domingo, 11 de maio de 2014

Uma história do petróleo potiguar.



A DIMENSÃO SOCIOCULTURAL DO PETRÓLEO;

UMA HISTÓRIA DO PETROLEO POTIGUAR

Tomislav R. Femenick – Historiador, membro da diretoria do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

 

            No Rio Grande do Norte, as atividades de extração e/ou refino do petróleo estão presentes em dezesseis Municípios: Afonso Bezerra, Alto do Rodrigues, Apodi, Areia Branca, Assú, Caraúbas, Carnaubais, Felipe Guerra, Governador Dix Sept Rosado, Guamaré, Macau, Mossoró, Pendências, Porto do Mangue, Serra do Mel e Upanema. Natal, a capital do Estado, sedia uma unidade administrativa da Petrobras. Segundo a ANP-Agência Nacional de Petróleo (Boletim da Produção de Petróleo e Gás Natural, set 2013), o campo do Canto do Amaro, no Município de Mossoró, é o campo petrolífero brasileiro que tem o de maior número de poços produtores: 1.109 poços.
            A unidade de refino, a Refinaria Potiguar Clara Camarão está localizada no Município de Guamaré e, como decorrência de sua existência, a Petrobras e sua controlada Transpetro, têm na região 556 quilômetros de oleodutos e 542 quilômetros de gasoduto.

 

Além do Econômico

            Mas a indústria petrolífera não deve ser vista somente pelo prisma econométrico ou com uma visão meramente empresarial. Além de uma atividade multiplicadora de oportunidades, de negócios, de empregos e impulsionadora das receitas públicas, ela transforma a realidade das comunidades, das regiões e até dos países, interferindo diretamente na vida das pessoas.
            E não poderia ser diferente o que aconteceu nas regiões oeste e costeira norte do Rio Grande do Norte. Comunidades rurais praticamente saltaram do século XIX para o século XXI. Pessoas que antes trabalhavam “na enxada” se tornaram “torristas” nos poços de petróleo, analfabetos tiveram que se alfabetizar e – benfazejo paradoxo – nas suas casas as lamparinas, que antes queimavam querosene de petróleo, deram lugar à luz elétrica. Para não falar nos aparelhos de TV e celulares, nas geladeiras, maquinas de lavar... e nos computadores.
            Calcula-se que, antes da crise que se abateu na indústria petroleira do Estado, os empregos diretos na cadeia produtiva do petróleo tenham alcançado a casa de vinte mil pessoas e que os empregos indiretos tenham atingido algo por volta de quinze mil vagas, ou mais. Atualmente, no Rio Grande do Norte há aproximadamente 11.500 pessoas que trabalham nas empresas petrolíferas, sendo 2.500 na Petrobras e 9.000 nas outras empresas.

Construindo a infraestrutura

 

            As empresas de petróleo que trabalham no Rio Grande do Norte (principalmente a Petrobras) vêm realizando um trabalho de integração com a população local, que tem trazido grandes benefícios para as pessoas e melhorado o seu padrão de vida. Ainda nos anos 1990, a Petrobras repassou às comunidades dos vales do Açu e Mossoró mais de 220 poços d’água, alguns equipados com caixas d’água e chafarizes. As instalações de telecomunicação da empresa, localizadas na serra do Mangue Seco (Guamaré), foram disponibilizadas para a retransmissão do sinal de TV para as comunidades vizinhas e para o sinal da telefonia celular na região, inclusive no Alto do Rodrigues.
            O sistema viário rodoviário do Rio Grande do Norte foi outro setor que recebeu grande contribuição da Petrobrás. Foi construída a estrada RN-408 (ligando Alto do Rodrigues/Carnaubais) e um trecho da RN-118, a "Estrada do Óleo", (que liga Guamaré a Alto do Rodrigues). Foi recuperado um trecho da rodovia RN-016 (Carnaubais/Assú) e reconstruídas a rodovia RN-117 (Mossoró/Carnaubais) e a RN-118 (Macau/Assú), totalizando 144 km. Alem do mais foram construídas pontes metálicas em estradas de Upanema, Alto do Rodrigues, Governador Dix Sept Rosado e na RN-408 (Alto do Rodrigues/Carnaubais).

Construindo a Cultura

            Na área de ensino, a estatal criou os programas Criança Petrobras e Mova Brasil, que inicialmente funcionavam em Natal, Mossoró e Macau, e foram estendidos à outras cidades;  milhares de jovens já foram atendidos pelos programas. No âmbito da cultura, a estatal participou, direta ou indiretamente, de empreendimentos tais como a preservação do Lagedo de Solidade, no Município de Apodi, do Teatro Dix-huit Rosado e do espaço Estação das Artes, em Mossoró, do projeto Porto de Ama, em Macau, criou a Casa de Talentos, a Orquestra de Talentos e a Lutheria Talento e contribuiu para a reforma da Casa da Ribeira, estes últimos em Natal.

OS ROYALTIES DO PETRÓLEO


Royalty é uma quantia de dinheiro que se paga para o uso de determinada tecnologia, desenvolvida por outra pessoas ou empresa que não o usuário. Também identifica os valores pagos aos criadores de obras de arte (livros, peças teatrais, composições musicais, roteiros de filmes, imagens, pinturas ou esculturas) e marcas e patentes. No Brasil o maior volume de royalties se origina no pagamento de direitos sobre extração de produtos minerais, notadamente o petróleo.
Art. 3º da Lei Lei 9.478/1997 diz que “Pertencem à União os depósitos de petróleo, gás natural e outros hidrocarbonetos fluidos existentes no território nacional, nele compreendidos a parte terrestre, o mar territorial, a plataforma continental e a zona econômica exclusiva”. Assim, as companhias que extraem petróleo ou gás natural em todas essas regiões pagam ao governo federal pelos seus direitos exploratórios e, por outros dispositivos legais, estão também obrigadas a pagar aos Estados, Municípios, aos proprietários das terras, bem como aos Ministérios da Marinha e da Ciência e Tecnologia.
Em 2012, o Rio Grande do Norte recebe algo em torno de R$ 500 milhões de reais, considerando a participação do Estado, dos Municípios produtores e dos proprietários de terras onde há extração de petróleo e gás (ver quadro 01). Sem dúvida esses recursos têm sido de relevante importância para a sustentação dos serviços públicos e para o sustento das famílias dos proprietários de terra. 
Porém nem sempre se faz bom uso dos royalties. Os futuros recebimento do Estado, por conta da exploração petrolífera em seu território, estão empenhados na composição do fundo garantidor que foi formado para a construção da Arena das Dunas. Em 2012 o governo do Estado recebeu royalties no montante de R$ 248 milhões e R$ 70 milhões é quanto o fundo garantidor deve sempre manter em caixa para pagar a construtora do estádio.

Quadro 01 - ROYALTIES DISTRIBUÍDOS (Mil R$)
Beneficiários
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2009
2010
2011
2012
Rio Grande do Norte
140.946
163.848
181.023
180.150
159.577
213.647
140.129
158.934
205.981
248.237
Municípios
97.011
112.259
132.556
145.622
123.913
165.629
126.730
148.721
185.078
231.576
Proprietários de terra
19.417
23.638
26.601
28.247
24.108
31.562
20.493
24.916
33.907
41.569
Total
257.374
299.745
340.180
354.019
307.598
410.838
287.352
332.571
424.966
521.382
Formatado pelo autor, com base em dados da ANP.

