sexta-feira, 22 de novembro de 2013

SEXTA-FEIRA, NOVEMBRO 22, 2013

Empresário culpa “poderosos do PMDB” por falta de milho no RN


O empresário Gustavo Rocha, da Lanila, criticou a classe política do Rio Grande do Norte, especialmente a bancada federal, especificamente o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves (PMDB), por abandonar o setor agropecuário. Segundo o empresário, a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) quebrou a regularidade na distribuição de milho para o Estado, por incompetência do governo federal, mas o que é pior, é que “ministro do PMDB, gente poderosa da República, não resolve, por falta de vontade política”.
“A CONAB tem distribuição do milho para os produtores, e é pago, é comprado, com subsidio do estoque regular, mas de um bom tempo para cá, principalmente no auge da seca, reduziu bastante a cota por conta da incompetência do governo federal de comprar e estocar e distribuir. E agora, em novembro, por incompetência do governo, não conseguiram trazer o milho para o RN. Ou seja, em novembro, a cota, que já era minguada, não vai ter. Há medo de que não tenha em novembro e em dezembro e em seguida a estiagem”, disse o empresário.
Gustavo Rocha, que é filho do ex-secretário de Administração do governo Garibaldi Filho (PMDB) e ex-presidente da Federação da Indústria (FIERN), Bira Rocha, disse que “ministro do PMDB, gente poderosa da República, e não resolve; falta de vontade política”. Segundo ele, “o lobby do agronegócio de qualquer Estado é maior que o nosso. Aqui é agricultura familiar”, criticou. “Eu não tenho cota, consumo trinta, quarenta toneladas de milho por mês, mas não dependo dessa cota. Esse grito, portanto, não é pessoal. Estou dando para a classe, para os pequenos produtores, que é quem se beneficia desse milho. O meu eu compro de carreta, trago da Bahia, Mato Grosso, pago mais caro”, explicou o empresário.
O empresário disse ainda que o presidente da Câmara, Henrique Alves, desde o ano passado afirmou que iria atuar para resolver o desabastecimento de milho no Estado. “Agora nem dizer mais isso. Ele diz mais nada”, disse, criticando a classe política como um todo. “Acho que a classe política não está enxergando o dano político que causa (com o desabastecimento de milho) porque nossa classe é desmobilizada, mas os pequenos produtores estão sofrendo, não estão fazendo chegar o clamor dele. Isso vai dar problema com o agravamento da estiagem”, concluiu.
Ainda segundo Gustavo Rocha, que utilizou as mídias digitais para ecoar seu grito, apenas o deputado federal Felipe Maia (DEM) se prontificou a estudar o assunto. “Apenas Felipe Maia se manifestou; disse que ia procurar saber e cobrar providências”.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Jango: Brasil começar resgatar a memória do Presidente injustiçado.

