sexta-feira, 10 de maio de 2013


Durante as décadas e 20 e 30 (séc. XX), a Ribeira era o bairro dos ricos de Natal. O Café Magestic reunia o melhor da sociedade natalense da época e era uma marca registrada do bairro.
Em dado momento o proprietário, preocupado com o crescente número de “fiados”, compartilhou sua preocupação com um amigo, também frequentador do Café - poeta, boêmio, dono de um senso de humor apurado - o qual sugeriu ao amigo que afixasse um cartaz no estabelecimento, que ele teria o maior prazer em redigir o texto.
Sugestão aceita. No dia seguinte lia-se em letras garrafais, logo no salão principal do tradicionalíssimo Café Magestic, esta peça rara da literatura brasileira:
Pra que não haja transtorno
Aqui no meu barracão
Só vendo fiado a corno
Fela da puta e ladrão
Fonte: “A Natal que Eu Vi”, de Lauro Pinto.
PS – Conta-se que o número de “fiados” foi quase a zero.
Para você entender que não era fácil fugir do FIADO, diz Evaldo que SEU PAI FALIU POR SUA CAUSA.
Estou recuperando e colando aqui material que produzi para o GeoCities, no início dos anos 2000.
© 2002 C.A. dos Santos
Texto revisado em novembro/2002
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Em cada esquina um poeta, em cada beco um jornal. Assim é Natal, boêmia e cheia de bares, com poetas e escritores a dar com pau. Fui buscar na literatura referências a antigos bares natalenses. Garimpei o material relacionado abaixo.
Apesar de tantos bares e botecos, apenas a Confeitaria Delícia teve a primazia de ser imortalizada numa obra exclusiva. Trata-se do magnífico livro de José Alexandre Garcia,Acontecências e tipos da Confeitaria Delícia, ao qual dedico página exclusiva.
A vida boêmia ocupa boa parte da obra de Diógenes da Cunha Lima (Natal. Biografia de uma cidade), mas ele pouco menciona os nomes dos bares. Quando fala de Albimar Marinho, é um bar atrás do outro. Quando fala de Berilo Wanderley, menciona o bar do Nemésio, mas não diz como se chamava. Não seria Granada Bar?. Alguém aí pode me confirmar?
Diógenes também fala do Bar da Tripa, e conta uma história muito engraçada envolvendo Zé Areia, barbeiro, boêmio, humorista nato, improvisador, satírico e epigramista. Era assim que Diógenes via Zé Areia. A propósito, José Alexandre Garcia fala bastante de Zé Areia, principalmente das suas estripulias na Confeitaria Delícia.
Vingt-un Rosado, com a sua insuperável visão editorial, publicou um pequeno trecho do diário de viagem do americano John dos Passos, quando este visitou o Rio Grande do Norte, lá pelos idos de 1962. Quando descreve sua chegada em Natal, ele diz: Descemos no hotel no centro da cidade. Consegue-se no bar um gim tônico [sic] pouco convidativo, mas não há sanduíches. Algumas pessoas de aspecto desanimador transpiram na entrada do hotel. Não almoçamos. São três da tarde e estamos famintos. Mas só conseguimos para comer algumas fatias de queijo seco. Sem pão. Pela descrição, suponho que John dos Passos esteja se referindo ao Grande Hotel, que era, à época, o melhor hotel de Natal, mas estava localizado na ribeira, e não no centro da cidade.
Boêmio por natureza, Augusto Severo Neto (ASN) refere-se a vários bares no seu agradabilíssimo Ontem vestido de menino. Situado na Tavares de Lyra, o Cova de Onça era um bar parecido com os aristocráticos bares portugueses do Rossio. Durante os anos vinte, trinta e quarenta servia cafezinhos, vermute, cinzano, quinado Constatinno, conhaque Macieira, tudo isso acompanhado de azeitonas e queijo do reino. Entre petiscos, aperitivos e muita conversa política, ficou o dito popular: conversa fiada foi o que fechou o Cova da Onça.
O Café Magestic, ficava em frente ao Royal Cinema, bem ali na esquina da Ulisses Caldas com a Vigário Bartolomeu. Quando ASN o conheceu já dava ares de decadência: Semi-pardieiro de água-e-meia, teto metade forrado com tábua de forro de pinho-de-Riga, metade de telha vã, com muita teia, caibros redondos, viga e tesouras descobertas. Deve ter tido melhor vida, senão não teria o lugar que tem no nosso imaginário. Quem conta sua história detalhadamente é João Amorim Guimarães em Natal do meu tempo. João Amorim nos informa que no local do Magestic existia, no início do século XX, o Café Potiguarânia.
Augusto Severo Neto também escreve sobre o bar do Hotel Internacional, o Wonder Bar, o OK Bar e o Zepelim, dos quais me ocuparei na próxima atualização desta página.
Falando sobre Os americanos em Natal, Lenine Pinto refere-se ao Café O Grande Ponto, no centro da cidade, e ao bar do Grande Hotel, na Ribeira, aquele mesmo que deve sido visitado por John dos Passos.
O Café São Luís, de tantas histórias, é mencionado por Jeanne Fonseca quando descreve o Grande Ponto.
Em O menino e seu pai caçador, Berilo Wanderley faz um comovente obituário do Bar e Confeitaria Cisne e uma elegia em prosa para o Restaurante Pérola e para o Bar do Nasi, ambos no famoso Beco da Lama.

