segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Cientista Liacir Lucena é Professor Emérito da UFRN.


Na homenagem ao físico Liacir Lucena, realizada a partir das 18h30m de hoje, no auditório da Reitoria, dezenas de familiares, amigos e professores da UFRN estiveram presentes, além dos ex-reitores Genibaldo Barros, Daladier da Cunha Lima e Ivonildo Rego. O Professor Liacir, em longo discurso, historiou a sua vida acadêmica e a sua participação no desenvolvimento das pesquisas no Campus de Natal (breve publicaremos o discurso do homenageado). Encerrando a solenidade, falou a reitora da UFRN.






Natal 19 de Dezembro de 2011

Discurso do Professor Liacir dos Santos Lucena ao receber o título de Professor Emérito da Universidade Federal do RioGrande do Norte
Magnífica Reitora da UFRN, Professora Ângela Maria Paiva Cruz
Excelentíssimas autoridades presentes e representadas
Magnífica Vice-Reitora, Senhores Pró-Reitores, Diretores de Centro, Chefes de Departamento, Coordenadores de Curso
Prezados Colegas, Caros Estudantes, Queridos Convidados
Minhas senhoras e Meus senhores
Estou muito honrado e feliz com este título de Professor Emérito que a Universidade Federal do Rio Grande do Norte me concedeu. Quero agradecer ao Departamento de Física Teórica e Experimental, ao Centro de Ciências Exatas e da Terra, ao CONSEPE e ao Conselho Universitário pela aprovação deste título a mim outorgado. Quero agradecer também o parecer de excessiva generosidade emitido pelos professores José Willington Germano, Técia Maria de Oliveira Maranhão e Adrião Duarte Dória Neto que fundamentou a decisão do CONSUNI. Ao professor Luciano Rodrigues da Silva, autor da proposição inicial e que proferiu a apresentação cheia de demonstrações de amizade, meus agradecimentos. Agradeço também à nossa Magnífica Reitora por possibilitar a organização de uma festa tão bonita. Muito obrigado a todos!
Costumo dizer que a vida é uma grande aventura, cheia de surpresas e desafios. Este momento corresponde a uma dessas surpresas. Uma surpresa agradável. Primeiro porque o título de Professor Emérito materializa um passaporte ou salvo-conduto que vai me permitir continuar a trabalhar, após a idade da aposentadoria compulsória, atravessando os territórios desconhecidos dos tempos futuros. Vai possibilitar dar seqüência às missões e tarefas que iniciei e também realizar novos projetos
Em segundo lugar, porque julgo, talvez de uma maneira pretensiosa, a UFRN e o Departamento de Física Teórica e Experimental como crianças que ajudei a criar, com toda dedicação e todo o carinho e os considero, de certo modo, como entes queridos, quase filhos. Gostaria portanto de acompanhá-los em seu progresso, de zelar para que nada de negativo venha a acontecer com os mesmos. Como Professor Emérito poderei estar sempre por perto, observando, apoiando, cuidando, orientando, aconselhando e até bradando um grito de alerta, se for necessário.
Esta é uma hora de muita emoção que pretendo usar para fazer uma reflexão, analisar a nossa caminhada no passado, avaliar o presente e esboçar planos para o futuro.
Ingressei nesta Universidade em 1960 como aluno da primeira turma do Curso de Engenharia. Era o instante em que a então denominada Universidade do Rio Grande do Norte começava sua existência real, exatamente o princípio de seu funcionamento. Concluí o Curso de Engenharia Civil no final de 1964 e, logo a seguir, no início de 1965, passei a integrar o corpo docente desta instituição. Até este momento, posso contabilizar 52 anos de vínculo estreito com a UFRN, dos quais quase 47 como professor. Nessa longa jornada vi a Universidade brotar e desabrochar, dando os primeiros passos, superando obstáculos e alcançando objetivos que pareciam inatingíveis. Acompanhei assim a história da UFRN desde os primórdios. Tive o atrevimento de, em muitas situações, procurar influenciar o curso de sua evolução, às vezes com resultados positivos, outras vezes sem sucesso.
O caminho que me trouxe à UFRN foi balizado por acontecimentos bafejados pela sorte, coincidências felizes e principalmente pela grande ventura de passar por boas escolas e ter encontrado excelentes professores. Nasci praticamente na Escola. Meu pai e minha mãe eram professores primários. Meu pai, Moacir de Lucena, foi meu primeiro professor. Graças a ele tive acesso precocemente ao Mundo Maravilhoso da Escola, que comecei a explorar com prazer e alegria. Enquanto cursava o primário descobri a realidade de Natal e de várias cidades do interior do Rio Grande do Norte, entre elas Apodi, Mossoró, Papari (hoje Nisia Floresta), Taipu, Jucurutu e Caicó.
Em 1953 prestei o Exame de Admissão em Caicó, iniciando o Curso Ginasial no Ginásio Diocesano Seridoense. Em 1954 consegui transferência para o Colégio Estadual do Atheneu Norte-Rio-Grandense em Natal. Era o primeiro ano de funcionamento do principal colégio do Estado em seu novo prédio, no Bairro de Petrópolis. As instalações modernas incluiam uma Biblioteca com um acervo rico e diversificado, o Ginásio desportivo mais equipado do Rio Grande do Norte, salas de aula amplas e ventiladas, além de mobiliário recentemente adquirido. O melhor do Atheneu entretanto estava concentrado no corpo de Professores que representava a elite intelectual de Natal. No Atheneu ensinavam Vicente de Almeida, Câmara Cascudo, Francisco Rodrigues Alves, Newton Navarro, Miriam Coeli, Antônio Pinto de Medeiros, Octávio Tavares, Álvaro Tavares, Ewerton Dantas Cortez, Luiz Maranhão Filho e Moacyr de Góis, entre outros. Tive o privilégio de ser aluno desse conjunto único de pessoas que conseguiam reunir competência, idealismo e vontade de transmitir conhecimentos. Foi este, outro mundo que explorei com avidez até 1956 quando terminei o Curso Ginasial.
Em 1957, minha família foi transferida para Mossoró e novamente a sorte me favoreceu. Por coincidência naquele ano começou a funcionar pela primeira vez no interior do Estado, especificamente em Mossoró, o Curso Científico que era a denominação do curso do segundo grau. Fui assim aluno da primeira turma do Científico do Colégio Santa Luzia. Estudei com os professores que simbolizavam o que havia de mais seleto em Mossoró: Dalva Stella Nogueira Freire, Bruno Nogueira, Cônego Francisco Sales Cavalcanti, João Batista Cascudo Rodrigues, Heleno Gurgel, Padre Sátiro Dantas, só para citar alguns.
Ao retornar a Natal em 1959 encontrei o Atheneu com a mesma qualidade dos professores. Fui aluno de Floriano Cavalcanti, José Gurgel, Sebastião Monte, Clóvis Gonçalves dos Santos, Esmeraldo Siqueira e Luiz Herculano Soares. Nesse ano concluí o Curso Científico e sem nenhum curso preparatório consegui ser aprovado no Vestibular para o Curso de Engenharia Civil. Este fato atestava o grau elevado da aprendizagem nas escolas do Rio Grande do Norte, particularmente no Atheneu, naquele tempo. O Atheneu, sem nenhum favor, apresentava o melhor nível de ensino no Estado, comparado com os demais colégios.
Nas minhas aulas afirmo que o bem mais valioso do patrimônio da humanidade corresponde ao conhecimento científico acumulado durante milhares de anos. Para justificar esta afirmação lanço mão dos fatos e acontecimentos registrados na História. As nações e povos que não se preocuparam em conhecer, explicar, controlar e utilizar bem a Natureza não conseguiram sobreviver ou sucumbiram subjugados por outras nações que tiveram a capacidade de ampliar e aproveitar esta fonte de riqueza e poder. É nossa responsabilidade então lutar, não apenas para preservar o referido patrimônio, mas multiplicá-lo e colocá-lo a serviço do nosso povo. A melhor maneira de proteger esta riqueza inestimável consiste em disseminá-la através da educação das novas gerações e de enriquecê-la através da busca de avanços científicos. Cabe à Universidade desempenhar o papel de principal gerador de novos conhecimentos e de propagador do acervo da Ciência. Somente este fato já serviria para justificar a necessidade da existência da universidade como repositório desse patrimônio e locus privilegiado do seu desenvolvimento
Este não é o único bem que devemos preservar e desenvolver. Há um outro que integra e complementa o patrimônio da humanidade, servindo de bússola para orientar a utilização da fôrça e do poder da Ciência. Refiro-me à Cultura em sentido amplo, esse ramo do conhecimento que imprime identidade própria aos animais pensantes e no qual nossa espécie revela suas características mais humanas. A Cultura inclui a Arte, os Padrões, os Costumes, as Tradições, a Ética, as Crenças e todo esse conjunto de valores fruto do cultivo, do uso e da experimentação, feita por todos os homens, durante toda a vida. Ciência e Cultura são indissociáveis. Ciência sem Cultura parece uma nave sem rumo, um navio sem leme. Além de servir como consciência da Ciência, a Cultura, por intermédio dos seus Padrões de Estética e Beleza, tem sido a inspiração para os Modelos e Teorias mais frutíferos da Ciência. Nesta classe estão enquadradas as Regras de Simetria, as Leis de Conservação e os Princípios de Mínima Ação, paradigmas largamente utilizados na Física, na Química e na Engenharia.
O equilíbrio entre Cultura e Ciência é fundamental. Cultura sem Ciência é o indício mais claro do subdesenvolvimento, da fraqueza, o prenúncio do desastre. O povo brasileiro apesar de possuidor de uma rica Cultura, até bem pouco tempo não valorizava a Ciência. Provavelmente esteja nesse ponto a causa do nosso subdesenvolvimento e a explicação para ausência de universidades no Brasil, até a década de 30 do século passado.
Fui educado por uma geração que, por falta de oportunidades, estava inicialmente mergulhada nos conhecimentos científicos do passado e sofria as consequências do desenvolvimento tardio de nossas universidades. Mas essa geração possuia uma insaciável sede de saber, uma curiosidade extraordinária sobre os fenômenos da Natureza e um desejo forte de fazer o Brasil prosperar nesse setor.
Isaac Newton, o grande físico, disse que conseguiu enxergar mais longe porque se apoiou sobre os ombros de gigantes. Parafraseando Newton, posso afirmar que, se consegui avançar um pouco, isto se deve não somente a alguns elevados pilares humanos que usei como postos de observação ou pontos de referência, mas principalmente, graças ao trabalho de um grupo de desbravadores altruistas e visionários que apontaram direções, abriram caminhos, construiram pontes e pavimentaram as vias para que pudesse caminhar nesse maravilhoso mundo novo da Ciência. Eles prepararam e adubaram o terreno com cuidado e carinho. Foi este o solo fértil que aproveitei para nele plantar a semente da Física no Rio Grande do Norte, principalmente neste canteiro chamado de UFRN. Nesta tarefa tive a companhia de dois colegas sonhadores, Juarez Pascoal de Azevedo e Milton Dantas de Medeiros, e a sorte de obter sementes de qualidade escolhidas a partir de boas fontes.
No início desta Universidade, tudo era difícil. Não havia ainda tradição científica, os recursos financeiros eram limitados, não se pesquisava, nem existia um órgão voltado para o estudo da Física. Em compensação existia o desejo de progredir, a boa vontade, a consciência de que era necessário avançar na Ciência, na Educação Científica, qualificar os professores, iniciar a investigação científica, recuperar o tempo perdido. Enquanto a Europa e os Estados Unidos viviam a era da Física Nuclear, dos transistores, da aplicação prática das Teorias da Física Moderna e começavam a usufruir das benesses do desenvolvimento científico, o Brasil e particularmente o nosso Estado ainda tentavam dar os primeiros passos na Ciência.
Em verdade, esta situação não era exclusiva do Rio Grande do Norte. Acontecia de forma semelhante em todo o Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil. Até 1960, nessa imensa área do território nacional, não existia um único doutor em Física. No restante do país, nas regiões Centro Sul e Sul, talvez este número não passasse de poucas dezenas.
Em compensação, a antiga Escola de Engenharia, onde a Física começou na UFRN, abraçava uma tese avançada para aquele tempo. A idéia que norteava os pioneiros era a de que nenhuma engenharia poderia se firmar sem uma base sólida de Ciência. Estes conceitos são cada vez mais válidos nos dias de hoje, mas infelizmente às vezes são esquecidos. Foi este espírito de alta sabedoria que nos guiou e motivou. Ele contaminou a mim e a meus colegas da primeira turma de Engenharia do Rio Grande do Norte, cujos nomes faço questão de mencionar: Walter Araújo, Evandro Costa Ferreira, Joaquim Elias de Freitas, José Ivaldo Borges, Jário Pereira Pinto e Romeu Gomes Soares.