Roberto Amaral » Jango
Carta Capital – Política
por Roberto Amaral — publicado 19/11/2013
O Brasil começa a resgatar a grande dívida com a memória do mais injustiçado dos homens públicos brasileiros
Foto:Dick DeMarsico / Biblioteca do Congresso dos EUA
Jango
A exumação e a análise minuciosa dos restos mortais de João Goulart atendem a um clamor da cidadania brasileira e dos familiares do único presidente que morreu exilado
 O Estado brasileiro, ao receber com honras de chefe de Estado os restos mortais de João Goulart, começa a resgatar a grande dívida de todos nós para com a memória do mais injustiçado dos homens públicos brasileiros em toda a República. À esquerda, injustamente, e à direita, justamente. Por isso mesmo, é apreciável o gesto da Presidente Dilma e eu gostaria de registrá-lo, senão como uma auto-crítica coletiva, ao menos como o reconhecimento da necessidade de revisão do papel histórico que Jango ocupou em nossa História. Por isso mesmo, é ensurdecedor o silêncio da esquerda  brasileira, que, passados tantos anos da queda da ditadura Vargas (1937-1945),  na qual muito sofreu, não conseguiu, ainda, superar a intoxicação do udenismo.
Se o ‘Estado Novo’ parece materialmente bem distante, a doutrinação anti-varguista, anacrônica, anistórica, acrônica,  é onipresente nos meios de comunicação. Jango não poderia dar certo, não lhe foi  permitido dar certo, pois seu sucesso seria a vitória do fantasma varguista, o espectro que a burguesia escolhera para assustar-se.
Não terá sido mero acaso que, vencidas décadas, vencido o ‘Estado Novo’ e vencido o mandarinato militar (1964-1985), militantes  progressistas e de esquerda em geral, a esquerda católica principalmente, o emergente sindicalismo do ABC (1978) que desembocou no PT (1980) — para quem o passado do sindicalismo brasileiro era só ‘peleguismo’  bem como a  socialdemocracia conservadora do tucanato    tenham apostado todas as fichas  no projeto de  limpar da História a presença do varguismo e do seu trabalhismo.  O que colocar em seu lugar ainda não está definido, nem são tão diversos os usos e costumes sindicais de ontem e de hoje, se o ‘sindicalismo de resultados’, que não é a proposta de uma só Central, for sua melhor amostra.
A fúria é explicável na lógica do capitalismo tupiniquim, pois Jango ousou trair os interesses de sua classe de origem simplesmente ao filiar-se ao trabalhismo e defender, segundo suas circunstâncias, os interesses dos trabalhadores assalariados, num país que já conhecia a industrialização e se encontrava a braços com a crise rural (em um de seus momentos mais agudos), o cadinho da crise urbana de nossos dias. Já distantes  da estancada experiência do governo Jango (1961-1964), vencida a ditadura militar,  lavadas as feridas, é possível fazermos a análise crítica dos erros, para os quais nossas organizações não tiveram olhos para ver quando era preciso, e muitas vezes, foram por     eles responsáveis. De um lado, o desprezo para com os recados da correlação de forças desfavorável,  de outro o estímulo ao voluntarismo minando a possibilidade de hegemonia dentro do governo.
A emergência das massas acompanhou Jango na subida da rampa do Alvorada, no rasto final da Campanha da Legalidade, inconcluída até 1988, derrotando a tentativa de golpe de Jânio e a tentativa de golpe dos militares, Denis à frente. Mas lá não ficou para garantir a permanência do novo projeto. A virtù é atributo de quem sabe ganhar (o governo) e nele conservar-se, lembra-nos o gênio fundador da ciência política.  O vice feito presidente tratará de compor-se no sistema  com o recurso que domina, suas tradicionais negociações entre generais, na mesma linha das negociações de sempre com empresários, partidos, políticos, líderes estudantis e sindicalistas. Mais uma vez, e não pela última vez, o estadista brasileiro abandona a grande política  para suicidar-se na pequena política.  De resultado efetivo, a emergência do povo-massa, mas povo sem organização. A vitória da legalidade  fizera ferver em temperaturas mais altas o ódio renitente, o ódio do medo e o ódio da vingança, até mesmo  o ódio puro ódio  de nossos terratenientes, de nossos latifundiários (e Jango vinha da propriedade da terra!), de nossa burguesia industrial atrasada, de nossa burguesia financeira atrelada a Wall Street. A avenida Paulista e a avenida Rio Branco jamais  perdoariam o herdeiro de Vargas por  haver-se aliado ao movimento sindical que lhes pedia aumento de salário e promovia greves,  logo ele, fazendeiro e burguês. Foi fácil elegerem-no como o adversário a ser abatido.
O Marechal Odílio Denis (por quem certa esquerda manifesta apreço em face de seu comportamento no 11 de novembro de 1955), afirma  em suas memórias (Ciclo revolucionário brasileiro, 1980), que a conspiração para depor Jango teve início imediatamente após sua posse na Presidência. Poderia ter dito, sem mentir, que a saga golpista recomeçara com a eleição e posse de Vargas, o ex-ditador deposto que ressurgia do exílio de Itu para voltar ao Catete nos braços do povo e segundo as regras políticas e eleitorais estabelecidas pelos adversários vitoriosos para impedir seu retorno. Denis, poderia ter dito que o golpismo se assustara com a posse de João Goulart no Ministério do Trabalho O confronto militar de 11 de novembro de 1955, cujo saldo foi a recuperação da legalidade, cobrara  preço altíssimo à direita militar: engolir Jango, o ‘sapo barbudo’ daquele então, para salvar o mandato de Juscelino, ameaçado pela tentativa de golpe de Carlos Luz, Café Filho, Pena Boto, Juarez Távora, Eduardo Gomes e Carlos Lacerda, entre outros muitos.  Mas, em 1961, depois da vitória conservadora representada pela eleição de Jânio Quadros, dar posse na Presidência ao  vice trabalhista, imiscuído como contrabando numa chapa heterodoxa formatada pelo povo, isso já era demais.
O resto é história contada e sabida.
O  golpe de 1º de abril, sendo a tragédia de nossa democracia, foi, apenas, um marco na violência  cevada ideologicamente no udeno-lacerdismo dominante em todo esse largo  período; essa violência, potencializada pelo inefável apoio da grande imprensa, pervadia o mercado e os quartéis, e frequentava a sociedade e a caserna mediante grupamentos e grupelhos civis-militares como a Cruzada Democrática, do grotesco almirante Pena Boto, e o Clube da Lanterna, dirigido por lacerdistas.
Venho falando no ódio a Jango, que, porém, só entra em cena quando (e pour cause) transformado  em herdeiro presuntivo  de Vargas. Pois o ódio real, original,  era mesmo  ao ditador que voltara à Presidência pelo voto, e comandava, sob rigoroso respeito à Constituição e às leis,  um governo nacionalista e democrático. Ameaçadoramente nacionalista.
Na verdade, este era o projeto que se procurava deter  com  o preventivo defenestramento de Jango: morto Vargas,  destruir a sobrevivência do trabalhismo  de viés nacionalista.
Vem, pois,  de longe, o projeto udeno-militar de destruição do trabalhismo ( a então aproximação brasileira possível do socialismo), como doutrina e como ação, muito mais do que como partido político. Mesmo depois das intervenções militares, uma forma de  anti-varguismo é assimilada tanto pelo emergente lulismo quanto pelo  tucanato vitorioso em 1994, o qual, ainda preso a 1932, se impõe o compromisso (palavras do sociólogo príncipe)  de ‘varrer a era Vargas’. Que, no entanto, sobrevive.
Em 1961, garantindo a posse do vice constitucional, as forças da legalidade, desorganizadas e atingidas pelas divisões internas, sem projeto político unificador, destroçadas pelas disputas intergrupos e, até, medíocres disputas pessoais,  não tiveram condições de  assegurar a integridade constitucional, e João Goulart é levado a entrar no terreno das concessões às forças que o combatiam, na esperança de cooptá-las. As massas e as esquerdas ignoravam o fato de não estarem sozinhas no proscênio político. Nele tinham cadeira cativa e prioridade setores militares os mais diversos, inclusive reacionários e golpistas,  e grupos políticos e econômicos que dialogavam diretamente com o vice-presidente. No calar da noite foi aprovada a Emenda Parlamentarista, condição imposta pela  direita golpista aparentemente derrotada, para, nos termos da concordata, permitir a posse, como Presidente da República, do  vice-presidente indigesto.
Mas essa é uma características da História brasileira regida por personagens burgueses: sempre que o estadista é chamado a dar um passo à frente, ele dá um passo atrás. Mais forte do que tudo parece ser o DNA da conciliação, que leva à transação e, quase sempre, ao congelamento da História. Daí, de um lado, a cadeia de erros das organizações políticas numa linha de continuadas reivindicações às quais consabidamente o governo não podia dar consequência, donde o desgaste do presidente e de seu governo; de outro lado, ainda em nome da conciliação, a impunidade para os conspiradores facilitando a ação dos golpistas. Deu no que deu.
As facções que agiram para destruir o governo Vargas (1951-54), contrariadas em seus interesses pelo  viés nacional-popular, redobrariam em forças e alianças, internas e externas, na desestabilização do governo Goulart, destacando-se a atuação do embaixador Lincoln Gordon, dos EUA evidentemente, e,  como sempre,  dos setores majoritários da imprensa brasileira.
A última conciliação de Jango (deixo de lado a Frente Ampla de Lacerda e Juscelino) terá sido a escolha do exílio em 1964, ante  a iminência de eventual choque armado e, dele consequente,  a possibilidade ou certeza do exorcizado ‘derramamento de sangue’, tampão-tabu que estanca qualquer possibilidade de revolução (lato sensu) em sociedade que, desde seus primórdios, optou pela solução pelo alto, o acordo dos cavaleiros, a transação entre os donos do poder.
Talvez,  por tudo isso, as reformas de base que Jango  não conseguiu implantar permanecem muitas delas  por ser feitas (estranhamente sem o mesmo apelo popular de antes), após quase trinta anos do fim da ditadura, uma Constituinte e 12 anos de governo de centro-esquerda.
Este artigo poderá ser reproduzido livremente desde que seja informada a fonte: Carta Capital Online.

A história não os absolverá.

Sonhos roubados e heróis caídos
(*) Rinaldo Barros
            Amo meu País de coração, e fico indignado só em pensar na grande nação que poderíamos ser hoje (e não o somos), se não existissem políticos corruptos e tanta incompetência imperando no poder público, em todos os níveis.
            Após doze anos de governos do PT (que o povo elegeu depositando esperança de que seria governado por legítimos representantes do interesse público), vejo com tristeza nossas riquezas ambientais e nossos potenciais econômicos esvaírem, perdendo oportunidades, a partir de uma política econômica equivocada (monetarista), quase fechada para o mundo, com pouquíssimos acordos bilaterais; juros altos beneficiando apenas o capital financeiro especulador; alta carga tributária desestimulando novos investimentos produtivos e - com a desindustrialização - vejo empregos sendo gerados todos os dias em outros países, a par da precariedade da infra-estrutura nacional, em todos os modais de transporte; prejudicando setores importantes de nossa economia e retardando o nosso desenvolvimento.
            Vejo a nossa juventude perdida, sem perspectivas, deseducada e consumida pelas drogas; vejo nosso povo cada vez mais doente e vítima da insegurança que se avoluma; vejo uma sociedade cujo tecido social se esgarça pela desigualdade brutal, pela corrupção em todos os níveis, e pela ausência de valores nas atitudes dos que deveriam liderar e comandar a nação.
            O líder é aquele que ensina, guia, inspira e motiva os que o rodeiam. Mas para ser líder não basta querer, é preciso ter sempre a atitude certa. Atitude certa!
            Por falar nisso, quero dizer que não me alegro nem comemoro com a prisão dos mensaleiros do PT, porque lamento e choro a tragédia do fracasso de tantos sonhos roubados, lamento muito que pessoas que um dia foram ídolos de uma geração inteira, líderes fomentadores de esperança, hajam abdicado desta virtude e desta missão histórica, para cair voluntariamente no vazio, traindo o povo e seus próprios princípios, ao assumir a ilusão do poder efêmero, em nome do pragmatismo, do clientelismo, e do patrimonialismo. Ampliaram a prática danosa de fazer alianças em troca de cargos e benesses, comprando consciências.
            Fizeram suas escolhas e, por opção, reduziram-se a meros heróis caídos que abandonaram a nobreza da luta pela transformação da sociedade, em nome da maioria dos dominados e subalternos; por uma prática política rasteira e lamentável de se manter no poder, pelo poder; como prepostos dos detentores do poder real.
            Mancharam suas biografias, pois, até onde eu percebo, a história não os absolverá.
            Até quando meu Brasil ainda vai sangrar, vítima da corrupção e da incompetência?
            O leitor sabe que o que caracteriza a corrupção brasileira é (ou era) a falta de punição. Em outros países, a punição costuma ser severa, e as pessoas poderosas têm muito mais receio de aplicar golpes e burlar as leis sabendo que provavelmente irão para a cadeia, ou até serem condenadas a pena de morte, como é o caso da China e de alguns países árabes.
            Historicamente, para o nosso país, é significativo que agora comece uma reação, já que os resquícios autoritários estão se extinguindo, com o amadurecimento da Democracia e, com isso, estão surgindo espaços para ações de pessoas que estão em outro processo ético-cultural que não aquele de quarenta anos atrás.
            A pressão do grito das ruas, ainda em seu início, provavelmente irá empurrar as instituições brasileiras para o seu aperfeiçoamento. O povo nas ruas vai aprendendo e ensinando o caminho da Estrela da Manhã.
            Todos sabem que a corrupção não é invenção brasileira, mas sim universal. O que temos ainda, aqui no patropi, é uma tendência à impunidade espraiada por toda a sociedade; a qual parece que está começando a mudar, especialmente com os tribunais colocando poderosos e ricos no banco dos réus, e até julgando-os, condenando-os e prendendo-os, sob o olhar atento de boa parte da opinião pública.
            Até este processo do mensalão do PT, aqui no patropi, somente iam para a cadeia os três "Ps" (pobre, preto e puta). Os poderosos e ricos eram quase que intransponíveis, tinham o poder de roubar o dinheiro publico protegidos pela impunidade. É preciso que a nova tendência surgida se amplie para punir a todos os que tiverem culpa comprovada, sem qualquer exceção. Democraticamente.
            Por essas e outras, repito, não comemoro a punição dos dirigentes nacionais do PT, ao lado de diretores de banco e empresários ricos também condenados; mas constato - com tristeza e com um forte gosto amargo de decepção na boca - que a sentença a ser cumprida com perda da liberdade serve como exemplo pedagógico para toda a nação.
            Será que estamos, de vera, construindo a cidadania, e começando a nos tornar civilizados?
           