Veja também

Bibliografia

  1. GARCIA, J.A. Acontecências e tipos da Confeitaria Delícia Natal: Clima, 1987.
  2. GUIMARÃES, J.A. Natal do meu tempo. Natal: Fundação Hélio Galvão, 1999.
  3. LEIROS, J. Relembranças. Natal: Nossa Editora, 1985.
  4. LIMA, D.C. Natal. Biografia de uma cidade. Rio de Janeiro: Lidador, 1999.
  5. NESI, J.F.L. Caminhos de Natal. Natal: Gráfica Diplomata, 2002.
  6. PINTO, L. Os americanos em Natal. Natal: Sebo Vermelho, 2000.
  7. ROSADO, V. John dos Passos no Rio Grande do Norte. Natal: Gráfica Diplomata, 2002.
  8. SEVERO NETO, A. Ontem vestido de menino. Natal: Nossa Editora, 1985.
  9. WANDERLEY, B. O menino e seu pai caçador. Natal: Clima, 1980.

Bares e Restaurantes no topo da minha memória

Bar Dia e NoiteA PalhoçaSorveteria OásisCarne de Sol do LiraCarne de Sol do MarinhoO Casarão
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Confeitaria Delícia

Estou recuperando e colando aqui material que produzi para o GeoCities, no início dos anos 2000.
© 2002 C.A. dos Santos
Texto revisado em dezembro/2002
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O texto aqui apresentado é inspirado no extraordinário livro de José Alexandre Garcia, Acontecências e tipos da Confeitaria Delícia (Clima, 1987). Como convém a um material na web, este será apresentado em sucessivas atualizações.
Em 1942, o chileno Jacob Lamas e seu cunhado italiano, Amadeu Grandi fundaram a Confeitaria. O potencial econômico ficou logo evidente, mas a administração do empreendimento era um problema para o representante comercial Jacob e para o alfaiate Amadeu. Estava claro que a confeitaria não podia ocupar o lugar dos ofícios primários dos proprietários. Resolveram vender, enquanto estava no auge.
Sinval Duarte Pereira, filho de Ismael Pereira adquiriu o estabelecimento e convidou o português Olívio Domingues da Silva para gerenciar a Confeitaria. Para Olívio a atividade comercial era inata. O freguês entrava para comprar uma caixinha de fósforo e saía com uma caixa de vinho. Logo a Confeitaria ganhou um reservado para funcionamento de um bar.
Em 1948, Olívio adquiriu o estabelecimento por Cento e vinte mil cruzeiros, uma fortuna! A transação foi acompanhada de fatos cheios de ternura e confiança na honestidade de Olívio. Sinval exigia sessenta mil cruzeiros no ato e sessenta mil em promissórias. As economias de toda a vida não davam ao português mais do que quarenta mil. O patrício Manoel Gonçalves Ribeiro entregou, espontaneamente, os vinte mil cruzeiros para a entrada.
Você começa a me pagar quando começar a ganhar dinheiro, disse antes de ouvir os enternecidos agradecimentos do conterrâneo pobre.
Olívia desejava que Oswaldo Medeiros fosse um dos seus avalistas, mas não tinha coragem para fazer a abordagem. Vejamos, nas palavras de José Alexandre, como se isso se sucedeu.
Oswaldo raramente aparecia na Delícia e quando o fazia era às pressas, só comprava à vista, só pagava à vista, negócio com ele era como Cancão dizia “em cima do pára-lama, pei e pou”. Comprou, pagou. Ainda por cima, era meio caladão, sem muitas intimidades, fidalgo, passara anos estudando na França.
Um belo começo de tarde, inopinadamente, entra Oswaldo no bar. Uma forte azia complicava-lhe a digestão. Pediu um bitter.
Olívio fez das tripas coração. Falou.
O filho de Aureliano não disse palavra. Sentou-se no birô do dono, cavalgou os óculos no nariz e comandou.
-Traga as promissórias.
Olívio ainda duvidava.
-O sr. vai assinar todas, “seu” Oswaldo?
Oswaldo, de Parker 51 em punho, balançou a cabeça afirmativamente.
-Olívio, se num mês, você não tiver o dinheiro todo, me procure que eu completo.
Grossas lágrimas desceram pelo rosto do portuga.
Finalmente era dono e senhor da Confeitaria Delícia.