De lá para cá houve um progesso extraordinário. Hoje nossa Universidade conta com mais de 1000 professores com doutorado, cerca de 100 cursos de graduação, uma quantidade quase da mesma ordem de grandeza de Programas de Pós-Graduação, Laboratórios, Institutos Internacionais, pesquisas, programas de extensão e de ensino à distância, projetos, redes de cooperação. etc. O Campus da UFRN exibe um ritmo de edificações somente visto durante a construção de Brasília.
O setor de Física da nossa universidade também alcançou um resultado que não poderia ter sido antecipado, nem nas previsões mais otimistas. Hoje, nada ficamos a dever aos melhores departamentos de Física do Brasil. Como foi possível esta evolução ? Olhando em retrospectiva posso afirmar que nada poderia ter sido realizado sem Juarez Pascoal de Azevedo, sem Milton Dantas de Medeiros, sem Remarque Fernandes da Silva, sem José Henriques Bittencourt, sem Dirceu Victor de Hollanda, sem Geraldo Pinho Pessoa, sem Nilson Rocha de Oliveira, sem Raimundo Alberto Normando, sem Gilvan Trigueiro, sem José Antomar Ferreira de Sousa, sem Clóvis Gonçalves dos Santos, sem Hélio Varela de Albuquerque, sem José Eufrânio, sem Roberto Limarujo, sem João Maurício de Miranda, sem Kleber Bezerra, sem Fernando Cysneiros, sem Malef Victorio Carvalho, sem José Pereira da Silva, sem Edgar Ramalho Dantas, sem José Bartolomeu dos Santos, sem Antonio Melo, sem Wilson de Oliveira Miranda, sem Rômulo Rubens Freire Pinto, sem Marcelo Cabral de Andrade, sem Ubiratan Pereira Galvão, sem Fernando Antônio da Nóbrega, sem Renato Gomes Soares e muitos outros professores da antiga Escola de Engenharia da UFRN. Nunca percebi uma sintonia mais perfeita de aspirações, nem uma busca do progresso baseada numa pureza de intenções como aquela encontrada no corpo docente da antiga Escola de Engenharia.
Também não poderíamos ter avançado rapidamente naquela fase inícial sem a ajuda de físicos brasileiros importantes, tais como Erasmo Ferreira, Sérgio Costa Ribeiro, Newton Bernardes, Nicim Zagury, Pierre Henri Lucie, Raimundo Alberto Normando, José Maria Filardo Bassalo, Pierre Kaufman, Milton Ferreira de Sousa, Fernando de Sousa Barros, Humberto Siqueira Brandi, Sérgio Mascarenhas, Silvestre Ragusa, Silvio Ferraz de Melo, Ernesto Hamburguer e Sérgio Porto. Erasmo Ferreira, chefiando o setor de Física do CNPq, foi o grande amigo da UFRN nos primeiros tempos.
Mais recentemente tivemos o apoio relevante de Constantino Tsallis, hoje Doutor Honoris Causa da UFRN, Ricardo Ferreira, Cesar de Sá Barreto, Silvio Salinas, Márcia Barbosa, Maurício Domingues Coutinho Filho, Yvon Palmeira Fittipaldi, Cid Bartolomeu de Araújo, José Rios Leite, José Soares de Andrade Jr., Roberto da Silva Andrade, Marcelo Lyra, Giovani Vasconcelos, Madras Gandhi Mohan Viswanathan , Gilberto Corso, Celso Pinto de Melo, Josué Mendes Filho, Ervin Kaminski Lenzi, Rênio Mendes, Murilo Pereira de Almeida, Gil de Aquino Farias, Moysés Nussenzweig, Marco Antônio Raupp, Ronald Dickman e Sérgio Machado Rezende. Sérgio Rezende como ministro da Ciência e Tecnologia introduziu a Ciência Brasileira no cenário mundial, de uma maneira quase irreversível.
Fomos beneficiados também pela herança deixada por Luiz Freire, o precursor da Física Brasileira, professor da Escola de Engenharia de Pernambuco, e por outros pioneiros como José Leite Lopes, Mário Schemberg, Jaime Tiomno, Cesar Lattes, Richard Feynman e João Christovão Cardoso. Eles indicaram o rumo certo e demonstraram que o Brasil, a despeito da grande desvantagem em relação aos outros países, poderia dar um salto para o futuro, queimando etapas, para atingir uma posição de realce entre as nações. Esta situação de destaque começou a despontar depois da passagem de Sérgio Machado Rezende pelo Ministério da Ciência e Tecnologia.
Contamos ainda com a ajuda fundamental de físicos e cientistas de vários países, dentre eles William Klein, Stéphane Roux, Hendrik Hilhorst, Alex Hansen, Albert V. Baez, Michael Mendillo, Antonio Coniglio, Roger Maynard, José Teixeira, Peter King, Luiz Amaral, Attilio Stella, Hans Herrmann, Shlomo Havlin, Dietrich Stauffer, Armin Bunde, Bernard Sapoval e especialmente Eugene Stanley, do Center for Polymer Studies de Boston, que em várias ocasiões ajudou a UFRN. Eugene Stanley é um dos cientistas mais proeminentes de todo o mundo, tendo recebido vários prêmios e honrarias, entre eles a prestigiosa Medalha Boltzmann. Neste último mês de novembro ele novamente esteve em Natal participando de duas conferências internacionais.
Com relação a este gigantesco avanço relativo, observado no campo da Física, tenho também de render minha homenagem ao primeiro Reitor, Professor Onofre Lopes da Silva, o qual propiciou as condições para que o grupo de Física crescesse e prosperasse. Ele contratou os dois primeiros professores em dedicação exclusiva de toda a universidade. Um deles era professor de Física, o professor Raimundo Alberto Normando, o qual posteriormente alcançou a posição de Vice-Reitor da Universidade Federal do Ceará. Aparentemente um pequeno passo, mas este foi o início de uma grande transformação. Até aquele instante todos os professores exerciam suas atividades em regime de 12 horas semanais de trabalho. Foi também o Reitor Onofre Lopes que assinou o ato de criação do antigo Instituto de Física, e, com o seu entusiasmo pela Ótica e pela Holografia, proporcionou os meios para a expansão da área de Física na universidade que estava nascendo. Concedeu bolsas para nossos estudantes concluirem o Curso de Física na PUC do Rio de Janeiro, universidade com a qual firmamos um acordo de cooperação. Era o início de um ambicioso programa de formação de recursos humanos, antes mesmo de as iniciativas do CNPq e CAPES tomarem vulto. Permitiu ainda Dr. Onofre o início do Bacharelado e da Licenciatura em Física aqui em Natal, quando dispúnhamos de apenas 3 professores.
Onofre Lopes deu liberdade total para que iniciativas ousadas fossem concretizadas. Atraímos, para visitas de intercâmbio científico, os melhores físicos brasileiros. Promovemos Cursos de Atualização para Professores de Física das Universidades do Nordeste. Firmamos convênios com o Banco do Desenvolvimento do Rio Grande do Norte, BDRN, para financiamento dessas atividades de intercâmbio e ainda para a cobertura financeira para a contratação de dois novos professores em regime de dedicação exclusiva. Era Governador do Estado o Monsenhor Walfredo Gurgel.
Obtivemos do CETENE, Centro de Educação Técnica do Nordeste, dirigido por Jurandir Tahim, um dos melhores Laboratórios de Física do país, importado da Alemanha. Isto foi conseguido sem custos para a UFRN, em troca de cursos que ministramos para os docentes das Escolas Técnicas do Nordeste. O CETENE havia sido instalado no Rio Grande do Norte depois de uma disputa acirrada entre o Ceará e Pernambuco. Foi uma época de crescimento vertiginoso de nossas atividades. Era a resposta acelerada da universidade para compensar pelo menos um século de atraso científico de nosso Estado. A Física na UFRN ganhou momentum e energia para enfrentar as dificuldades que surgiriam no futuro.
Também quero prestar homenagens aos reitores seguintes, Genário Alves da Fonseca, Domingos Gomes de Lima, Diógenes da Cunha Lima, Genibaldo Barros, Daladier Pessoa da Cunha Lima, Geraldo dos Santos Queiroz, José Ivonildo do Rego, Ótom Anselmo de Oliveira, novamente José Ivonildo do Rego e agora a atual reitora Professora Ângela Maria Paiva Cruz. Todos desempenharam um papel importante na história de nossa universidade e em particular de nosso Departamento de Física.
Na gestão de Genário Fonseca observamos o início da construção do campus universitário. Outro feito relevante, nesse período, foi que a UFRN conseguiu recrutar o primeiro doutor para o seu corpo docente, um doutor em Física, o professor Franciscus Jozef Vanhecke, hoje na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nessa tarefa tivemos a valiosa ajuda do vice-reitor Leide Morais. Foi também nessa época a instalação do nosso Rádio Observatório com a montagem de uma antena parabólica de 10 metros de diâmetro, capaz de atuar em faixas de frequência acima de Gigahertz. Tivemos também a aprovação dos dois primeiros projetos de pesquisa da universidade junto ao CNPq. Não preciso dizer que eram na área de Física. Logramos obter também, por doação ao Instituto de Física, todos os equipamentos do Posto de Pesquisa da Marinha, sediado em Guarapes na vizinhança de Natal, inclusive um sismógrafo que até hoje funciona na UFRN. Firmamos ainda convênios de cooperação em pesquisa com a Universidade de Illinois e com o Air Force Geophysical Laboratory.
No período do Reitor Domingos Gomes de Lima expandimos o programa de qualificação dos docentes e enviamos um expressivo número de professores para obtenção do doutorado nas melhores instituições do Brasil e do exterior. A Universidade cresceu rapidamente, multiplicando instalações, ampliando o corpo docente e o número de estudantes. O Instituto de Física, transformado em Departamento de Física Teórica e Experimental, ganhou espaço físico para seus laboratórios. Como havíamos partido na frente, tiramos o maior proveito do PICD, Plano Institucional de Capacitação Docente. Batemos o recorde em número de docentes fazendo pós-graduação.
O Reitor Diógenes da Cunha Lima, por sua vez, dirigiu a atenção da Universidade para o Estado do Rio Grande do Norte. Fortaleceu os campi do interior e criou novos campi. Construiu o Centro de Convivência Djalma Marinho. Foi um período de grande valorização da Cultura e das Artes. Neste quadriênio, o Departamento de Física continuou com seu plano de qualificação dos docentes e de implantação de novas áreas de pesquisa.
O Reitor Genibaldo Barros propiciou à UFRN um clima de Pacificação, Democratização, de Abertura e Conciliação. Foi a época de consolidação da pesquisa na UFRN. Houve grande participação da nossa comunidade universitária na 1ª. Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia, na qual defendemos a proposta, que terminou vitoriosa, de eliminação das desigualdades regionais. Também foram aprovados os primeiros projetos voltados para a Educação Científica. Noutra frente, a UFRN celebrou um Convênio de Cooperação com a Universidade do Estado de NovaYork, a maior universidade pública dos Estados Unidos. Para concretizar esta cooperação no domínio do Ensino, Pesquisa e Extensão, o Reitor Genibaldo efetuou uma visita de intercâmbio ao campus de Albany e a vários outros campi dessa instituição. Outro acordo de cooperação foi assinado com a Universidade de Boston. Ainda neste período foi efetivada a criação do Curso de Mestrado em Física.
Na gestão de Genibaldo Barros também foi aprovado e implementado na UFRN, o Primeiro Programa de Avaliação Universitária numa Instituição do Ensino Superior, em todo o Brasil, o INDD. A Avaliação do Desempenho dos Departamentos, realizada através do INDD, estava acoplada a um sistema de distribuição de vagas para concursos de docentes e a uma política de estímulo à Pós-Graduação. A Universidade floresceu. O ambiente de liberdade total favoreceu o debate de idéias e a reflexão. A Universidade mostrava que estava viva e vibrante. Tive a oportunidade de participar da equipe do Professor Genibaldo como Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação, o que muito me envaidece.
O período do Reitor Daladier Pessoa Cunha Lima foi marcado pelo incentivo à Musica e às Artes, culminando com a construção do prédio da Escola de Música. Para nós, foi muito significativa a implementação dos Programas Especiais de Treinamento, PET, nas áreas de Estatística, Química e Física, com apoio financeiro da CAPES. O PET da Física constituiu o primeiro programa desta área a ser aprovado em todo o Brasil. Pelo PET da Física já passaram mais de 100 bolsistas sendo que mais de 50 já obtiveram o doutorado. Temos ainda a assinalar neste período, a primeira conexão feita entre a UFRN e a Rede Mundial de Computadores BITNET, a precursora da INTERNET. A ligação foi estabelecida entre o Departamento de Física e o Laboratório Nacional de Computação Científica no Rio de Janeiro.
Na gestão do Reitor Geraldo Queiroz aconteceu algo de muita relevância para nós: foi criado o Primeiro Curso de Doutorado da UFRN, na área de Física da Matéria Condensada. Este Doutorado, atualmente avaliado com o nível 6 pela CAPES, é um dos dos Programas de Pós-Graduação com conceito mais elevado em nossa instituição. Geraldo Queiroz também dinamizou o setor de comunicação da UFRN e transferiu a TV Universitária para modernas instalações no Campus Central, onde hoje também funciona a Superintendência de Comunicação.