                Rinaldo Barros é professor - rb@opiniaopolitica.com


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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Negra
 
Caetano Veloso [O Globo – Cultura]
O colunista escreve aos domingos
 
Foto: Cláudio Abdon/Arquivo página fotógrafo
Da janela do hotel dava para ver Ponta Negra, que uma vez escalei
 


Natal estava sob chuva quando cheguei tarde da noite mas amanheceu ensolarada. Da janela do hotel dava para ver a Ponta Negra, que uma vez já escalei com muita vertigem (invejo Zuenir e Mary, capazes de subir dunas verticais sem se sentirem numa cena de “Gravidade”). Sempre achei o nome Ponta Negra misteriosamente apropriado. Uma razão mais lógica deve existir para a nomeação, mas a mim me parece que esse evoca a solenidade da vista. “Ponta” descrevendo a forma geográfica e “negra” dando o tom grandioso. A palavra “negro” sugere uma preciosidade que “preto”, seu sinônimo, não suporta. Sendo ambas o nome da cor (ou ausência de cor) dos objetos de que a luz não volta, “preto” traz à mente algo fosco e pedestre, enquanto “negro” anuncia brilho e mistério. Se se fala de um vestido preto, pode-se estar falando de uma peça de roupa que se usa em qualquer lugar. Mas um vestido negro é necessariamente um traje para ocasião especial, festa noturna e de gala, ou vestimenta ritual de monjas e bruxas. Clique aqui para continuar lendo.
Fonte: assessorn.com

domingo, 17 de novembro de 2013

DOMINGO, 17 DE NOVEMBRO DE 2013


VERDADES CRUZADAS -I
Carlos Roberto de Miranda Gomes, advogado e escritor
   O acaso trouxe-me um encargo no outono da vida – presidir a Comissão da Verdade da UFRN. Por isso, tive de voltar no tempo e no espaço para refazer a memória adormecida nos bancos da velha Faculdade de Direito da Ribeira – época difícil para a história da Democracia, pois iniciei em fevereiro de 1964, véspera do golpe e concluí em 1968, véspera do AI-5.
Lembrei que na mesma época e no mesmo palco alguns jovens sonhavam com um Brasil melhor, no campo e nas cidades e para isso se entregaram, sem medo, à luta contra a ditadura. Eu, por questões de sobrevivência de um prematuro casamento, com o peso da paternidade e a necessidade de garantir a subsistência, não engrossei o contingente dos lutadores, embora torcesse pelo sucesso daqueles idealistas e ter acompanhado seus movimentos grevistas, por solidariedade.
Hoje pago o preço do meu silêncio, por compreender com integral lucidez, a diferença da insônia com liberdade e a castração do sono no confinamento. Embora sem fazer juízo definitivo do valor das ações desenvolvidas, faço apenas a apologia da importância incondicional da liberdade, segundo Kant - o maior bem da vida! 
          O imperativo categórico da nova missão me colocou na cela com aqueles "menino(a)s" que entrevistei, a exemplo de: Geniberto Campos, Arruda Fialho, Josemá Azevedo, Anchieta Jácome, Gileno, Paulo Frassinetti, Iaperi, Rinaldo Barros, Juliano, Ivis, Ivaldo Cetano, Lailson de Almeida, Hermano Machado, Mery, Marcos Guerra, José Bezerra Marinho, Justina Iva... ao lado de outros que não entrevistei - Ginani, Hélio Xavier, Maria Laly, Danilo Bessa, Berenice, Tereza Braga, Djalva Confessor ... e então pude sentir o que significa a insônia sem liberdade, sem opções imediatas, mentalizando o momento da soltura, do reencontro familiar, do retomar o caminho natural da vida. Foram amadurecidos com "carboreto", tirando do fruto o sabor de um amadurecimento natural, livre de pressão externa.
   Começo hoje uma série de artigos, aproveitando a expressão de uma estudante bolsista da CV (Patrícia) para o trabalho – VERDADES CRUZADAS, pois a história oficial nem sempre é a história definitiva, dadas às circunstâncias de tempo e espaço.
 
Artigo I - Fica decretado que agora vale a verdade, agora vale a vida e de mãos dadas marcharemos todos pela vida verdadeira;
Thiago de Mello: Estatuto do homem 
Após uma vivência sob o jugo Português, o espírito de brasilidade foi cultivado nas academias europeias e chega ao Brasil com o histórico “Grito do Ipiranga” no dia 07 de setembro de 1822 através de D.Pedro I, Príncipe Regente, ganhando a adesão da juventude e da comunidade pensante de então.
Composto o Império brasileiro, sequenciado com o governo de Pedro II, assim caminhou até a sua deposição em 15 de novembro de 1889, com o golpe militar de Deodoro, que nos fez ingressar inseguramente nos braços da República, sempre permeada por intervenções militares – revolucionárias as de 1888-1889; reformistas em razão do inconformismo patente nos movimentos tenentistas de 1922, governo de Artur Bernardes, que durou até 1926, em sua maior parte, sob estado de sítio, 1924[1] e 1930, este ano inaugurando um governo herdeiro da crise econômica do ano anterior, fazendo emergir a contestação da revolução social tendo como ponta de lança os partidos comunistas, organizados sob disciplina militar e se espelhando no modelo da União Soviética.
Diametralmente em contrário surgem os movimentos fascistas na Itália com Mussolini e o nazismo na Alemanha com Adolf Hitler, facções que abraçam um aspecto de nacionalismo e de racismo que, no Brasil, se abrigaram no movimento integralista de Plínio Salgado.
A repressão policial, o clientelismo e a corrupção desembocam em revoltas à semelhança de 1922 e 1924 até o fato mais grave do assassinato do Vice-Presidente da República, o paraibano João Pessoa, ocorrido em 26 de julho, estopim para a implantação de um outro momento político, com a chamada Revolução de 1930 e a deposição do Presidente Washington Luiz em 24 de outubro e começo do novo regime em 31 do mesmo mês e ano, assumindo o Senhor Getúlio Vargas no dia 3 de novembro subsequente, ali se estabelecendo. 

