sábado, 31 de março de 2012

Precatórios no TJ/RN: um balcão de negócios.

Política
Edição de sábado, 31 de março de 2012 
Ponteio

Aluisio Lacerda
aluisiolacerda@gmail.com

O Judiciário sangra

Quatro pontos graves nas revelações de Carla Ubarana vão fazer sangrar o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte. O primeiro: os precatórios judiciais foram transformados num balcão de negócios. Nas palavras da principal denunciada: "O que fazíamos era comprar e vender". O segundo: a quebra desavergonhada da ordem cronológica. A precedência já estava no ordenamento constitucional desde 1934. A grande mudança veio com a CF-1988, quando foi fixada a distinção de precatórios pela natureza (alimentar e não alimentar). Em qualquer repartição pública estadual ou municipal eram corriqueiras as queixas sobre a quebra da ordem cronológica. Ninguém acreditava nem o reclamante conseguia provar o malfeito. No ano passado, os precatórios alimentares ainda não adimplidos no Brasil desde 1988 somavam um calote de R$ 13 bilhões. E começaram os pedidos de sequestro pela via judicial. O terceiro ponto grave é o descontrole. Quem recebeu, como recebeu e quanto recebeu. Quem "vendeu" seu rico crédito com deságio de até 72%, acreditava que a fazenda pública somente havia desembolsado aquele valor. Um absurdo sem tamanho. E o quarto fato grave: o TJ/RN também não sabe a quem pertenciam as requisições de pequeno valor ("dinheiro sem dono", segundo Ubarana).

- Sobre as requisições de pequeno valor (RPV), só faltou a ex-chefe do setor de precatórios do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, Carla Ubarana, dizer que aquilo ali era um achado. E que achado não é roubado.

- RPV é um crédito cujo montante, por beneficiário, é igual ou inferior a 60 salários mínimos, se devedora a fazenda federal. Nos Estados, 40 salários ou valor definido em lei. Nos municípios, 30, ou o que a lei fixar.

- Nos últimos dois casos - fazenda pública estadual e municipal - é obrigatória a juntada da publicação do texto legal para efeito de comprovação do valor diferenciado definido em lei. O TJ/RN exigia o procedimento?

- Tudo aquilo que ultrapassar esses limites deve ser requisitado mediante precatório, exceto se o credor renunciar, de forma expressa, ao valor excedente. Era ai que a quadrilha aproveitava a brecha para impor o deságio.

Sobrepreço na br-101


Foto: Dnit/PB/Divulgação/ON/D.A Press
A superintendência regional do Dnit no Rio Grande do Norte tem prazo de 15 dias para reduzir, mediante termo aditivo, preços contratados com o consórcio Constran, Galvão e Construcap para as obras de duplicação da BR-101, Lote 2, e suspenda, imediatamente, o pagamento da diferença a maior constatada pelo Tribunal de Contas da União.

Energia solar

A Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) vai encaminhar sugestão ao Ministério de Minas e Energia para realização de um leilão ainda este ano, consolidando a entrada da energia solar na matriz energética brasileira, que ainda demandará tempo. Atualmente o custo para gerar um MW de energia com tecnologia solar é de 300 reais.

Fiscal ambiental

O quadro funcional ainda é diminuto em função do tamanho da cidade, mas os 35 fiscais ambientais do município já não têm do que reclamar. A Câmara Municipal de Natal aprovou projeto de lei que cria a carreira de fiscalização urbanística e ambiental da Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo. E com todas as vantagens incorporadas.


Cidades
Edição de sábado, 31 de março de 2012 
MP confirma acusação de envolvimento de Osvaldo Cruz e Rafael Godeiro
Em nota, promotores afirmam que os desembargadores foram citados em juízo


A o final dos depoimentos prestados pelos cinco réus da Operação Judas, o Ministério Público emitiu Nota de Esclarecimento em que confirmou que os réus Carla Ubarana e George Leal confessaram sua participação no esquema de desvio dos precatórios e indicaram os desembargadores Osvaldo Soares da Cruz e Rafael Godeiro Sobrinho, ambos ex-presidentes do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, como co-autores dos ilícitos. O MP requereu a remessa das cópias do processo, dos vídeos e dos depoimentos ao presidente do Superior Tribunal de Justiça, ao presidente do Conselho Nacional de Justiça e ao Procurador Geral da República, para providências. No entanto, a ação penal prosseguirá na 7ª Vara Criminal de Natal.

Teor dos depoimentos será enviado para o CNJ, STJ e PRG para providências. Fotos: Fábio Cortez/DN/D.A Press
Além de revelar detalhes do esquema, Carla Ubarana e George Leal assinaram um termo restituindo ao tesouro estadual os seguintes bens e valores: uma propriedade no município de Baía Formosa, avaliada em cerca de R$ milhões, composta por cinco terrenos e três casas; seis veículos automotores (dois MercedesBenz, dois Omegas/GM, um Pajero Full e um selvagem), avaliados em cerca de R$1 milhão; um apartamento na Rua Maria Auxiliadora, Petrópolis, avaliado em cerca de R$700 mil; as quantias em espécie de cerca de R$170 mil, 18.870 euros e 5.050 francos suíços.

Segundo a nota divulgada pelo Ministério Público, o teor dos termos de colaboração ainda não havia sido divulgado para a segurança dos réus. O MP requereu também a revogação da prisão preventiva de Carlos Alberto Fasanaro Júnior e Carlos Eduardo Cabral Palhares, além de ter mantido a prisão domiciliar do casal Ubarana.

Sem declarações

Antes da nota ser divulgada, os advogados de defesa, promotores, e o juiz José Armando Pontes haviam saído do Fórum sem esclarecer o teor das oitivas. O primeiro a sair da sala de audiências foi o advogado de defesa de Claudia Sueli, Heráclito Higor, por volta das 18h50. Ele afirmou que sua cliente continua em liberdade, mas não quis dar detalhes dos depoimentos. "Eu prefiro não falar sobre o teor dos depoimentos, mas tudo correu dentro do esperado", disse. Cerca de dez minutos depois saiu o advogado de Carla e George, Marcos Braga. "Eu não posso me pronunciar, procurem os meios oficiais como a assessoria do TJ ou o Ministério Público", disse aos repórteres.