            Um caso realmente atípico é Guamaré, onde se localiza a Refinaria Potiguar Clara Camarão que, de 2002 a 2011, recebeu R$ 202 milhões de reais em royalties. No mesmo período, o Município trocou de prefeito oito vezes. As contas de três deles foram reprovadas pelo Tribunal de Contas do Estado e um foi preso, acusado de desvio de verbas. Embora seja o Município brasileiro com a 20ª colocação do “PIB per capta” (total da renda do Município dividida pelo número de habitantes), com R$ 90.230 reais por pessoa, quase o triplo da renda dos moradores da cidade de São Paulo, isso nada significa para a grande maioria da população. O exemplo típico – apontado pela revista Exame em agosto de 2012 – seria a comunidade de Morro do Judas, um bairro com ruas de terra, sem água, luz e esgoto. Para os moradores dos bairros iguais a esse, a boa colocação do PIB per capta é apenas um registro estatístico, enquanto “os analfabetos representam mais de um quinto da população (o dobro da média brasileira) e quase 10% vivem na extrema pobreza”. O modus operandi da administração local tem sido o assistencialismo: “um quarto da cidade trabalha na prefeitura [...], 2.300 famílias recebe da prefeitura um cartão com 120 reais para gastar no comércio. Outras 267 estão no programa de auxílio-aluguel. Há ainda 1.604 beneficiadas pelo Bolsa Família” – ainda segundo a revista.

 

AS EMPRESAS DO POLO PETROLÍFERO

 

            Afora a própria Petrobras, a Transpetro e outras empresas subsidiadas da companhia estatal, estima-se que mais de trezentas organizações empresárias atuam, atuaram ou poderão vir a atuar no Rio Grande do Norte em função da existência do petróleo e do gás na Bacia Potiguar. Aqui elas desenvolveram suas atividades nas áreas de prospecção, extração, refino ou transporte de insumos e produtos, ou dão suporte em atividades suplementares as mais diversas, realizando serviços de engenharia, segurança, transporte de pessoal, alimentação, hospedagem etc. Graças a sua participação na cadeia produtiva do petróleo, essas empresas criam aqui empregos, dinamizam a economia e pagam impostos.

Uma publicação da Petrobras cita a empresa Vipetro como exemplo de uma organização de Mossoró que se desenvolveu prestando serviços a Petrobras e outras empresas do setor, e que expandiu sua atuação para empreendimentos em outros Estados e para outras atividades econômicas. Desde os anos 1980, quando foi fundada, a Vipetro instalou mais de 80% da malha de distribuição de gás natural do Estado, realizou a expansão da rede de gás natural da Paraíba, obras de instalação de tanques de armazenamento de petróleo e água, bem como participou da instalação, modernização ou ampliação de grandes obras estruturantes do Estado, como a Barragem Armando Ribeiro Gonçalves, o Porto Ilha de Areia Branca, a implantação de vilas rurais em Serra do Mel e de vias ferroviárias. No início do século a Vipetro já contava com mais de mil empregados e, em 2011, admitiu como sócia a empresa portuguesa SIMI-Sociedade Internacional de Montagens Industrial, que atua em Portugal, Inglaterra, Alemanha, Itália, Espanha, Bélgica, Polônia, Rússia, Romênia, Ucrânia, México, Índia e em vários países africanos.

Dentre as empresas engajadas no cicio produtivo do petróleo no nosso Estado podem ser citadas:

 

ABDM Empreendimentos e Serviços, ADLIN Terceirização em Serviço, Alban Engenharia, Allpetro Exploração, AP Mariscal, Aurizõnia Petróleo, Autograf Projetos e Construções, Baker/BJ Services, BP Energy do Brasil, Central Resources do Brasil (antiga Koch), COOTRAMERJ - Cooperativa dos Trabalhadores Metalúrgicos do Estado do Rio de Janeiro, Dall Empreendimentos, EBS Empresa Brasileira de Serviços, El Paso Óleo e Gás do Brasil, EMPERCOM Empresa de Montagem e Serviços Gerais, ETX Serviços de Perfuração e Sondagem de Petróleo (de Eike Batista), ExxonMobil, Starfish, EnCana, Forteks Engenharia, Gênesis 2000 Exploração e Produção de Hidrocarbonetos, Geokinetics Geophysical do Brasil,Grupo Synergy, Halliburton Servicos, Hidrodex Engenharia e Perfuração, Máxima 07 Exploração e Produção de Petróleo, M-I Swaco do Brasil Comercio, Serviços e Mineração, Partex Brasil, PERBRAS Empresa Brasileira de Perfurações, Phoenix Petróleo, Plena Engenharia, Potióleo (do grupo Aurizõnia), PROEN Engenharia e Manutenção, Quatra Petróleo, RAL Engenharia, Rio Proerg Engenharia, San Antonio Internacional do Brasil Serviços de Petróleo, SAYBOLT CONCREMAT Engenharia e Serviços, Schahim Petróleo, Schlumberger Serviços de Petróleo, Tenasa Tecnology, Tucker Energy, Tuscany  International Drilling Inc, Varco International do Brasil Equipamentos e Serviços, Varco International do Brasil, Vestland Marine AS, Marine AS Derivados de Petróle e Worktime Assessoria Empresarial.

 

FORMAÇÃO DE MÃO DE OBRA

            O desenvolvimento da indústria petrolífera no Rio Grande do Norte encontrou, desde o início, um grande problema: a carência de mão de obra especializada para todas as funções, notadamente aquelas especificamente voltadas para o setor. A solução foi trazer técnicos de outras regiões do país e até do exterior. Com a sua consolidação no Estado, diversas organizações se aparelharam para fornecer essa mão de obra, instalando aqui cursos de nível técnico, bacharelado, MBE, mestrado e até de doutorado, todos voltados para o desenvolvimento da indústria petroleira.
            O foco desses cursos é formar profissionais  para atender as necessidades da cadeia produtiva do petróleo e gás natural, nas atividades de planejamento, supervisão, exploração, perfuração, produção, distribuição, comercialização e transporte de petróleo e gás natural e seus derivados, com foco em projeto, gerenciamento, operação, manutenção, controle e automação de processos na indústria petrolífera, bem como executar programas de manutenção de máquinas e equipamentos e aplicar normas e legislação pertinentes à gestão e controle da produção, saúde, segurança e meio ambiente, minimizando o impacto ambiental.
            Dentre esses cursos estão:

Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN: Bacharelados em Química do Petróleo e Engenharia de Petróleo; mestrado e doutorado em Ciência e Engenharia de Petróleo, todos em Natal – RN.
Universidade Federal Rural do Semi-Árido – UFERSA: Bacharelado em Engenharia de Petróleo, em Mossoró.
Universidade Potiguar - UnP: O Curso de Bacharelado em Engenharia de Petróleo e Gás, em Natal.
Universidade Estácio de Sá: Graduação tecnológica de Petróleo e Gás e MBE (Master in Business Administration; em português: Mestre em Administração de Negócios) também em Petróleo e Gás, em Natal.
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – IFRN: Curso Técnico em Operação e Manutenção da Produção do Petróleo e Gás Natural, Vespertino (Natal) e noturno (Mossoró).

CTGÁS-ER – Centro de Tecnologias do Gás e Energias Renováveis. Criado em 1999, a partir de uma parceria entre a Petrobras e o SENAI, é uma organização voltada à pesquisa, desenvolvimento e estudos sobre petróleo e gás e outras áreas. Cerca de 40 mil alunos já foram matriculados em seus cursos. Além do curso Técnico de Petróleo e Gás, também oferece programas que, embora não específicos para a cadeia produtiva do petróleo, formam profissionais capacitados a exercer seus conhecimentos e habilidades na área.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O Petróleo de Mossoró.