[1] Em 1924 teve início a Coluna Prestes, liderada por Luiz Carlos Prestes, percorrendo 13 estados e 25 mil quilômetros na busca de angariar adesão para as causas tenentistas, contando com o apoio de militares como Cordeiro de Farias e Juarez Távora e culminando com a sua destituição em fevereiro de 1927 com a deposição de armas na Bolívia.
Do blog de miranda gomes.blogspot.com

sábado, 9 de novembro de 2013

Revista Època dá um furo jornalístico:

Black Blocs afirmam que são financiados por ONGs nacionais e estrangeiras

ÉPOCA passou o fim de semana num campo de treinamento do grupo que adotou o quebra-quebra como forma de manifestação política

REDAÇÃO ÉPOCA COM REPORTAGEM DE LEONEL ROCHA
08/11/2013 21h00 - Atualizado em 08/11/2013 21h36

Capa - Edição 807 (home) (Foto: ÉPOCA)
Em um sítio no interior de São Paulo, pouco mais de 30 pessoas se reuniram, no fim de semana do Dia dos Finados, para organizar uma nova onda de protestos contra tudo e contra todos. O local se tornou um centro de treinamento para uma minoria que adotou o quebra-quebra como forma de manifestação política e ficou conhecida comoBlack Bloc. O repórter Leonel Rocha testemunhou as reuniões e relata na edição de ÉPOCA desta semana que, ao contrário do que afirmam órgãos de segurança federais e estaduais, eles não são manifestantes que aparecem nos protestos "do nada", sem organização. Os Black Blocs têm método, objetivos, um programa de atuação e, segundo afirmaram, acesso a financiamento de entidades estrangeiras.
De acordo com Leonardo Morelli, jornalista que coordena a ONG Defensoria Social, braço visível e oficial que apoia os Black Blocs, a ONG Instituto St Quasar, ligada a causas ambientais, já repassou, neste ano, € 100 mil aos cofres da entidade. Morelli recebeu a reportagem de ÉPOCA no sítio em São Paulo. Segundo ele, o próprio veículo (uma Kombi) que levou Leonel Rocha ao local do treinamento, a partir do vão livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp), foi financiado com doação de entidades nacionais e estrangeiras. Morelli diz que um Jeep Willys também foi comprado com esse dinheiro. Ele também cita entre seus doadores organizações como as suíças La Maison des Associations Socio-Politiques, sediada em Genebra, e Les Idées, entidade ligada ao deputado verde Jean Rossiaud. Procurados por ÉPOCA, ambas negaram ter enviado dinheiro. Morelli diz que a Defensoria Social também foi abastecida pelo Fundo Nacional de Solidariedade, da CNBB. A CNBB negou os repasses. Morelli ainda relacionou entre seus contatos os padres católicos Combonianos e a Central Operária Boliviana.
 
TREINAMENTO Leonardo Morelli, da ONG Defensoria Social, e três dos participantes do encontro. Ele influencia os Black Blocs com suas causas (Foto: Leonel Rocha/ÉPOCA)

O sítio black bloc 1. Sem sinal de animais ou lavoura, dois dos três casebres  usados pelos ativistas são encobertos pela vegetação 2. Fachada da única casa habitável. Lá, tudo precisa de reparos  3. A mesa comprida chega até a cozinha.  É usada para reun (Foto: Leonel Rocha/ÉPOCA)

Em ÉPOCA desta semana, na reportagem Por dentro da máscara dos Black Blocs, Leonel Rocha relata o fim de semana com os ativistas que, de rostos cobertos, tomaram a frente dos protestos no país. E Todos contra a violência, outra reportagem da edição 807 (nas bancas a partir deste sábado e nos tablets), mostra diferentes grupos políticos e autoridades concordam que a democracia não pode conviver com movimentos que defendem o quebra-quebra como forma de protesto.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A herança da globalização: os pobres que foram ricos.