Carlos Fasanaro e Carlos Palhares saíram do Fórum algemados e foram levados para o presídio. "A gente expede o alvará de soltura, mas quem libera é a autoridade carcerária", disse o juiz. Os dois ficarão em liberdade, mas estão proibidos de sair do estado sem autorização judicial. Carla Ubarana e George Leal saíram do Fórum do mesmo jeito que entraram: calados. Acompanhados do advogado José Maria Bezerra e com escolta de quatro homens do Bope, eles deixaram o fórum por volta das 19h10. "Nós não vamos nos pronunciar, o que podia ser dito já foi dito", disse o advogado.

O juiz José Armando Pontes foi o último a deixar a sala de audiências. "Não posso falar nada por questões legais", afirmou a princípio. Quando questionado se a imprensa teria acesso aos depoimentos, já que o processo não corre sob segredo de justiça, ele afirmou que afirmou que "ainda vai avaliar se o segredo de justiça será decretado ou não".  
Fonte: Diário de Natal.

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Suposto envolvimento repercute

quarta-feira, 28 de março de 2012



A verdade sobre o Forte dos Reis Magos.

Livro de Veríssimo de Melo confirma que Forte não foi obra de padre
Texto de Luiz Gonzaga Cortez.

A presidente da Fundação José Augusto, a assistente social e ex-professora da ESAM, Isaura Amélia Rosado, em entrevista concedida à jornalista Hayssa Pacheco, do Diário de Natal, anunciou hoje a instalação de uma “exposição histórica sobre a Fortaleza dos Reis Magos, quer vai contar a história do Forte”. Muito boa a iniciativa, mas seria melhor, ainda, se a FJA procurar enfocar os autores e documentos que divergem da versão oficial sobre a autoria do projeto de sua construção, atribuído ao padre Gaspar de Sam Peres (ou Gaspar de Samperes?), um sacerdote jesuíta responsável por uma tosca, grosseira e inútil obra na boca da barra do rio Potengi. O que o referido padre fez mesmo foi obrar, pois o que “projetou” não agüentava nem um tiro de espingarda de soca. A Fortaleza dos Reis Magos foi desenhada e construída pelo Francisco de Frias da Mesquita, engenheiro-mor do Brasil, que acompanhou e fiscalizou, pessoalmente, todas as etapas dos serviços. Eu não sou o primeiro a escrever sobre Frias, não. Hoje, 16 de dezembro de 2006, tenho em mãos um exemplar do “Calendário Cultural e Histórico do Rio Grande do Norte”, de Veríssimo de Melo, editado pelo Conselho Estadual de Cultura-RN (Natal, 1976), que, na página 29, registra o seguinte: “6.1.1598 – Inicio da construção da atual Fortaleza dos Reis Magos, obra do engenheiro-mor Francisco Frias de Mesquita, sendo concluída entre 1614 e 1619”. Eis aí um “gancho” para os jornalistas e pesquisadores sobre as fontes que Veríssimo de Melo utilizou para escrever o seu calendário cultural e histórico.


Mas os folcloristas e historiadores do Rio Grande do Norte continuam escrevendo que foi o padre Gaspar quem construiu o forte.
Até hoje não encontrei os motivos para se omitir fontes bibliográficas brasileiras e portuguesas sobre o Forte dos Reis Magos, em Natal, considerado um dos principais pontos turísticos da capital.


Aqui, nos últimos anos, foram publicados vários livros e estudos sobre esse monumento histórico, inclusive “atlas” , mas continuam repetindo as velhas lorotas, de que a atual fortaleza foi projetada pelo padre Gaspar de Samperes.


Mas se acham que foi o Padre Samperes que construiu a fortaleza dos Reis Magos é porque não querem buscar fontes fidedignas e sérias que existem há muitos anos. Vou citar duas fontes, uma escrita e outra da Internet .A primeira é o Volume 9, de 1945, páginas 9 a 84, da Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, edição do antigo Ministério da Educação e Saúde, que publica ensaio sobre “Francisco de Frias da Mesquita, engenheiro-mor do Brasil”, de autoria de D. Clemente Maria da Silva-Nigra. O. S. B. Se o leitor acessar o sítio www.funceb.org.br vai encontrar mais informações a respeito ou ir direto a www.funceb.org.br/revista9/06_Frias-da-Mesquita.pdf. Lá, vocês vão saber que o padre Gaspar de Samperes fez o 1º projeto da Fortaleza dos Reis Magos, mas a atual edificação foi desenhada e executada diretamente por Frias da Mesquita. Na página 23 do ensaio de D. Clemente, quando se refere à fortaleza de Cabedelo, Paraíba, outro projeto de Frias, o autor escreveu o seguinte: “Semelhante à Reis Magos, a fortaleza fora construída com material precário; fabricada de huas (duas) taipas fraquíssimas em area solta, sem modo ou regra algua de fortificação pelo q não podia resistir a qualquer encontro de inimigos”. Em resumo, era uma construção feita de duas paredes de taipa, nas dunas (areia solta), que não tinha nada de fortificação militar. Compare a descrição de “duas taipas” para a magestosa fortificação de hoje, com corpo da guarda, prisões civis, calabouço militar, almoxarifado, depósitos, quartéis, cisternas, subidas para as baterias, prisões subterrâneas, casa do comandante, cozinha, estado-maior, capela e farol. O padre Samperes deixou uma tapera que não agüentaria um tiro de espingarda de soca. Frias da Mesquita deixou uma construção feita com cal, pedra e azeite mais forte, que substituiu o casebre de pau,barroepalha.  
O PhD em arquitetura Augusto C. da Silva Telles, graduado em 1948, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro é o autor do texto sobre os fortes das costas brasileiras projetados, desenhados, justificados (manuscritamente) e executados pelo engenheiro Francisco de Frias da Mesquita. Dr. Telles assegura que o governador D. Diogo de Menezes contratou o arquiteto português para construir o forte Natal, pois “o primeiro projeto foi projetado pelo padre jesuíta Gaspar Samperes, segundo Frei Vicente do Salvador, mas anos depois deteriorou-se”, antes de 1614, e que a edificação de Frias “ainda se conserva no local, próximo da cidade de Natal”. Augusto Telles, na extensa bibliografia, cita Gaspar Barléus, Vitterbo Souza, Silva Nigra, Diogo de Campos Moreno, Francisco Adolfo Varnhagen, Frei Vicente do Salvador e Pedro Calmom, entre outros. Frias da Mesquita construiu os fortes da Laje (Recife), do Mar (Salvador), São Diogo (Salvador), São Mateus (Cabo Frio-RJ), São Felipe, São Francisco e São José(São Luís do Maranhão), Santa Catarina (Cabedelo-PB), além de igrejas e mosteiros noBrasil.


