Reportagem publicada no extinto semanário DOIS PONTOS, de Natal, nos anos oitenta do século passado pelo jornalista Luiz Gonzaga Cortez numa série de matéria intitulada
"O Movimento Estudantil do RN antes e durante
a Ditadura Militar "(XII)
ESCOLA
TÉCNICA: Três alunos expulsos antes do AI-5.
As
escolas industriais foram criadas em 1909, no Rio Grande do Sul, pelo fundador
do instituto Perobé, dr. João Luderitz, e se espalharam pelo resto do país com
o objetivo de formar operários especializados para a nascente industria
brasileira. O instituto Parobé foi transformado em escola industrial e, em
1912, o presidente Nilo Peçanha criou a escola de Natal, hoje denominada Escola
Técnica Federal do Rio Grande do Norte.(ETFRN). (1)
A
Escola Industrial de Natal, denominação que perdurou até 1967, ano em que foi
transferida para o moderno prédio da avenida Salgado Filho, Lagoa Seca, era uma
instituição que tinha um corpo docente composto por ex-alunos da própria
escola. A maioria dos seus alunos era constituída por jovens da classe pobre ou
da média baixa. Praticamente não existia filho de rico ou remediado. Quase 100%
eram proletários que queriam adquirir uma formação profissional, ingressar no
mercado de trabalho, arranjar uma namorada, casar e ser um bom pai de família.
Após
concluir o curso de marcenaria, mecânica, eletricidade e alfaiataria, entre
outros, a maioria dos formandos ia para São Paulo ou Rio de Janeiro, afim de
trabalhar e fixar residência. Muitos foram e ficaram. Outros voltaram, alguns
ainda estão em Natal para contar muitas histórias da Escola Industrial de
Natal, que funcionava no velho prédio da avenida Rio Branco, Centro, onde hoje
está instalada a Televisão Universitária da UFRN, comissão permanente do
vestibular e Associação dos Funcionários da UFRN (FURN), Cooperativa Artesanal
de Litoral (COPALA) e Associação dos Docentes da Escola Superior de Guerra.
CONCLUSÃO
DAS OBRAS – A Escola Industrial funcionou no grande e espaçoso prédio de dois
pavimentos (frente para a Rio Branco, fundos para a rua Professor Zuza) até o
final do ano letivo de 1986. antes de ser relocalizada em Lagoa Seca, a direção
da escola, através de Jeremias Pinheiro, Pedro Pinheiro de Souza e Pedro
Martins de Lima, além do veterano presidente do Conselho de Representantes da EIN, Luís Carlos Abbot Galvão (o conselho era um colegiado integrado
por representantes da direção da escola, da indústria e do comércio. Luís
Carlos era representante dos industriais, digo, dos padeiros) para
conseguirem a conclusão das obras do atual prédio. A participação de Luís
Carlos nessa luta foi importante, pois empenhou-se para concluir
a nova escola, cujas obras tinham sido iniciadas em 1949 e paralisadas durante
quase dez anos.Resultado: muitos ex-garçons e empregados da boate Hyppie Drive-In foram "remanejados" para a Escola Técnica Federal do RN, hoje aposentados.Eram tempos da ditadura militar
As
atividades estudantis eram lideradas pelo “Centro Lítero e Recreativo Nilo
Peçanha”, cujas diretorias sempre foram eleitas pelo voto direto e secreto. O
grêmio tinha uma verba para a sua manutenção e custeio de suas atividades
“lítero e recreativas”. A ditadura militar imposta em abril de 1964 proibiu
atividades políticas nas representações estudantis. Por isso, o C.L.R.N.P. ,
sigla como ficou conhecido pelos alunos da Escola Industrial de Natal,
realizava mais festinhas, pique-niques e bailes de São João do que conferências
e reuniões de conscientização política.
CONTRA
A DITADURA – A primeira manifestação política que eu vi na EIN foi no primeiro
de abril de 1964, quando os militares conservadores começavam o assalto ao
poder da Repúblilca. Tinha 14 anos e assisti o aliciamento de estudantada, nos
corredores da escola, para uma manifestação de protesto, fora da escola, contra
o golpe militar, lembro-me que um dos que mais se destacaram foi o aluno Marcos
Pedroza, filho da professora Carmem Pedroza. Diante dos apelos de professoras e
professores para que os alunos se retirassem da manifestação interna, Marcos
acabou falando sozinho e a convocação gorou. Para fazer Marcos Pedroza desistir
do seu intento a professora Expedita, de
francês, convenceu-o sob avisos “tenha juízo, menino, você pode ser preso”. A
professora Expedita era casada com um oficial do Exército e deveria saber dos
propósitos dos militares.
Depois
do golpe militar, os alunos notaram a ausência de vários colegas, funcionários
e professores. Um dos professores mais queridos na escola era João Faustino
Ferreira Neto, que ensinava matemática com uma didática agradável, as aulas de
João Faustino eram assistidas por todos
os alunos com atenção e respeito, João
ficou ausente durante quase dois meses e o seu horário era preenchido por um
irmão marista. Mais tarde, esse irmão marista foi substituído por um professor
de religião, desconhecido de todos: Inácio Sena. Tempos depois o professor João
Faustino retornou às atividades didáticas e passou, também, a ser orientador
educacional, tendo sido, nesse período, o primeiro professor a dar aulas sobre
educação sexual na Escola Industrial de Natal.
