Autoridades estão a investigar uma possível falha elétrica, mas não excluem hipótese de o aparelho ter ficado sem combustível. Autoridades reveem número de mortos para 71 e seis sobreviventes
Foram encontradas as caixas negras do avião que caiu esta terça-feira na Colômbia e que terá provocado a morte a pelo menos 71 pessoas, incluindo grande parte da equipa de futebol brasileira do Chapecoense. A informação foi confirmada pela Aeronáutica Civil colombiana, que publicou no Twitter imagens das caixas que irão agora permitir que se inicie a investigação para averiguar a causa do acidente. Ambas as caixas negras estão "em perfeito estado".DN - Lisboa -30.11.2016
Cristiane Dantas é eleita pela imprensa a Parlamentar do Ano de 2016
Crédito da Foto: Eduardo Maia
Os jornalistas que atuam nos jornais, rádios, TVs, blogs e sites e que cobrem diariamente as atividades da Assembleia Legislativa elegeram, na manhã desta terça-feira (29), a deputada estadual Cristiane Dantas (PCdoB) como a Parlamentar do Ano de 2016. Ela foi escolhida com 25 votos dos 33 registrados.
“Quero agradecer a toda imprensa que me escolheu como Parlamentar do Ano. Me sinto orgulhosa em representar o povo na Assembleia Legislativa. Trabalho preocupada com as políticas públicas e o título aumenta ainda mais meu compromisso com a Casa”, disse Cristiane.
O deputado estadual José Dias (PSDB) obteve 2 votos, os deputados Ezequiel Ferreira (PSDB), Gustavo Carvalho (PSDB), Galeno Torquato (PSD), Fernando Mineiro (PT), Álvaro Dias (PMDB) e Kelps Lima (Solidariedade) tiveram 1 voto cada.
“Esse ano tivemos uma participação expressiva dos votantes. Dos 43 aptos a votar, 33 compareceram e o título ficou em boas mãos. Acredito que a deputada Cristiane Dantas mereceu o reconhecimento. Ela tem tido uma boa atuação no plenário, audiências públicas, nas Comissões da Casa e é uma parlamentar assídua”, disse Oliveira Wanderley, presidente do Comitê de Imprensa, responsável pelo processo eleitoral.
A eleição se realiza desde o ano de 1972, quando o primeiro eleito pelos jornalistas foi o ex-deputado Roberto Furtado. Em 2015, o eleito foi o presidente da Casa, o deputado Ezequiel Ferreira de Souza. De acordo com as regras do Comitê, todos os jornalistas que realizam a cobertura jornalística das atividades legislativas têm direito ao voto para escolher o parlamentar que mais se destacou durante o ano. No final de quatro anos, é escolhido o deputado que mais se destacou na Legislatura.
segunda-feira, 28 de novembro de 2016
Uma noite desvairada na Paulicéia
Tomislav R. Femenick - Historiador
Um dia desse um amigo paulista mandou-me, via Internet, uma foto tirada no inicio dos anos setenta. Lá estavam o cineasta Cacá Diegues, a cantora Nara Leão, o jornalista Samuel Wainer, a jornalista Sheila Leirner, o cartunista Geandré e o jornalista e escritor Jorge da Cunha Lima. Seria apenas um grupo de intelectuais, algo sem importância, não fosse também a presença da famosa Dona Laura, proprietária da boate La Licorne (onde a foto foi tirada) e de outra casa noturna, a Scarabociu.
Para quem não nunca ouviu falar, o La Licorne, principalmente, e o Scarabociu, integravam o famoso circuito da Boca do Luxo, onde estavam os melhores cabarés e boates da capital paulista. Tão famosas quanto essas casas eram sua meninas, geralmente estudantes e algumas já formadas, que optavam por continuar na noite. Mais famosos ainda eram seus frequentadores. Dizem que o charme dessas mulheres encantou o Secretário de Estado americano, Henry Kissinger; o presidente do Chile, Eduardo Frei; o piloto Niki Lauda, o cantor Julio Iglesias e até uma comitiva da primeira-ministra hindu, Indira Gandhi. O La Licorne estava para São Paulo assim como o Moulin Rouge está para Paris.