Não acredito que o arquiteto Augusto C. da Silva Telles esteja equivocado.Creio que os folcloristas potiguares estão incorretos sobre a autoria do projeto e que a FJA poderia se aprofundar nas pesquisas pertinentes, examinando as anotações de Francisco de Frias da Mesquita, publicadas no volume 9 da revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, de 1945. Eu tenho um exemplar da revista, apesar de parcialmente danificado, mas são boas as reproduções das anotações de Frias sobre a Fortaleza dos Reis Magos. Você duvida? Ou você quer continuar com a mania estalinista de adulterar e distorcer os fatos históricos?


*Jornalista e pesquisador
Fonte: Google.  Artigo escrito em 2006.
Artigo publicado em jornais de Natal e no blog candelariaeasuarealidade.blogspot.com
Postado por Luiz Gonzaga Cortez às 07:34 http://img1.blogblog.com/img/icon18_email.gif

segunda-feira, 26 de março de 2012


ONDE ESTÃO AS IDÉIAS?


      Públio José – jornalista



                   Tornei-me um político ao longo do ano de 2002 quando coordenei, aqui no estado, a campanha do candidato a presidente Anthony Garotinho. Antes, tinha com a atividade política uma ligação meramente profissional. Como profissional de marketing, tomara parte em várias campanhas eleitorais, elaborando trabalhos para candidatos a prefeito, deputado estadual, federal, senador, governador... Enfim, todos os níveis da disputa eleitoral. Como coordenador da campanha presidencial de Garotinho restringi meu trabalho à área urbana de Natal em virtude da falta de recursos para me deslocar pelo interior. Já em 2004, tendo em vista os excelentes resultados que o trabalho de coordenação em 2002 apresentara, vários companheiros acharam por bem lançar minha candidatura a prefeito de Natal, lamentavelmente destruída por uma aliança que, cheios de esperança, imaginávamos seria benéfica.                    
                    Para alavancar a candidatura fizemos contato direto com o eleitor. Foram centenas de reuniões, encontros de bairros, participação até em atividades festivas, tudo com o objetivo de estabelecer um relacionamento estreito com o eleitor, além de ouvir seus desejos, sonhos, frustrações. Foi um período muito rico. Experiências novas, modificação de conceitos, conhecimento de novas realidades e o estabelecimento de um elo de esperança entre nós e as pessoas que nos recebiam. Porque? Pela valorização do debate de idéias. Nesses encontros, as lideranças de bairros, as donas-de-casa, até mesmo os jovens (injustamente acusados de alienados e desinteressados do processo político) apresentavam idéias, articulavam proposições, se abriam, enfim, para um debate sério, profícuo, inovador. Por esse processo, os problemas locais eram passados a limpo, deixando de existir espaço para o besteirol, para a conversa fiada.
                        Durante o tempo em que esses encontros foram realizados, sempre priorizei o debate de idéias. A conseqüência, extremamente positiva, foi a formatação de um belíssimo programa de governo, por sinal bastante elogiado, e as condições de apresentá-lo, discuti-lo, debatê-lo. Tornei-me, assim, um político desejoso de manter acesa a chama da exposição construtiva de idéias, com o objetivo de enriquecer a discussão, de ocupar espaços nas mentes e nos corações das lideranças com propostas que apontassem soluções para as dores coletivas do povo. Entretanto, as dificuldades são inumeráveis para o político que quer se manter nesse diapasão, pois a quase totalidade das lideranças não está disposta a trilhar esse caminho. E o que se vê, com raras exceções, é tão somente a partidarização da atividade política, com o noticiário e as agendas entupidas com especulações as mais variadas possíveis.
                               Tudo gira em torno do novo partido de fulano, da nova filiação de beltrano, da candidatura de fulano a isso ou àquilo, quem vai trair quem, quem vai largar quem no meio do caminho, quem vai ser passado para trás. O político celebrado passa a ser, então, o que sabe enrolar mais, dissimular mais, trair mais. Sabido, matreiro, experiente não é aquele que levanta e defende uma bandeira, uma causa. Sabido e matreiro é aquele que sabe indicar o maior número de afilhados para cargos comissionados, é aquele que vence o adversário com estocadas próximas da marginalidade, que pratica a maior taxa de fisiologismo, que tem um discurso cujo conteúdo ninguém sabe qual é. Que, enfim, não se compromete com nada, muito antes pelo contrário. Ideologia não existe mais, virou palavra fora de moda. Eu, contudo, não penso assim. E por pensar assim, continuarei a luta pela exposição das minhas idéias.