A primeira Gestão do Reitor José Ivonildo do Rêgo ganhou destaque pela tentativa de institucionalizar o Centro Internacional de Sistemas Complexos, iniciativa que teve o suporte do Governo do Estado e do Ministro da Ciência e Tecnologia José Israel Vargas. O apoio do Reitor José Ivonildo a esta idéia, talvez avançada de mais para aquele momento, constitui uma demonstração de sua visão de futuro. Seu reitorado ainda ficou notabilizado pela criação da CIENTEC, o maior evento em Ciência, Tecnologia e Cultura do Estado e por progressos no ensino, pesquisa e pós-graduação.
No Período do Professor Ótom Anselmo de Oliveira como Reitor, foram feitos grandes avanços na concretização de uma das vocações naturais da UFRN: a pesquisa na área do petróleo. A nossa Universidade conseguiu atrair financiamentos da PETROBRAS e dos Fundos Setoriais de Pesquisa, notadamente do CTPETRO. Vários grupos de Pesquisa foram implantados e professores da UFRN participaram ativamente de Redes Nacionais de Pesquisa. Prédios foram construidos e Laboratórios equipados.
O retorno à Reitoria da UFRN do Professor José Ivonildo do Rego foi marcado por uma fase de acelerada expansão das construções no Campus, em grande parte financiada pelos recursos do REUNI. Ocorreu também um evento de uma dimensão incomensurável: com o apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia a UFRN criou o Instituto Internacional de Física, órgão cujos objetivos e alcance das ações ultrapassam as fronteiras da nossa Universidade e de nosso Estado.
Estamos agora em pleno período da Reitora Ângela Maria Paiva Cruz, e vemos a UFRN continuar a manter o seu impulso vigoroso buscando se transformar numa universidade de grande porte, não apenas pelas bitolas e modelos brasileiros, mas pelos padrões internacionais. Claro que isto constitui um grande desafio. Para tanto é necessário promover a expansão da UFRN sem sacrificar a qualidade e sem banalizar o espírito da Universidade, procurando ao mesmo tempo servir à população e ao país, como nos ensinava Anísio Teixeira. Tenho certeza que a Magnífica Reitora Ângela Maria Paiva Cruz saberá liderar a nossa Instituição Acadêmica na direção do seu grande destino.
Na luta pela consolidação da UFRN, aprendemos algumas lições. Os bons resultados do Instituto de Física, e do órgão que o sucedeu, o Departamento de Física Teórica e Experimental, não aconteceram por acaso. Foram fruto de um trabalho coletivo que teve continuidade, planejamento e uma correção de rumos permanente, envolvendo o esforço coordenado de um grande número de professores. Além de Juarez Pascoal de Azevedo e de Milton Dantas de Medeiros que estavam presentes desde o primeiro momento, quero registrar o esforço de Remarque Fernandes da Silva, de Luciano Bezerra de Melo, de João Wilkes Rebouças Chagas, de José Wilson de Paiva Macedo, Mário Bravo Barbery, Eudenilson Lins de Albuquerque, Franciscus Jozef Vanhecke, Carlos Alberto dos Santos, Eraldo Costa Ferreira, José Alzamir Pereira da Costa, Artur da Silva Carriço, Nilson Sena de Almeida, Paulo Fulco, Nai Cheng Chao, Joel Câmara de Carvalho Filho, Jackson de Oliveira, Ciclâmio Leite Barreto e de muitos outros.
Uma segunda fase do Departamento de Física ocorreu na época do Ciclo Indiferenciado quando conseguimos recrutar os melhores alunos da Área Tecnológica para o Curso de Física. Ananias Monteiro Mariz, Luciano Rodrigues da Silva e Ezequiel Silva de Souza foram os primeiros desta safra. Nas turmas seguintes surgiram José Renan de Medeiros, Fernando Dantas Nobre, Douglas Soares Galvão, José Ademir Sales de Lima, Francisco Alexandre da Costa, Janilo Santos, João da Mata Costa, entre outros. Infelizmente, apesar de todo o sucesso acadêmico do Ciclo Indiferenciado, ele acabou sendo extinto por decisão dos colegiados.
Uma terceira etapa foi registrada após o funcionamento do PET, do qual fui o tutor durante um período de 18 anos. O PET produziu um grande fluxo de bons estudantes que alimentou não somente a nossa Pós-Graduação em Física, mas Programas de Pós-Graduação semelhantes de outras universidades. Realmente mais de 50 bolsistas que passaram pelo nosso PET lograram obter o título de doutor e hoje integram os quadros de várias universidades e instituições de pesquisa. Somente para citar alguns nomes de ex-bolsistas do PET, quero mencionar Claudionor Gomes Bezerra, atual chefe do DFTE, Carlos Chesman de Araújo Feitosa, Professor Titular da UFRN e Suzana Nóbrega de Medeiros, que ocupou a função de Coordenadora do Curso de Graduação em Física. Outro que se destacou dentre ex-bolsistas do PET foi Deilson de Melo Tavares, cuja Tese de Doutorado em Física foi contemplada com o primeiro lugar na Primeira Edição do Prêmio Petrobras de Tecnologia, na categoria de Exploração de Petróleo. Deilson Tavares, hoje professor da UFRN, tenta dinamizar o Campus de Caicó. Hênio Henrique Aragão do Rego foi outro doutor oriundo do PET que agora está contribuindo fortemente para o desenvolvimento do Estado do Maranhão, tanto pela sua atuação na Secretaria de Ciência e Tecnologia, como pelas suas atividades como professor do Instituto de Educação Ciência e Tecnologia daquele Estado. Além desses, Dory Hélio Aires de Lima Anselmo, Raimundo Silva Júnior e José Dias do Nascimento Júnior também fazem parte da equipe do DFTE. Edemerson Solano Batista de Morais, Amadeu Albino Júnior e Samuel Rodrigues Gomes Júnior são professores do IFRN e acabam de conseguir a aprovação de novo Programa PET voltado para a Física naquela instituição.
Atingimos assim o status de um centro de formação de cientistas. Somos hoje uma fábrica de pesquisadores, um celeiro de bons físicos. Além do Rio Grande do Norte estamos suprindo as necessidade de várias regiões do país: temos ex-alunos nossos em São Paulo, no Rio Grande do Sul, no Paraná, no Amazonas, em Rondônia, na Bahia, na Paraiba, no Piauí, no Ceará, em Pernambuco, no Maranhão, em Brasília, no Rio de Janeiro e até na Austrália.
Muitos dos físicos que iniciaram suas carreiras na UFRN agora são Professores Titulares na UNICAMP, na Universidade de São Paulo, a USP, no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte ou se destacaram em muitas outras instituições. É o caso, por exemplo, de Douglas Soares Galvão, professor titular da UNICAMP e ganhador há alguns anos do Prêmio de Melhor Pesquisador do Estado de São Paulo. Fernando Dantas Nobre, outro exemplo, é Pesquisador Titular do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. José Ademir Sales de Lima por sua vez é Professor Titular do Instituto de Física da USP. Carlos Alberto dos Santos depois de passar pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul atingiu a posição de Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UNILA, Universidade da América Latina. Nilson Sena de Almeida e José Alzamir Pereira da Costa são professores titulares da UERN em Mossoró e no momento estão envolvidos na criação de um novo Curso de Doutorado enquanto Francisco Edcarlos Alves Leite dirige o campus da UFERSA na cidade de Angicos.
Um lema que tenho seguido desde o início é o de procurar me adaptar e me amoldar às necessidades da Universidade ou necessidades da população que possam ser estudadas ou atendidas pela universidade, em lugar de tentar fazer com que a universidade se adapte aos meus conhecimentos e interesses. Várias vezes tive de mudar a área de pesquisa para atender a este princípio.
Concluida a formação em Engenharia Civil transferi-me com armas e bagagens para o Campo da Física, movido pela necessidade de ajudar o desenvolvimento deste setor na UFRN. Inicialmente trabalhei em novas técnicas e métodos modernos para ensino de Física, inclusive com o uso da televisão. Depois fiz um Mestrado realizando pesquisas sobre Partículas Elementares e Altas Energias, usando técnicas de Teoria de Campo, uma área fascinante, na qual atuava a grande maioria dos físicos brasileiros, porém de contribuição muito reduzida ou remota para o desenvolvimento econômico e para o bem estar da população. O interesse da UFRN e preocupações sociais ditaram minha saída desse tipo de pesquisa. Passei então a estudar a Propagação de Ondas de Rádio na Ionosfera. A razão determinante era que a UFRN precisava de alguém com competência nessa área para trabalhar no Rádio Observatório. As transmissões de rádio via satélite representavam naquela ocasião o principal meio de comunicação a longa distância.
Após consolidar o grupo da UFRN neste campo, mudei novamente de área, durante o doutorado nos Estados Unidos, quando percebi as enormes possibilidades para o nosso país que seriam decorrentes da pesquisa em Física da Matéria Condensada e especialmente do estudo dos materiais poliméricos. Para tanto tive de aprender as teorias e métodos da Física Estatística. Contribuí um pouco para a consolidação dessa área de pesquisa no Brasil. Depois mudei novamente de área, passei a estudar a Física do Petróleo, tentando ajudar a UFRN a alcançar uma de suas vocações. Este esforço produziu resultados porque, quando o governo federal criou o CTPETRO, Fundo Setorial do Petróleo, estávamos preparados para tirar proveito total do programa. Paralelamente tenho me dedicado ao estudo dos Sistemas Complexos, antevendo a grande abrangência de suas aplicações que vão desde a Economia e a Linguística, aos fenômenos sociais e até a Física Biomédica.
Realmente este procedimento de mudança permanente não é uma tarefa fácil pois exige um esforço redobrado para recomeçar, pensar sobre novos conceitos e modelos e aprender novas técnicas. A grande vantagem é a de podermos nos antecipar aos problemas e estarmos preparados para as crises que chegam sem aviso prévio. Existe ainda o bonus adicional de que profissionais treinados dessa forma terão mais versatilidade para enfrentar as dificuldades do mundo em processo constante de transformação e de se manterem atualizados com as tecnologias que se renovam praticamente a cada ano. Recentemente descobri que várias universidades americanas já se preocupam com esse novo paradigma. Na USP, o Centro de Altos Estudos dirigido pelo Prof. Sérgio Mascarenhas está exatamente buscando novas idéias e novas direções para que a universidade não perca o bonde da história. Por uma grande coincidência a idéia em pauta neste momento no Centro de Altos Estudos da USP é a dos Sistemas Complexos.
Confesso que sou um homem de muita sorte. A Universidade Federal do Rio Grande do Norte representa para mim um sonho bem vivido, que está se concretizando, que está se tornando realidade. Há ainda um longo caminho a percorrer. Temos de fazer o melhor para assegurar a sua trajetória ascendente. Não podemos desperdiçar a chance única de construirmos uma boa universidade.
Antes de concluir este discurso quero registrar o meu agradecimento à minha família. Grande parte do que consegui fazer devo ao meu pai e à minha mãe. Eles realizaram todos os esforços para que pudesse desfrutar da melhor Educação possível.
Além disso, nestes últimos 46 anos, tive a sorte de ganhar uma parceira que tem me acompanhado até hoje, minha esposa Regina. Dela tenho recebido permanentemente demonstrações de amor, de carinho e de muita paciência. É necessário ter muita paciência para ser mulher de um físico. Ela tem me proporcionado o ambiente de tranquilidade para me concentrar no trabalho e enfrentar situações difíceis, até mesmo quando desafiávamos o inverno frio e prolongado de Boston. Com ela, a caminhada no tempo se transformou numa viagem muito prazerosa e feliz.
Também quero agradecer a meus filhos, Leonardo e Moacir Neto, exemplos de bondade e integridade, dos quais tenho muito orgulho. Tenho certeza que meus netos Daniel e Beatriz seguirão o mesmo caminho.
Sinto-me muito honrado e feliz, repito. Entrando neste grupo seleto de Professores Eméritos da UFRN, estarei ingressando na galeria dos ilustres professores que me precederam, verdadeiros ícones, entre eles Luiz da Câmara Cascudo, Onofre Lopes, Diógenes da Cunha Lima, José Idelfonso Emerenciano, Terezinha de Queiroz Aranha, Múcio Vilar Ribeiro Dantas, Paulo Bittencourt, Max Cunha de Azevedo, José Antomar Ferreira de Souza, Hiran Diogo Fernandes e muitos outros.
Farei tudo o que estiver ao meu alcance para honrar este título!
COLONIZAÇÃO E POVOAMENTO DO APODI (II)- CURRALEIROS VERSUS GENTIO INDÍGENA.