JORNAIS
INTERNOS – em 1964/65, criei um jornal mural, “evolução”, confecionado com folhas de papel ofício coladas em
cartolina. Mas o jornal foi muitas vezes rasgado e riscado pelos alunos mais
radicais que colocavam um “R” gigante no início do título do jornal que, pelas
suas posições conservadoras e neo-integralistas, ficou queimado e sem condições
de “circular”. Mudamos o nome para “Mensageiro Industrial” e adotamos uma
posição imparcial diante dos assuntos políticos da época. Colaboraram nos dois
jornais, Luiz G Cortez, Rubens de Azevedo Maia, Lourival Cavalcanti, Lino,
Wellington Corsino e Gilson Oliveira entre outros.
Alguns
companheiro sugeriram que eu me candidatasse a presidente do C.L.N.P. , idéia
que aceitei levar avante após uma conversa com o inspetor Adilson de Castro Miranda,
altamente popular e benquisto no meio da estudantada. Adilson era funcionário e
conhecido pelos seu discursos retóricos que fazia em todas as solenidades
cívicas da escola. Tinha sido militante da juventude Estudantil Católica,
ex-presidente do C.L.R.N.P. e era o responsável pela disciplina interna, isto
é, lidava, diariamente, com mais de seiscentos alunos. Era pau pra toda obra.
Mexia com tudo, conversava, advertia e orientava os alunos. Com o seu apoio, no
início de 1966, fui eleito presidente do Centro com larga maioria de votos
sobre o meu opositor, cujo nome não me recordo.
SEM
ADILSON, DERROTA – Por uma desses ironias da história, dirigi o grêmio com
certa liberdade e desagradei a Adilson e a direção da escola. Cometi erros. Por
exemplo: editei um jornal cujo nome era “Manda Braasa”, influenciado por uma
música de Roberto Carlos, que estava no auge. Depois corrigimos o erro e
editamos o “Mensageiro Industrial”, com oito páginas, impresso na gráfica
Graflex, na Tribuna do Norte. O então orientador educacional, professor João
Faustino, tentou evitar, através do diálogo e da persuassão, que eu mandasse
imprimir o “Manda Braasa”, pois o título não pegava bem para a entidade e os
alunos da EIN.
Mas
antes de romper com Adilson de Castro Miranda, a diretoria do Centro realizou
diversas promoções: concursos literários (poesia e contos) conferências,
festinhas e piqueniques, além dos dois jornais impressos nas gráficas Manimbú e
Graflex. A única vez que o escritor e historiador Luis da Câmara Cascudo esteve
na EIN, foi a convite da diretoria do Centro. Cascudo falou sobre cultura
popular e a formação do povo brasileiro. Foi um sucesso. Os alunos nunca tinham
visto Luis da Câmara Cascudo.
Nos
primeiros meses de 1967 houve eleição para o Centro e fui fragorosamente
derrotado por Ednaldo Pimentel, que contou com o apoio direto de Adilson. Antes
de deixar a presidência do Centro, conseguimos financiar a primeira edição do
livreto de Adilson, “Só morrem as causas pelas quais não se morre...”. o
lançamento do livro ocorreu em agosto de 1966, no refeitório da escola, com
discursos do autor, do ex-professor
Evaristo de Souza Lima e do funcionário José Hipólito de Santana, ambos já
falecidos. A edição do livro custou cem cruzeiros e foi paga pela tesouraria do
C.L.R.N.P. Em 25 de dezembro de 1981, Adilson imprimiu a segunda edição do seu
livro.
A
JUVENTUDE CATÓLICA – Perdido o comando do Centro, ingressamos num pequeno grupo que seria o embrião da
Juventude Estudantil Católica (JEC) na escola. O grupo era coordenado por José
Albino de Oliveira e dele faziam parte Rubens de A. Maia, Lino, Jurandir
Bezerra de Oliveira e um rapaz carrancudo cujo nome naum me recordo. Lembro-me
que ele se formou em medicina. O grupo de jovens católicos reuniu-se várias
vezes e participou de reuniões na granja Emaús, ao lado da BR 101, com o padre
Antônio Soares Costa, coordenador da JEC. As reuniões na granja contaram com a
participação de dezenas de estudantes, entre os quais José Albino de Oliveira,
José Bezerra Marinho e Albimar Furtado.
Mas
as reuniões do grupo da Escola Industrial de Natal foram se tornando
preocupantes para a direção e o conselho de Representantes. O grupo promoveu
conferências e atividades políticas contrárias ao pensamento do grupo dirigente
da escola. Por isso, um dia de setembro de 1967, eu, Jurandir B. de Oliveira e
outro aluno, fomos surpreendidos pelo convite da direção da escola para
comparecermos à sala do presidente do
CR, Luís Carlos A. Galvão, um cidadão temido pelo alunado por causa da sua
carranca e um tremendo óculos escuro. Luis Carlos foi curto e grosso: não
permitiria subversão dentro da escola e que nós só tínhamos uma opção:
renunciar a qualquer atividade política ou a exclusão do quadro do corpo
discente.