sábado, 24 de março de 2012

sexta-feira, 23 de março de 2012


Memorial do Guerrilheiro Glênio Sá – Cidadão Natalense - VI


--- Walter Medeiros
Glênio Sá era o dirigente maior do Partido no Rio Grande do Norte, e considerado um dos membros do partido mais preparados em todo o Brasil. Este fato era também do conhecimento de lideranças dos partidos convencionais, que demonstravam por ele um grande respeito e admiração. O ingresso de novos militantes, vindos do Movimento Estudantil e de movimentos sociais em bairros, fazia o crescimento da organização, ao ponto de decidirem alugar uma ampla sala que serviria de sede, em um prédio situado nas proximidades da casa de Glênio. Ali passaram a promover reuniões com o fim de preparar melhor as atividades.
Em meio às articulações políticas que fazia, o PC do B sentia a necessidade de ocupar espaços nas eleições. Foi assim que em 1984 resolveu participar da campanha apoiando a candidatura do então deputado Garibaldi Filho (PMDB) para prefeito da Capital. Era a primeira eleição direta para prefeito desde o início da ditadura. Até então, os prefeitos das capitais eram nomeados pelos governadores dos estados. O partido participou da campanha, devido a uma aproximação promovida por amigos, que tinham relacionamento profissional com a família do candidato. Garibaldi foi eleito.
Na campanha seguinte, o Partido decidiu lançar Glênio como candidato a Deputado Estadual, pelo PMDB. Era a seqüência de atividades que haviam-se iniciado com a realização de um considerável ato público no dia 11 de abril de 1985, no Teatro do bairro, pela Comissão pela legalidade do PC do B. O slogan divulgado na ocasião era: “O direito à liberdade não se mendiga, se conquista”. Em campanha ele sofreu um acidente de automóvel que o deixou imobilizado por várias semanas e sem mais condições de disputa naquele pleito.
Até 1985, aquelas atividades partidárias eram consideradas clandestinas. O envolvimento com as atividades socialistas faziam Glênio visado e prejudicavam qualquer tentativa de exercer atividade profissional regular, embora tenha tido por alguns meses um emprego na empresa de informática Sistema. Ele foi, entre 1984 e 1990, candidato sucessivamente a vereador, deputado estadual e senador, representando frentes de esquerda, o que somou experiências para o Partido obter mais adiante bons resultados eleitorais.
Em julho de 1990, uma notícia da televisão chocou a todos. Um acidente de automóvel tirou a vida de Glênio e do seu companheiro de viagem Alírio Guerra. Eles passavam pelo município de Jaçanã, quando o carro em que viajavam foi colidido de frente por outro que trafegava em sentido contrário cheio de pessoas embriagadas. A movimentação foi imensa, desde a chegada da notícia, o velório e o enterro, ao som da música “Canção da América”. E a imprensa destacou os dois, dando-lhes o título de “Caminhantes dos Sonhos”.
Na despedida os familiares e amigos destacavam que ficava a lembrança inapagável da sua presença física, que transmitia tanto amor, confiança, certeza, força, lealdade, dignidade, simplicidade, justiça, ânimo e pureza. Além de alistá-los entre os “imprescindíveis”.
Glênio morreu sem receber as reparações devidas pelo Estado, que fez da sua vida um período de desassossego e mazelas. Por causa das torturas sofridas nos cárceres da ditadura militar, vivia sobressaltado e demonstrava impaciência e incômodo, resultado do período em que teve de ficar confinado em ambientes impróprios para a permanência de qualquer ser humano.
Nesta sexta-feira, 23 de março de 2012, Glênio Sá recebe – in memorian – o honroso Título de Cidadão Natalense. Na sua simplicidade gigante, imagino seu discreto sorriso, ao tomar conhecimento da honraria a ele destinada por esta cidade, onde viveu tão intensamente sua vida, ceifada ainda na mocidade dos seus 40 anos. E diria mais uma vez frase que ressoou anos seguidos em seus lábios, nos dias, noites e madrugadas de militância: “Um por todos, todos por um!”.
*Jornalista

sexta-feira, 23 de março de 2012

Tribuna do Norte.

ARTIGO.

 

Homenagem e solidariedade

Publicação: 21 de Março de 2012 às 00:00

Ticiano Duarte - jornalista

Sábado passado, dia 17, estava em Recife quando recebi a notícia pelo telefone. Do outro lado da linha era Fernando Paiva anunciando a morte de Ernani Silveira. Estava impossibilitado de comparecer às últimas homenagens ao velho amigo, companheiro de trabalho na prefeitura de Natal, sob o comando de Djalma Maranhão, onde o conheci mais de perto e depois na maçonaria, como venerável da Loja "Bartolomeu Fagundes" e Grão-Mestre do Grande Oriente Independente do Estado do Rio Grande do Norte (GOIERN).

À frente da Prefeitura de Natal, no tumultuado processo de posse, como vice-prefeito, após a prisão e deposição do prefeito Agnelo Alves, deu prova cabal de sua honorabilidade, de correção, de conduta inatacável como gestor, no que diz respeito aos negócios da administração pública. Como desportista toda cidade aplaudiu a aplaude sua ação e sua obra de dirigente do ABC e porque não dizer em favor das nossas Federações, de futebol, de profissionais e de atletas amadores.

Ernani Silveira ex-seminarista, músico, maestro do coral da igreja Bom Jesus das Dores, nasceu em Macau, na cidade que o poeta Gilberto Avelino dizia que adormecia sob o vento leste, sua "angra solitária" que "Entre ferrugens e sombras descansa âncoras, e navegam/Fantasmas de barcos cinzentos". Ele, sobrinho do santo monsenhor Honório, era marcado pelo mesmo sentimento do poeta, que a cidade conhecera ainda menino: Volto/Ao meu chão de sal./Sempre volto/Ele o agasalha/Sara/encanta/embala/E nutre-me/com a mesma seiva/do leite materno".

Há um episódio na maçonaria em que ele é personagem, que registro, para exaltar sua lealdade e dignidade. Um ex-dirigente da sua Potência Maçônica, num momento de fraqueza ou de ambição pessoal, deixara a casa paterna, por assim dizer, e se fora para outras bandas levando algumas Lojas num gesto inopinado, com o objetivo de enfraquecer o GOIERN, instituição que ele (Ernani) ocupava a vice-presidência, como Grão-Mestre Adjunto. Sua reação foi de indignação e lealdade. Imediatamente assumiu o comando da Potência e deu rumo e caminho ao Grande Oriente Independente do Estado do Rio Grande do Norte, hoje incontestavelmente, vivendo sua fase áurea, de trabalho, de respeitabilidade, no cenário nacional, com três dos seus filiados alçados à Presidência da Confederação Maçônica do Brasil (COMAB).