Marcos Pinto.
COLONIZAÇÃO E POVOAMENTO DO APODI (II) CURRALEIROS VERSUS GENTIO INDÍGENA.

Nos primeiros tempos de colonização européia no RN, via Bahia (Região do rio São Francisco) e Pernambuco, a região do Apodi não apresentou efetiva ocupação territorial, tendo em vista a forte resistência indígena e as barreiras naturais que dificultavam o acesso. Foram duas as correntes de povoamento do Apodi: A primeira veio de Pernambuco, passando pela Paraíba, de onde desciam pela antiga "Estrada Real", que demandava para a região jaguaribana. Manoel Nogueira seguiu o trajeto desta primeira corrente. A segunda veio pela região do Assu, onde no ano de 1686 ficou aquartelado o famoso "TERÇO DOS PAULISTAS", comandado pelo octogenário Manuel de Abreu Soares.

No livro de REGISTRO DAS SESMARIAS DO RN, consta a concessão de Carta de Data de Sesmaria concedida em 19 de Fevereiro de 1680 a Manoel Nogueira Ferreira, João Nogueira Ferreira, Antonia de Freitas Nogueira, e seus companheiros/requerentes Domingos Martins Pereira, Capitão Bartolomeu Nabo Correia, Alferes Gonçalo Pires de Gusmão, Capitão Luis Braz Bezerra, Capitão Luiz Antunes de Farias e Manoel Roiz da Costa, cuja concessão doava três léguas de terras à cada requerente, cujas terras englobavam os rios "Piranhas" e "Guaxinim", na região do Assu. Conforme consta no mesmo livro de sesmaria, estes requerentes desistiram de povoarem as terras que lhes foram concedidas, no mesmo ano. Ocorre que, já no dia 19 de Abril de 1680 Manoel Nogueira e estes mesmos companheiros recebem a concessão em Apodi, que os índios denominavam apenas de "Pody". Diante este cenário, resta a indagação: Teria Manoel Nogueira e seus irmãos e demais requerentes estado na região do Assu antes de aportarem em Apodi ? No requerimento dão a entender que sim, conforme afirmam: "...Pela qual razão querem povoar nesse sertão e tem dado combate aos tapuias para lhes mostrar onde há terras desaproveitadas....querem povoar ainda que seja com risco de suas pessoas e fazendas, por serem paragens ermas e despovoadas, donde os antigos nunca se atreveram a povoar...". Observe-se que também era comum o fato de que dois ou três bravos colonizadores exploravam as terras e quando as requeriam acrescentavam nomes de amigos e parentes, para açambarcarem vastas extensões de terras, que deram origem aos latifúndios.

A verdade é que o bravo MANOEL NOGUEIRA e família, acompanhados por alguns escravos tiveram uma vida de correrias e tropelias, no enfrentamento da indiada rebelde. Davam, apanhavam, iam embora, retornavam, sendo certo que só tiveram uma certa tranquilidade quando o famoso "TERÇO DOS PAULISTAS" fez uma longa incursão até a lagoa Pody, no ano de 1689, conforme afirma o celebrado e respeitado historiador brasileiro ERNESTO ENES, no volume 127 da Coleção "Brasiliana": "...Pedro de Albuquerque Câmara, Bernardo Vieira de Melo, Valentim Tavares Cabral e Agostinho César de Andrade tomaram parte na marcha que se fez do Olho d'água aos rios paneminha e panema grande, até a lagoa Pody. No combate da lagoa do Apody estiveram outros soldados como João do Monte" . Vide (pág. 409) e Luiz da Silveira Pimentel (pág. 269).

A saga dos NOGUEIRA teve início em 1680, continuando até o dia 11 de Junho de 1685, quando retornaram à Paraíba em busca de recursos, a fim de darem continuidade aos trabalhos de exploração do novo território. Em 17 de Novembro de 1688 ocorreu o famoso embate entre a família NOGUEIRA e os índios Paiins, na margem da lagoa do "Apanha-Peixe", onde tombaram mortos os bravos João Nogueira e Balthazar Nogueira, forçando o grupo familiar a debandarem em fuga para a região jaguaribana, no Ceará. A indômita ANTONIA DE FREITAS NOGUEIRA, que chegara ao Apodi em estado de viuvez, casou no ano seguinte - 1681, com o português Manuel de Carvalho Tinoco, sendo certo que em um dos livros de registro de batizados constante do acervo da Igreja-Matriz de N. Sra. da Apresentação, da cidade de Natal, consta a presença deste casal residindo nas imediações de Natal, em São Gonçalo do Potengi, onde Antonia de Freitas batizou cinco filhos, no período 1695 a 1706.



Quando o Sargento-Mór de Entradas MANOEL NOGUEIRA faleceu em sua fazenda "Outeiro"(Onde hoje é o "Quadro da Rua") em 17 de Janeiro de 1715, toda a várzea do Apody, do sítio "Boqueirão" aos sítios "Santa Rosa" e "Santa Cruz" já estava de posse e domínio de componentes de sua família - filhos, cunhados e parentes afins. Foram os primeiros curraleiros. Os índios do Apodi, que no início da colonização "fervilhavam como formigas" nas margens da lagoa Itaú (Depois lago Pody, e lagoa Apody) e dos rios Panema Grande (Depois rio Apody) e Paneminha (Depois rio Umary), sempre foram alvos da sanha dos conquistadores e dos aventureiros, que não sossegaram enquanto não eliminaram ou segregaram o último sobrevivente dessa raça nativa.



ÍNDIO TAPUIA PAIACUS(Pintura de Eckhout Ano-1641)



TAPUIA PAIACUS - ÍNDIOS ANTROPÓFAGOS

(Segundo o Historiador Marcos Pinto,

essas pintura poderiam terem sido pintadas pelo grande pintor

holandês Alberto van der Eckhout ao redor da lagoa do Apodi no ano de 1641)

O GENTIO INDÍGENA da região do Apodi era constituído de 05 etnias e uma nação: Tapuias paiacus, Paiins, Icós, Icosinhos, Janduís ou Janduins, e Canindés , da nação Tarairiús, distribuídas em várias tribos e malocas ao longo do território apodiense. O criatório de gado bovino consistiu na primeira atividade econômica do Apodi, tendo sido o principal argumento constante dos requerimentos das famosas "Datas de Sesmarias", quando alegavam que precisavam situar seu rebanho bovino, ou que já se achava com seus currais instalados nas terras requeridas. De um lado os índios eram acossados pelos sesmeiros/curraleiros, exploradores que, muito bem armados, promoviam a guerra para expulsá-los dos seus territórios, e vender os prisioneiros aos fazendeiros e senhores de engenho de Pernambuco e da Bahia. Do outro lado, eram subjugados à ação nefasta dos padres e dos seus colaboradores, que no afã de impor a língua portuguesa e difundir a religião católica, ao tempo em que lhes ofereciam proteção, desestruturavam as bases de sua cultura, tanto do ponto de vista material como espiritual, transmitindo-lhes ensinamentos de obediência a um Deus diferente dos seus - que não permitia a nudez, a poligamia, a selvageria, a antropofagia e outras práticas por eles adotadas - e ao colonizador, que nunca os entendeu e sempre os perseguiu.
.COLONIZAÇÃO E POVOAMENTO DO APODI (I) - O MARCO ZERO.
Marcos Pinto - Historiador apodiense.