PROJETO E REALIDADE DE UMA REFINARIA;

UMA HISTÓRIA DO PETROLEO POTIGUAR

Tomislav R. Femenick – Historiador, membro da diretoria do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

 

Em geologia, bacia é uma depressão ou conjunto de terras ligeiramente inclinadas e, geralmente, é um bom indicativo de existência de petróleo. A Bacia Potiguar situa-se no extremo leste da Margem Equatorial Brasileira, limita-se ao oeste com a Bacia do Ceará e ao oeste com a Bacia de Pernambuco-Paraíba. Possui uma área de 119.030 mil quilômetros quadrados – 33.200 de superfície e 86.100 submersos –, sendo que sua isóbata (linha imaginária que une todos os pontos de igual profundidade no relevo submarino) é de 3.000 quilômetros. Sua superfície é dividida em três subáreas, a saber: o grupo Areia Branca, constituído pelas formações Pendência e Alagamar; o grupo Apodi, integrado pelas formações Assú, Quebradas e Jandaíra, e o grupo Agulha, com as formações Ubarana, Guamaré e Tibau.
Geograficamente, a Bacia Potiguar corresponde à plataforma continental da Nigéria, no litoral africano, de onde se separou há aproximadamente 200 milhões de anos.  Na plataforma nigeriana já foram descobertas grandes reservas de petróleo leve e com baixo teor de enxofre. Essas jazidas petrolíferas se situam a grande profundidade – cerca de quatro quilômetros abaixo do nível do mar – e foram formadas ao longo da “rachadura”, resultante do processo que de ruptura que separou a atual América do Sul da África. Essa descoberta evidencia uma analogia entre as ocorrências de óleo na costa do nordeste brasileiro e no litoral oeste africano.
O petróleo começou a ser explorado na Bacia Potiguar em Ubarana, em 1973; em Mossoró, em 1979, e no Canto do Amaro, em 1985. Segundo dados da Agencia Nacional de Petróleo, nela já foram descobertos “70 campos de óleo e gás, sendo 6 no mar e 64 em terra. Recente perfuração na porção terrestre constatou uma acumulação de óleo, indicando que a bacia ainda oferece boas oportunidades. A Bacia Potiguar, com uma produção diária de 110 mil boe, é atualmente a segunda região produtora do país” (www.anp.gov.br - Acesso em 28.04.2014).

O Lado Nobre

Na forma como é encontrado na natureza, o petróleo é um composto de hidrocarbonetos, com pequenas quantidades de nitrogênio, enxofre, oxigênio e outros elementos. O seu uso comercial dá-se com a transformação dessa mistura em combustíveis, lubrificantes, solventes e muitos outros produtos. Esse é o lado nobre da indústria petroleira. O refino do petróleo bruto e o craqueamento de alguns de seus componentes, produtos e/ou subprodutos exigem parques industriais complexos de maior ou menor porte, as Refinarias de Petróleo. Nas refinarias é que se efetua a transformação do petróleo bruto em nafta, gasolina, querosene, óleo combustível, óleos lubrificante, gás liquefeito, base asfáltica, parafina, enxofre, coque, benzina e outros derivados.
            As refinarias de petróleo geralmente são grandes e complexas plantas industriais que usam tecnologia de ponta, cujas instalações de processamento podem ser consideradas como parques químico-industriais. Para alimentar o seu funcionamento contínuo, essas unidades exigem um parque (tancagem) com depósito de matéria-prima (petróleo), que por sua vez deve ser abastecido por oleodutos ou por navios tanques. Internamente, extensas redes de tubulação levam insumos entre as unidades de processamento, formadas por grades torres metálicas. Por sua vez, os produtos acabados exigem grandes tanques para guarda temporária. Em síntese, elas são a representação física da era das grandes indústrias. 
           Para economizar custos de transporte e de construção de oleodutos, as refinarias são preferencialmente instaladas perto das fontes de fornecimento de petróleo, sua matéria-prima básica, bem como em regiões que disponham de vias navegáveis (costas marítimas e margens de grandes rios) para escoamento de sua produção e que possuam fonte de energia para operar a usina. 

E A REFINARIA FOI PARA... PERNAMBUCO

            A alta taxa de produtividade da Bacia Potiguar deu respaldo para um bom combate: a construção de uma refinaria da Petrobras no Rio Grande do Norte, luta que envolveu o mundo político, acadêmico e empresarial do Estado. A lógica era uma só. Aqui estava a fonte da matéria prima principal, o próprio petróleo, e aqui existiam condição para se obter um dos insumos primordiais para fazer funcionar a refinaria, o gás natural liquefeito.
Do ponto de vista de logística, partia-se do princípio de que transportar o petróleo para outro local – onde o óleo passaria pelos processos de refinado e craqueamento para obtenção de gasolina, metano, querosene, óleo diesel etc. – sairia muito mais caro do que simplesmente transportar os produtos acabados para o mercado consumidor, quase todo ele localizado na região Nordeste do país. O mesmo aconteceria com outros produtos e subprodutos, tais como asfalto, parafina, enxofre etc., conforme fosse a configuração da refinaria.
Em um dos seus estudos, datado das décadas de 1970/1980, o prof. Vingt-un Rosado elaborou planilhas de custos que comprovavam essas afirmativas. Esse trabalho contou com a participação de professores do Centro de Estudos Avançados da ESAM, hoje UFERSA-Universidade Federal Rural do Semi-Árido. Além do mais já havia os estudos para a criação do complexo industrial de Guamaré, mesmo que projetado para funcionar em escala reduzida. Partindo dessa lógica técnica, nada mais acertado do que a indicação de que aqui no Rio Grande do Norte é que fosse construída a grande planta de refino do Nordeste.
Entretanto os Estados do Ceará e de Pernambuco também entraram na disputa pela refinaria. O impasse estava criado até que, em 2005, dois personagens entraram na contenda. Luiz Inácio Lula da Silva, o então presidente do Brasil, queria levar a refinaria para o seu Estado natal; Hugo Chaves, então presidente da Venezuela, prometia se associar à Petrobras na construção de uma usina de refino petrolífero, desde que localizada na terra natal do general José Inácio de Abreu e Lima, um pernambucano que participou da luta de Simon Bolívar pela independência das colônias espanholas na América. Um fato passou quase despercebido: nas confabulações dos dois presidentes, o projeto da refinaria de Abreu e Lima teria que ser direcionado ao refino do óleo pesado, característico do produto venezuelano.
E lá se foi para Pernambuco a refinaria que, pela lógica técnica e econômica, deveria ser erguida no Rio Grande do Norte.
Por sua vez, o Ceará já tinha ganhado a Refinaria Lubrificantes e Derivados de Petróleo do Nordeste-LUBNOR, com capacidade de processar 6.000 barris de petróleo por dia e que produz asfalto, lubrificantes naftênicos (usados em transformadores, refrigerantes, solventes, fluidos de corte etc.), gás natural, óleo combustível para navios, gás de cozinha e óleo amaciante de fibras. A LUBNOR é uma planta de pequeno porte que, há oito anos, teve sua ampliação anunciada pela Petrobras, mas que nem chegou a ser iniciada. Cogita-se que essa ampliação não saiu por escassez de áreas livres, adjacentes às instalações já existentes. Por isso há um projeto para realocar a refinaria cearense, transferindo-a da região de Mucuripe, onde está localizada atualmente, para o Complexo Industrial e Portuário do Pecém. Se essa obra sair, Refinaria Lubrificantes e Derivados de Petróleo do Nordeste-LUBNOR pode absorver grande parte das ampliações que no futuro poderiam ser realizadas na Refinaria Potiguar Clara Camarão.

 REFINARIA CLARA CAMARÃO TORNA O RN AUTOSSUFICIENTE

O potencial de produção da Bacia Potiguar, especialmente o campo de Ubarana, sempre evidenciou a necessidade de uma unidade de processamento do óleo e do gás extraídos na região, porém somente em 1983 é que foi criado o polo industrial petrolífero, localizado no município de Guamaré. Seria o embrião de uma grande refinaria potiguar. Dois anos depois foi construída a primeira unidade de processamento de gás natural e, em anos posteriores, o terminal de armazenamento e transferência, a estação de tratamento de óleo e uma estação de tratamento de efluentes.
Em 1999 entrou em operação a planta de produção de óleo diesel. No começo deste século, teve início a operação da segunda unidade de diesel e da instalação da segunda unidade de processamento de gás natural. Em 2005 entrou em operação a unidade produtora de querosene de aviação e, em caráter experimental, o setor de biodiesel. No ano seguinte começou a funcionar uma terceira unidade de processamento de gás natural. Em novembro de 2009, foi assinado o Termo de Compromisso entre o Governo do Estado do Rio Grande do Norte e a Petrobras, para dar início às obras de infraestrutura da Refinaria Potiguar Clara Camarão, com vistas a ampliar capacidade já instalada e implantar uma unidade de produção de gasolina. Foram aplicados 215 milhões de dólares na ampliação das instalações do polo, que resultou na “criação” da Refinaria Potiguar Clara Camarão que, a partir de 2010, passou a produzir gasolina, além de nafta petroquímica.
Segundo a Petrobras, a Refinaria Clara Camarão hoje “produz diesel, nafta petroquímica, querosene de aviação e, desde setembro de 2010, gasolina automotiva, o que tornou o Rio Grande do Norte o único estado do país autossuficiente na produção de todos os tipos de derivados do petróleo”. No total a Unidade de Guamaré tem capacidade de processar 37.800 barris/dia (6.000 m3) e compreende duas unidades de destilação atmosféricas (diesel e querosene para aviação), uma unidade de tratamento cáustico regenerativo e uma unidade de produção de gasolina.