Ele sempre buscou unir os homens, como na lição de João Evangelista, que está também no lema da bandeira de nossa COMAB: Ut Omnes Sint! - Que todos sejam um só! O amor fraternal, que segundo o apóstolo Paulo, supera a Fé e a Esperança, juntando-se às duas, com as quais se formam às três virtudes principais.

Antônio do Carmo Ferreira, meu querido Grão-Mestre de Pernambuco, em pronunciamento recente enfatizou que "Não há passagem sequer nos ensinamentos da Maçonaria que não seja de exaltação ao amor". E cita uma declaração de Frei Caneca, em sua X Carta a Damão, que assinava como Pítia... "Os estatutos maçônicos são extratos dos Evangelhos". E o Grão-Mestre pernambucano conclui: "E que são os Evangelhos, senão uma história de Amor, não a uma porção, mas a toda a humanidade?".

Nesta hora quero prestar minha solidariedade ao amigo Onofre Junior, que agiu em legítima defesa e de sua mulher Sílvia, ameaçados pela arma do bandido posta em suas cabeças. Não faz muito que meus netinhos passaram por maus momentos, no calçadão da praia dos Artistas, numa tarde de sol. Os bandidos de armas em punho ameaçavam atirar se não entregassem os seus pertences. Um deles gritava para o outro: "Atira! Atira de todo o jeito... Atira...

O braço de Deus evitou uma tragédia. Os marginais continuam agindo impunemente. Onofre Junior é um médico que salvou muitas vidas, professor da nossa Faculdade de Medicina. Um homem correto e íntegro que orgulha sua geração e seus amigos.

quinta-feira, 22 de março de 2012

quarta-feira, 21 de março de 2012


Memorial do Guerrilheiro Glênio Sá – Cidadão Natalense – IV

--- Walter Medeiros*
A têmpera revolucionária de Glênio fazia-o buscar incessantemente a reimplantação do Partido na região, através dos contatos possíveis. Noites, madrugadas e dias afora ele tentava reconstituir os documentos, entre eles os Estatutos, ao mesmo tempo em que procurava participar dos raros eventos democráticos que eram programados. Corajosamente, fundou, juntamente com outros militantes políticos, no início de 1980, no bairro de Igapó, uma Sociedade de Defesa dos Direitos Humanos - SDDH.
A SDDH foi a forma encontrada para aglutinar as pessoas e organizar as reivindicações populares, que eram muitas. Mesmo localizada em Igapó, a entidade tinha um trabalho abrangente e seus representantes tornavam-se propagadores das idéias libertárias que tomavam corpo a cada dia. Além do que se tratava de uma associação criada e registrada dentro de todas as exigências da legislação civil.
Tratava-se de uma entidade democrática e comprometida com a luta dos setores populares, que reunia um grupo considerável de pessoas e discutia os assuntos políticos do momento. A primeira grande luta da sociedade foi contra a poluição provocada por uma fábrica de diatomita – Diafil - que afetava os moradores do bairro. Manifestações, atos e ações de protesto contavam com a participação de operários, donas de casa, clubes de mães e de jovens, estudantes e profissionais liberais.
Daquele movimento surgiu a necessidade de reproduzir documentos, algo proibitivo à época; as gráficas eram ambientes muito visados pela repressão. Optaram, então, por fazer um jornalzinho mimeografado, num mimeógrafo a álcool que adquiriram disfarçadamente na Loja Sosic e que era capaz de fazer 50 cópias, em tinta azul, datilografando folhas de stêncil.
Havia uma movimentação revolucionária, onde as exigências por democracia aumentavam e o povo clamava por uma Constituinte que substituísse o autoritarismo da Emenda Constitucional Nº 1, chamada de Constituição de 1967. Era conseqüência da experiência dos anti-candidatos Ulisses Guimarães e Barbosa Lima Sobrinho, para Presidente e Vice-Presidente da República e outros momentos de luta nos meios partidários e estudantis, uma vez que os sindicatos quase não participavam de atividades que entrassem em confronto com a ditadura.
Algum contato feito pelos partidos clandestinos eram avaliados muito cuidadosamente, pois podiam tratar-se de ciladas da repressão. Tempo em que até as informações tinham que ser decoradas e não anotadas, para não deixar pistas. Um dos amigos comentava sobre a dificuldade que teve para transmitir uma mensagem a um dos seus camaradas, um endereço em Paris, que decorou completamente. E o camarada que recebeu a informação também decorou. Ninguém podia se arriscar.
Depois de retomado o contato com o Partido, periodicamente recebiam a visita de membros do Comitê Central, que traziam documentos e informações, além de realizar reuniões completas para atualizar a todos. Eram antigos camaradas, que traziam grandes experiências da luta revolucionária e novos militantes, que estavam exercendo funções importantes na política nacional ou regional. As reuniões eram sempre um período de total tensão. O aparelho tinha que ser mantido na mais perfeita camuflagem e o sigilo sobre a presença do representante nacional era total. Nada podia ser revelado nem mesmo aos familiares que não estivessem envolvidos com o Partido, pois tratava-se de questão de vida ou morte.
*Jornalista
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O legado de Manxa.