Todos julgaram-se inocentes de qualquer ação
subversiva. Ao nosso lado, estava o professor Pedro Martins de Lima, calado. No
final da “conversa”, Luis Carlos disse, taxativo: “Eu não quero subversão aqui
e vocês estão expusos!”. E assim, três concluintes do ginasial foram impedidos
de continuar estudando na Escola Industrial de Natal. Os três perderam o ano
letivo de 1967 por causa da decisão totalitária de Luis Carlos Abbot Galvão,
muito antes do AI-5, sob o olhar complacente do diretor Pedro Martins de Lima,
que nada podia fazer (Ou não quis interceder, mas ficar calado. Anos depois, num encontro casual na rua Vigário Bartolomeu, provocado para falar sobre o episódio, Pedro Martins disse, sorrindo: "Luiz, Luiz, ainda não é tempo".
DOM
EUGÊNIO IMPLANTOU O ECUMENISMO NA EIN
Altamiro
Galvão de Paiva foi da Juventude Estudantil Católica, apesar de ser
protestante, na antiga Escola Industrial de Natal, hoje Escola Técnica Federal
do RN, foi vice-presidente do Centro Lítero Recreativo Nilo Peçanha, em 1961,
ano de intensa agitação social e política no Brasil. Para chegar a ser eleito
vice-presidente do Centro, Altamiro teve que fazer intensa propaganda e diversas
gestões políticas, pois os seus adversários diziam que ele era protestante e,
por isso, os alunos da escola não teriam mais páscoa.
“Consegui
levar o bispo Dom Eugênio Sales para celebrar uma missa na escola e as dúvidas
desapareceram. Depois da missa, Dom
Eugênio Sales disse que o ecumenismo estava implantado dentro da Escola
Industrial”, disse Altamiro Galvão de Paiva, coronel da Polícia Militar do Rio
Grande do Norte. Ele derrotou a chapa encabeçada por Francisco Gomes, católico,
e apoiada pela ala esquerda dos estudantes. O presidente eleito foi Antonio
Quirino.
Altamiro
recorda que a participação de Jô Resende, atual vice-prefeito do Rio de
Janeiro, foi intensa na Escola Industrial de Natal, pois se tratava de um rapaz
com forte liderança na escola e nos
meios estudantis da cidade, haja vista que ele era militante da
Juventude Estudantil Católica, coordenada em Natal pelo então padre Antonio
Soares Costa, hoje bispo-auxiliar.
“Eu
não era militante de esquerda, mas um estudante protestante, com atuação no
Centro da Escola Industrial de Natal e amigo de Jô Resende, com quem fui, em
1961, a um congresso da União Nacional dos Estudantes Técnicos Industriais
(UNET), em Fortaleza-CE. Durante o congresso, distribuiu-se, fartamente,
panfletos de elogios a revolução cubana, com fotos de Fidel Castro. Quando vi
aquela agitação e distribuição de fotos de Fidel, retirei-me do recinto do
congresso, pois tive uma espécie de premonição de que aquilo iria dar em confusão. Pouco tempo depois, o Exército
ocupou as dependências do congresso e prendeu dezenas de estudantes. Escapei
por pouco”, disse Altamiro Galvão.
Ele
lamenta a extinção da Escola Industrial nos moldes em que funcionou até 1967. Durante décadas, as
escolas industriais do país funcionaram em regime de tempo integral, pois os
alunos recebiam café da manhã, almoço e lanches reforçados, ale de livros,
batas e fardamento. Os cursos eram: marcenaria, mecânica, eletricidade,
alfabetização, artesanato em cerâmica e artes em couro. (continua na próxima
edição)
Em
tempo: A professora Expedita Medeiros não é casada com militar do Exército. Seu
marido, desde os 18 anos, é Argentino Jacó de Medeiros, civil. (1) - A atual denominação é Instituto Federal de Educação e Ciência Tecnológica-IFRN.
Nota: Hoje, 10.5.2012, recordo que Adilson de Castro Miranda, no encontro de ex-alunos da EIN/CEFET/RN, sentado numa cadeira de rodas, disse que Luiz Carlos disse que eu era comunista e que "esse mal tinha ser cortado pela raiz, antes que a subversão tomasse conta da escola". Fato presenciado pelo ex-aluno Francisco de Assis Barros, o guia de Adilson e outros estudantes não identificados no Clube da Petrobrás, em setembro de 2009. Luiz Carlos era dinartista radical, dono de padaria e o meu pai, aluizista.
Grupo de ex-alunos da Escola Industrial de Natal, no encontro de 2010. Fred Galvão é o 1º da esuqerda, Sr. Laércio, ex-aluno, ex-inspetor de alunos e funcionário aposentado e artesão e produtor de garrafadas em Natal, uma memória viva da escola. (84) 3208.1606. Não cito os nomes dos demais ex-alunos porque perdi as anotações.