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domingo, 5 de maio de 2013


CARTA AOS NETOS
(*) Rinaldo Barros
Escrevo esta carta com esperança de ser lido novamente daqui a alguns anos, por vocês, meus netos (Maria Clara, Pedro, Isabella, João e Lucas), os quais chegaram a este Mundo agora recentemente; e pouco ainda sabem dos mistérios da vida neste lindo planeta azul.
Todavia, espero que aí por volta de 2030, a geração dos meus netos possa avaliar se, enfim, triunfou a estupidez humana, ou se conseguimos, pelo menos, manter viva a esperança. Prestem atenção!
Neste início de Milênio, não estamos atravessando apenas mais um momento de turbulência. Estamos dentro do olho do furacão.
A história contemporânea nos levou ao término da onda industrial, à drástica diminuição do Estado, à universalização da sociedade da informação (dominada pelo grande capital financeiro internacional), ao crescimento extraordinário dos fundos de previdência e aos lucros astronômicos das grandes instituições financeiras, fenômeno que fez explodir o estoque de recursos financeiros disponíveis, dos quais uma boa parte tem se destinado a perigosas especulações de curtíssimo prazo.
Falo do “capital volátil”. Um dinheiro sem pátria, ganancioso, sem coração, que quer ganhar muito e, se possível, muito rapidamente. Algumas fontes chegam a estimá-lo em mais de 30 trilhões de dólares. Especulação financeira pura e simples, que vai pra onde estiverem os juros estão altos. Com um poder diabólico.
Nada deste dinheiro é investido para melhorar a qualidade de vida, não há interesse em acabar com a fome, nem preservar o meio ambiente, nem desenvolver qualquer economia, além de ser incontrolável.
Além disso, é preciso não esquecer a virulência da política externa da (por enquanto) maior potência do planeta, agora estimulada pela “vitória” na guerra contra um inimigo que não existia, nem tinha armas nucleares: o Iraque.  Para quem não sabe, Bin Laden, era da Arábia Saudita; não era iraquiano.
Para manter os lucros do complexo industrial-militar, e para conquistar reservas estratégicas de minérios, petróleo, entre outras; a guerra contra o Iraque bem não acabou; e já estão preparando outras invasões.
As vendas do complexo industrial-militar não podem parar. São muitas indústrias multinacionais, faturando bilhões de dólares em aviões, helicópteros, veículos blindados, mísseis, armamentos, bombas, minas, munições, uniformes, alimentos, medicamentos, a lista é imensa.
Ah! O terrorismo deve ser incluído como ingrediente desse molho. Semana passada, uma nova série aparentemente coordenada de explosões acordou Bagdá e cercanias na manhã do aniversário de dez anos da Guerra do Iraque. São mais de 2.000 mortos e feridos apenas em 2013, que começa a ser um dos anos mais violentos no país desde a retirada das últimas tropas norte-americanas.
Na mesma sequência de ações de guerra, vimos caças de Israel bombardearem alvos dentro da Síria. Segundo o New York Times, o carregamento era de mísseis terra-terra de última geração que vinham do Irã.
Será o início do indesejado (?) triunfo da estupidez humana?
Relembro: para depor Saddam Hussein, Bush mentiu e sacrificou, além das vidas de milhares de iraquianos (mártires, na visão árabe); desrespeitou a ONU, a OTAN (aliança militar ocidental), a coalizão antiterror; comprometeu a imagem dos EUA perante o mundo; destruiu monumentos e milhares de relíquias do berço da civilização e a própria noção de que a humanidade progride, ou deveria estar evoluindo.
Bush inaugurou a barbárie contemporânea. Aparentemente, o mundo caminha, perigosamente, sob uma estúpida hegemonia, no médio prazo, para a barbárie de alta tecnologia.
Cá no meu canto, ingenuamente, como queria Agostinho (354 a 430 d.C), eu persisto com a Esperança, ao lado de suas duas filhas lindas: a Indignação e a Coragem de continuar lutando por um mundo melhor.
Na estação futuro, vocês, Maria Clara, Pedro, Isabella, João e Lucas, poderão tirar a limpo se valeu a pena este avô haver sonhado com a Estrela da Manhã; ou se a estupidez humana triunfou.
Saibam que torço e vibro para que, com os pés bem firmes no chão, toda a geração dos meus netos possa ter os olhos, o coração e a mente nas estrelas.
E que possam encontrar motivos para continuar gostando da vida como ela é.

(*) Rinaldo Barros é professor – rb@opiniaopolitica.com

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Gabeira vem a Natal dia 10.

 
Foto: Divulgação
Um dos maiores nomes da história do Partido Verde no Brasil, o jornalista, escritor e ex-deputado federal, Fernando Gabeira, estará em Natal sexta-feira, 10 de maio, para falar sobre o Futuro do Brasil e a Consciência Verde, como parte da programação do Seminário Verde, promovido pelo Diretório Estadual do PV. O evento ocorrerá no Plenarinho da Assembleia Legislativa, a partir das 19h30. [por Paulo Tarcisio Cavalcanti]


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Postado por AssessoRN - Jornalista Bosco Araújo no AssessoRN.com em 5/05/2013 10:12:00 AM
Resposta rápida

SOS Instituto Histórico.


AJUDA E NÃO ESMOLA
Carlos Roberto de Miranda Gomes

Estimados Confrades e Confreiras, POPULAÇÃO POTIGUAR,
    
O Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, como todos sabem, é uma Instituição com 111 anos de glórias e serviços prestados à sociedade potiguar, na condição de pessoa jurídica de direito privado, sem fins econômicos.
É possuidor de um acervo invejável, com mais de 50 mil títulos e muitas relíquias históricas e documentos seculares a servir aos pesquisadores e estudantes do nosso Estado.
Nós da Diretoria assumimos o desafio patriótico de salvar esse patrimônio histórico, numa Cruzada de abnegados colaboradores, quase todos na categoria de anciãos como exemplificam a pessoa deste Presidente da Instituição e dos Professores aposentados Eider Furtado de Mendonça e Menezes, Carlos Roberto de Miranda Gomes, Edgard Ramalho Dantas, Paulo Pereira dos Santos, Odúlio Botelho Medeiros e Tomislav Femenich e outros um pouco mais jovens como Ormuz Barbalho Simonetti, Eduardo Gosson, Lúcia Helena e George Veras, numa reprodução do que ocorria no tempo do Império Romano, com os velhos senadores, e sem perceberem qualquer retribuição financeira.
     Mesmo assim, nos dispomos a dar expediente diário na sede desgastada e sem conforto do IHGRN, arcando muitas vezes com despesas necessárias ao seu funcionamento, na certeza de que encontraremos, nesse caminhar de três anos, os “cirineus” que aliviarão o peso da cruz na difícil jornada.
Os problemas são tantos e tão graves, que não permitem um escalonamento de prioridades, porquanto temos que atacar vários eixos concomitantemente, entre a recuperação física do prédio, busca de mais espaço, conservação do rico acervo, climatização indispensável para os livros e documentos que carecem desse cuidado especial, segurança do patrimônio, estruturação administrativa e contábil e regularização de funcionários com atraso de pagamento de salários para o que só contamos com boa vontade, haja vista o quadro diminuto de sócios que concorrem com uma anuidade de apenas R$ 120,00 e com uma inadimplência de cerca de 50%.
Temos procurado as entidades públicas e delas recebemos alento para a celebração de convênios de cooperação, como podemos enumerar o Governo do Estado, através da Fundação José Augusto, a UFRN, o CREA, o IPHAN, a CAERN, FIERN, FECOMÉRCIO, Prefeitura do Natal, FIERN, SEBRAE e outros como também algumas empresas privadas, das quais não tivemos a receptividade esperada.
Algumas organizações privadas confundem o pedido de ajuda com “esmola” e, quando não nos atendem, ofertam ajuda ínfima ou equipamentos em desuso,o que nos choca.
Nossa missão é conscientizar todos, entidades e população, de que o IHGRN é um patrimônio do povo e deve ser preservado para que não ampliemos o grande número de frustrações que colocam o Rio Grande do Norte numa posição de lanterna da educação, da cultura, da segurança e da saúde, o que incomoda e envergonha a todos.
Precisamos de apoio para garantir a conservação do nosso rico acervo. Temos que climatizar o Instituto para não perder o que já conquistamos. Para isso precisamos de aparelhos e reparos na rede elétrica, além de receitas permanentes que garantam o funcionamento da Casa da Memória.
Ainda temos obrigações para com os funcionários e com os usuários, pois não conseguimos computadores para garantir pesquisas sem contato direto com os documentos e livros, pois isso aumenta o desgaste.
S.O.S.IHGRN.
ESTAMOS ESPERANDO POR VOCÊS.