O legado de Manxa
Sem grandes alardes, um dos mais importantes escultores e entalhadores do Rio Grande do Norte morreu na noite desta segunda-feira (19), em Currais Novos. Discreto e genial, Ziltamir "Manxa" Soares deixa legado artístico imortalizado por obras grandiosas como o painel no prédio da Reitoria da UFRN e os entalhes na agência centro do Banco do Brasil em Natal. Aos 63 anos, Manxa estava internado havia cerca de uma semana por causa de problemas renais e faleceu devido ao agravamento de seu estado de saúde. O corpo do escultor foi sepultado ontem (20) em São Vicente, distante 190km da capital potiguar, município onde nasceu e morava com a esposa. [Saiba mais sobre Manxa, nessa matéria da Tribuna do Norte]
- Outro painel muito famoso de Manxa foi o do Edifício Rio-Mar, condomínio residencial localizado na Avenida Deodoro da Fonseca, na ladeira da então Rádio Poti de Natal.


quarta-feira, 21 de março de 2012

Memorial do Guerrilheiro Glênio Sá – Cidadão Natalense – III

--- Walter Medeiros*
Sempre que falava sobre sua vida de lutas, Glênio Sá não podia evitar que transparecesse forte emoção, pois era como que reviver cada momento dramático da sua vida. Numa das nossas conversas dos anos 80, ele relatou que em 1970 partiu para São Paulo e depois se engajou no então clandestino Partido Comunista do Brasil – PC do B, indo atuar no sul do Estado do Pará. Participou da Guerrilha do Araguaia, onde foi recebido por João Amazonas e dedicou-se ao trabalho no campo. Num momento de infortúnio, ele buscava tratamento para malária, mas foi delatado e findou preso pelo Exército, que ocupava vastas áreas da região. Passou, então, um novo período de prisão, no qual esteve em vários quartéis.
“Fui torturado e submetido a diversos outros atos desumanos, entre eles a permanência em cela solitária, na qual sequer podia ficar em pé”, revelava. Os companheiros ouviam aquela surpreendente narrativa sem pestanejar e cheios de curiosidade pelas informações. Até porque nenhuma notícia sobre a Guerrilha do Araguaia havia chegado a público pela imprensa brasileira; tinham conhecimento apenas de um registro numa nota do jornal “O Estado de S. Paulo” sobre um movimento no Sul do Pará. Qualquer informação a respeito do assunto era censurada. Glênio situava no tempo cada momento, e contou como sua família tomou conhecimento do seu estado, já que pensava que ele estava estudando em São Paulo, mesmo com a ausência de notícias. Jamais imaginava o que havia ocorrido e estava ocorrendo.
Em 16 de junho de 1973 uma jovem chamada Dalvina, residente no interior de Goiás, escreveu uma carta dirigida à Farmácia Minan, para a sua Família, no município potiguar de Caraúbas. A carta era datada de 16/06/73. Dizia mais ou menos assim: “O motivo desta é comunicar-lhe que seu filho se encontra preso no setor dos militares no Pique (PIC) em Brasília. Querendo maiores informações, procure-me. Estou comunicando ao senhor pelo fato de meu pai estar preso junto a ele. Então ele pediu-nos que escrevesse avisando a vocês. Se vocês receberem esta carta responda-me. Seu filho Glênio pede que vocês compareçam em breve”. Ela pedia que acusassem o recebimento, porque naquela época ninguém tinha certeza de que a correspondência chegava.
Glênio contava que algumas providências foram adotadas pela família, que conseguiu localizá-lo em seu cárcere, e com quem manteve correspondência enquanto tomava as medidas jurídicas cabíveis. A localização do preso se deu graças a um pedido do Senador Dinarte Mariz. Daquela correspondência Glênio lembrava bem uma carta da sua mãe, Dona Mimosa, enviada de Fortaleza, em 24.08.74, a qual foi censurada. E prometeu mostrar depois o documento, com o carimbo da censura. Vivenciadas todas estas atribulações, em 10 de setembro de 1974 Glênio voltou para Fortaleza depois de identificado pela advogada Eva Ribeiro Monteiro, que conduzia documento lacônico registrando sua prisão:
“MINISTÉRIO DO EXÉRCITO - COMANDO DO I EXÉRCITO – CHEFIA DE POLÍCIA - DECLARAÇÃO - Declaro que o portador da presente, GLÊNIO FERNANDES DE SÁ, esteve à disposição do I Exército, achando-se atualmente liberado, podendo deslocar-se para FORTALEZA, sua cidade natal. Rio, GB, 05 de Setembro de 1974 (a.) MILTON BARBOSA DOS SANTOS – Ten Cel - CHEFE DE POLÍCIA DO I EXÉRCITO”.
Glênio voltou ao convívio da família em setembro de 1974, mudando-se em seguida para Natal, onde prestou vestibular e começou a cursar Geologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN. Retomou contato com o movimento estudantil, onde foi dirigente do Centro Acadêmico de Ciências Exatas, e liderou a reestruturação do Partido Comunista do Brasil. Era uma pessoa extremamente disciplinada  e organizada, com a agenda sempre preenchida por eventos, estudos e outros afazeres. Acima de tudo, entretanto, era clara a dedicação 24 horas de cada dia à militância pólítica.
*Jornalista
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Memorial do Guerrilheiro Glênio Sá – Cidadão Natalense - II