CAPACIDADE POTIGUAR SERÁ AMPLIADA

Em julho do ano passado, a Petrobrás recebeu a autorização da Agencia Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis-ANP para ampliar a capacidade de tratamento cáustico regenerativo do querosene de aviação, de 430 m³/dia para 600 m³/dia, na Refinaria Potiguar Clara Camarão, permissão essa que tem validade enquanto o projeto seguir o cronograma apresentado pela estatal à agência. A previsão é que as obras estejam concluídas no fim de 2014. Como decorrência existência da Refinaria Clara Camarão, a Petrobras e sua controlada Transpetro, têm na região 556 quilômetros de oleodutos e 542 quilômetros de gasoduto.
Embora todos esses números e fatos sejam relevantes eles não são satisfatórios se levado em conta o fato de que o Rio Grande do Norte é o maior produtor de petróleo em terra do país e, ainda, um dos maiores produtores de gás natural. No contexto geral da indústria petrolífera, a Refinaria Potiguar Clara Camarão é apenas uma unidade de pequena escala, uma minirrefinaria.
Uma simples comparação com o projeto da Abreu e Lima mostra o quanto a realidade nos é desvantajosa: enquanto a Clara Camarão processa 37.800 barris/dia (6.000 m3), a refinaria pernambucana irá refinar 230.000 barris/dia (36.600 m3), produzindo 3.600 m3/dia de nafta petroquímica, 1.600 m3/dia de gás liquefeito de petróleo, 26.000 m3/dia de diesel, 6.200 toneladas/dia de coque, 1.800 toneladas/dia de gasóleo e o H-Bio, óleo diesel que utiliza na sua composição óleos vegetais de mamona, girassol, soja, dendê etc.
Segundo informações da Petrobras, para atingir essa meta a Refinaria Abreu e Lima contará com duas unidades de destilação atmosférica, duas unidades de coqueamento retardado (processo para obtenção de coque, combustível para metalurgia e indústria de cerâmica), duas unidades hidrotratamento de diesel, duas unidades hidrotratamento de nafta, duas unidades de geração de hidrogênio e duas unidades de abatimento de emissões.
            Atualmente a unidade de Guamaré ocupa a 11ª posição no ranque nacional de produção, numa relação de doze refinarias de petróleo existentes no Brasil.

Tribuna do Norte. Natal, 04 maio 2014.

domingo, 4 de maio de 2014

Protestos no Brasil são frutos da conspiração internacional, diz premiê turco.

 Repetindo o já antes encaminhado e ouvindo tantas "hipotéticas conspirações nas ruas" em tantas localidades no mundo (Moscou, Kiev, Washington, Brasília, Coréias, Tóquio, Pequim, Ancara, etc etc), reencaminho inteligente comentário do prof. Carlos Barros Siqueira :
(A notícia é de 22 de junho de 2013 ! )
Abraspas : 

Cortez, os donos do poder sempre veem uma conspiração contra seus governos quando o povo, contrariando seus interesses, contestam suas políticas. Lá, como aqui, a população tem razões de sobra para protestar. Afinal de contas, a esquerda no poder há 10 anos não foi capaz de resolver nenhum dos problemas sociais considerados mais importantes pela população: Saúde, violência urbana, educação, transporte público. Afinal, se o governo terminasse hoje, qual seria o grande feito Econômico ou social que passaria para a história? Ou seja aqui a "conspiração" é fruto da frustração com o fracasso das políticas públicas. Um país tão rico como o nosso não consegue sequer abolir o analfabetismo. Este feito até a Bolívia e a Venezuela já conseguiram nos últimos anos. As declarações do islâmico Erdorgan  não serve para ilustrar a nossa situação e, creio que também não diz respeito a situação do país dele. O que se quer na Turquia é evitar a islamizaçao do País, que embora seja um sucesso Econômico, o que lamentavelmente não é o caso do Brasil, está em franco processo de perder o seu caráter LAICO. 

Abraço. 
CS.

Fechaspas.

Abraço. 
Cortez.

Premiê turco diz que protestos no Brasil são fruto de conspiração internacional

22/06/2013 - 19h56
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS
Em discurso para milhares de simpatizantes em Samsun, cidade na costa do Mar Negro, o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, disse que o Brasil é alvo das mesmas conspirações que, segundo ele, tentam desestabilizar seu país.
"O mesmo jogo está sendo jogado agora no Brasil. Os símbolos são os mesmos, os cartazes são os mesmos, Twitter e Facebook são os mesmos, a mídia internacional é a mesma. Eles (os manifestantes) são liderados a partir do mesmo centro", disse Erdogan.
"Eles estão se saindo melhor em alcançar no Brasil o que não puderam alcançar na Turquia. É o mesmo jogo, a mesma armadilha, o mesmo objetivo", prosseguiu.
"Quem ganhou com estas três semanas de protestos? O lobby da taxa de juros, os inimigos da Turquia", afirmou Erdogan, de um palco enfeitado com seu retrato e com um slogan que apelava aos seus apoiadores para "frustrarem o grande jogo" contra a Turquia.
"Quem perdeu? A economia da Turquia, mesmo que em pequena escala, e o turismo. Eles ofuscaram e mancharam a imagem e o poder internacional da Turquia", disse.
Também neste sábado, cerca de 10 mil pessoas se reuniram na praça Taksim, em Istambul. Muitas delas para participar de uma cerimônia para depositar cravos no local em memória das quatro pessoas que foram mortas nas manifestações.
No que parece uma reedição dos protestos de semanas anteriores, os agentes antidistúrbios dispararam bombas de gás para afastar os manifestantes das principais avenidas e também usaram canhões de água.
Durante as duas primeiras semanas de junho, este tipo de enfrentamento era frequente no centro de Istambul, mas após a violenta evacuação do parque Ghazi, no sábado passado, os protestos passaram a ser mais pacíficos.
As manifestações, que ocorrem desde 31 de maio, se espalharam por todo o país e estão voltadas, principalmente, contra Erdogan, que é acusado de autoritarismo e de querer islamizar a sociedade turca.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Desinternacionalização prematura?