Pobres como nós

Pobres como nós

por Ricardo J. Rodrigues Fotografia de Pedro Loureiro
Fonte: dn.pt

Ter emprego, ter um curso superior, ter casa nos subúrbios, ter carro, ter cabo e acesso à net, ter telemóvel, ter os filhos na creche, ter contas para pagar, ter visa, ter dívidas, ter fome. A notícia incomoda, parece que não existe. Mas a verdade é que já se contam por 300 mil os portugueses que não se conseguem alimentar. Os novos casos não estão nos escalões mais excluídos da sociedade. Estão na classe média, na geração em idade activa, nos que têm mais aptidões académicas e maiores expectativas de conforto. Esta é a história do seu vizinho do lado.
«Boa tarde. Encontro-me numa situação muito difícil. Sou empregada de escritório, divorciada, tenho dois filhos menores. Para fazer face a todas as despesas (de água, luz, habitação) resta-me muito pouco para a alimentação. Gostaria de saber quais as condições necessárias para receber ajuda alimentar. Estamos a passar fome e precisamos da vossa colaboração.» Isto é um e-mail recebido no Banco Alimentar Contra a Fome em finais de 2008. O Banco Alimentar recebe e-mails destes todos os dias, às dezenas. Se o desespero chega por internet, então a pobreza atingiu definitivamente a pós-modernidade.
Os anos noventa ficaram marcados em Portugal pelo aparecimento dos novos ricos, empresários que ganharam dinheiro rapidamente e não se inibiram de mostrar a sua fortuna aos demais. Esta primeira década do século XXI, pelo contrário, salientou outra figura social - os novos pobres. Gente qualificada e habituada a um nível de vida confortável, que perdeu poder de compra e empobreceu repentinamente. Por culpa da crise, da precariedade laboral, do endividamento, de um divórcio, do desemprego. Muitos novos ricos são hoje novos pobres. E um dos traços mais distintos dos neo-aflitos é precisamente o de serem indistintos. Estas pessoas têm bom aspecto, casa, carro, telemóvel, internet. Mas passam fome.
Ao primeiro esgar, tem-se a impressão de que a angústia dos novos pobres é auto-inflingida. Mas se se perguntar a Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, se ela associa a pobreza de bens a uma certa pobreza de espírito, a resposta é directa: «Estas pessoas estão endividadas porque, durante anos, lhes foi vendido um sonho de um mundo maravilhoso que não é real. Quando acordam, percebem que foi tudo uma ilusão. Os novos pobres já tiveram acesso a bens de consumo, depois perderam-no. E agora tentam disfarçar, têm vergonha do seu novo estatuto social.» A pobreza é um catálogo pesado. Depois de se entrar na espiral, é muito mais difícil sair.
Que o diga Adelina Santos, 41 anos, que, ao contrário da maioria, dá a cara pela fome que passa. Há dez anos, a vida corria-lhe de feição, era empresária e tinha o seu próprio negócio, no mercado de peixe de Ermesinde. A crise bateu-lhe à porta sem avisos prévios. O marido abalou, o mercado fechou e a mulher viu-se subitamente desempregada, sozinha com três filhos nos braços e uma renda de casa para pagar. «Tentei arranjar um emprego em condições, como secretária, ou num escritório, mas não havia vagas.» Como precisava mesmo de ganhar dinheiro, meteu-se no emprego que conseguiu - a limpar o lixo das ruas para uma junta de freguesia.
Com a renda e a comida não havia dinheiro para o passe social e, por isso, Adelina saía de casa duas horas antes de pegar ao serviço, cumprindo a pé, na ida e na volta, um percurso que não lhe levaria mais de vinte minutos de autocarro. O contrato acabou passados nove meses, não o renovaram para não terem de a tornar efectiva. Continuou à procura, mas assim que dizia que tinha trabalhado a limpar lixo recusavam-lhe os empregos mais qualificados. «Tive de me pôr a fazer limpezas, a tomar conta de pessoas idosas, a desenrascar-me como podia. E ando há cinco anos nisto, sempre a mudar de casa porque não consigo pagar a renda, às escuras porque não tenho dinheiro para a luz, a passar a ferro às vizinhas a troco de uma garrafa de azeite ou de um pacote de arroz. Nunca imaginei que a minha vida se ia tornar nisto.» Há dias, discutiu com a filha adolescente, que queria comprar roupa nova, brincos e ténis como os outros miúdos da escola. «Eu gostava de oferecer-lhe essas coisas, mas não posso. Ela diz que eu dei tudo aos irmãos, quando tinham a idade dela. É verdade, mas nessa altura eu tinha dinheiro. Agora tenho de tratar a mais nova de maneira diferente. E isso dói-me tanto. Mas tanto.»
Segundo o Instituto Nacional de Estatística, existem dois milhões de pobres em Portugal, com rendimentos inferiores a 360 euros mensais. Na maioria dos casos, são reformados, toxicodependentes, deficientes mentais, sem-abrigo, famílias numerosas. Estes são os número da pobreza estrutural do país - um em cada cinco habitantes. Mas a crise económica e o desemprego estão a criar uma pobreza mais conjuntural, e é essa que está a crescer a uma velocidade vertiginosa. Fala Isabel Jonet: «A classe média em Portugal está cada vez mais empobrecida e esvaziada - e o que se passa agora é apenas a ponta do iceberg. A crise económica de 2009 vai seguramente traduzir-se numa gravíssima crise alimentar. É absolutamente aberrante o que se está a passar. Temos gente que tem emprego, mas para quem é matematicamente impossível pagar as contas. Temos uma geração inteira, jovem, a ganhar 400 euros mensais, por mais qualificações e competências que apresente.» O fosso entre ricos e pobres em Portugal é o maior da União Europeia. O rendimento dos dois milhões de portugueses mais ricos é sete vezes maior do que o dos dois milhões mais pobres. Um terço dos jovens entre os 16 e os 34 anos seriam pobres se dependessem apenas dos seus rendimentos. Não são sintomas da crise. São sinais de subdesenvolvimento.
Portugal 2009
Estão 20 pessoas à porta de um centro comercial decrépito junto a Rio Tinto, nos arredores do Porto. Está uma velhota de calça e casaco, um lenço de seda e brincos que podiam ser de ouro, estão duas reformadas encasacadas que conversam animadamente sobre a queda da bolsa de Nova Iorque, está um par de gaiatos com o cabelo cortado ralo e uma bola de futebol velha aos pés. Sentados nos degraus da escadaria do edifício antiquado e escuro estão também alguns idosos carregados de sacos vazios, duas ou três mulheres de meia idade, com os olhos postos no chão, à espera. Estão todos a aguardar o badalar das nove, quando a Liga Nacional Contra a Fome (LNCF) começa a distribuir pão. Grande parte dos que estão ali vêm em nome de alguém. Dos filhos, das filhas, dos pais, dos avós - dos que estão a trabalhar e não podem ir receber ajuda.
A senhora elegante de pendentes dourados é das primeiras a recolher o pão num saco de plástico. Fala sem nome nem cara, fala com vergonha. «Eu nunca tive uma vida fácil, só tenho a quarta classe, trabalhei que me desunhei a vida inteira. Fui modista, funcionária das limpezas, criada e depois entrei para uma fábrica onde cresci a pulso, até me tornar assessora de direcção. O meu marido batia-me e roubava-me dinheiro, tive que pô-lo fora de casa para conseguir criar a minha filha. À gaiata dei tudo o que podia e o que não podia. Ela estudou, aprendeu serviço social, queria tomar conta dos outros. Era uma menina muito generosa e, quando a vida dela se estava a endireitar, veio a desgraça.»
A rapariga trabalhava então num lar de idosos, a recibos verdes. «Entrava ao serviço de noite e de noite saía.» Há cinco anos, quando acabou o turno, foi vítima de atropelamento e fuga. Um pé esmagado, três hérnias discais e uma incapacidade para sempre. O lar desresponsabilizou-se, não era funcionária do quadro. A mãe, reformada, tentou aguentar o barco com uma reforma de trezentos euros e a vender roupa de umas lojas para outras. Mas os medicamentos eram caros, as operações foram muitas, o dinheiro começou a escassear. «Gastei as minhas economias todas e de repente percebemos que não tínhamos o que comer.» Durante semanas, foram almoços de arroz com arroz e jantares de pão sem queijo. Depois passaram a fazer uma refeição por dia. Por fim nem isso e, com a barriga num tumulto, encontraram a LNCF, uma associação de solidariedade social que apoia 100 almas famintas nos subúrbios do Porto.
«Hoje temos pão, sempre dá para fazer uma açorda. Acredite que, mesmo assim, a nossa fome não é pouca. E não há direito disto nos acontecer. Eu trabalhei toda a minha vida, a minha filha estudou e tinha emprego, vivíamos bem - pois se ela andava a pensar comprar casa e tudo! E agora esta vergonha, termos de pedir comida para não morrer.» Quando irrompe aos soluços, a mulher mantém a pose digna, uma mão a tapar-lhe a boca, um suspiro de desculpas. «A minha filha continua em casa, mal pode sair da cama, mas agora arranjou uns biscates de modista, para fazer um dinheirinho. Eu, sempre que aqui passo a buscar o pão, corro também as lojas a vender roupa. Talvez agora as coisas se componham.» Talvez.
«Ninguém está livre de cair em desgraça.» Gaspar Pessoa, presidente da LNCF, assume que a sua luta parece cada vez mais perdida. «Há mais e mais gente a precisar de ajuda. Há mais e mais gente que tinha uma vida boa e que, de repente, se vê na estaca zero. E o pior é que, ao primeiro impacto, ninguém dá a mão a ninguém. O Estado vai tapando buracos, nós vamos fazendo o nosso trabalho com financiamentos precários. Era preciso haver uma campanha séria de prevenção da fome, sobretudo agora, que os riscos de uma crise alimentar são elevadíssimos. A minha experiência nesta área diz-me que as pessoas, sobretudo estes novos pobres, só nos procuram quando estão desesperadas, quando deram voltas e mais voltas até esgotarem todas as soluções de recurso. Além de passarem fome, estão psicologicamente muito fragilizados. E isso é um entrave a que saiam do buraco e dêem a volta por cima.»
Risco de ruptura
Nas instalações da Santa Casa da Misericórdia de Sintra (SCMS) há um cartaz pendurado junto a uma cruz, onde se pode ler a inscrição «Não temos leite.» Até Maio de 2008, a instituição sintrense recebia cinco toneladas anuais de leite em pó para distribuir pelos recém-nascidos em situação de carência. Com o patrocínio do Governo Civil de Lisboa, que um dia mandou uma carta a anunciar que, a partir do quinto mês do ano, acabariam as remessas, por questões de redução de orçamento. Os funcionários da Santa Casa tentaram encontrar alternativas, o Governo Civil indicou o Banco Alimentar - que está dependente de excedentes e donativos e não consegue distribuir um produto tão caro de forma continuada. O facto é inequívoco. Desde Maio, as famílias carenciadas do segundo concelho mais populoso do país não têm comida para os seus bebés. «Não temos leite.»