--- Walter Medeiros*
Uma das fortes lembranças que guardo de Glênio Sá é de uma semana que passamos com as famílias em Pititinga e, na beira da praia, passos lentos, ele disse que uma barreira roxa do caminho trazia-lhe de volta uma lembrança muito emocionante da juventude. E começou a cantar uma música de Gilberto Gil que marcou seu tempo de secundarista em Fortaleza. - "O dinheiro que eu lhe dei, p'ro tamborim..." - Você não conhece essa música? – perguntou-me. - Conheço. Um sambinha gostoso. Mas nunca ouvi a letra. - É assim... Tentou rememorar, mas não conseguiu completamente.
Outra forte lembrança vem de uma noite de 1976, na qual, por acaso, conheci o amigo, futuro cunhado da minha mulher e vizinho. Foi no Braseiro, um bar da orla marítima de Natal, um dos pontos preferidos pelos estudantes universitários para conversar sobre política, mesmo cientes de que eram sempre observados por policiais disfarçados. Naquela noite, como que num desabafo incontido, o ex-guerrilheiro contou parte da sua história a três companheiros. Desde as lutas como secundarista, em Fortaleza, até a vida clandestina no Norte, a peregrinação pelas prisões e a libertação. Ele trabalhava pela implantação do Partido, cujos documentos reconstituía através de citações ouvidas nas transmissões da Rádio Tirana, da Albânia ou de algum registro em jornais alternativos.
Minha chegada à Universidade se deu em 1974. Fazia o curso de Direito, que dividia um bloco com o Curso de Serviço Social. Aos poucos os alunos reestruturavam suas entidades dentro do que permitia o Decreto 477, uma norma que proibia estudante de se manifestar e fazer política partidária. O campus era coalhado de policiais disfarçados nas salas de aula e corredores. Qualquer assunto político, para eles, comprometia a segurança nacional e era motivo para o estudante ser chamado a depor na Assessoria de Segurança e Informação - ASI.
Era, porém intrínseco o sentimento de revolta pela falta de liberdade de expressão no país, onde havia também uma Lei de Segurança Nacional que proibia a imprensa de divulgar informações que não passassem pela censura. Alguns jornais tentavam levar uma mensagem democrática, mas eram perseguidos e empastelados freqüentemente. Os estudantes sentiam prazer, apesar do medo, em ajudar jornais chamados de alternativos, como o Movimento, Em Tempo e EX, que noticiavam fatos não divulgados pelos jornais convencionais.
Reunidos num aparelho que funcionava no quarto dos fundos de uma casa, Glênio, eu e Graça sintonizávamos a Rádio Tirana, da Albânia. Em meio à audição, o guerrilheiro lembrou dos tempos em que não sabia ainda qual seria seu destino. E começou, emocionado, a falar sobre suas lembranças. Recordou que em maio de 1969 era estudante e foi preso no Crato, porque estava tentando junto aos meus colegas rearticular a União de Estudantes. A prisão foi divulgada no Correio do Ceará, quando ele foi recambiado para Fortaleza. O jornal dizia que ele tentava fazer uma rearticulação subversiva. Dizia também que tinha participado de uma reunião secreta, na qual fizera severas críticas ao regime e ao mesmo tempo conclamara a participação de uma representação da região caririense em uma reunião grande que seria realizada em Fortaleza, em fins daquele mês.
A primeira prisão tinha sido tão marcante, que ele lembrava mais detalhes da notícia, a qual chamava a sua participação de manobras. A notícia dizia ainda que ele tinha distribuído boletins considerados subversivos pelas autoridades. Ele esteve preso na Delegacia Especial daquela cidade, do Crato – relembrava. Lembrava também que somente no outro dia prestou depoimento, sendo ouvido oficialmente pela Polícia Federal. Eles achavam que o seu depoimento poderia determinar a efetivação de novas prisões, inclusive dos demais que participaram do encontro secreto. Glênio ficou recolhido a um dos xadrezes da Polícia Militar, em Fortaleza, e no dia seguinte saiu outra notícia no jornal. Desde 1968 ele participava ativamente do movimento estudantil secundarista. Foi preso outra vez, depois de liberado, em 1969.
*Jornalista

terça-feira, 20 de março de 2012

Os tigres de papel.


COMBATENDO TIGRES DE PAPEL



Públio José – jornalista


                            O ser humano tem a tendência natural de ampliar em demasia seus problemas, suas preocupações. Apesar de sermos dotados de uma capacidade extraordinária de criar soluções, temos o hábito de enxergar nossos conflitos numa dimensão muito superior à dimensão real em que devem ser focalizados. Exemplo? A mulher diante de uma barata. Se um extraterrestre chegasse numa casa qualquer e visse primeiramente a mulher, seu porte, sua graça, sua valentia (muitas dão ordem até nos maridos) e depois tivesse contato com uma barata (sim, aquele bicho fedorento, desprezível, horroroso), em quem apostaria? Na mulher, não é verdade? E o que vemos, seja em Natal, Patu, Nova Iorque ou Honolulu? Mulheres intelectualmente bem dotadas, mulheres empresárias, mulheres atletas, médicas, professoras, aboletadas em cadeiras, com medo de uma diminuta barata. Há exceções, é claro.....
                                 Diante dos conflitos que a vida nos oferece tendemos naturalmente a criar tigres de papel. Fatos, episódios, pessoas, tudo nós superestimamos em detrimento da real dimensão que de fato esses elementos devem ter. Basta você assistir a uma partida de futebol da seleção brasileira. Galvão Bueno vai logo comentando “esse camisa 10 da Inglaterra é muito perigoso”. Termina o jogo, o Brasil vence e fica demonstrado que o que parecia ser não era. É claro que, de vez em quando, ocorre uma zebra. Mas a realidade é que os tigres de papel estão sempre à nossa frente. O vestibular, o teste para o emprego, a concorrência da vida em geral, os conflitos... Nossos adversários assumem proporções enormes diante de nós, enquanto a nossa capacidade de luta, de encontrar soluções permanece muitas vezes embutida num lugarzinho escondido do nosso cérebro.
                                  Na vida o combate é uma constante. O nascer é um ato de combate entre a perspectiva de vida e a realidade da morte. Sair do aconchego do ventre materno para o enfrentamento da pedreira da vida configura-se um desafio e tanto. Enfim, para onde você se volta, a necessidade do combater estará sempre adiante, logo ali. O aprender, o se relacionar, o se mover, tudo se constitui em uma operação constante a ser desafiada e vencida – diariamente. Mas, além dessas dificuldades naturais, queremos aqui ressaltar mais, nos fixar mais na figura do tigre de papel. Aquela dificuldade, aquele adversário que nós fazemos bem maior do que realmente são. Hoje em dia, com as vaidades e os egos atingindo proporções avantajadas, com o individualismo e o egoísmo se fazendo a cada dia mais forte na vida das pessoas, os tigres de papel pululam em todo lugar.
                                   São pessoas que, movidas por sentimentos e instintos altamente centrados em si mesmo, levam a vida sem considerar o espaço e os direitos do próximo. Pensam que são espertas, inteligentes, sabidas, competentes. Na verdade, são pobres tigres de papel, desprovidas do conteúdo interior que transforma fracos em fortes, pequenos em grandes, derrotados em vencedores. Hitler, por exemplo, é um digno representante desse rebanho. Enquanto teve um forte exército à sua disposição vociferava feito leão para seus inimigos. Desprovido da espada, quedou-se feito gelo ao sol, entregando-se à morte através de um ato covarde de suicídio. Pilatos diante de Jesus, tendo o poderio romano à mão, bradou ao Mestre “fala que eu posso te salvar”. Dos dois, sabe-se que Jesus ressuscitou, enquanto Pilatos não suportou atrelar aos seus dias o peso da morte de um justo. Suicidou-se também meses depois.
                                   Está na hora de você começar a identificar e combater com destemor os tigres de papel que a vida coloca à sua frente. Na África, conta-se que a gazela está na mata fechada onde o leão não pode lhe devorar. Aí o leão ruge, a gazela se assusta e, inocentemente, vai para o descampado – onde é caçada facilmente pelo leão. Tem muita gente agindo como a gazela, se assustando a toa, perdendo a capacidade de raciocinar, de analisar as condições reais da luta, a força do adversário, a dimensão da dificuldade e desistindo de lutar. Ou lutando sem a convicção necessária para a conquista da vitória. Lembro-me agora de Davi diante de Golias. Preferiu escolher sua própria arma, ao invés de ir na conversa do gigante. Uma simples pedra entre os olhos pôs fim à vida de um tigre que rugia como tigre, mas que na verdade era recoberto de papel. Aliás, você já sabe onde encontrar a sua pedrinha?         