sábado, 4 de maio de 2013


Campanha de Dilma terá homem forte da economia

Fonte: Folha de S. Paulo - UOL
04/05/2013 - 03h00
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NATUZA NERY
VALDO CRUZ
DE BRASÍLIA

Um dos nomes mais influentes da equipe econômica transita agora pela política. O secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, foi admitido nas articulações para reeleger a presidente Dilma Rousseff em 2014 e é um dos nomes que vão integrar a futura coordenação da campanha petista.
Segundo a Folha apurou, Arno já participou de ao menos uma reunião de mapeamento político para fazer uma radiografia de alianças nos Estados.
Por enquanto, conforme relatos de pessoas próximas, ele tem ajudado nas projeções sobre futuras composições partidárias.
Ainda não se sabe qual função ele assumirá na coordenação da campanha. Arno pode inclusive atuar como coordenador informal se a situação da economia exigir sua presença no governo durante a disputa.

Arno Augustin


Sergio Lima - 8.mar.2013/Folhapress
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O secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, foi admitido nas articulações para reeleger a presidente Dilma Rousseff em 2014
Interlocutores presidenciais afirmam que uma das principais funções será construir uma plataforma econômica para um eventual segundo mandato.
A influência de Arno Augustin no debate eleitoral causa surpresa até mesmo entre colegas de Esplanada dos Ministérios. No Palácio do Planalto, porém, assessores afirmam que experiências em campanhas petistas no Rio Grande do Sul o credenciam a um papel de destaque na disputa de 2014.
Em 2006, ele foi o coordenador da candidatura do petista Olívio Dutra ao governo gaúcho, que acabou derrotado pela tucana Yeda Crusius.
CONTROVERSO
Em pouco mais de dois anos de governo, o titular do Tesouro ganhou forte projeção e uma imagem controversa no empresariado, devido a seu estilo intervencionista, e no mercado financeiro, após as maquiagens contábeis realizadas para fechar as contas de 2012.
A relação difícil com o setor privado leva colegas a fazerem galhofa com a posição do secretário no ano que vem: "Ele só não será tesoureiro da campanha, ou não arrecadaríamos nenhum tostão".
Apesar das resistências de fora, e muitas vezes de dentro, Arno foi subindo sucessivos degraus na confiança da chefe. Tanto que, hoje, opina em praticamente todas as áreas do governo, mesmo naquelas discussões mais estranhas ao Tesouro.
Em parco tempo, tornou-se um dos funcionários mais requisitados pelo Planalto, e é visto como um eventual sucessor de Guido Mantega (Fazenda), se a presidente conquistar mais um mandato.
A mais de um ano da corrida nacional, Dilma já começa a esboçar o perfil da equipe que tocará os bastidores da futura disputa. Pelo desenho atual, o grupo se assemelha um pouco com o time de 2010. Ali, as figuras centrais da campanha petista eram Antonio Palocci, José Eduardo Cardozo e José Eduardo Dutra, batizados à época de "os três porquinhos".
Hoje, diz-se na Esplanada, de forma bem humorada, que a presidente já tem pelo menos dois "novos porquinhos": Arno e o ministro da Educação, Aloizio Mercadante.
Ambos devem operar o dia a dia da candidata, mas o grande estrategista da campanha e principal coordenador será o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Função que ele já desempenha desde 2010, com apoio do marqueteiro João Santana.
Outros dois possíveis nomes podem integrar o time de 2014: o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça), o único "porquinho" remanescente da campanha passada, e o governador Jaques Wagner (PT-BA), para reforçar os palanques do Nordeste.



quinta-feira, 2 de maio de 2013

Vamos reduzir a maioridade! Ou queremos que a barbárie tome conta?