Processo histórico lento e gradual da ocupação do adusto solo sertanejo, em que consubstancia-se a trajetória de bravura e pujança da honrada família NOGUEIRA, rasgando os sertões da Paraíba para penetrar o "Vale do Jaguaribe", por onde alcançaram a ignota serra, reduto de ferozes indígenas, seguindo suas veredas para, sob a tutela dos seus facões, alargarem-nas e transformarem-nas em picadas, fato referencial que fez com que passassem a denominá-la em batismo toponímico de "SERRA DA PICADA". No silêncio cheio de sol, ao aproximarem-se das terras que se estiravam das bordas da serra para uma piscosa lagoa, tiveram desse portal uma bela visão panorâmica, sedutora e misteriosa. Do alto da serra, o céu vestia-se de um azul intenso, e mais azul do que ele, os vultos das altaneiras serras do Patu, Portalegre e Martins, perfilando-se em aparados ou talhados. Embriagados de notáveis emoções, divisaram o vasto carnaubal cobrindo de verde as férteis terras de aluvião,que embalavam e ainda embalam nas tardes mornas o farfalhar dos seus leques em misteriosas coreografias. Batizariam com o pomposo referencial toponímico de "Várzeas do Pody", denominação esta que, no ano de 1761, o Juiz Miguel Carlos de Pina Castelo Branco ampliara para "Povoação das Várzeas do Apody". Nesse cenário extasiante sobressaíam-se as contagiantes "vazantes" da lagoa, ampliando o encantamento do elemento branco povoador. Aquí e alí cortava o silêncio o canto característico das seriemas, em seu cacarejo metálico.



Nos primeiros e temerosos contatos com a indiada tapuias paiacus, em que predominavam as recíprocas desconfianças e precauções, os Nogueira devem terem visto e ouvido, curiosos, os silvícolas apontarem para o chão e baterem fortemente nos peitos, a afirmarem em sua linguagem travada, que eram senhores absolutos da terra PODY. Amainados os ânimos da indiada da nação Tarairiús, os NOGUEIRA trataram logo de requerem as primeiras "Datas de Sesmarias", açambarcando, como lhes era de direito, as melhores terras, englobando toda a várzea até as que margeavam a lagoa, estendendo-se até o sopé da serra que eles passaram a denominar, em seus requerimentos de sesmarias, de "SERRA PODY DOS ENCANTOS". Quando as terras requeridas eram distantes, já vizinhas ao Ceará, afirmavam que as terras eram situadas na "SERRA PODY DOS ENCANTOS PARA FORA". Apos todos os ingentes esforços empreendidos na conquista das terras, os bravos NOGUEIRA depararam-se com a insana concorrência dos sesmeiros baianos da família ROCHA PITA, que pleiteavam forçosamente o senhorio das terras requeridas pelos NOGUEIRA, situadas na margem sul da lagoa, onde hoje situa-se o sítio "Garapa", e outros vizinhos, medindo três léguas de comprimento por uma de largura. Não havia como os NOGUEIRA perderem suas concessões sesmeiras, posto que requereram em início do mês de Maio de 1680, e no dia 19 do mesmo mês e ano eram-lhes concedidas pelo então Capitão-Mór do RN. Os ROCHA PITA requereram somente em Junho de 1680.



Na epopéia colonizadora, os indômitos NOGUEIRA protagonizaram incontáveis fatos históricos, num processo evolutivo e audacioso, escrevendo o capítulo especial do povoador inicial, empregando a pólvora e o aço viril, contra o arco e a flecha, tão bem manejadas pelas hábeis mãos da indiada, até então com o senhorio absoluto das plagas de terras ardentes.



Como os tapuias paiacus tinham sua taba principal situada nas terras onde hoje estão encravados os sítios "Barra", "Ponta", "Largo" e "Estreito", a família NOGUEIRA optou por fixarem moradia no outro lado da lagoa, no lugar onde atualmente está encravado o sítio "Garapa", que os NOGUEIRA batizaram inicialmente com o nome de "Braço da lagoa do Cajueiro". Baseado nesta minudência histórica e geográfica, poder-se-á afirmar que este lugar assume a emblemática conotação geográfica de ter sido " O MARCO ZERO DA COLONIZAÇÃO E POVOAMENTO DO APODI".



Estranha-se o fato de que os NOGUEIRA não tenham contado com a ajuda espiritual de um sacerdote para ajudá-los no difícil momento do encontro primeiro com a indiada.



Quanto ao venerando capítulo da CATEQUESE INDÍGENA em terras Apodienses, há um longo hiato de 20 anos (1680-1700), posto que, somente em 10 de Janeiro de 1700 os abnegados e virtuosos padres Jesuítas PHILIPE BOUREL e JOÃO GUINCEL declaram oficialmente instalada a "MISSÃO JESUÍTA DA ALDEIA DO LAGO PODY". (Vide livro "HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS NO BRASIL" - Tomo V - Autor: Padre Serafim Leite).





Por Marcos Pinto - Historiador apodiense.
COLONIZAÇÃO E POVOAMENTO DO APODI (II) CURRALEIROS VERSUS GENTIO INDÍGENA.


Nos primeiros tempos de colonização européia no RN, via Bahia (Região do rio São Francisco) e Pernambuco, a região do Apodi não apresentou efetiva ocupação territorial, tendo em vista a forte resistência indígena e as barreiras naturais que dificultavam o acesso. Foram duas as correntes de povoamento do Apodi: A primeira veio de Pernambuco, passando pela Paraíba, de onde desciam pela antiga "Estrada Real", que demandava para a região jaguaribana. Manoel Nogueira seguiu o trajeto desta primeira corrente. A segunda veio pela região do Assu, onde no ano de 1686 ficou aquartelado o famoso "TERÇO DOS PAULISTAS", comandado pelo octogenário Manuel de Abreu Soares.

No livro de REGISTRO DAS SESMARIAS DO RN, consta a concessão de Carta de Data de Sesmaria concedida em 19 de Fevereiro de 1680 a Manoel Nogueira Ferreira, João Nogueira Ferreira, Antonia de Freitas Nogueira, e seus companheiros/requerentes Domingos Martins Pereira, Capitão Bartolomeu Nabo Correia, Alferes Gonçalo Pires de Gusmão, Capitão Luis Braz Bezerra, Capitão Luiz Antunes de Farias e Manoel Roiz da Costa, cuja concessão doava três léguas de terras à cada requerente, cujas terras englobavam os rios "Piranhas" e "Guaxinim", na região do Assu. Conforme consta no mesmo livro de sesmaria, estes requerentes desistiram de povoarem as terras que lhes foram concedidas, no mesmo ano. Ocorre que, já no dia 19 de Abril de 1680 Manoel Nogueira e estes mesmos companheiros recebem a concessão em Apodi, que os índios denominavam apenas de "Pody". Diante este cenário, resta a indagação: Teria Manoel Nogueira e seus irmãos e demais requerentes estado na região do Assu antes de aportarem em Apodi ? No requerimento dão a entender que sim, conforme afirmam: "...Pela qual razão querem povoar nesse sertão e tem dado combate aos tapuias para lhes mostrar onde há terras desaproveitadas....querem povoar ainda que seja com risco de suas pessoas e fazendas, por serem paragens ermas e despovoadas, donde os antigos nunca se atreveram a povoar...". Observe-se que também era comum o fato de que dois ou três bravos colonizadores exploravam as terras e quando as requeriam acrescentavam nomes de amigos e parentes, para açambarcarem vastas extensões de terras, que deram origem aos latifúndios.

A verdade é que o bravo MANOEL NOGUEIRA e família, acompanhados por alguns escravos tiveram uma vida de correrias e tropelias, no enfrentamento da indiada rebelde. Davam, apanhavam, iam embora, retornavam, sendo certo que só tiveram uma certa tranquilidade quando o famoso "TERÇO DOS PAULISTAS" fez uma longa incursão até a lagoa Pody, no ano de 1689, conforme afirma o celebrado e respeitado historiador brasileiro ERNESTO ENES, no volume 127 da Coleção "Brasiliana": "...Pedro de Albuquerque Câmara, Bernardo Vieira de Melo, Valentim Tavares Cabral e Agostinho César de Andrade tomaram parte na marcha que se fez do Olho d'água aos rios paneminha e panema grande, até a lagoa Pody. No combate da lagoa do Apody estiveram outros soldados como João do Monte" . Vide (pág. 409) e Luiz da Silveira Pimentel (pág. 269).

A saga dos NOGUEIRA teve início em 1680, continuando até o dia 11 de Junho de 1685, quando retornaram à Paraíba em busca de recursos, a fim de darem continuidade aos trabalhos de exploração do novo território. Em 17 de Novembro de 1688 ocorreu o famoso embate entre a família NOGUEIRA e os índios Paiins, na margem da lagoa do "Apanha-Peixe", onde tombaram mortos os bravos João Nogueira e Balthazar Nogueira, forçando o grupo familiar a debandarem em fuga para a região jaguaribana, no Ceará. A indômita ANTONIA DE FREITAS NOGUEIRA, que chegara ao Apodi em estado de viuvez, casou no ano seguinte - 1681, com o português Manuel de Carvalho Tinoco, sendo certo que em um dos livros de registro de batizados constante do acervo da Igreja-Matriz de N. Sra. da Apresentação, da cidade de Natal, consta a presença deste casal residindo nas imediações de Natal, em São Gonçalo do Potengi, onde Antonia de Freitas batizou cinco filhos, no período 1695 a 1706.



Quando o Sargento-Mór de Entradas MANOEL NOGUEIRA faleceu em sua fazenda "Outeiro"(Onde hoje é o "Quadro da Rua") em 17 de Janeiro de 1715, toda a várzea do Apody, do sítio "Boqueirão" aos sítios "Santa Rosa" e "Santa Cruz" já estava de posse e domínio de componentes de sua família - filhos, cunhados e parentes afins. Foram os primeiros curraleiros. Os índios do Apodi, que no início da colonização "fervilhavam como formigas" nas margens da lagoa Itaú (Depois lago Pody, e lagoa Apody) e dos rios Panema Grande (Depois rio Apody) e Paneminha (Depois rio Umary), sempre foram alvos da sanha dos conquistadores e dos aventureiros, que não sossegaram enquanto não eliminaram ou segregaram o último sobrevivente dessa raça nativa.