«A partir de Setembro, a coisa tornou-se explosiva», diz Ana Carrilho, coordenadora do departamento de acção social da SCMS. «Tivemos um aumento muito grande de pedidos de ajuda. E o número que mais cresce são de pessoas que nos habituámos a considerar das classes alta ou média-alta. São licenciados que não conseguem a integração no mercado de trabalho, são sobretudo mulheres entre os trinta e os quarenta anos, com empregos, com os filhos na creche, com dívidas. Os homens ficam no carro, por vergonha. Elas também têm vergonha, não querem perder a única coisa que lhes resta da vida anterior, que é a sua dignidade. Por isso, tivemos de criar novas medidas para um novo tipo de pobreza. Apesar de funcionarmos apenas até às cinco da tarde, é raro o dia em que saio daqui antes das oito da noite. Para atendermos estas pessoas longe da vista de toda a gente, para que elas não se cruzem com ninguém, ficamos abertos até mais tarde.»
Em Novembro de 2008, o Jornal de Negócios falava em 600 famílias apoiadas pela casa de Sintra. No final de Dezembro, o número tinha subido para mais de 800. «Todos os dias aparecem-me entre 15 a 30 novos pedidos de auxílio no departamento de acção social. Há quem peça comida, mas também quem queira ajuda para pagar a prestação ou a renda da casa, os medicamentos, as contas de água e luz. E esqueça tudo o que pensava sobre o pobre. Antes, o pobre era o pobre, tinha uma apresentação pobre, um rosto pobre, era identificável. Agora são pessoas como nós, bem vestidas, com bons carros. É neste sector da população, nos subúrbios das grandes cidades, que o problema da fome está a crescer.» A Misericórdia sintrense tem pouca margem de manobra: recebe apenas os excedentes de dois supermercados da região e algum apoio do Banco Alimentar. «Tenho sérios receios que, se o aumento da procura continuar a este ritmo, cheguemos a um ponto de ruptura alimentar.»
Em 2006, o Banco Alimentar Contra a Fome entregava comida a 200 mil pessoas, dois anos depois o número subiu para 250 mil. Há pelo menos 50 mil casos de cidadãos que recorrem a instituições que não estão sob a alçada do BACF, como paróquias, juntas de freguesia, organizações não-governamentais e instituições de solidariedade social. Mas esse número pode ser muito maior. E continua a crescer. Até quando? Fernando Nobre, presidente da Assistência Médica Internacional (AMI), que apoia mais de sete mil pessoas nos seus oito centros Porta Amiga, é firme em exigir responsabilidade social às empresas e à população - em Maio de 2008, já o rosto da AMI dizia à agência Lusa que «o combate à fome, à pobreza e à exclusão tem de ser um desígnio nacional.» O discurso foi repetido inúmeras vezes - por vozes como a de Nobre, Isabel Jonet, Gaspar Pessoa ou Ana Carrilho. Mas a fome não está na agenda política. Nem nos planos das empresas. Nem sequer está na consciência dos cidadãos.
As manhas do estômago
Ao fim de três dias sem comer, H. decidiu finalmente pedir ajuda. Chegou a um refeitório social no Porto, sentiu as pernas fraquejarem assim que o mandaram sentar, lembra-se que mal tinha forças para segurar a colher da sopa. Os dias anteriores tinham sido um suplício. «Há técnicas para enganar a fome, sabe? Beber café ou chá, beber muita água, comer papel, comer pacotes de açúcar ou aqueles saquinhos de ketchup que oferecem no McDonalds.» Ri-se. «Ao que eu cheguei.»
H. tem 56 anos. Até há seis meses, viveu uma vida larga. Tinha uma vivenda e duas lojas na Invicta - uma de roupa, outra de perfumes. Tinha semanas de vender 20 mil euros em camisas, gravatas e botões de punho. Tinha férias no estrangeiro com a família, um carro para cada membro da casa, jantaradas com os amigos. Mas a mulher morreu de cancro, abriram quatro hipermercados e centros comerciais no raio de um quilómetro em redor das lojas, e o homem começou a perder o fio à meada. «Acumulei dívidas com os fornecedores, porque com uma loja vazia é que não me safava. O comércio de perfumes ficou com a minha filha, a casa também, eu tentei aguentar o embate, modernizar a casa, mas não podia concorrer com os preços dos outros, que compram em grandes quantidades e por isso vendem mais barato. Quando dei por isso, já não havia nada a fazer. Fechei a loja, deixei a casa e fui para Espanha trabalhar como motorista.»
H. é um cavalheiro, aquilo a que se costuma chamar um homem de fino trato. Tivesse ele chapéu e seguramente tirá-lo-ia à passagem de uma senhora. É daquele tipo de pessoas que só sabem saudar um homem usando as duas mãos, que se levantam para abrir uma porta se topam que alguém está prestes a entrar, que matam o vício inquirindo: «Vossa excelência não se importa de que me oferecer um cigarro?» Tirou um curso na escola comercial, no tempo do outro senhor. Montou o seu negócio. «E depois tremi, ou desactualizei-me, ou simplesmente tramaram-me, desculpe a expressão.» Em Espanha ficou uns meses, com tecto e comida, mas sem nunca sentir o cheio do salário. Voltou de mãos a abanar. Com uma pensão de viuvez de 175 euros, alugou um quarto por 150. E foi nessa altura que começou a passar fome. Aguentou dois meses. Depois não aguentou mais.
P. é uma mulher bonita. Alta, esguia, de gestos delicados. As fotografias que tem em sua casa mostram um rosto mais cheio, uns olhos mais felizes. «Perdi dez quilos nos últimos oito meses», assume. «Não tinha o que comer.» Tem 38 anos, um filho de 12, o 12º ano completo e nunca tinha trabalhado na vida. «O meu marido ganhava bastante dinheiro, era ele que tomava conta de mim. Eu geria a casa, a educação do miúdo, as compras. Vivíamos bem, não éramos ricos mas também não passávamos dificuldades. Mas um dia decidi separar-me do meu companheiro, a nossa relação era muito má. Fiquei com o meu filho e descobri as dívidas do meu marido. Não fiquei com mais nada.»
Tentou uma imensidão de empregos e só conseguiu arranjar um - como funcionária de limpeza no hospital de São João. Salário: 430 euros mensais. A casa onde vivia serviu para saldar créditos, conseguiu alugar um cubículo de paredes esfareladas e janelas partidas, sem casa de banho, por cem euros. O resto vai para o passe social, água, luz, gás e para a escola do filho. «Habituei-me, logo a seguir à separação, a ir comendo pouco.»
Se fazia sopa para o rapaz, ela não lhe tocava. Cozinhava um bife ou uma perna de frango para o miúdo, ao domingo. Para ela, um caldo de cebola ou o que o pequeno havia deixado de sobra no prato. «Depois comecei a comer dia sim, dia não, a ver se me habituava. Desmaiava muitas vezes, quando estava a trabalhar. E um dia perdi finalmente a vergonha. Entrei no refeitório de Rio Tinto e pedi comida.» Desde então vai lá todos os dias, recolher o almoço. Não come ali, não se quer misturar. E também porque, da refeição que lhe dão, ela consegue inventar três. Um almoço para ela, que o filho tem alimento na escola, e dois jantares à noitinha. Encostada à porta de casa, tentando ignorar o frio, P. pára de falar para desatar num pranto desgraçado. «Ontem comecei a comer o almoço e soube-me tão bem que me apeteceu comê-lo todo. Mas eu não podia, eu não posso. O que é que hei-de fazer à minha vida?»
O fim da linha
A meio da Avenida Almirante Reis, mesmo em frente à igreja dos Anjos, fica o que os lisboetas se habituaram a chamar a Sopa dos Pobres, mas que na verdade tem o nome de Centro de Apoio Social dos Anjos, ou CASA. São quatro pisos que albergam quartos, gabinetes médicos, salas de actividades, lavandaria e refeitório. Todos os dias, em média, são servidas 500 refeições. Sobretudo a homens e mulheres sem-abrigo, a toxicodependentes e alcoólicos, a pessoas com problemas mentais, a desempregados de longa duração. Por aqui passam diariamente os rostos da pobreza estrutural do país. «Os que chegaram ao fim da linha», nas palavras de Julieta Martins, directora da unidade de emergência e apoio à inserção da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
Nos últimos meses, e apesar da Santa Casa querer separar o apoio à pobreza estrutural do auxílio aos novos pobres, tem aumentado o vaivém de caras anónimas, discretas, que precisam de apoio imediato e depois desaparecem sem deixar vestígios. «Cada utilizador do CASA tem um processo, mas a verdade é que se nos aparecer aqui alguém com fome não lhe recusamos comida», diz António Antunes, director do centro dos Anjos. «Nos tempos de crise, nota-se mais o aparecimento de casos com necessidade de alimentação imediata. São pessoas que se aguentam uns tempos, com o apoio da família e dos amigos, mas que um dia têm fome e passam aqui. Ou deixam de pedir ajuda às pessoas mais próximas e recorrem aos nossos serviços.»
Foi o que aconteceu com Frederico Matias, 26 anos, sorriso pacato, olhar magoado. Filho de mãe portuguesa e pai crioulo, tem dupla nacionalidade. Cresceu em Cabo Verde e decidiu fugir à secura do arquipélago já lá vão três anos. A família ficou em Santiago, ele fez-se ao mundo sozinho. Com um curso técnico de cozinheiro arranjou trabalho facilmente, na copa de um estaleiro em Tomar. Passou lá nove meses, mas ao fim do contrato aconteceu a história do costume: para ficar, tinha de ser nos quadros. Foi dispensado. Rumou a Lisboa e arranjou novo emprego, na cozinha de um restaurante, num centro comercial. «Deixei crescer uma crista no cabelo, mas faziam-me a vida negra e acabei por me despedir. Prefiro passar fome a perder a dignidade». Não bebe, não fuma, nunca tomou drogas. Alugou um quarto numa pensão e já encontrou novo trabalho. Enquanto não chega o primeiro salário, vem almoçar e jantar aos Anjos. Em silêncio, sem conversar com ninguém.
Fred, como gosta de ser chamado, conhece casos de pessoas como ele, que estudaram como ele, que trabalharam com ele, que passam fome como ele. Mas que não pedem ajuda. Ainda não. Só se anuncia a desgraça quando não sobram alternativas. São sete da tarde e o refeitório dos Anjos está agora cheio. O polícia de serviço anda de um lado para o outro a acalmar as hostes - há sempre um ou outro utente a desafiar a ordem da cantina, a querer entrar para os gabinetes, a provocar alguém que está sentado à mesa. Vista de fora, a Sopa dos Pobres tem dois mundos - um barulhento e pobre, outro silencioso e pobre. E é então que, no meio da multidão, se descobre uma memória do passado. O tipo com quem jogávamos à bola em miúdos, um colega da escola, um vizinho do lado. Um ser familiar e mudo, que se tornou invisível, que chegou ao fim da linha. E esse é o momento da bofetada. Alguém que conhecemos passa fome. E nem sequer tínhamos reparado.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Na Inglaterra, lixo se transforma em energia elétrica para o país.