Maioridade penal: com o nascimento
Armando Negreiros – médico
                É sabido que o maior estímulo à criminalidade é a falta de punição. Agora imaginem se a própria lei proíbe o judiciário de punir. O marginal, quando completa 18 anos, começa a contratar os que estão abaixo dessa idade para executarem os seus crimes, como testas de ferro. Qual a diferença de um marmanjo com 15, 16 ou 17 anos, para um com 18? A lista dos que são contra essa diminuição da maioridade penal é enorme. Acusam os que são a favor de “genocidas infantis” e outras baboseiras típicas dos cavilosos, capciosos e manhosos.
                A personalidade civil do homem começa a partir do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo desde a concepção os direitos do nascituro (aquele que há de nascer, ou seja, é o nome que se dá ao ser humano já concebido e que se encontra, ainda, no ventre materno). A mesma regra deveria vigorar, também, para a responsabilidade criminal. Qual o crime que poderia cometer uma criança de tenra idade? Nenhum! Portanto, a partir do momento em que o crime for cometido, o infrator é responsabilizado e punido.
                Num levantamento do que ocorre no mundo, encontramos as maiores disparidades e verdadeiros absurdos. Nos Estados Unidos, onde cada estado tem a sua própria legislação, o início da maioridade penal varia desde os 6 até os 18 anos, entretanto a maioria dos estados adota 7 anos. Na Escócia, 8 anos; Inglaterra e País de Gales, 10 anos. Nesses países a legislação adota, para estabelecer a maioridade penal, a capacidade psíquica. O Brasil adota o sistema biológico, que é a idade. México, 6 a 12 anos.
                Com 7 anos, temos: Bangladesh, Índia, Myanmar, Nigéria, Paquistão, África do Sul, Sudão, Tanzânia, Tailândia; com 8, Escócia, Indonésia e Quênia; com 9, Etiópia, Irã e Filipinas; com 10, Nepal, Ucrânia, Inglaterra e País de Gales;  com 11, Turquia; com 12, Coréia, Marrocos e Uganda; com 13, Algeria, França, Polonia, Uzbequistão; com 14, China, Alemanha, Itália, Japão, Rússia, Vietnã; com 15 Egito, Dinamarca, Finlândia, Noruega e Suécia; com 16, Argentina e Chile; com 18, Brasil, Colômbia e Peru.
                O maior absurdo ocorre no Irã, como não poderia deixar de ser pela misoginia (ginecofobia, ginofobia, desprezo ou aversão às mulheres) característica dos muçulmanos: 9 anos para o sexo feminino e 15 para o masculino! Na Suécia, em 1997, havia apenas 15 jovens entre 14 e 18 anos cumprindo pena em alguma prisão. Na China, embora haja regimes especiais educacionais para adolescentes na faixa dos 14 anos, eles podem pegar prisão perpétua se cometem crimes bárbaros, chamados no Brasil de hediondos.
                No Brasil, em 2005 (Unicef, IPEA) havia cerca de 40.000 menores entre 12 e 18 anos cumprindo algum tipo de medida socioeducativa (0,2 da população - um terço em instituições como a FEBEM), a metade em São Paulo. Cerca de 42% por roubo e 15% por homicídio.
                Portanto, diante da gravidade crescente da criminalidade e considerando a situação no resto do mundo, urge – é emergencial – abreviar a maioridade penal. Aliás, a minha proposta é que esta se inicie com o nascimento, já que os direitos civis se iniciam intrauterinamente, com a concepção.

quarta-feira, 1 de maio de 2013


Petróleo para as transnacionais

Adriano Benayon * - 29.04.2013

Leilões

1. A promulgação da lei 9.478, de 1997, foi um dos mais execráveis atos antinacionais praticados por FHC, na linha das mega-negociatas da privatização.

2. Ela permite leiloar o petróleo para as empresas estrangeiras, dando-lhes o direito de dispor dele para exportá-lo.

3. Ademais, instituiu a Agência Nacional de Petróleo, a qual, desde sua criação, favorece as transnacionais, inclusive licitando mais depósitos de petróleo do que a Petrobrás, que os descobriu, tem interesse em explorar a curto e médio prazo.  Esta já foi também  impedida de adquirir blocos licitados.

4. A ANP promoveu, sob governos petistas, maior número de rodadas que sob os do PSDB.  Agora, está chegando à 11ª  rodada, na qual, abriu, nos leilões, quantidade enorme de áreas para exploração, como sempre, arbitrariamente e sem controle da sociedade.

5. Esse é mais um desmentido dos fatos quanto à pretensa natureza democrática do regime político, em que as eleições são movidas a dinheiro e influenciadas por TVs  e outras mídias que sempre propugnaram a entrega do mercado e dos recursos naturais do País a empresas estrangeiras, até com dados falsos e argumentos distorcidos.

6. Como apontam competentes técnicos, inclusive o ex-diretor de energia e gás da Petrobrás, Eng. Ildo Sauer,  o governo joga uma cortina de fumaça para a população, pondo os royalties no foco das discussões, quando a grande questão é licitar 289 blocos de exploração, sem sequer saber o valor deles. 

7. Diz Sauer: “Os royalties não passam de 15% do valor total gerado pelo petróleo nacional, e as entidades representativas da sociedade devem defender a estatização e o controle público do pré-sal e toda a cadeia petroleira do Brasil.” 

8. Os royalties foram o tema dominante durante a tramitação no Congresso da lei 12.351/2010, que regula o pré-sal. E, na realidade, essa lei dá tais “compensações” às petroleiras mundiais, que o que fica no Brasil é bem inferior a 15%.

9. O foco nos royalties, além de insensato, acirra disputas entre Estados, provocando rachaduras no pacto federativo. Governadores e parlamentares brigam por migalhas, em vez de buscarem a revogação da Lei Kandir, a qual isenta as exportações do ICMS.

10. Aos que ignoram ser o Brasil um país ocupado – ou, no mínimo, que o governo se comporta como se fosse – vale lembrar que, nos anos 50 do Século XX, o Xá do Irã, considerado fantoche do império, fez acordo com as grandes petroleiras anglo-americanas, passando a receber 50% das receitas da exploração.

11. O Eng. Paulo Metri mencionou declarações da Diretora-Geral da ANP em que esta declara esperar a descoberta 19,1 bilhões de barris de petróleo nos 289 blocos. Ele lembra que esse petróleo será exportado e pergunta: “quem definiu que a exportação, seguindo a lei 9.478, é a melhor opção para a sociedade brasileira?”

12. Metri: "o porquê de tanta agressividade autoritária e decisão antissocial está relacionado com o fato de que a desinformação do povo é imensa, os governantes não esperam nenhuma reação, e os brasileiros serão respeitados somente quando mostrarem estar informados e revoltados com as decisões antissociais.”   

13. Ele aponta que a ANP só convida para suas audiências, realizadas em locais fechados e guardados, os representantes das empresas interessadas.  Nada de povo, nem de gente que o represente.

14. Sauer: “É uma grande irresponsabilidade o Governo organizar outra rodada desta mesma maneira, considerando ainda o momento de valorização do óleo existente nos blocos.”