Mesmo morando em São Paulo, a verdade é que até o inicio dos anos setenta eu nunca tinha ido ao La Licorne. Foi então que, por essa época, o meu primo Carlos (o Dr. Charley do DNER) foi à capital paulista participar de um seminário sobre construção de estradas. Caxias como ele era com o dinheiro público, ficou hospedado na minha casa. No dia do encerramento do encontro ele descolou um convite e me chamou para ir ao jantar no Hotel Hilton. Terminado o banquete, os promotores do evento fizeram uma surpresa: todo mundo estava convidado para tomar uns scotts no Scarabociu e, depois, assistir ao show e tomar outros drinques no La Licorne. Fomos todos, até dois engenheiros que eram evangélicos. No Scarabociu fomos recebidos pelas hostesses da casa e por algumas garrafas de whiskies Buchanan’s, Old Par e President, todos devidamente com maioridade plena, isso é, 21 anos. O ambiente era pequeno, agradável e aconchegante, como devem ser as casas do ramo. Mas lá estávamos apenas fazendo hora. Perto da meia-noite levantamos acampamento e fomos em direção ao La Licorne.
Aqui se deu um fato insólito. Quando estávamos entrando na famosa casa, o show já havia começado e as luzes do salão estavam apagadas. Ao meu lado estavam Charley e um engenheiro do Paraná. Este me perguntou:
– Você conhece bem o ambiente daqui?
– Não porque, como você, está é a primeira vez que entro aqui – respondi.
Como se fora uma deixa de teatro, no mesmo instante uma voz saída da escuridão gritou:
– Tomislav!!!
Eu fiquei sem jeito – ou, como se dizia naqueles anos, perdi o rebolado. Como Tomislav é um nome incomum, ninguém acreditou no que eu havia dito antes.
Fique em pé, esperando as luzes se acenderem. Terminada a apresentação, notei uma mão acenando para mim. Era meu amigo José Laorte, que morava em Brasília, estava visitando São Paulo e, como eu, visitava o La Licorne pela primeira vez. Depois das explicações, acho que tinha convencido que eu não era um habitué daquele cabaré. Ai aconteceu o mais inesperado. Um outro amigo de Mossoró, que há muito tempo eu não via, aproximou-se de mim, cumprimento-me e disse:
– Hoje você vai conhecer Dona Laura – era outro mossoroense, seu motorista particular.
Depois dessa, ninguém mais acreditou em mim. Acho que nem mesmo eu.
Ganhando ou perdendo, o milionário
Donald Trump já destruiu muitos mitos sobre as eleições
norte-americanas. Mostrou também que muitas ideias populares sobre
rituais democráticos estão perdendo o seu fascínio e aceitação acima de
qualquer dúvida. Aqui no Brasil, o resultado do segundo turno nas
eleições municipais também revelou que muitos comportamentos antes
solenemente condenados, já não são mais tidos como pecados capitais em
comportamento político individual.
Foto publicada no Blog de Edson Novaes
As campanhas eleitorais e com elas, todos os rituais surgidos em
torno do exercício do voto, estão sofrendo o impacto direto da
massificação das estratégias publicitárias e do encastelamento da classe
política numa redoma de privilégios e cumplicidades. A abstenção e o
voto nulo começaram a abalar todo o clássico discurso sobre participação
cidadã na definição dos rumos do Brasil. Por outro lado, os escândalos
de corrupção envolvendo parlamentares e governantes minaram severamente a
credibilidade dos responsáveis por um sistema político que até agora
era apontado como a pedra angular da democracia.
Caleb Crain, escritor norte-americano, produziu um demolidor artigo na revista New Yorker
onde resgata uma série de pesquisas de opinião para mostrar como o
eleitor norte-americano é terrivelmente desinformado sobre o sistema
político em seu próprio país. “Um terço dos norte-americanos acham que o
slogan marxista ‘de cada um conforme a sua possibilidade e a cada um
conforme a sua necessidade’, está na constituição dos EUA”, diz Crain
que acrescenta em seu texto: “Quase a mesma proporção de eleitores não
sabe quais são os três poderes que garantem a democracia no país”.
Esta ignorância sobre o que é e como funciona a democracia não surgiu
agora com o fenômeno Trump. Ela já é antiga mas era minimizada pela
imprensa e pelos políticos norte-americanos mas bastou o surgimento de
um milionário arrogante para que as falácias sobre o sistema fossem
expostas a luz do dia. O fenômeno Trump mostrou que é grande o número de
norte-americanos desiludidos com a política e que descreem na forma
como os dois maiores partidos se revezam no poder há mais de um século. A desilusão dos eleitores
Aqui no Brasil, o fenômeno Lava Jato mirou no governo Lula mas acabou
acertando na credibilidade pública dos poderes Legislativo e Executivo,
com algumas escoriações no Judiciário. Ao mexer na abelheira da
corrupção eleitoral para derrubar Dilma Rousseff e tentar impedir a
candidatura presidencial de Lula em 2018, os responsáveis pela Lava
Jato, com a colaboração da imprensa e da Polícia Federal, escancararam
para o eleitor brasileiro o que rola nos bastidores da política e
principalmente das eleições no país.