ÍNDIO TAPUIA PAIACUS(Pintura de Eckhout Ano-1641)



TAPUIA PAIACUS - ÍNDIOS ANTROPÓFAGOS

(Segundo o Historiador Marcos Pinto,

essas pintura poderiam terem sido pintadas pelo grande pintor

holandês Alberto van der Eckhout ao redor da lagoa do Apodi no ano de 1641)

O GENTIO INDÍGENA da região do Apodi era constituído de 05 etnias e uma nação: Tapuias paiacus, Paiins, Icós, Icosinhos, Janduís ou Janduins, e Canindés , da nação Tarairiús, distribuídas em várias tribos e malocas ao longo do território apodiense. O criatório de gado bovino consistiu na primeira atividade econômica do Apodi, tendo sido o principal argumento constante dos requerimentos das famosas "Datas de Sesmarias", quando alegavam que precisavam situar seu rebanho bovino, ou que já se achava com seus currais instalados nas terras requeridas. De um lado os índios eram acossados pelos sesmeiros/curraleiros, exploradores que, muito bem armados, promoviam a guerra para expulsá-los dos seus territórios, e vender os prisioneiros aos fazendeiros e senhores de engenho de Pernambuco e da Bahia. Do outro lado, eram subjugados à ação nefasta dos padres e dos seus colaboradores, que no afã de impor a língua portuguesa e difundir a religião católica, ao tempo em que lhes ofereciam proteção, desestruturavam as bases de sua cultura, tanto do ponto de vista material como espiritual, transmitindo-lhes ensinamentos de obediência a um Deus diferente dos seus - que não permitia a nudez, a poligamia, a selvageria, a antropofagia e outras práticas por eles adotadas - e ao colonizador, que nunca os entendeu e sempre os perseguiu.
Nota: problema técnico impediu a veiculação das fotos do ensaio de Marcos Pinto.
COLONIZAÇÃO E POVOAMENTO DO APODI (I) - O MARCO ZERO.


Processo histórico lento e gradual da ocupação do adusto solo sertanejo, em que consubstancia-se a trajetória de bravura e pujança da honrada família NOGUEIRA, rasgando os sertões da Paraíba para penetrar o "Vale do Jaguaribe", por onde alcançaram a ignota serra, reduto de ferozes indígenas, seguindo suas veredas para, sob a tutela dos seus facões, alargarem-nas e transformarem-nas em picadas, fato referencial que fez com que passassem a denominá-la em batismo toponímico de "SERRA DA PICADA". No silêncio cheio de sol, ao aproximarem-se das terras que se estiravam das bordas da serra para uma piscosa lagoa, tiveram desse portal uma bela visão panorâmica, sedutora e misteriosa. Do alto da serra, o céu vestia-se de um azul intenso, e mais azul do que ele, os vultos das altaneiras serras do Patu, Portalegre e Martins, perfilando-se em aparados ou talhados. Embriagados de notáveis emoções, divisaram o vasto carnaubal cobrindo de verde as férteis terras de aluvião,que embalavam e ainda embalam nas tardes mornas o farfalhar dos seus leques em misteriosas coreografias. Batizariam com o pomposo referencial toponímico de "Várzeas do Pody", denominação esta que, no ano de 1761, o Juiz Miguel Carlos de Pina Castelo Branco ampliara para "Povoação das Várzeas do Apody". Nesse cenário extasiante sobressaíam-se as contagiantes "vazantes" da lagoa, ampliando o encantamento do elemento branco povoador. Aquí e alí cortava o silêncio o canto característico das seriemas, em seu cacarejo metálico.



Nos primeiros e temerosos contatos com a indiada tapuias paiacus, em que predominavam as recíprocas desconfianças e precauções, os Nogueira devem terem visto e ouvido, curiosos, os silvícolas apontarem para o chão e baterem fortemente nos peitos, a afirmarem em sua linguagem travada, que eram senhores absolutos da terra PODY. Amainados os ânimos da indiada da nação Tarairiús, os NOGUEIRA trataram logo de requerem as primeiras "Datas de Sesmarias", açambarcando, como lhes era de direito, as melhores terras, englobando toda a várzea até as que margeavam a lagoa, estendendo-se até o sopé da serra que eles passaram a denominar, em seus requerimentos de sesmarias, de "SERRA PODY DOS ENCANTOS". Quando as terras requeridas eram distantes, já vizinhas ao Ceará, afirmavam que as terras eram situadas na "SERRA PODY DOS ENCANTOS PARA FORA". Apos todos os ingentes esforços empreendidos na conquista das terras, os bravos NOGUEIRA depararam-se com a insana concorrência dos sesmeiros baianos da família ROCHA PITA, que pleiteavam forçosamente o senhorio das terras requeridas pelos NOGUEIRA, situadas na margem sul da lagoa, onde hoje situa-se o sítio "Garapa", e outros vizinhos, medindo três léguas de comprimento por uma de largura. Não havia como os NOGUEIRA perderem suas concessões sesmeiras, posto que requereram em início do mês de Maio de 1680, e no dia 19 do mesmo mês e ano eram-lhes concedidas pelo então Capitão-Mór do RN. Os ROCHA PITA requereram somente em Junho de 1680.



Na epopéia colonizadora, os indômitos NOGUEIRA protagonizaram incontáveis fatos históricos, num processo evolutivo e audacioso, escrevendo o capítulo especial do povoador inicial, empregando a pólvora e o aço viril, contra o arco e a flecha, tão bem manejadas pelas hábeis mãos da indiada, até então com o senhorio absoluto das plagas de terras ardentes.



Como os tapuias paiacus tinham sua taba principal situada nas terras onde hoje estão encravados os sítios "Barra", "Ponta", "Largo" e "Estreito", a família NOGUEIRA optou por fixarem moradia no outro lado da lagoa, no lugar onde atualmente está encravado o sítio "Garapa", que os NOGUEIRA batizaram inicialmente com o nome de "Braço da lagoa do Cajueiro". Baseado nesta minudência histórica e geográfica, poder-se-á afirmar que este lugar assume a emblemática conotação geográfica de ter sido " O MARCO ZERO DA COLONIZAÇÃO E POVOAMENTO DO APODI".



Estranha-se o fato de que os NOGUEIRA não tenham contado com a ajuda espiritual de um sacerdote para ajudá-los no difícil momento do encontro primeiro com a indiada.



Quanto ao venerando capítulo da CATEQUESE INDÍGENA em terras Apodienses, há um longo hiato de 20 anos (1680-1700), posto que, somente em 10 de Janeiro de 1700 os abnegados e virtuosos padres Jesuítas PHILIPE BOUREL e JOÃO GUINCEL declaram oficialmente instalada a "MISSÃO JESUÍTA DA ALDEIA DO LAGO PODY". (Vide livro "HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS NO BRASIL" - Tomo V - Autor: Padre Serafim Leite).





Por Marcos Pinto - Historiador apodiense.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Outro artigo do professor Benayon baixando o pau nos banqueiros europeus.

Bancos apossam-se da Europa

 
Adriano Benayon * - 13.12.2011
A oligarquia financeira está empurrando, goela abaixo da União Européia (UE), um “acordo” que estabelece regras rígidas para que a Europa seja governada (ou desgovernada), de forma absoluta, por bancos, liderados pelo Goldman Sachs, de Nova York.

 
2. Embora as modificações desse acordo aos Tratados da UE dependam de aprovação legal em cada país membro - processo que poderia durar anos - os manipuladores financeiros assumiram o poder na marra e irão em frente, a menos que o impeça a resistência dos povos, ainda sem organização.


3. Com a experiência da pequena Islândia, em duas consultas ao povo, a última em abril de 2011, os predadores perceberam que qualquer outra, em qualquer país, implica a derrota de suas proposições. Bastou o ex-primeiro-ministro da Grécia falar em referendo para ser demitido.

4. Mesmo antes de 09.12.2011 - quando foi encenada “reunião de cúpula”, e Sarkozy (França) e Angela Merkel (Alemanha) anunciaram o tal “acordo” - o Goldman Sachs (GS) já havia posto três de seus prepostos em posições-chave: Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu; Mario Monti, primeiro-ministro da Itália; Lucas Papademos, primeiro-ministro da Grécia, envolvido em operações do Goldman Sachs com a dívida grega resultantes em sua elevação.
5. Os países da Zona Euro (os 17 membros da UE cuja moeda é o euro) serão obrigados a aceitar o “acordo”. Sarkozy e Merkel dizem que os dirigentes dos outros 15 países foram consultados, mera formalidade. Nove outros Estados participam da União Europeia, mas não adotam o euro: Reino Unido e Dinamarca (isentos), e mais sete que poderiam ainda aderir à Zona.
6. Aqueles portavozes apresentaram o pacote envolto neste rótulo: “salvar o euro”; “reforçar e harmonizar” a integração fiscal e orçamentária da Europa. Na realidade, trata-se de destruir a Europa econômica e politicamente, sem garantir a sobrevida do euro, além de aprofundar a depressão, com o arrasamento das políticas de bem-estar social, instituindo uma espécie de “lei de responsabilidade fiscal”, como a que manieta o Brasil.
7. O “acordo” impõe duras sanções aos países que não o cumpram, ademais de ser fiscalizados pelo Tribunal Europeu de Justiça. Os Chefes de Estado e de governo passam a reunir-se mensalmente durante a crise. Com isso, reduz-se o poder dos burocratas da Comissão Europeia, mas essa mudança nada altera, dado que estes também executam fielmente os desejos oligarquia anglo-americana.
8. Sarkozy é cópia piorada de Mussolini, pois este pôs os bancos sob controle do Estado – e não o contrário, como se faz agora com a Europa, EUA etc. Submisso às diretivas da oligarquia financeira, o presidente da França declara que os benefícios sociais não são sustentáveis, na hora em que eles são mais necessários que nunca, dado o desemprego grassante.
9. O pacote quer obrigar, punindo os que não o cumpram, que os países da Zona Euro reduzam seus déficits orçamentários para 0,5% do PIB, ou seja, seis vezes menos que o limite de 3%, prescrito no Tratado de Maastricht.
10. Isso significa que Grécia, Itália, Espanha, Portugal e outros terão de cortar ainda mais despesas, depois de já as terem cortado, fazendo, assim, a depressão aprofundar-se. A depressão já causou queda nas receitas fiscais. Combinada a queda das receitas fiscais com o crescimento do serviço da dívida pública, decorrente da alta das taxas de juros, temos, juntos, dois fatores de elevação do déficit orçamentário.
11. Que fazer? Cortar toda despesa que não as da dívida, desmantelando as políticas sociais e deixando de investir na infra-estrutura econômica e na social. Isso trará, entre outros danos irreparáveis, o aumento da disparidade entre membros mais e menos desenvolvidos, inviabilizando a permanência destes na Zona Euro, o que implica sua desintegração.

 
12. A periferia europeia está, pois, ingressando no Terceiro Mundo, caminho aberto também ao restante da Europa, já que acaba de lhe ser prescrita a receita usual do FMI, a qual ajudou a manter o Brasil e outros no subdesenvolvimento.
13. A dupla franco-alemã infla seus egos brincando de diretório europeu, mas Merkel, obedecendo aos bancos alemães, rejeitou a possibilidade de o Banco Central Europeu (BCE) emitir títulos para substituir os dos países devedores. Os bancos querem continuar emprestando aos governos, para faturar os juros.
14. Essa rejeição deve levar ao fim do euro, se este já não está perto do fim mesmo sem ela. Traz consequências danosas para a própria Alemanha e para a França, pois obriga os devedores mais problemáticos a continuar pagando taxas de juros demasiado elevadas nos seus títulos.

 
15. Isso promove crise ainda maior de suas dívidas, com o que credores - bancos alemães, franceses e norte-americanos - chegarão mais rápido ao colapso. Mostra-se, portanto, quimérica outra pretensão do “acordo”: a de enquadrar os países no limite de 60% do PIB para suas dívidas.