15.  E: “Tenho informações seguras, do Consulado americano, de que Dilma sempre defendeu os interesses do capital financeiro. Quando secretária no Rio Grande do Sul, seu nome sempre esteve ligado às privatizações. Inclusive, o Governo vem criando empresas extremamente lucrativas financiadas pelo endividamento público, coordenadas pelo BNDES.”

16. A prioridade do Brasil é reindustrializar-se e renacionalizar sua indústria, com ênfase nos setores de maior valor agregado e intensidade tecnológica, fazendo que empresas nacionais, em competição, se capacitem  para  absorver tecnologias desenvolvidas no exterior e para desenvolver suas próprias. Claro que isso só é possível com política industrial bem diversa da atual.

17. Apostar na exportação de produtos primários, a errada trilha que o Brasil  está seguindo (com o agronegócio e minérios brutos ou em baixo grau de processamento), tornando-se também grande exportador de petróleo, é entrar no caminho da Venezuela no Século XX, quando se formou ali a estrutura econômica menos diversificada e mais dependente da América do Sul, até para alimentos.

18. Não tem base real a propalada falta de recursos da Petrobrás para investir no abastecimento interno, nem carece ela de tecnologia para explorar em águas profundas.

19. Nem há necessidade de exportar petróleo, até porque este - como outros minerais que o Brasil permite exportar - deveria ser preservado para épocas mais próximas a 2050, a partir de quando se projeta, em âmbito mundial, escassez da oferta em relação à procura.

Biomassa

20. Importante seria reformular a produção de combustíveis de origem vegetal. Se o fizesse a sério, o Brasil teria ganhos fantásticos em todos estes campos: 1) econômico-financeiro; 2) social;  3) tecnológico: 4) ecológico; 5) estratégico.

21. Essa produção, ao contrário de prejudicar a de alimentos, deve ser associada a esta. De fato, o cultivo associado de plantas alimentares e de criação de animais propicia excelente sinergia com a do álcool e a do óleo vegetal, porquanto os subprodutos das plantas necessárias aos combustíveis são insumos na produção de alimentos, e vice-versa.  

22  As usinas de álcool e as processadoras de óleo devem ser de pequeno e de médio porte, sendo o combustível usado local e regionalmente: poupa-se a viagem da cana, em caminhões, gastando mais energia, por grandes distâncias, até as destilarias, e outro tanto do etanol, na volta.

23. Com descentralização e desconcentração,  emprega-se  mais  mão de obra e eleva-se a produtividade desta e seus rendimentos, trazendo benefícios sociais junto com os econômicos. Também, segurança no abastecimento de energia e no de  alimentos.

24.  Esse modelo afasta as distorções das atuais plantations de cana-de-açúcar  e das grandes usinas. Em relação aos óleos – cuja produção é hoje intencionalmente mal planejada e dá resultados pífios – ele permitirá aproveitar as plantas de alta produtividade.

25. Entre essas, o dendê na Amazônia e no trópico úmido, em geral. Macaúba, copaíba e pinhão manso na maior parte do Leste e do Centro-Oeste. Até no  semi-árido do Nordeste, há plantas excelentes para a produção de óleos. Com dendê produz-se mais de 6 mil litros/hectare/ano, enquanto com soja, não mais de 400 litros.

26. Esse potencial, precisa, para ser bem aproveitado, de investimentos muito mais modestos que os destinados ao petróleo, e possibilita ao Brasil tornar-se, num período de cinco a dez anos, maior produtor de combustíveis líquidos que a Arábia Saudita, como dizia o Prof. Bautista Vidal.

27. Não há problema algum em dispensar ou adaptar os motores de veículos para o diesel de petróleo. É viável e econômico fabricar, em série, motores para os óleos vegetais, mesmo porque o “biodiesel” envolve a desesterificação dos óleos, ou seja, a extração da glicerina, a qual, queimada pelos motores apropriados, eleva o teor da energia aproveitada.

28. O programa de biomassa gera, portanto, benefícios tecnológicos na fabricação de máquinas para o  cultivo e processamento das plantas e para a associada produção de alimentos, na melhoria das espécies vegetais e na indústria de motores, em que o Brasil ganharia escala, ficando imbatível em preços e qualidade.

29. Há, ainda, ganhos notáveis do ponto de vista ecológico. É falaciosa a campanha de que o desmatamento de áreas na Amazônia e outras causaria danos ao ambiente.

30.  A área necessária para a produção da biomassa, em grande escala,  é modesta  fração da desperdiçada em pastagens para exportar gado e exportar carne barata. É menor que a empregada na soja (esta usa 50% das terras usadas pela agricultura), para  exportar farelo destinado a gado, porcos e galinhas no exterior.

31. Tudo isso traz muito mais danos ambientais e menos ganhos dos que os que adviriam da produção de energia da biomassa. Não têm base científica as estórias das fundações financiadas por grandes petroleiras mundiais – as maiores poluidoras do Planeta – , porquanto as plantas só retiram óxido de carbono da atmosfera quando estão crescendo, pois é isso que elas comem.

32. Florestas já formadas em nada contribuem para a melhora do ambiente. O grande produtor de oxigênio  não são as florestas existentes, mas, sim, os oceanos, na realidade, agredidos pela poluente indústria do petróleo:  terríveis vazamentos de óleo negro nas embocaduras de grandes rios, nos mares  na  exploração costeira e das plataformas continentais, ademais dos naufrágios de gigantescos petroleiros.

33. E que tal a imensa massa de plásticos não biodegradáveis,  provenientes do petróleo,  acumulada sobre os mares e oceanos?