Daí não haver surpresa alguma pelo fato dos eleitores preferirem
candidatos que se apresentaram como não políticos, ou simplesmente
decidiram não votar em ninguém. Os porta-vozes do sistema tentam achar
explicações convincentes para o óbvio mas só conseguem reforçar o fato
de que não querem ou não conseguem ir mais fundo na identificação do
crescente distanciamento entre o publico brasileiro e seus governantes.
A metralhadora giratória de Donald Trump agrada os eleitores que não
sabem identificar os três poderes de seu país e torna evidente que a tão
decantada democracia norte-americana é, em boa parte, um produto de
marketing político. Se o voto não fosse obrigatório aqui no Brasil os
números da desilusão e da desesperança seriam ainda mais impactantes.
Joshua Rothman, um colunista da revista The New Yorker,
mostrou como a radicalização política gerada pelo fenômeno Trump
envenenou a vida nas comunidades norte-americanas num fenômeno que
ocorreu aqui também, especialmente depois da crise gerada em torno do
impeachment da presidente Dilma Rousseff. Rothman cita o livro da
pesquisadora Nancy Rosenblum, autora do livro “Good Neighbors: The Democracy of Everyday Life in America”
no qual ela afirma que estamos vivendo dois tipos diferentes e, às
vezes antagônicos, de democracia: a política dos partidos e a política
do dia a dia. Na primeira agimos como cidadãos e na segunda como
vizinhos. O problema é que hoje começamos a nos comportar cada vez mais
como vizinhos porque as opções políticas antagônicas se tornaram cada
vez mais próximas do nosso dia a dia. Acabamos contagiados pela
polarização entre os políticos, com a consequente redução da tolerância
entre vizinhos e amigos.
O que se torna cada vez mais claro, e que tanto lá como aqui, não é a
democracia que está em crise, mas o discurso criando em torno dela e os
seus autoproclamados lideres e defensores. A divulgação dos negócios
bilionários com dinheiro publico para fins pessoais e eleitorais aqui no
Brasil bem como a publicação dos e-mails de Hillary Clinton mostraram
como a classe governante nos dois países administra o Estado como um bem
privado.
Mostrou também um crescente descrédito de uma parcela considerável de
eleitores que já descreem também na capacidade do sistema se
auto-depurar. Esta é uma possibilidade preocupante e que nos coloca
diante de dois cenários possíveis: uma anarquia resultante da falência
moral da classe dirigente e da inexperiência política dos cidadãos
comuns; ou um vácuo político que abre caminho para um autoritarismo
herdeiro de Hitler, Stálin e Pinochet.
***
Carlos Castilho é jornalista e editor do site do Observatório da Imprensa
Image copyrightReutersImage caption Temer se pronunciou pela primeira sobre o chamado "Calerogate"
O presidente Michel
Temer negou neste domingo que tenha interferido para arbitrar um
conflito de natureza privada do ex-ministro da Secretaria de Governo,
Geddel Vieira Lima.
No entanto, Temer admitiu que o pedido de
Geddel para que fosse liberada a construção de um prédio de 30 andares
em área histórica de salvador foi "muito inadequado".
Segundo o
ex-ministro da Cultura Marcelo Calero, o político baiano o pressionou
para que conseguisse autorização para a obra junto ao Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Calero levou o caso a
Temer e disse que o presidente o "enquadrou" a encontrar uma solução
para a questão, remetendo o caso à Advocacia Geral da União (AGU).
Segundo
Temer, uma das conversas com Calero teria sido gravada pelo então
titular da pasta. Ele nega que tenha "enquadrado" o então ministro.
"Eu
não estava patrocinando nenhum interesse privado, data venia, né? Não
há razão para isso. Se você me disser, 'não foi útil, não foi
conveniente', eu digo, de fato", reconheceu Temer.
"Eu disse até
ao ministro, 'olha, foi uma inadequação, uma coisa muito inadequada, não
pode ser feita'", disse também o presidente.
Temer deu a
declaração ao ser questionado pela BBC Brasil sobre qual "conflito
institucional" ele estava arbitrando ao sugerir que o caso fosse
remetido a AGU, ou se estava interferindo em uma questão particular.