16. Não é para a União Europeia que os países europeus estão perdendo a soberania. É em favor da oligarquia financeira que renunciam formalmente, através de atos irresponsáveis de seus chefes de governo.

17. A perda de soberania não se restringe às regras draconianas citadas, por si sós conducentes à ruína financeira e econômica. Inclui também que os países devedores liquidem – a preço de salvados do incêndio – inalienáveis patrimônios do Estado, como já foi determinado à Grécia e a outros. É a privatização, objeto das mais colossais corrupções vistas na história do Brasil.
18. Os analistas ligados ao sistema de poder atribuem a crise dos países europeus mais pobres a terem estes gastado acima de suas possibilidades, e mesmo economistas mais sérios oferecem explicações para a débâcle europeia que omitem sua causa principal.
19. Essa causa é a depressão econômica mundial, resultante do colapso financeiro armado pela finança oligárquica centrada em Nova York e Londres. Ele eclodiu em 2007, iniciando a depressão que se desenha como a mais profunda e longa da História, se não for interrompida pela terceira guerra mundial, planejada pelo complexo financeiro-militar dos EUA.
20. Martin Feldstein, professor de Harvard, aponta diferenças institucionais e nas políticas monetária e fiscal entre os EUA e a UE. Ele e muitos, como Delfim Neto, atribuem grande importância à taxa de câmbio. Argumentam que os europeus em crise não têm como desvalorizar a moeda para se tornarem mais competitivos, uma vez que adotaram o euro.
21. Robert Solow, prêmio Nobel, salienta que a UE transfere recursos de pequena monta aos membros menos avançados, pois o orçamento unificado da UE equivale a só 1% de seu PIB. Já nos EUA o governo federal fez vultosas transferências de recursos aos Estados e para regiões críticas.
22. Ainda assim, Itália, Espanha, Grécia, Portugal suportaram a situação até surgir a depressão mundial. Tendo exportações de menor conteúdo tecnológico que Alemanha, Holanda, França, e dependendo do turismo, foram duramente atingidos até pela queda da produção e do emprego nos países ditos ricos, inclusive extra-continentais, como EUA e Japão.
23. A depressão, por sua vez, adveio das bandalheiras financeiras geradas a partir de Wall Street e bases off-shore, sem regulamentação, atuantes no esquema da City de Londres, desembocando no colapso financeiro que eclodiu em 2007 e se direciona para novo estágio, mais destrutivo.
24. Os europeus envolveram-se na onda dos derivativos, quando bancos suíços e alemães adquiriram alguns bancos de investimento de Wall Street. Mesmo assim, os bancos dos EUA estão tão ou mais encalacrados que os europeus nos títulos podres resultantes da abusiva criação dos derivativos.
25. Ademais, Grécia, Espanha, Itália e outros foram enrolados pela engenharia financeira de Wall Street, Goldman Sachs à frente, que lesou investidores, camuflando os riscos, além de proporcionar créditos àqueles países, ao mesmo tempo em que fazia hedge, jogando contra seus devedores, com o resultado de elevar os juros das dívidas.
26. O assaltante está tendo por prêmio ficar com a casa do assaltado. Mas, antes da ocupação dos governos pelos bancos, agora ostensiva, as pretensas democracias ocidentais já não tinham autonomia, mesmo com parlamentos eleitos escolhendo o primeiro-ministro.
27. Como os principais partidos políticos são controlados pela oligarquia financeira – na Europa, nos EUA etc. - e se diferenciam apenas por ideologias pró-forma, acomodáveis a qualquer prática, pode-se dizer que a escolha eleitoral se limita à marca do azeite com o qual os eleitores serão fritados.

28. O “acordo” agora imposto à Europa surge como culminação de uma guerra financeira que completa o trabalho realizado nas duas primeiras Guerras Mundiais. Estas destruíram a Alemanha e a França como grandes potências. O império anglo-americano só não conseguira retirar esse “status” da Rússia, mas o logrou, ao final da Guerra Fria (1989), conquanto a Rússia busque agora recuperá-lo.
29. Para que a Europa não afunde, terá de tomar rumo radicalmente diferente daquele em que foi colocada e no qual segue em aceleração impulsionada pelo “acordo” a ser celebrado, a pretexto de salvar a moeda única.
30. O General De Gaulle, nos anos 60, insurgiu-se contra o privilégio dos EUA, de cobrir seus enormes déficits externos, simplesmente emitindo dólares, e exigiu a conversão para o ouro das reservas da França. Profeticamente advertiu que a entrada da Inglaterra na UE seria uma operação “cavalo de Troia”.
31. Hoje o dólar continua sendo sustentado pela condição de divisa internacional, instituída em 1944 (acordos de Bretton Woods), e mais ainda pelo poder militar. Os EUA forçam, por exemplo, que seja liquidado em dólares o petróleo comerciado entre terceiros países.
32. Percebe-se o móvel de desviar para a Europa o foco da crise econômica e financeira, que deveria estar nos EUA e do Reino Unido. Ele foi posto na Eurolândia, através de jogadas dos bancos de Wall Street com suas subsidiárias baseadas no grande paraíso fiscal que é a City de Londres.
33. Os mercados financeiros parecem teatro do absurdo. Se não, como explicar que os títulos de longo prazo norte-americanos paguem juros de menos de 2% aa., enquanto os da Itália, de dois anos de prazo, subiram para 8% aa.? E como explicar que a cotação do risco de crédito da Alemanha e da França esteja sendo rebaixada, enquanto isso não se dá com os títulos norte-americanos?
34. Deveria ser o contrário, pois: 1) as emissões de dólares em moeda e em títulos públicos são muito maiores que as de euros; 2) a dívida pública dos EUA atinge 120% do PIB (muito mais que os países da Zona Euro), e seria muitíssimo maior sem as enormes compras de títulos do Tesouro dos EUA pelo FED e as emissões desbragadas do FED; 3) o déficit orçamentário dos EUA supera 10% do PIB, enquanto a média europeia é 4%. 4) o déficit nas transações com o exterior dos EUA, em 2010, correspondeu a 3,9% do PIB, enquanto a Alemanha teve superávit de 5,7% do PIB, e os déficits da França e da Itália foram 2% e 3% do PIB.
35. Não bastasse, os grandes bancos americanos têm vultosas carteiras de títulos podres (sobre tudo derivativos), mesmo depois de grande parte deles ter sido comprada pelo FED e por agências do governo dos EUA, em operações caracterizadas por grau incrível de corrupção.
36. Como aponta o Prof. Michael Hudson, um quarto dos imóveis nos EUA vale menos que suas hipotecas. Cidades e Estados estão em insolvência, grandes companhias falindo, fundos de pensão com pagamentos atrasados.
37. A economia britânica também cambaleia, mas os títulos governamentais pagam juros de só 2% aa., enquanto os membros da Zona Euro enfrentam juros acima de 7% aa, porque não têm a opção “pública” de criar dinheiro.
38. O artigo 123 do Tratado de Lisboa proíbe o BCE fazer o que os bancos centrais devem fazer: criar dinheiro para financiar déficits do orçamento público e rolar as dívidas do governo. Tampouco o pode o banco central alemão, por força da Constituição da Alemanha (país ocupado).
39. Conclui Hudson: “se o euro quebrar será porque os governos da UE pagam juros aos banqueiros, em vez de se financiar através de seus próprios bancos centrais.” Dois poderes caracterizam o Estado-Nação: criar dinheiro e governar a política fiscal. O primeiro já não existia para os europeus, e o segundo está sendo cassado com o presente “acordo”.

* Adriano Benayon é Doutor em Economia e autor de “Globalização versus Desenvolvimento” - abenayon.df@gmail.com

Nota do blogueiro: Os artigos publicados são de inteira responsabilidade dos seus autores.














sábado, 10 de dezembro de 2011

O presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, Jurandir Navarro, na noite de ontem, 09, empossou vinte novos sócios, que foram saudados pelo folclorista Severino Vicente e o publicitário Marcus César Cavalcanti. Os professores e escritores João Felipe Trindade e Cláudio Galvão lançaram dois livros na ocasião, todos editados pela Editora da UFRN. Espera-se que o professor Jurandir Navarro convoque uma assembléia geral dos sócios para escolha da nova diretoria da "mais antiga instituição de cultura do Rio Grande do Norte". O presidente vitalícia, Enélio de Lima Petrovich, encontra-se internado na Casa de Saúde São Lucas. Foto: gentilmente cedida pelo professor João Felipe Trindade.

A China quer só o filé do Brasil?

Brasília, 10.12.2011



Amigos.



Estive no Rio de Janeiro assistindo palestra do prof. Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES. Veemente como sempre não mede palavras quando o assunto é nacionalismo e desvios da política exportadora brasileira. Realmente o Brasil não abandonou sua política de exportar, por exemplo, matéria-prima, matéria crua etc. o que faz a riqueza de muitas nações mundo afora. Essas reservas da China em torno de US$3.200 trilhões! Essas reservas seriam também brasileiras, dadas de mãos beijadas em nome de certas "mazelas" diplomáticas?! Neste espaço e neste ambiente e progresso democráticos que vivenciamos, seria excelente o nosso Governo tornar bem mais transparente a política exportadora do Brasil, inclusive alguns detalhes mais da política externa brasileira, calada, taciturna, desde 01.01.11. O eleitorado exige. Conceição Tavares estava também presente às palestras no Hotel Novo Mundo, ela mesmo indignada palestrante. Márcio Pochman, jovem competente presidente do IPEA, foi a grande estrela do encontro sobre a crise econômico-financeira mundial. A seguir, palavras do prof. Carlos Lessa. Abs.



Francisco de Assis Cortez-Gomes
> BARBAS DE MOLHO - Colunista Carlos Lessa

> Sou de uma geração treinada em ler nas entrelinhas. Vivi as longas décadas de regimes ditatoriais latino-americanos e aprendi a pesquisar as intenções nos discursos oficiais. O dr. Ulysses Guimarães me ensinou que se deve prestar atenção aos silêncios nos discursos.

> Percebo uma crescente preocupação da presidente Dilma com a China e suas pretensões geopolíticas e geoeconômicas. Na reunião do G-20, a presidente declarou sua preocupação com a ausência de compras chinesas de produtos industriais brasileiros (leia-se, nas entrelinhas, que o Brasil é exportador de alimentos e matérias-primas sem processamento: soja em grão, minério de ferro bruto, couro de vaca sem curtição etc).

> Em passado relativamente recente, exportamos geradores para a grande usina do Rio Amarelo; agora, estamos importando geradores da China.

> Vendemos aviões da Embraer. Bobamente, aceitamos instalar uma filial na China; os chineses clonaram a fábrica da Embraer e, hoje, competem com o avião brasileiro no mercado mundial. Esta semana, a presidência declarou sua preocupação com a tendência chinesa à aquisição de grandes glebas agrícolas no Brasil.

> A percepção presidencial não resolve o problema das relações Brasil-China, porém já é meio caminho andado que o poder executivo nacional tenha aquelas dimensões presentes.