Lembrando Glênio Sá - I

Memorial do Guerrilheiro Glênio Sá - Cidadão Natalense

--- Walter Medeiros*
Último dia do ano de 1999. Uma jovem repórter percorre os arredores da Torre de TV de Brasília. Olhar atento, ela observa cada pessoa, dos turistas aos hippyes, principalmente olhando para os seus braços esquerdos e mãos direitas. Procurava alguém que tivesse um cordão amarrado no braço esquerdo e uma Bíblia na mão direita. Aproximava-se da meia-noite. Em menos de uma hora chegaria o ano 2000, que tanto trabalho deu para entenderem tratar-se do último ano do Século XX e não o início do novo século. Ela procurava não dar na vista, mas olhava para todos que encontrava, preocupada em não deixar de enxergar ninguém. Se aquela pessoa que procurava estivesse no local ela não poderia deixar de localizá-la.
O frio era grande, mas ela era acostumada com aquelas temperaturas do cerrado e sempre saía de casa com o agasalho certo; não teria nenhum problema. Não tinha perigo de deixar de ver a pessoa que procurava, se ela estivesse no local, pois ela conhecia cada canto da torre. Estava acostumada a fazer reportagens e visitas ao local, às vezes até para almoçar no seu restaurante. Ou mesmo para levar amigos de outros estados a fazerem compras na tradicional feirinha do local. Havia uma ansiedade muito grande, pois o encontro com aquela pessoa poderia ser emocionante. Ela queria saber aonde e como teria sido a vida da outra pessoa nos últimos 26 anos.
A ansiedade aumentava na medida em que aproximava-se da meia-noite. Seria a passagem do ano e início do reveillon de Brasília. Através de um pequeno televisor a pilha, ela vira de relance festejos da chegada do ano em outras partes do mundo. Na solidão de sua missão jornalística, via a beleza dos fogos de artifício iluminando o céu da sua amada cidade. Correu do seu rosto uma lágrima. Era a emoção da chegada do ano 2000, a frustração por não ter encontrado a pessoa que esperava e o calor anônimo das pessoas que a cumprimentavam e desejavam “Feliz Ano Novo!” e “Feliz Ano 2000!”. Não encontrou o homem do cordão no braço e a Bíblia na mão. Mesmo assim aproveitou aquele ambiente que viu e juntou dados para uma matéria, na qual contaria o que tinha ido fazer na Torre de TV naquela hora e revelaria para seus leitores tudo que sabia a respeito do homem que fora esperar. 
A imprensa nacional atentou para o encontro marcado por Glênio Sá, ex-guerrilheiro do Araguaia, com um ex-companheiro de cela. Eles combinaram que passariam o réveillon juntos na Torre de TV de Brasília. Um jornal da cidade registrou a história em grande reportagem com a chamada: “Torre de TV: local em que dois ex-presos do regime militar marcaram um encontro 25 anos atrás para comemorar a liberdade”. Glênio sobreviveu ao regime militar, sem dedurar ninguém, mas não pôde contar ao amigo sobre a nova etapa da sua vida, quando reestruturou o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em Natal, casou-se, teve um casal de filhos, acreditava na revolução. Não conseguiu encontrar o amigo para falar de coisas boas. Seus contatos resumiram-se ao período da prisão, havia tantos anos.
Enquanto Glênio estava preso por motivos políticos, o outro fora parar no Pelotão de Investigações Criminais (PIC), no Setor Militar Urbano acusado de desviar armas do Exército. Era um recruta, preso num cela vizinha. Ninguém sabia o seu nome. Constava que era paranaense e fazia contato com o vizinho de cela, apavorado com os gritos vindos das sessões de tortura. A Torre de TV era a única vista externa que os dois tinham a partir da prisão. Eles subiam numa pia para contemplá-la, enquanto sonhavam com a liberdade.
A forma de se identificarem depois de tantos anos seria usar um cordão amarrado no braço esquerdo e conduzir uma Bíblia na mão direita. Mesmo Glênio tendo vivido fora de atividades religiosas, demonstrava grande respeito pelas Igrejas e o uso da Bíblia no encontro não seria totalmente despropositado, pois o seu amigo era evangélico.  Todos estavam atentos no dia. Mas Glênio não poderia estar lá. Seu amigo também não foi ao encontro. Talvez jamais saibamos porquê. A jornalista lançou um olhar no infinito, para onde mandava em pensamento suas homenagens a Glênio e dava por encerrada a busca pelo encontro que o tempo e a vida desfizeram.
*Jornalista.