Rubens Ricúpero

Fonte: folha de s.paulo. 28.04.14

Não contente com a contribuição que deu à desindustrialização precoce, a fúria arrecadadora ameaça colocar ponto final em mais um episódio prematuro de internacionalização das empresas brasileiras.
O episódio anterior, envolvendo a Interbras, a proliferação de agências do Banco do Brasil, do finado Banespa e da Petrobras, prosperou na era Geisel e acabou vítima da crise da dívida a partir de 1982. Uma das consequências foi a liquidação do ciclo dos grandes projetos de infraestrutura.
Antes do desastre, o setor público investia 6% do PIB em infraestrutura. Essa idade de ouro terminou para sempre quando o investimento desabou para menos de 2%. O encolhimento deixou capacidade ociosa em construção, que teve de se expatriar para não morrer.
Ajudadas pelos créditos do BNDES, duas ou três companhias de excelência no ramo da construção provaram ser capazes de vencer no competitivo mercado mundial. Mais tarde, a duras penas, lograram repetir a proeza algumas poucas empresas de excelência tecnológica das quais a Embraer é expressão emblemática, seguidas pelos exportadores de produtos oriundos de recursos naturais: minérios, grãos, carnes, cosméticos.
O êxito desses exemplos de internacionalização é notável por ter sido alcançado contra todas as chances. Na experiência mundial, as firmas que se tornaram multinacionais foram impulsionadas por longos períodos de crescimento acelerado de seus países, caso do Japão, da Coreia do Sul e agora da China. No Brasil, é o contrário: o baixo crescimento, a crise econômica é que forçaram a internacionalização.
Na origem do fenômeno, a Inglaterra vitoriana, a acumulação de superávits crescentes no balanço de pagamentos gerou os excedentes de capital que possibilitaram os investimentos externos britânicos, suplantados depois de 1914 pelos EUA e hoje da China. Nesse particular, o Brasil também é anomalia, pois sofre de problema crônico no balanço de pagamentos e de carência de poupança e capital doméstico.
As multinacionais brasileiras vinham sendo pressionadas de três lados: baixo crescimento, alto custo de capital e assustador aumento do deficit em conta corrente. A isso se somavam inflação crescente, ameaça de rebaixamento de crédito, taxa de câmbio errática.
Pelo menos uma multinacional que se tornara brasileira, fugindo da Argentina, decidiu virar americana para melhorar seu custo de capital e escapar do risco Brasil.
Ora, é nesse momento que o governo resolve aprovar a MP 627 criando alíquota de 35% sobre lucros no exterior de empresas que enfrentam já concorrentes favorecidas em todos esses quesitos!
Trata-se do mesmo governo que, através do BNDES, até ontem estimulava a criação de "campeões nacionais" para competir lá fora.
Não há escolha: como a escala da competição é global, e não nacional, quem não se globaliza acaba comprado, como ocorreu com a Metal Leve, a Cofap e uma infinidade de antigas estrelas da indústria. Ao liquidar as multinacionais brasileiras, o governo arrisca estimular a colonização do Brasil pelas multinacionais estrangeiras.


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domingo, 27 de abril de 2014

No Maranhão tudo é ão.

ÃOS E INHAS

Públio José – jornalista

                                     
                   Todos sabem que no Maranhão os superlativos começam pelo nome do estado, com um ão no final. E, ao se dar uma espiada mais acurada em sua história ao longo do tempo, vê-se que no Maranhão tudo é ão mesmo. A miséria maranhense é ão; a pobreza generalizada é ão; o analfabetismo também não fica atrás e é ão; a escravidão política do povo maranhense também é ão; a educação por lá também é ão pela péssima qualidade; a saúde não fica atrás de ruim e se perfila aos demais aspectos da realidade do estado também sendo ão; a economia, de tão concentrada, também é ão; as estradas, quase inexistentes, também são ão; enfim, tudo no Maranhão é ão. Tudo lá é aumentativo – com viés e essência negativos. Para completar a realidade ão do Maranhão, a Procuradoria Geral da República está em vias de entrar na Justiça do Estado pedindo a intervenção pela crise de segurança que atinge o Maranhão.
                        E, numa região do Brasil em que tudo é ão, aparece um diminutivo para confundir as coisas e criar um paradoxo digno das criações mais tresloucadas do mais tresloucado roteirista. Refiro-me ao CDP – Centro de Detenção Provisória de Pedrinhas. Ironizando ainda mais a história do Estado, esse CDP que atende pelo nome de Pedrinhas é a instituição mais ão do Maranhão, uma verdadeira casa de horrores. Segundo levantamento do jornal Folha de São Paulo, o inha do Maranhão é responsável pela morte de sete detentos só nos quatro meses deste ano, de um total de dez assassinatos ocorridos no interior do sistema prisional maranhense. E são mortes de deixar boquiabertos os piores matadores da história da humanidade, a ponto de chamar a atenção da imprensa internacional e levar a Procuradoria Geral da República, como já dito, a solicitar à Justiça a intervenção federal no Estado.
                        Segundo a Folha, para a imprensa estrangeira, “Pedrinhas tornou-se, desde o ano passado, sinônimo de violência e barbárie do que ocorre nas cadeias brasileiras”. Ou seja, do bárbaro, insano e bestial sistema prisional brasileiro, Pedrinhas se destaca por ser ainda mais bárbaro, mais insano, mais bestial. Por lá, com a capacidade gerencial ão do governo, as coisas alcançaram o mais alto patamar do ão, do absurdo. Vídeo da Folha mostra em detalhes o horror de três presos sendo decapitados, “enquanto seus algozes comemoram, com deboche, o assassinato frio”. E isso tudo acontecendo em um Estado dominado pelo poderoso senador José Sarney, cujo staff – entre asseclas, correligionários, lideranças as mais diversas e familiares em abundância – faz o Maranhão permanecer no mais baixo degrau da escala da pobreza, da miséria, da ignorância, da violência, do analfabetismo.   
                        E Pedrinhas? Não é uma graça esse nome? Pedrinhas... Parece até literatura infantil. Pedrinhas... Em criança, lembro de passar tempo na praia recolhendo pedrinhas. Com elas eu cultivava a imaginação, além de usá-las para várias atividades de lazer. Pedrinhas eram dinheiro nos jogos da meninada; pedrinhas eram munição para baladeiras; pedrinhas eram veículos nas estradas da imaginação; pedrinhas eram elementos de decoração na sala de estar da família; pedrinhas, nas aulas de desenho da escola, eram elementos para exercitar os dotes artísticos de futuros pintores e desenhistas. Tudo muito inocente; tudo muito inhas. Hoje, o Brasil descobre que em um ambiente ão, como o do Maranhão, o inha representa o lado mais negro, mais sórdido da perversidade humana agregada à incompetência – a ponto de tornar o já enorme ão do Maranhão muito mais ão. Pedrinhas... Pobre Maranhão...

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Marco Civil da Internet sancionado hoje, 23.

Marco Civil da Internet: e eu com isso? Saiba o que muda na sua vida

Depois de três anos de discussão, o Marco Civil da Internet finalmente foi sancionado nesta quarta-feira pela presidente Dilma Rousseff. Sabe-se que o projeto estabelece os direitos e deveres para usuários e provedores. Mas o que realmente muda na sua vida a partir de agora?
Para ajudar a entender os principais pontos e de que forma mudará a sua forma de navegar na web, ZH produziu uma série de perguntas e respostas sobre essa que é chamada de a "Constituição da internet". 

Leia mais:
Marco Civil da Internet é aprovado pelo SenadoEntenda quais são os três eixos do marco civil da internet


PERGUNTAS E RESPOSTAS

Como a regra da neutralidade pode melhorar a minha navegação?
O princípio da neutralidade diz que a rede deve ser igual para todos, sem diferença quanto ao tipo de uso. Assim, ao comprar um plano de internet, você paga somente pela velocidade contratada e não pelo tipo de página que vai acessar. Ou seja: você poderá acessar o que quiser, independente do tipo de conteúdo, com igual velocidade. Os provedores não poderão ter acordo com determinado site para carregá-lo mais rápido, prejudicando algum concorrente. 

As empresas ainda poderão vender planos com velocidades diferentes?Sim, as empresas que fornecem acesso (como Vivo, Claro, TIM, NET, GVT, entre outras) poderão continuar vendendo velocidades diferentes, como 1 Mbps, 10 Mbps e 50 Mbps, por exemplo, assim como fazem hoje. A diferença é que as provedoras não poderão bloquear o acesso a determinados serviços e aplicativos, assim como vender pacotes segmentados por conteúdo - só para redes sociais ou só para e-mail, por exemplo.

Como posso ter certeza de que meu direito de privacidade vai ser mantido?O Marco prevê a inviolabilidade e sigilo de suas comunicações. Somente por meio de ordens judiciais, para fins de investigação criminal, será possível ter acesso a esses conteúdos. O texto determina que as empresas desenvolvam mecanismos para garantir, por exemplo, que os e-mails só serão lidos pelos emissores e pelos destinatários da mensagem. 

A que posso recorrer se me sentir lesado?Os Procons, a Justiça e o Minsitério Público são instâncias recomendadas para buscar seus direitos. Após avergiruação, se ficar comprovado que houve descumprimento da lei as empresas poderão ser penalizadas com advertência, multa, suspensão e até proibição definitiva de suas atividades. E ainda existe a possibilidade de penalidades administrativas, cíveis e criminais.