A Inglaterra e eu – Artigo 3       
Maria English *
07-11-2013 13:24

Esta semana visitei algo que desejava há muito tempo: fui finalmente à Usina de Reciclagem de Lixo de Portsmouth. Fica numa área industrial e as instalações são grandes e muito modernas. O que se passa nesta usina é uma prova de que lixo não é mais lixo e sim uma fonte de energia e de outros produtos úteis. Apesar de que uma parte dos rejeitos domésticos  vai ainda para o aterro de lixo da cidade, a maioria é reciclada nesta grande usina que absorve também o lixo de outras áreas vizinhas. Vi o lixo chegar em caminhões, de forma contínua, e se acumular em imensos depósitos. Daí ele vai para os incineradores, onde vapor é obtido para alimentar os geradores.A energia produzida é transferida direto para a rede nacional de energia elétrica, sendo que outra parte desta energia é aproveitada no próprio funcionamento da usina. As cinzas obtidas vão para a indústria da construção. Nada é perdido, pois até o ferro não reciclado é vendido para o ferro-velho. Isto é o que tenho a relatar sobre o lixo doméstico normal. Mas há também aquele que é separado pelos habitantes de Portsmouth em casa. Este lixo especial é transportado por veículos apropriados e vai para mesma usina, onde é separado (mecanica e manualmente) em longas esteiras rolantes. Este material reciclável  é constituído principalmente por alguns tipos de plástico, papel  e latas que vão daí para as respectivas usinas particulares de reciclagem.

Translation

This week I did something I’ve always wanted to do: I finally went to the Portsmouth waste facility. It is in an industrial area and it is huge and modern. This facility is a proof that waste is not waste any longer, but an asset, a source of energy and other useful products. Although some of the household waste still goes to the landfill, most of it is recycled in this big facility, which also receives the waste of surrounding areas. I saw the trucks carrying waste arriving continually and dropping it in huge deposits. Then it is transported to the incinerators where steam is produced to feed the generators. The energy there from is then transferred directly to the national grid, and some of it is utilized in the functioning of the facility itself. The ashes obtained go to the construction industry. Nothing is lost and the non-recycled iron is sold to the scrap yards. This is the process of recycling the normal household waste. But there is also special waste that is separated at home by the inhabitants of Portsmouth. It is transported by special trucks and is destined for this same facility, where it is carefully separated on long conveyor belts. This recyclable material is formed mainly by some types of plastic, paper and cans. After the separation, by both machine and by hand, they are sold to the respective recycling companies.
*Maria English é natalense residente na Inglaterra.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Entenda a economia da China.

03/11/2013 - Copyleft

O milagre econômico chinês: principais determinantes internos

A estratégia de desenvolvimento da China gerou uma dinâmica interna puxada por investimentos, sobretudo públicos em infraestrutura. Por Eduardo Costa Pinto


Eduardo Costa Pinto
EBC

Em 1793, Lorde Macartney e sua comitiva desembarcaram em terras chinesas com a missão de criar um canal comercial entre a Grã-Bretanha e a China que até aquela altura nunca tinha se aberto a outra nação. O imperador Qianlong refutou duramente a proposta e a reação da Grã-Bretanha foi arrombar as portas. Essa derrota chinesa garantiu o domínio inglês no Sudeste Asiático no século XIX.

Alain Peyrefitte, ao refazer o caminho de Macartney em 1960, constatou que muito do que havia sido descrito pela comitiva britânica, há quase dois séculos, se manteve quase intacto. O império chinês permaneceu imóvel entre 1793 e 1960 (nota 1).

Na década de 1990, o próprio Peyrefittealertara que a China estava saindo de sua imobilidade em virtude da era Deng Xiaoping, implementada a partir de 1978. Em outras palavras, o dragão estava despertando de sua longa hibernação e provocando profundas transformações econômicas no sistema internacional, como previra Napoleão Bonaparte há quase duzentos anos ao afirmar em 1816 que: “Quando a China despertar, o mundo tremerá”.

A China saiu da condição de Império Imóvel para se tornar o país mais dinâmico no início do século XXI, transformando-se na locomotiva mundial. Ascensão impressionante!