34. Por fim, atente-se para a segurança nacional. Um país que não tem como defender suas águas territoriais, não deveria engajar-se no petróleo antes de aparelhar a marinha e a aviação militares. Para tanto, tem de, antes, desenvolver a indústria nacional, pois ela nem sequer fabrica os chips para os mísseis e demais equipamentos.


terça-feira, 30 de abril de 2013

Ex-freira fala sobre a sexualidade nos conventos católicos


 ENTREVISTA - 29/04/2013 07h00

Revista Època

Fran Fisher: "A religião não pode
se basear no celibato"

A sexóloga inglesa Fran Fisher foi freira na juventude. Agora, entrevista religiosas para entender a interferência do catolicismo na sexualidade

MARGARIDA TELLES
Quando a irmã Jane Frances de Chantal fugiu do convento em que morava, na Inglaterra, sabia que deixava para trás sua vida religiosa. Ela não imaginava que se tornaria especialista em sexo. Hoje, Fran usa seu sobrenome de casada, Fisher. Atende na Califórnia pacientes com problemas sexuais. A mudança de carreira ocorreu décadas depois de Fran sair do convento, onde viveu entre os 18 e os 20 anos. Ela se casou e teve dois filhos. Diz que só entendeu como a religião limitara seu prazer quando foi estudar sexologia, depois dos 40 anos. Decidiu, então, investigar a vida íntima de outras mulheres que abandonaram o hábito. O resultado está no livro In the name of God, why? (Em nome de Deus, por quê?), lançado nos Estados Unidos no fim de 2012.
EX-NOVIÇA REBELDE A sexóloga Fran Fisher em seu consultório, nos Estados Unidos. Abaixo, uma fotografia de quando ela acabara de entrar no convento (Foto: Christopher Thomond/The Guardian e arq. pessoal)
ÉPOCA – Por que a senhora decidiu entrar para um convento?
Fran Fisher –
Meus pais imigraram da Irlanda para a Inglaterra. Eram católicos fervorosos com pouquíssima educação. A escola em que fiz o ensino médio era católica. As freiras vinham conversar com as alunas, para sondar se alguma tinha interesse em entrar para o convento. Aos 15 anos, me senti atraída por esse estilo de vida. Tinha um interesse pessoal pela espiritualidade e era muito religiosa.
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ÉPOCA – Em seu livro, a senhora relata que, aos 14 anos, acreditou estar grávida. Como esse momento influenciou a decisão de entrar para o convento?
Fran –
Tive um encontro com um rapaz e não houve sexo, apenas preliminares. Não entendia muito bem como a gravidez ocorria. Tive medo de estar grávida e procurei minha mãe. Em vez de me acalmar, pois a gravidez naquele caso seria impossível, ela disse que eu poderia estar grávida. Disse ainda que eu fizera algo muito errado, que Deus desaprovaria. Fiquei apavorada e envergonhada. A partir daquele momento, passei a achar que o sexo arruinaria minha vida. Naquele dia, tornei-me muito mais religiosa.
ÉPOCA – Como era sua relação com a sexualidade enquanto estava no convento? A senhora lidava bem com eventuais desejos físicos?
Fran –
Não tinha nenhum desejo, estava dormente. Num único momento, tive noção de minha sexualidade durante meus anos no convento. Quando nosso padre ficou doente, um substituto passou a vir ao convento para fazer a missa diária. Ele era jovem, e me lembro de sentir atração, mas não fiz nada a respeito. Não se podia discutir nada ligado ao corpo com as outras freiras. Tudo era reprimido.
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ÉPOCA – A senhora se lembra de algum exemplo de repressão que sofreu?
Fran –
A repressão estava no cotidiano. Por baixo do hábito, usávamos uma anágua feita de algodão bem pesado. Dessa forma, quando estávamos limpando o chão, poderíamos levantar o hábito para não sujá-lo. Lembro uma vez em que estava limpando uma escadaria com meu hábito enrolado na cintura, quando meu padre confessor apareceu inesperadamente. Eu me levantei para saudá-lo e fui repreendida por outra freira por estar com meu hábito levantado. Para ela, eu estava seminua.
ÉPOCA – Por que decidiu abandonar o convento?
Fran –
Por uma série de razões. Tínhamos uma madre superiora paranoica e muito rígida. A pressão me deixou doente. Tive pneumonia duas vezes, perdi peso e sofri muito. O controle mental que nos impunham era muito difícil para mim. As perguntas que eu fazia eram consideradas inaceitáveis por minhas superioras. Lembro uma vez em que perguntei como Maria poderia ser virgem até sua morte, se pariu um filho. A madre superiora ficou chocada. Disse que aquilo era um desrespeito. A gota d’água foi quando minha irmã se casaria e me disseram que eu não poderia ir ao casamento, mesmo que comparecesse somente à cerimônia religiosa, com uma acompanhante. Todo esse dogma e paranoia foram demais para mim. Fugi enquanto todos estavam na missa da manhã.
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ÉPOCA – Qual é sua relação com a religião hoje em dia? Ainda é católica?
Fran –
Não me considero mais católica. Pessoalmente, não gosto de religiões organizadas. Se você atribui tanto poder a uma organização, ela se torna corrupta. Minha relação com Deus hoje em dia está cada vez mais forte e pura. Mas não é o Deus punitivo da minha infância.
"As freiras que ficaram muito tempo no convento acabaram tendo relações com padres, fiéis
ou com outras freiras"
ÉPOCA – Por que decidiu estudar sexualidade?
Fran –
Quando me interessei por sexualidade, meu casamento já tinha 25 anos. Sua única área problemática era o sexo. Conheci uma sexóloga numa conferência. Fiquei fascinada, porque nunca tinha ouvido falar dessa profissão. Ela sugeriu que eu fosse a um curso. Achei que seria interessante. Fui e fiquei chocada com o que ouvi naquele fim de semana. Jurei que nunca voltaria. Acabei voltando, mesmo com medo, porque a curiosidade foi maior.
ÉPOCA – Quais eram os problemas relacionados ao sexo em seu casamento?
Fran –