Mas não existirá mais marketing direcionado para as coisas que eu gosto?Isso vai depender as permissões que você liberar. As empresas de acesso (como Facebook e Google) não poderão espiar o conteúdo das informações trocadas pelos usuários na rede sem prévia autorização.

Como posso excluir um conteúdo da web?A exclusão de conteúdo só pode ser solicitada por ordem judicial – assim, não fica a cargo dos provedores a decisão de manter ou retirar do ar informações e notícias polêmicas. Portanto, o usuário que se sentir ofendido por algum conteúdo no ambiente virtual terá de procurar a Justiça, e não as empresas que disponibilizam os dados. A exceção fica por conta da divulgação não autorizada na internet de conteúdo sexual. Nesses casos, o participante ou seu representante legal deve enviar uma notificação para o provedor de aplicações (como Facebook e Google), que tem de tornar esse material indisponível.  

Não vou mais ter liberdade de expressão na internet?Sim, terá. Conteúdos publicados pelos usuários só serão retirados, obrigatoriamente, após ordem judicial. As entidades que oferecem conteúdo e aplicações serão responsabilizadas por danos gerados por terceiros apenas se não acatarem a ordem judicial. Por isso, a liberdade de expressão deverá ser fortalecida na web, pois vai acabar com a censura privada, em que aplicações na internet acabam sendo obrigadas elas mesmas a julgarem se determinadas opiniões devem permanecer no ar ou não, mediante notificações que recebem dos ofendidos.
Fonte: zerohora.com.br

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Novo programa de distribuição de alimentos para entidades assistenciais.

Quinta-feira, 17 de abril de 2014

PAA: Governo do RN e uma Prefeitura do Estado aderiram à nova modalidade do programa

Segundo informação do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), na capital do país, dados computados até sexta-feira passada (11), registram que já são 447 municípios e 23 Estados que se encontram aptos a operacionalizar o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), por meio da modalidade de Compra com Doação Simultânea.
Na modalidade de Compra com Doação Simultânea, os produtos adquiridos dos agricultores familiares são doados às entidades da rede socioassistencial, aos equipamentos públicos de segurança alimentar e nutricional (restaurantes populares, cozinhas comunitárias e bancos de alimentos).
Desde junho de 2013, quando o Governo Federal passou a fazer os pagamentos diretamente aos agricultores que participam do novo modelo, o PAA já repassou mais de R$ 64 milhões às famílias.
Por enquanto, na instância do RN já foram formalizadas as adesões do Governo do Estado e de uma única Prefeitura: a do município de Santo Antonio.
Veja a lista de todas as prefeituras que já aderiram ao PAA clicando AQUI.


Semana Santa

Programação da Semana Santa, na Paróquia de Candelária.
Os horários das Celebrações da Semana Santa que vão acontecer na Igreja Matriz de Candelária são os seguintes: próxima quinta, quinta-feira Santa: a Missa do lava-pés e Ceia do Senhor acontece às 19:30. Na Capela Mãe Peregrina, no Bairro Latino, a Celebração acontece às 16:00. Para esta Celebração os fiéis são convidados a levar alimentos, para serem partilhados com os mais pobres. Logo após, vai haver vigília com Adoração ao Santíssimo Sacramento, no Salão Paroquial, até a meia-noite.
Sexta-feira Santa, dia 18: a vigília com adoração ao Santíssimo Sacramento continua a partir das 08:00 até o meio-dia. Às 15:00, terá início a Via Sacra, saindo da Residência do casal Ivson e Luciana, na Rua Raposo Câmara, n° 3385, em direção a Igreja Matriz. Chegando na Igreja Matriz, terá início a Celebração da Paixão do Senhor. Na Capela Mãe Peregrina, no Bairro Latino, a Celebração da Paixão do Senhor, acontece às 16:00.
Sábado Santo, dia 19: às 08:00 vai haver a limpeza e arrumação da Igreja Matriz. A Missa da Vigília Pascal vai acontecer às 19:30. Para esta Celebração os fiéis são convidados a levar vela e vasilha, para levar água benta. Na Capela Mãe Peregrina, no Bairro Latino, a Vigília Pascal vai acontecer às 19:00.
Domingo de Páscoa, dia 20: a Missa da Ressurreição do Senhor vai acontecer apenas às 17:00. Não vai haver Missa na Igreja Matriz, às 07:00 e às 19:30. Na Capela Mãe Peregrina, no Bairro Latino, esta Celebração acontece às 16:00.
Veja quadro abaixo:

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Mineradora teve lucro em 2013, mas.......

Não consideramos o cenário positivo para a mineração”Publicação: 13 de Abril de 2014 às 00:00 | Comentários:

Tribuna do Norte - 13.04.2014
Vinícius Menna - Repórter


A mineradora Tomaz Salustino conseguiu aumentar seu lucro líquido de 2012 para 2013 em quase três vezes, saindo da casa dos R$ 2,2 milhões para R$ 4,3 milhões. Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, o diretor industrial e comercial da companhia, Tomaz Salustino Soares, explica como esse resultado foi possível.
Júnior SantosExecutivo e neto do fundador da Mineração Tomaz Salustino fala sobre o salto da empresa em 2013, mas afirma que para o setor, de forma geral, momento não é bomExecutivo e neto do fundador da Mineração Tomaz Salustino fala sobre o salto da empresa em 2013, mas afirma que para o setor, de forma geral, momento não é bom


Na entrevista, ele comenta ainda sobre o cenário da mineração do Rio Grande do Norte, que aponta como negativo, e trata ainda de questões como o código da mineração e a possibilidade de recuo nos investimentos do setor no país no ciclo 2014-2018.

Mesmo ciente das dificuldades que poderão vir pela frente, Tomaz Salustino garante: os investimentos na companhia não vão diminuir em 2014. “Pretendemos investir na melhoria da nossa Usina de beneficiamento com o intuito de melhorar sempre a recuperação de teores”, afirmou.

O que provocou o crescimento do saldo de lucros/prejuízos acumulados de R$ 2,2 milhões, em 2012, para R$ 4,3 milhões, em 2013? Quais fatores também contribuíram para quase triplicar o lucro líquido da Tomaz Salustino, que em 2012 foi R$ 1,3 milhões e em 2013 atingiu R$ 3,2 milhões?

Nossa empresa vem ao longo do tempo implantando modernidade em sua administração com reorganização dos setores administrativos colocado em pauta pelo nosso ex-diretor Rogerio Barreto Drummond e aplicação e melhoria das atividades produtivas cujo objetivo foi alcançado no ano de 2013. Outro fator importante foi a venda de imóveis que há algum tempo não faziam parte do objetivo da empresa.

Mas a que se deve esse bom momento?

O bom momento deveu-se as altas cotações do Tungstênio no mercado internacional bem como a variação cambial havida no ano. Esperamos que em 2014 haja continuidade desses fatores para que tenhamos novo sucesso.

Os impostos incidentes sobre o faturamento em 2013 caíram em mais da metade. A que isso se deve? A Tomaz Salustino possui algum tipo de isenção fiscal?

A incidência de ICMS é somente sobre a venda de scheelita para o mercado interno e temos isenção pelo Proadi desde 2008. Quando há exportação a alíquota é zero. A isenção chega até a 70% do imposto devido.

O balanço mostra que os custos de produção e/ou serviços aumentaram, embora o custo dos produtos vendidos tenha caído. Por que isso ocorreu?

Com o avanço da mina e continuidade da extração os custos tendem a aumentar devido a pesquisa interna e demais procedimentos. Como a alíquota é zero para exportação e o preço internacional esteve bem melhor o custo do produto vendido caiu.

Quanto a Tomaz Salustino produz? É apenas scheelita?

Em torno de 15 toneladas ao mês de concentrado de scheelita.

Para onde a mineradora vende a produção?