A economia chinesa cresce 10% ao ano há mais de trinta anos (entre 1978 e 2012), o que a alçou à condição de segunda maior do mundo (atrás apenas dos Estados Unidos), de “fábrica do mundo” (nota 2), de maior exportador e importador mundial. 

Esse crescimento esteve e está associado ao impressionante desenvolvimento de sua indústria e de seu rápido processo de modernização (passagem do mundo rural ao urbano) que geraram profundas modificações em sua estrutura produtiva e social.

Em 1978, a China tinha uma população de cerca de 956 milhões de habitantes e era um país rural. Daquele ano até os dias atuais, a população chinesa saltou para 1,338 bilhão de pessoas em 2010 (20% da população mundial) e passou a morar cada vez mais nas cidades.

Essa dinâmica vem provocando um aumento no consumo de energia, de bens duráveis e não duráveis e de alimentos na China. Apesar disso, esse país ainda está distante do padrão de consumo por habitantes dos países desenvolvidos.

Existe um amplo debate a respeito dos determinantes do milagre econômico chinês. Apresentaremos aqui os seus condicionantes internos, sem negar a importância da dimensão externa (nota 3), que não será aqui tratada dado o escopo deste texto.

Em 1978, após a 3ª Plenária do 11º Comitê Central do Partido Comunista Chinês (PCC), configurou-se uma nova rota para o modelo de desenvolvimento da China – idealizada por Deng Xiaoping – pautada pelas reformas (nota 4) e pela abertura ao exterior.

Essa mudança buscou deslocar a luta de classe como princípio aglutinador do partido e do Estado colocando em seu lugar o princípio do desenvolvimento econômico como elemento que possibilitaria a ampliação das condições materiais da população chinesa e a manutenção do socialismo com características chinesas.

As diretrizes gerais dessa nova rota chinesa foram: 1) a descentralização das decisões econômicas (redefinição do planejamento e do mercado) por meio da ampliação do papel dos mercados e por meio da delegação de poder para as províncias locais; 2) a adoção de padrões tecnológicos e de modelos de gestão empresarial do mundo capitalista; e 3) o princípio estratégico da abertura ao mundo exterior e da evolução pacífica.

Para Deng Xiaoping, a China só seria respeitada quando se tornasse rica. Em suas palavras: “Só se pode falar alto quando se tem muito dinheiro”. Para ele, isso só seria alcançado por meio da absorção de conhecimento gerenciais e tecnológicos do ocidente capitalista. Era necessário absorver mais capital externo, segundo Deng à época.  

A estratégia institucional para criar esse espaço de aprendizado das práticas estrangeiras foi a configuração das Zonas Econômicas Especiais – Zonas de Processamento de Exportações. Elas foram estruturadas para atrair investimentos estrangeiros (dados os benefícios concedidos) que, em contrapartida, introduziriam métodos modernos de administração e tecnologias no território chinês.

Essas reformas foram sendo construídas paulatinamente, entre 1978 e 1989, em virtude da forte resistência do segmento marxista-lenisnista do PCC. O período de maior tensão foi entre 1989 e 1991. Fatores políticos internos, articulado a queda do Partido Comunista da União Soviética, fortaleceram essa corrente que tomou o poder em 1991.

Para evitar essa nova direção do partido e do Estado, Deng voltou de sua aposentadoria para travar, entre 1991 e 1992, uma ampla batalha para restabelecer suas diretrizes, bem como acelerá-las.

Depois de enfrentamentos e jogadas políticas, Deng, apoiado pelos líderes provinciais do partido e pelo Exército de Libertação do Povo (ELP), conseguiu costurar em 1992 um amplo acordo – denominado o “Grande Compromisso” – entre os segmentos do PCC (anciões, marxistas-leninistas, pró-abertura, líderes locais, tecnocratas e o ELP) para garantir e acelerar o processo de reformas e abertura. O fio condutor do acordo foi a ideia de transformar a China numa nação rica e poderosa até a metade do século XXI.

A estratégia de desenvolvimento nacional gerou dois eixos articulados propulsores do crescimento da China.

De um lado, a dinâmica exportadora promovida pela configuração das ZEEs e pela política cambial (manutenção do iuan desvalorizada em relação ao dólar) e, do outro, a dinâmica interna puxada pela expansão dos investimentos, sobretudo os públicos em infraestrutura.

A expansão pela via do investimento foi possível em decorrência da reforma do sistema financeiro chinês, realizada em 1985, que tanto ampliou o funding (recursos financeiros) como criou instrumentos para direcioná-los para o investimento. Expandiu-se a participação do setor privado, mas o controle do sistema bancário foi mantido na administração pública, possibilitando o direcionamento da poupança das famílias e das empresas para as corporações públicas e privadas que desejam investir.

Além dessas reformas, o crescimento chinês também vem sendo impulsionado por uma condução gradualista da política macroeconômica (monetária e fiscal) que combina a busca pelo controle inflacionário e pela manutenção do ritmo de crescimento estável e relativamente rápido, que garante a legitimidade interna do PCC.

Articulada aos elementos macroeconômicos, a política industrial foi e é também um instrumento importante para a dinâmica chinesa. Dentre as medidas nessa área, podemos destacar: i) o crédito subsidiado para as empresas estatais por meio dos bancos públicos; ii) os incentivos voltados aos investimentos estrangeiros de alta tecnologia;iii) as barreiras não tarifárias e tarifárias, sendo que estas últimas caíram após a entrada da China na OMC em 2001;iv) as políticas que estimulam a transferência de tecnologia por meio de mecanismo que requer a produção de conteúdo por empresas locais; e v)os múltiplos instrumentos que tem como objetivo criar empresas nacionais – privadas ou públicas – de classe mundial que possam concorrer com as empresas multinacionais.

Em suma, essas medidas em conjunto (reformas e políticas) – que conformaram uma estratégia nacional de desenvolvimento – foram os determinantes internos do crescimento da China.

Crescimento que já dura mais de trinta anos e vem provocando transformações estruturais na própria China e na economia mundial. Quais foram os impactos desse crescimento para a população chinesa? Como a ascensão da China vem transformando a economia mundial, a América Latina e o Brasil? Quais são as lições da China que podemos aproveitar para o desenvolvimento brasileiro? Essas são questões que tentaremos responder nos próximos artigos.


Notas

(1) PEYREFITTE, A. O império imóvel. Casa Jorge Editorial: Rio de Janeiro, 1997.

(2) Em 2011, a China tornou-se o país com a maior participação do valor adicionado da indústria de transformação mundial (20,7%) ultrapassando os Estados Unidos.

(3) Dentre os principais determinantes externos, podemos destacar: i) a aproximação entre os Estados Unidos e a China no final dos anos 1970; ii) a ofensiva comercial americana contra o Japão por meio do Acordo de Plaza em 1985; iii) o acesso da China na OMC em 2001; e iv) configuração do eixo sino-americano na década de 2000.

(4) As principais características das reformas foram: i) transformação da utilização da terra por meio do sistema de responsabilização por contrato familiar que possibilitou a comercialização do excedente agrícola; ii)  transição gradual de um sistema de preços controlado centralmente (determinado pelo planejamento centralizado) para um sistema misto de preços regulados, controlados e de mercado; iii)  reformulação do setor público por meio de reformas, privatizações de boa parte das empresas públicas e o fortalecimento de algumas empresas estatais que atuavam em setores estratégicos; iv) abertura ao mundo exterior por meio da criação das zonas economias especiais; e v) promoção de  empresas coletivas (empresas de vilas, etc.)


*Eduardo Costa Pinto é professor de economia política do Instituto de Economia da UFRJ. E-mail: eduardo.pinto@ie.ufrj.br