> O enigma chinês é fácil decifrar. O Brasil cresceu, de 1930 a 1980, 7% ao ano. Depois dessas décadas, mergulhamos na mediocridade e patinamos com uma taxa média ridícula de 2,5%. A China, nas últimas décadas, vem crescendo anualmente entre 9% e 10%. Entretanto, está em situação potencialmente pior que o Brasil. Hoje, mais de 80% da população brasileira está em áreas urbanas e 50% em metropolitanas e nem chegamos aos 200 milhões de habitantes. A China tem uma população de 1,34 bilhão, sendo que menos de 50% estão na área urbana. Como a renda média do chinês rural é um terço da do chinês urbano, é inexorável uma transferência equivalente a duas vezes a população brasileira para as cidades chinesas, nos próximos 20 anos. É fácil entender o sonho de urbanização do chinês rural. A periferia urbana das cidades chinesas já está "favelizada".

> Estratégia da China combina aspectos da Inglaterra vitoriana com primazia do Japão científico-tecnológico.

> Sabemos que o Brasil tem uma péssima distribuição de renda e riqueza. Houve uma melhoria da participação dos salários na renda nacional, que evoluiu, desde 2000, de 34% para 39%. A elevação do poder de compra dos salários foi importante, entretanto o leque salarial se tornou mais desigual e houve pouca geração de empregos de boa qualidade. O salário médio brasileiro é muito baixo, entretanto é, por mês, igual ao limite de pobreza chinês ao ano (cerca de €150), isto é, o brasileiro pobre ganha 12 vezes mais que o chinês pobre.

> Nosso governo fala de uma "nova classe média" e esconde que o lucro real dos grandes bancos brasileiros cresceu 11% por ano no período FHC e 14% durante os dois mandatos do presidente Lula. Enquanto os colossais bancos chineses têm uma rentabilidade patrimonial inferior a 10%, os bancos brasileiros chegam a 20%.

> É impensável o futuro demográfico chinês. No passado, cada família só podia ter um filho; agora, essa regra está sendo relaxada. A urbanização e a industrialização chinesas já comprometeram o lençol freático da China do Norte. Com restrições de água, e necessitando transferi-la cada vez mais para a sede da indústria e população urbana, a China não produzirá alimentos suficientes. Se o consumo interno da China crescer cada vez mais, haverá falta não só de água, mas também de energia fóssil e hidráulica, além de, obviamente, todo um elenco de matérias-primas.

> O planejamento estratégico de longo prazo da China é para valer. O projeto geopolítico e a geoeconômico chinês está transformando a África e parte da Ásia do sudeste em fronteira fornecedora de alimentos e matérias-primas. Em busca de autossuficiência de minério de ferro, a China já está desenvolvendo as enormes reservas do Gabão.

> A petroleira chinesa já está nas reservas de petróleo de gás do coração da África e a ocupação econômica de Angola é prioridade diplomática e financeira da China. O extremo sul da América Latina é objeto de desejo expansionista chinês, que se propôs a fazer e operar uma nova ferrovia ligando Buenos Aires a Valparaíso, perfurando um túnel mais baixo na Cordilheira dos Andes. O Chile - com pretensão de se converter na "Singapura" do Pacífico Sul - e os interesses agro-exportadores argentinos adoram a ideia. Carne, soja, trigo, madeira, pescado e cobre estarão na periferia da China do futuro.

> A presidência argentina é relutante em relação a esse projeto, porém o Mercosul está sob o risco de se converter, dinamicamente, em pura retórica.

> O Império do Meio, unificado pela dinastia Han (ainda antes de

> Cristo), atravessou séculos com Estado centralizado e burocracia profissional estruturada. No século XIX, a China balançou pela penetração da Inglaterra vitoriana; enfrentou a perfídia mercantil do ópio controlado pela Índia britânica. Sua república, no século XX, foi ameaçada pela expansão japonesa, e somente após a Segunda Guerra Mundial conseguiu, com o Partido Comunista Chinês (PCC) restaurar a centralidade.

> Com um pragmatismo secularmente desenvolvido, a China combinou o Estado hipercontrolador com a "economia de mercado". "Casou" com os EUA e criou um G-2, aonde mais de 3 mil filiais americanas produzem na China e exportam para o mundo (70% das exportações de produtos industriais são de filiais americanas). O superávit comercial chinês é predominantemente aplicado em títulos do Tesouro. Esse é um sólido matrimônio, em que os cônjuges podem até brigar, mas não renegam a aliança mutuamente conveniente.

> Enquanto isso, a China repete a proposta da Inglaterra vitoriana para a periferia mundial: fonte de matérias-primas e alimentos, a periferia mundial é, progressivamente, endividada com os bancos chineses e seu espaço econômico é ocupado por filiais da China.

> A Revolução Meiji, que modernizou e industrializou o Japão, está em plena marcha na China, que procura ser a campeã mundial em ciência e tecnologia. A estratégia da China combina as chaves do sucesso da Inglaterra vitoriana com a prioridade científico-tecnológica japonesa.

> Que a China faça o que quiser, porém o Brasil não deve se converter na "bola da vez" da periferia chinesa. País tropical, com enormes reservas de terra agriculturável, água e fontes de energia fóssil e hidrelétrica, imagine-se a prioridade estratégica para o planejamento chinês em sua marcha pela periferia.

> O discurso da globalização, a fantasia da "integração competitiva", a ilusão de ser "celeiro do mundo" com brasileiros ainda famintos, e a atrofia da soberania nacional podem vir a ser um discurso de absorção da proposta neocolonizadora da China.

> Leio, nas palavras da presidente, uma percepção do risco do "conto do vigário" chinês. Temo os vendilhões da pátria, entregando energia e alimentos para o neo-sonho imperial.

>

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Aposentados da CAERN fazem festa hoje.

A Associação dos Aposentados da CAERN promovem uma feijoada hoje, a partir das 12 horas, no clube da Potilândia, ao lado do Campus da UFRN. Tradicionalmente, a confraternização consta dehomenagens aos ex-presidentes e ex-diretores da associação, com a entrega de medalhas e lembranças, além de discursos. Lideranças sindicais e políticos sempre participam desses eventos como convidados da Aposcaern, além de diretores e engenheiros ativos da companhia.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Governo Federal vai pagar R$ 600 milhões em gratificações para aposentados

3/Dezembro/2011

O governo federal terá uma despesa extra de pelo menos R$ 600 milhões para ressarcir servidores e aposentados e pensionistas que cobram na Justiça a gratificação dadas a funcionários da ativa. Segundo a Advocacia-Geral da União (AGU), essa fatura envolve 200 mil processos em que o pagamento é considerado líquido e certo.



A conta, já sacramentada por meio da conciliação conduzida pela AGU, preocupa a equipe econômica, que vem alardeando para os riscos do aumento das despesas públicas em meio à crise que assola a Europa e ameaça a estabilidade do mundo, inclusive a do Brasil. No Ministério do Planejamento, estima-se que a fatura total cobrada pelos inativos referentes às gratificações de desempenho — criadas para aumentar os salários e premiar quem produz — pode chegar a R$ 5 bilhões.



“Uma vez que o advogado-geral da União, Luís Inácio Lucena Adams, reconheceu o direito dos inativos em normativos internos, já é certo que o governo abrirá os cofres para atender a esses 200 mil processo, ainda sem data para serem concluídos”, disse um técnico do Planejamento.



José Roberto da Cunha Peixoto, diretor do Departamento de Estudos Jurídicos e Contencioso Eleitoral da PGU, afirmou que, do total de ações, 120 mil dizem respeito à gratificação de desempenho de atividade técnico-administrativa. “São processos tanto individuais quanto coletivos. Em alguns casos, por exemplo, há 2 mil servidores envolvidos. Não é fácil mensurar o total de pessoas beneficiadas”, afirmou o advogado. A demanda é tamanha que, ao longo desta semana, o análise dos pedidos chegou a integrar a Semana Nacional de Conciliação, organizada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).



A corrida à Justiça deve-se à lentidão do Ministério do Planejamento e do Palácio do Planalto, que deixaram esse tipo de benefício sem regulamentação por até 12 anos. A brecha criou uma série de problemas e inundou o Judiciário de processos. Ao todo, entre 1998 e 2008, foram criadas 64 gratificações no Executivo, todas dando direito ao recebimento da eventual diferença. Os trabalhadores que podem receber a parcela estão espalhados por 92 órgãos da administração direta, de fundações e autarquias — são 570 mil ativos e 565 mil aposentados e pensionistas.



Enxurrada

Conforme as leis que instituíram a remuneração variável por produtividade, os aposentados e pensionistas tinham direito a receber entre 30% e 50% do valor da gratificação, enquanto os ativos faziam jus a 80%, pelo menos até a regulamentação. Sem uma decisão, os inativos buscam essa diferença na Justiça. “O erro da União foi não ter feito uma regulamentação mais precisa para que, de fato, apenas quem produzisse mais fosse beneficiado”, criticou o economista Raul Velloso, especialista em contas públicas. Procurado, o Ministério do Planejamento informou que o responsável pelo tema estava em viagem ao exterior.



A enxurrada de demandas começou porque o governo demorou para definir o modelo de avaliação dos funcionários. Somente em março do ano passado, o Executivo publicou decreto com as regras para a avaliação individual dos servidores de 48 gratificações. Antes disso, nove delas tiveram as normas definidas entre 2007 e 2009. Outras oito estão na fila. Os valores variam de R$ 80 a R$ 400 por mês, de acordo com o nível e o padrão do servidor. Todos que se aposentaram nas mesmas funções que hoje têm o diferencial podem recorrer à Justiça. Contudo, só é possível obter as parcelas não repassadas nos cinco anos anteriores ao ajuizamento da ação.



Na avaliação de Marlos Lima, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e diretor da Cenários Prospectivos Consultoria, a concessão dos benefícios aumentará o deficit da previdência do setor público, que já acumula rombos da ordem de R$ 52 bilhões por ano, e causará impacto no resultado fiscal do país. “O governo precisará captar mais recursos, o que pressionará a taxa básica de juros (Selic) para cima. Juros mais altos, menos investimento, menos consumo, menos emprego. Em uma época em que lutamos para escapar dos efeitos da crise internacional, esse não é um cenário promissor”, analisou. (Colaborou Ana d’Angelo)



Ponto pacífico

O direito dos aposentados e pensionistas está pacificado em todas as instâncias. Tanto o Superior Tribunal de Justiça quanto o Supremo Tribunal Federal já reconheceram que eles têm o direito ao valor recebido pelo pessoal da ativa até que, efetivamente, haja a avaliação por desempenho. Em abril de 2010, a Advocacia-Geral da União emitiu súmula no mesmo sentido e orientou sua equipe a não recorrer das sentenças.



Dinheiro à vista

Governo quer encerrar logo processos que pedem diferenças de gratificações por desempenho



Quem está na lista da AGU?

Servidores públicos aposentados ou pensionistas que moveram ações individuais ou coletivas exigindo o recebimento dos valores pagos aos servidores ativos da mesma carreira, a título de gratificação por desempenho, já com ganho de causa pelo menos na primeira instância.



Qual o motivo das demandas?

Desde 1998, o governo federal vem criando gratificação por desempenho que atingem 90% dos servidores ativos. Aos inativos, as medidas provisórias e leis que criaram a remuneração variável estabeleceram o repasse de um índice entre 30% e 50% do pago aos ativos. Os aposentados e pensionistas foram então à Justiça pleitear a totalidade paga aos que estão na atividade.



O que o Judiciário decidiu?

Por falta de regulamentação da avaliação individual dos funcionários que trabalham, o Judiciário estendeu a gratificação integral para os inativos, alegando ser de caráter genérico, portanto, extensível também aos inativos na mesma proporção. Somente em 2009, o governo começou a regulamentar a avaliação dos servidores ativos.