O
presidente disse que o conflito institucional era entre o Iphan da
Bahia, que havia autorizado a obra, e o Iphan federal, que havia barrado
o empreendimento.
"Estava arbitrando um conflito de natureza
administrativa, entre órgãos da administração pública, o Iphan da Bahia
tinha uma posição e o Iphan nacional tinha outra posição", argumentou
Temer.
"Quando ele (Calero) disse que não queria, não iria
despachar (tomar decisão no caso), eu disse 'então faça o seguinte,
mande para a AGU, e ela arbitra essa questão'", continuou o presidente. Image copyrightGetty Images
Calero pode ter gravado conversa com o presidente
Juristas ouvidos pela BBC Brasil, porém, dizem que não há conflito entre diferentes órgãos nesse caso, já que o Iphan da Bahia está hierarquicamente subordinado ao Iphan federal.
A
própria AGU manifestou-se na quinta-feira, por meio de nota, informando
que "a presidência do Iphan é competente para a anulação de ato da
Superintendência estadual e que poderia decidir o caso concreto".
Segundo
a assessoria da AGU, essa decisão já havia sido dada pela procuradoria
do Iphan, órgão ligado à AGU, antes do Iphan federal barrar a obra.
Foi
a primeira vez que Temer comentou o caso publicamente. O presidente
disse também que seu perfil "não é autoritário" e que sempre atua para
resolver conflitos.
"Sempre que houver conflitos entre quem quer
que seja, mesmo ministros, eu vou arbitrá-los, foi o que eu fiz, ao
longo da vida", afirmou.
Geddel tem um apartamento no prédio que
aguardava autorização para ser construído. Ao apresentar sua carta de
demissão na sexta-feira, ele deixou clara sua relação de amizade com
Temer, ao se referir ao presidente como "meu fraterno amigo" e "meu
querido amigo". Image copyrightReuters
Geddel (à esquerda) é dono de um apartamento em empreendimento embargado pelo Iphan
Ao deixar a coletiva, Temer foi questionado se sabia
que Geddel era dono do imóvel no empreendimento que tentava liberar. O
presidente desconversou e disse que "soube nesse episódio".
Diante
da insistência sobre quando teve conhecimento, ele afirmou que foi "na
quinta-feira", aparentemente se referindo a conversa com Calero antes da
demissão do ministro, no último dia 18.
Neste, domingo, Temer
criticou Calero, dizendo ser "indigno" e "gravíssimo" que um ministro
gravasse uma conversa com o presidente.
"Espero
que essas gravações venham a público", disse Temer, que disse ainda
cogitar fazer gravações oficiais das audiências na Presidência da
República.
A líder da minoria (oposição) na Câmara, a deputada
Jandira Feghali (PCdoB-RJ), disse após a coletiva de Temer que o
presidente "tenta montar uma versão amena para um fato absolutamente
grave e contundente".
Segundo ela, há um "conluio de interesses privados comandando a República".
Feghali sustenta que Temer cometeu "crime de responsabilidade" e disse
que a oposição tomará "medidas concretas a partir da segunda-feira
contra o governo".
O líder da minoria no Senado, Lindberg Farias
(PT-RJ), e o PSOL já disseram que pretendem apresentar um pedido de
impeachment contra o presidente.
O andamento dessa denúncia, porém, dependeria de uma decisão do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que é aliado de Temer.
"Com os fatos que nós temos e conhecendo o presidente Michel Temer,
apesar de não ter ouvido ainda a tal gravação que o ex-ministro Calero
fez com o presidente da República, um fato grave, não vejo nenhum motivo
para a gente pensar em impedimento do presidente Temer de forma
algumas", afirmou Maia na sexta-feira, em entrevista ao canal Globonews.
Na
entrevista, que contou com a presença de Maia e do presidente do
Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), Temer anunciou o que chamou de
"ajustamento institucional" para impedir a tramitação de qualquer
proposta de anistia a políticos que tenham praticado o caixa 2 -
movimentação irregular de recursos de campanha eleitoral.
Image copyrightGetty ImagesImage caption
Na coletiva com Calheiros (à esquerda) e Maia, Temer
prometeu barrar qualquer tentativa de anistia ao caixa 2
Na quinta-feira , a votação de um projeto com
medidas anticorrupção acabou adiada depois de vir à tona uma articulação
em prol de uma emenda para anistiar quem tivesse feito uso de caixa 2
em eleições passadas - nos bastidores da Câmara, chegou a circular um
texto de uma emenda que previa livrar, em todas as esferas (cível,
criminal e eleitoral).