De 50% a 70% ficam no mercado nacional e o restante vai para exportação. A scheelita é vendida para as metalúrgicas de São Paulo e também é exportada para os Estados Unidos, China e Inglaterra.

Por onde a empresa escoa a produção?

Com relação ao mercado interno, é feito o destino rodoviário para São Paulo e a exportação sai pelo Porto de Natal, Suape - em Pernambuco - e Pecém, no Ceará.

A possibilidade de criação de um porto, localizado em Porto do Mangue, com a vocação para o transporte de cargas provenientes da mineração, pode beneficiar a empresa e a mineração do RN de que forma?

Esse sonho dos Potiguares é sempre bem vindo e esperado e beneficiaria principalmente as empresas de alta produção. Apesar de ser de grande valia, não temos grandes problemas de escoamento.

Como está o cenário para a mineração no Estado? É positivo?

Não consideramos positivo. É uma reclamação geral principalmente dos pequenos produtores. Os maiores sempre estão a exigir melhor apoio governamental, pois os Secretários de Estado nunca são ligados a área e tratam do assunto num segundo plano sempre com esperança no governo federal no que toca ao escoamento de seus produtos pela falta de recursos locais.

Qual é a perspectiva para 2014?

No nosso entendimento permanecerá como está.

As possíveis mudanças com o código da mineração são temidas pelos empresários do setor, já que preveem aumento da alíquota do principal tributo pago pelas mineradoras, a CFEM, além de tornar mais rigorosa a concessão das áreas onde se encontram os minérios. Qual a análise que o senhor faz a respeito desse assunto?

É preciso um aprofundamento na matéria com mudanças paulatinas e se adaptando a realidade, pois do jeito que querem fazer poderá haver transtornos e interferência internacional.

De acordo com relatório do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), com base em informações passadas pelas mineradoras, os investimentos em mineração no Brasil devem recuar no ciclo 2014-2018. Essa análise estaria sendo puxada por uma queda no preço do minério de ferro e por aumento dos custos de produção. Como o senhor vê essa questão?

Esses fatores de recuo são influenciados pelo mercado internacional, pois países grandes consumidores reclamam do preço das commodities há muito tempo e o aumento do custo é inerente do setor de mineração.

A produção da Tomaz Salustino é voltada para a scheelita. Nesse caso, ainda com base no relatório do Ibram, o senhor vê um cenário negativo para este produto, a scheelita, assim como no caso do ferro? Qual o cenário hoje e para 2018?

Produzimos somente scheelita e por se tratar de uma substancia rara na natureza é uma exceção a regra mineral, pois suas normas são estabelecidas por um pequeno grupo de produtores e grandes consumidores e o preço ditado pelo mercado europeu e, hoje, com a influência da China – maior produtor e maior consumidor mundial.

Então o cenário é positivo?

Positivo para o nosso segmento se se mantiver esse bom momento.

O senhor diria que o setor deverá crescer em que ritmo este ano?

Ficando no que está já é de bom tamanho, mas esperamos pouco crescimento acima do que ocorreu ultimamente.

O que está favorecendo o preço do tungstênio nesse momento? Quanto esse preço subiu em 2013, na comparação com 2012 e qual é a projeção para 2014?

As altas cotações no mercado mundial aplicadas ao tungstênio fizeram com que chegássemos a esse bom momento. A variação chegou a beirar os 20% em relação a anos anteriores. Como o crescimento ou a crise depende sempre de fatores externos, ficamos nessa expectativa para 2014.

Quais são os planos de investimento para empresa para este ano? Quanto pretende investir? Esse valor é maior ou menor que no ano passado?

Pretendemos investir na melhoria da nossa Usina de beneficiamento com o intuito de melhorar sempre a recuperação de teores. Deveremos investir quantia em torno de R$ 400 mil, valor um pouco acima do que investimos nesse setor em 2013.

Em que vai investir?

Moinho de barras, transportadores de correia, jig, mesas concentradoras, bombas de polpa e todos os acessórios pertinentes ao projeto.

Economistas apontam um ano difícil para o Brasil este ano. Juros e inflação em alta estão entre os problemas. Como o senhor analisa o ambiente de negócios para as empresas nesse contexto? É um ano difícil?

Em caso de confirmação dessas previsões, teremos um ano negro para a mineração como um todo, difícil em tudo, tanto para enfrentar como para dar sequência.

Que gargalos o setor de mineração enfrenta hoje e como eles podem ser superados?

Quando estamos atravessando bons momentos a dificuldades são sempre superadas e esse gargalos são sempre ligados as políticas públicas defasadas, exigências por demais injustificadas, órgãos fiscalizadores sem a mínima estrutura e, para resolver, somente eliminando-os.

O senhor diz que a maior parte da scheelita fica no Brasil e segue para metalúrgicas em São Paulo. Como está esse mercado consumidor? Está aquecido, retraído ou estabilizado?

Realmente essa é a média histórica de todos esses 70 anos. Nesse início de ano podemos afirmar que o mercado interno está retraído, o que é justificado pela pouca procura do produto.

domingo, 13 de abril de 2014

Um primoroso artigo de Cláudio Emerenciano. Quadrantes de hoje só teve artigos de primeira.

Encontros da vida

Publicação: 13 de Abril de 2014 às 00:00 | Comentários: 0
Tribuna do Norte
Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

Madrugada. A cidade dorme. Abro a janela do meu mundo e contemplo minhas raízes sentimentais. Ingressei anos atrás na chamada terceira idade. Transpus há algum tempo o “rubicão” dos sessenta anos. O silencio da cidade é cúmplice na tentativa de reencontrar afeições, sonhos, esperanças, alegrias, tristezas e motivações do seu universo humano. A cidade sofreu, desde minha infância, fantástica, inesperada e imprevisível transformação. Metamorfose igual ao desabrochar de uma rosa. As pétalas se abriram e revelam outro ser. Semelhante também à transfiguração de uma moça. Ontem menina, amanhã mulher. Inquieta-me a dúvida sobre a maneira de ser dos seus habitantes. Tempo entre minha infância e, agora, esse “novo mundo”.

As ventanias, bruscas e fortes, sobretudo na imensidão da noite, rompem a calmaria do sono da cidade. Os morros que a adornam parecem declamar, aos primeiros clarões da aurora, a poesia da natureza. Ostentam sua indumentária verdejante e albergam pássaros, que cantam sua renovada saudação ao novo dia. É uma espécie de sinfonia pastoral, que, infelizmente, é despercebida por maioria da população.

Há conceitos sedimentados séculos e séculos atrás. Alguns emergiram da aurora dos tempos. Homero, na Ilíada e na Odisséia, decantou o espírito libertário de povos que habitavam margens de mares e oceanos. Seu mais notável personagem, Ulisses, possuía os atributos da coragem e da ousadia ante o desconhecido por vir de uma ilha, Ítaca. A provinciana Natal dos anos vinte, trinta e quarenta, cenário das emulações e confrontos entre xarruas (moradores da Cidade Alta) e canguleiros (habitantes da Ribeira e das Rocas), está consagrada nas “Actas Diurnas” de Cascudo. Essas crônicas sublimam hábitos, costumes e sonhos de uma cidade voltada para o mar. Cidade livre, aberta, imbuída de um espírito talássico, como sempre dizia e repetia o saudoso Odilon Ribeiro Coutinho. Espírito e circunstâncias genialmente captados por Newton Navarro.

Somos universais. Temos sonhos estendidos e debruçados sobre o mundo. Sentimos, sofremos ou desfrutamos alegrias e tristezas. O amor à mulher amada, à terra e aos seus encantamentos. Eis o tema exclusivo dos nossos poetas. Reporto-me ao meu tio-avô, Gotardo Neto, cujos poemas suspiraram a amargura do amor perdido, a desilusão da paixão desfeita, a perda, mas não o esquecimento, da musa de sua vida e dos seus sonhos. As cartas de Heloísa eternizaram seu amor por Abelardo. As de Gotardo projetam seus sentimentos no infinito. O mesmo aconteceu com Ferreira Itajubá e Otoniel Menezes. Laura e Petrarca, Beatriz e Dante, Julieta e Romeu, assumiram nesses poetas versões locais dos seus dramas e tragédias.