Fui educada para ficar de boca fechada e não expressar minha opinião. A raiz disso estava no lugar destinado às mulheres na sociedade em que fui criada e na religião católica. Infelizmente, me casei muito cedo, aos 22 anos, menos de dois anos depois de sair do convento. Não tinha aprendido a ser dona de meus próprios pensamentos com convicção. Depois de ter meus filhos, passei a ter relações só por obrigação. Minha resposta-padrão para qualquer sugestão de inovação sexual era “não”. Quando decidi estudar sexualidade, meu marido ficou animadíssimo. Passei a ser tão curiosa quanto ele, e, no lugar de dizer não, quando ele sugeria alguma coisa, eu pedia para ele me contar mais sobre aquilo.
>> Naomi Wolf: "A cultura reprime o desejo das mulheres" 
ÉPOCA – Em seu livro, são entrevistadas outras ex-freiras. O que as histórias dessas mulheres têm em comum com a sua?
Fran –
A principal similaridade entre todas era o silêncio sobre o sexo durante a infância. As mulheres que saíram cedo do convento, como eu, se casaram rapidamente. A proibição do sexo antes do casamento ainda era muito forte, então a maioria acabou se casando com o único homem com quem se envolveu, como eu. Aquelas que ficaram muito tempo no convento acabaram tendo vida sexual lá, com padres ou fiéis. Duas das 69 ex-freiras que pesquisei se relacionaram sexualmente com outras freiras. Quando uma freira se envolvia com um padre, havia uma dinâmica de poder, em que a mulher deveria ser subserviente. Uma delas me contou que só ela fazia sexo oral no padre. A contrapartida nunca ocorreu em muitos anos de relação. A exceção foi uma mulher que adorava sexo e estava na faixa dos 50 anos.
ÉPOCA – O perfil das jovens freiras mudou?
Fran –
As freiras continuam vindo de onde sempre vieram, de países muito pobres, onde mulheres veem na Igreja sua única oportunidade de uma boa educação e de escape de uma existência difícil. Na minha infância, uma grande quantidade de freiras católicas vinha da Irlanda. Quando o país entrou para a União Europeia e mudanças econômicas poderosas ocorreram por lá, a vocação religiosa diminuiu. Agora, as noviças quase não existem mais, e os conventos estão fechando.
>> Os novos profissionais do prazer 
ÉPOCA – O que a senhora acha do celibato?
Fran –
É inconcebível que a Igreja ainda tente basear sua religião numa premissa tão pouco natural quanto o celibato. A maior parte das pessoas gosta muito de sentir prazer, mesmo devotando sua vida a Deus. A ideia de que a Igreja consegue controlar a sexualidade das pessoas acabou gerando reações contrárias. Existem muitos homossexuais em conventos e mosteiros. Se você é muito religioso e gay, para onde mais pode ir?
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ÉPOCA – A senhora costuma atender em seu consultório pessoas com problemas sexuais ligados à religião?
Fran –
Recebo muitos pacientes justamente por causa do meu histórico. É importante respeitar a crença em Deus, mas separá-la do que foi doutrinado durante a infância. Quando se fala de sexualidade, muitos continuam com os mesmos medos, julgamentos e restrições da infância. Não os superamos só porque nos tornamos adultos. É um aprendizado rever esses conceitos. E um desafio.
Últimos comentários
  • Gaudencio
    Há muita bobagem nos livros escritos por mulheres hoje em dia. O fato de uma pessoa constatar-se inadequada para um tipo de ação ou para pertencer a um determinado grupo não lhe dá autoridade para denegrir tal tipo de ação ou tal grupo. Isso é uma superficialidade característica de pessoas inconsequentes e desprovidas da devida expansão de consciência. O celibato e o não celibato não são opções mecânicas como ter um carro sem ou com air-bag. Há profundas raízes psicológicas e morais no celibato. O celibato chega a estar ligado a um mito no sentido arquetípico, tem raízes no inconsciente coletivo, porque há monges corretos em várias religiões do Mundo, em várias partes do Mundo, e em várias épocas ao longo da História, que adotam e vivem o celibato como opção legítima. O que ela fala da Religião não dever "basear-se no celibato", uma asneira sem tamanho, porque a Religião não "se baseia" no celibato seria comparável a alguém dizer que a Arte não deveria "se basear" na inspiração, a Ciência não deveria "se basear" nas Pesquisas, e a Política não deveria "se basear" no saber discursar. Há uma grande falta de originalidade e mediania nessas pessoas ficarem atacando as Religiões ao invés de criar próprios rumos na vida que escolheram fora da Religião. Essa mulher é uma medíocre e o que ela diz não se escreve. A própria expressão dela é meio assim de boba-alegre, fronteiriça à de uma idiota. O que ela diz só encontra ressonância em meio a pessoas simplórias e de mente estreita.
  • Edson Amaro de Souza
    Sempre digo que não levo a sério papa nenhum porque eles vivem num mundo de fantasia (o Vaticano) longe dos favelados, dos mendigos, dos desempregados, dos homens e mulheres estressados com seus baixos salários, os serviços públicos precários, o peso de sustentar uma família etc. Só vou levar a sério um papa que seja casado, ande de metrô e acorde cedo para trabalhar numa fábrica. Só para lembrar: ele se diz o sucessor de Pedro, que era casado e trabalhava como pescador.
  • Soares
    Quando fazemos opções na vida, em algumas situações, temos também que fazer concessões e quando essas concessões são feitas sem angústias ou torturas mas sim com felicidade e porque temos a verdadeira e sincera vocação para aquilo que escolhemos, quer seja na vida pessoal, politica ou religiosa. Fazer uma opção sabendo dos seus dogmas e depois se martirizar ou questionar suas restrições, penso que, verdadeiramente essa pessoa nunca quis ser ou fazer aquilo, apenas entusiamo passageiro. É a mesma coisa do policial desonesto. Na verdade, ele nunca foi policial, mas sempre foi bandido!
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