantido, e que o comunismo ateu, símbolo
do materialismo histórico e dialético, jamais procurasse sair do campo das idéias
filosóficas para a prática, como ocorreu naquelas 82 horas em que Natal,
principalmente, sentiu o gosto de haver engendrado, pela caminho da luta armada, o
primeiro governo marxista-leninista das Américas, e legado para a posteridade os
muitos exemplos e as muitas lições retiradas daquele fatídico episódio. Mas, é o
próprio Marx que resume: “Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de
diversas maneiras; o que imposta é modificá-lo”.
Retrato falado do "Luiz de Né ", com base nas informações de André Batista, vivissimo e morador de Candelária, conterâneo do decujo, transformado em herói pela polícia política do regime de Vargas, após 1937 e no auge da repressão.
Retrato falado do "Luiz de Né ", com base nas informações de André Batista, vivissimo e morador de Candelária, conterâneo do decujo, transformado em herói pela polícia política do regime de Vargas, após 1937 e no auge da repressão.