"Estamos aqui para revelar que, há uma unanimidade daqueles dos poderes Legislativo e Executivo", afirmou o presidente.
"Não
há a menor condição de se patrocinar, de se levar adiante essa
proposta", declarou Temer, que disse ser preciso "ouvir a voz das ruas"
em relação à anistia.
Maia
voltou a dizer que nunca tinha sido a intenção do Legislativo de
anistiar crimes e culpou uma "confusão de comunicação" pela polêmica.
"Estamos discutindo algo que não existe", afirmou. Calheiros disse que
uma eventual proposta de anistia não terá chances no Congresso.
A
entrevista foi convocada no sábado por Temer e representou um rara
aparição de mídia conjunta dos principais líderes dos Poderes Executivo e
Legislativo, o que pareceu indicar a preocupação do Planalto com a
repercussão da crise política detonada tanto pela renúncia de Geddel - a
sexta de um ministro nos seis meses de governo do pemedebista - e a
polêmica causada pela possibilidade de anistia do caixa 2.
Nova crise que opôs Calero e Geddel é 'remake político' de "Aquarius", diz francês Le Monde
Embate entre Geddel Vieira Lima (esq.) e Marcelo Calero (dir.) abriu nova crise no governo de Michel Temer
"Remake político do filme Aquarius no Brasil".
Asssim o jornal francês Le Monde definiu o episódio que
abriu uma nova crise no governo de Michel Temer, no qual o ex-ministro
da Cultura Marcelo Calero diz ter sido pressionado para liberar um
empreendimento imobiliário em Salvador (BA) de interesse do ministro
Geddel Vieira Lima.
Para o Le Monde, são "enormes" as
similaridades entre o filme do cineasta pernambucano Kléber Mendonça
Filho, estrelado por Sônia Braga, e o motivo da demissão alegado por
Calero.
"De repente, a realidade supera a ficção", escreveu o
periódico francês, em editorial publicado na quarta-feira. De acordo com
o texto, "a pressão implacável de um peso pesado do governo para a
construção de um grande complexo imobiliário em Salvador" é "uma versão
política em quase nada retrabalhada" do roteiro de Aquarius.
No filme, lembra o Le Monde, uma mulher luta contra uma
construtora para não ser desalojada de seu apartamento nem deixar que o
edifício onde ela guarda as principais memórias de sua própria história
seja transformado em um arranha-céu de luxo.
Ironicamente, o
ex-ministro da Cultura criticou publicamente o elenco do filme por conta
de um protesto feito durante sua exibição no renomando Festival de
Cinema de Cannes, na França, quando diversos representantes exibiram
cartazes de protesto contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff
do lado de fora.
Em depoimento à Polícia Federal, Marcelo Calero
narrou ter sido pressionado para convencer o Instituto do Patrimônio
Histório Nacional (Iphan) a voltar atrás e derrubar um embargo ao
empreendimento La Vue Ladeira da Barra - um prédio de alto luxo nos
arredores de uma área tombada de Salvador onde o ministro Geddel Vieira
Lima teria adquirido um apartamento.
Calero, que diz ter pedido
demissão por conta do episódio, afirma que, após receber pressão de
Geddel, procurou Temer para tratar do caso, mas o presidente o
"enquadrou" para tentar buscar uma saída para o impasse na liberação do
empreendimento. Image copyrightGetty Images
Para jornal francês, são "enormes" as similaridades
entre o episódio narrado por Calero e o filme do cineasta pernambucano
Kléber Mendonça Filho, cujo elenco fez protesto no festival de Cannes
desse ano.
O depoimento do ex-ministro da Cultura à PF foi
enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) e encaminhou para a análise da
Procuradoria-Geral da República, que deve pedir a abertura de uma
investigação contra Geddel.
O Palácio do Planalto nega qualquer
irregulariade e afirma que o presidente Michel Temer defendeu uma "saída
técnica" para o embate, ao pedir que o caso fosse levado à
Advocacia-Geral da União (AGU). E que apenas buscou arbitrar conflitos
entre os ministros.
A nova crise do governo Temer também ganhou espaço no jornal argentino Clarín, que definiu a história como escândalo. "Ministro de Temer é acusado de corupção", escreveu.
A
rede alemã Deutsche Welle também narrou o episódio em um texto
publicado em português, com o título "Ex-ministro diz que foi
pressionado por Temer no caso Geddel".