Há um contraponto afetivo e nostálgico. Subitamente me sinto arrebatado e reconduzido ao passado. Natal dos anos quarenta e cinquenta. Cidade da minha infância. A Avenida Rio Branco, centro e coração da cidade, era um largo e extenso corredor onde se alternavam, predominantemente, casas em estilo “belle époque” e as grandes lojas da cidade. Suas amplas calçadas eram assombreadas por abundantes “ficus de bejamim”.  Suas cercanias, onde ainda hoje se incluem o “Grande Ponto”, as avenidas João Pessoa e Ulisses Caldas, as Praças João Maria, Sete de Setembro e André de Albuquerque, formavam, naquele tempo, um conjunto harmonioso, bucólico e saudosista. Subsistia um climax evocativo do pós-guerra. As pessoas viviam descontraidamente. A placidez do cotidiano era contagiante. Laços provincianos coexistiam com as inovações trazidas pela Guerra nos hábitos e costumes. Germinava latente, desde os tempos épicos da aviação, uma vocação cosmopolita.

Bares, restaurantes, casas de lanche e sorveterias, confeitarias, o célebre “Natal Clube”, os cinemas Rex e Rio Grande, a Praça Pio X, ainda exibem, em minha memória, as marcas de uma época em que o regional incorporava espontaneamente o universal. Sem rendição nem mácula. Os bondes circulavam em quase toda cidade.  Seus passageiros, sem a pressa dos dias de hoje, deixavam entrar em seus corações a beleza singela da cidade que amavam. Êxtase num pomar. Esplendor de vida e sentimentos. O ritmo da vida na cidade não conhecia o estresse nem a ansiedade.

Os homens capturam sentimentos, sonhos e experiências do passado para legitimar seu presente. A alma da cidade hoje é o que ela foi no passado. É intemporal, como disse João do Rio em “A Alma encantadora das Ruas”. São vivências. Como as que ganharam perenidade em “Cabra das Rocas” de Homero Homem. Em todas as manhãs, o sol despontando e o dia nascendo, a cidade vive, unindo passado e presente...   

Li, recentemente, belíssima crônica de Rubem Braga. Decantando o viver no Rio de Janeiro. Chamando-o de “paraíso terrestre”. O meu paraíso é Natal.  Sempre viva na ternura dos que verdadeiramente a amam e liricamente a possuem.  

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Natal, cidade sedentária.

Uma cidade sedentária

Sol o ano todo, praias paradisíacas, ventos constantes, temperatura amena e o ar mais puro das Américas. Se a capital do Rio Grande do Norte não tivesse sido fundada no dia 25 de dezembro, bem que seu nome poderia ser “Paraíso”. Neste cenário, não há desculpas pra ficar em casa esparramado no sofá, assistindo televisão e bebendo litros de refrigerante. A regra aqui é se movimentar. Ou deveria ser.

Enquanto o discurso paira sobre a teoria, descreve-se uma Natal que, na prática, não existe. Por vocação, é sim um convite às atividades físicas ao ar livre. Mas por falta da contrapartida do poder público, com a construção de calçadões de qualidade, parques e ciclovias, os natalenses se afundam no sedentarismo. Pasmem: Natal é a segunda capital mais inativa fisicamente do país, perdendo apenas para Recife.

A constatação é da Vigitel Brasil, estudo realizado anualmente pelo Ministério da Saúde por meio de entrevistas telefônicas. Na última edição, divulgada em agosto de 2013 e referente a 2012, foram ouvidas em Natal 1.689 pessoas com mais de 18 anos de idade, das quais 625 eram homens e 1.073, mulheres.

“Os resultados da Vigitel são bem preocupantes e têm se repetido ao longo dos anos. Não tem sido observada nenhuma mudança positiva neste aspecto”, alertou Eduardo Caldas, professor do Departamento de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e doutor em Ciências da Saúde.

Na capital potiguar, a estimativa é de que 18,2% da população seja inativa. Entende-se por adulto fisicamente inativo aquele indivíduo que não praticou qualquer tipo de atividade física no lazer nos últimos três meses e que não realiza esforço físico intenso no trabalho, não se desloca para o trabalho ou para a escola a pé ou de bicicleta e não participa da limpeza pesada de sua casa.

Caldas lembrou ainda que, no quesito inatividade física, Natal atinge a liderança quando se leva em consideração apenas o público feminino. Na capital, 18,3% das mulheres estão totalmente entregues ao sedentarismo, ficando à frente de Teresina (17,9%) e Maceió (17,9%). Já os homens são prata com percentual de 18,1%, perdendo as primeiras posições para as também nordestinas Maceió (18,4%) e Recife (21,5%).

“Uma das causas disso tudo é a falta de espaços públicos destinados para a atividade física. Quando há, são projetos muito pontuais. O que temos de espaço na Zona Norte, Leste, Oeste e, até mesmo, a Sul?”, questionou o doutor em Ciências da Saúde, lembrando que as cidades que mais se destacaram positivamente na Vigitel foram aquelas em que há muitos espaços destinados ao exercício físico.

Para efeito de comparação, Florianópolis, famosa não só pelas praias – como Natal -, mas pela grande quantidade de parques, foi a melhor avaliada entre as 26 capitais e o Distrito Federal em relação à inatividade física da população. Lá apenas 11,4% dos florianopolitanos são inativos. No caso dos homens, esta média cai para 9,5%, sendo um pouco maior entre as mulheres (13,2%).

Na capital de Santa Catarina, há 12 parques municipais. Só um deles, o Parque dos Coqueiros, localizado na região continental de Florianópolis conta com uma área de aproximadamente 50 mil metros quadrados. O equipamento possui uma pista de caminhada e ciclovia de 850 metros, quadras de futebol de areia, uma quadra de futebol com grama sintética, quadra de vôlei, academia da saúde, aparelhos para alongamento, parque infantil, um pequeno lago e uma grande área de gramado.

Natal, ao contrário, tem apenas um parque municipal: o Parque da Cidade. Herança do primeiro mandato do prefeito Carlos Eduardo e assinado por Niemeyer, o equipamento está atualmente fechado com reabertura prevista somente em maio próximo.

Ainda sob a tutela do município, há Alameda Marilene Dantas, na Alexandrino de Alencar, e a área de Lazer da Zona Norte, no bairro de Panatis. Este último espaço, está incluído no cronograma de reforma da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Sensur) e deve ser requalificada ainda este ano, assim como outras 254 praças da cidade, hoje em estado de abandono.

Até maio, com as obras previstas para a Copa do Mundo, Natal deve ganhar um novo calçadão na orla- o atual não é indicado para corrida ou caminhada -, com ciclovias e academias da terceira idade e parquinhos para as crianças. A Via Costeira, usada por alguns praticantes de corrida e caminhada, tem sido condenada pela insegurança ao longo da semana. Aos domingos tem tido uma de suas faixas fechadas para a prática da atividade física.

NOVO JORNAL inicia série de reportagens

Os temas relacionados a saúde, bem-estar e qualidade de vida tem despertado cada vez mais interesse. Muitos, em busca de inspiração ou de bons exemplos, curtem e compartilham histórias, reportagem e fotografia que traduzem este novo momento.

De um modo geral, parece que a população, antes inerte aos males da vida moderna – má alimentação, sedentarismo, obesidade e estresse - , acordou, passando de vítima do acaso à salvadora da própria vida.

A partir disso, pensando justamente nestas pessoas que buscam novos hábitos, é que, a partir de hoje, o NOVO JORNAL terá um espaço só para os assuntos relacionados à saúde. A matéria de estreia tentou traçar, justamente, a posição do natalense no cenário do sedentarismo. Os dados existentes mostram que há muito a ser mudado ainda. E, mesmo que o poder público não cumpra a sua parte, não dá pra ficar de braços cruzados esperando. E é sobre o importante “primeiro passo” que o NOVO JORNAL tratará na próxima reportagem, a ser veiculada no próximo sábado.

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