segunda-feira, 20 de outubro de 2014

domingo, 19 de outubro de 2014

O meu tempo e os novos tempos

Eu não tinha feito ainda 70 anos de idade, como recentemente aconteceu (4 de outubro) e só agora estou refletindo sobre essa nova condição etária. Quando era mais novo, confesso, nunca parei para pensar na minha sétima década de vida, nunca. O ser humano não pensa nisso, vai vivendo, vai vivendo e quando menos espera a idade avança ou a idade chega. Nos anos da infância não havia tempo para imaginar esse futuro tão distante. As brincadeiras e os deveres ocupavam as horas todas. E na juventude também não, porque o ofício tomava conta dos dias, era um vaivém danado e a cabeça tinha que se dedicar à família, aos estudos de atualização e aos caprichos das injúrias orgânicas.
Ontem voltava para casa com minha mulher e conversávamos sobre as mudanças todas do mundo. Tudo mudou, disse ela, referindo-se ao que vimos de transformação nesse mundo de meu Deus. Saíamos de uma padaria, onde tínhamos feito um lanche, a título de ceia. Isso não havia no Recife do antes e hoje está disseminado, com casas especializadas espalhadas pelos bairros residenciais e também nas cercanias do comércio. E os bancos? Deixaram a condição anterior de estabelecimentos personalizados para se tornarem comunitários. Hoje, as máquinas assumiram as funções dos antigos bancários, que estão resumidos nos interiores das agências a consultores e captadores financeiros.  
Foi ela quem lembrou outra mudança nos hábitos e nos costumes da cidade: o tipo de moradia. Agora, mora-se em apartamentos, conjuntos habitacionais que juntam de uma só vez, quase cinquenta famílias. Mas, não existe mais quintal ou não se brinca nas ruas, como sucedia outrora. Até a geração de minhas filhas isso era possível, porém o tempo e a violência mudaram esse comportamento. Não se pode mais! E o extraordinário desenvolvimento da técnica, em todos os sentidos. Eu, por exemplo, fui operado da coluna pelas mãos maviosas do Dr. Geraldo Sá Carneiro – o Dr. Geraldinho – e duas hastes de titânio foram postas em minhas costas e eu estou andando e bulindo da melhor forma. Hei de comemorar os 10 anos de operado a 4 de maio!
É! A expectativa de vida aumentou! Gente como eu já poderia ter morrido, se a técnica não tivesse alcançado o ponto que alcançou. Os exames estão cada vez mais sofisticados; as tomografias e as ressonâncias têm acesso a tudo e mais um pouco. A Tomografia por Emissão de Pósitrons (o Pet Scan) revolucionou a oncologia e hoje se pode muito bem, não apenas diagnosticar, como também fazer o estadiamento do tumor. Os meus cadernos do último ano de medicina não servem mais pra nada, estão defasados, desatualizados. Nada se aplica mais!
Imagine o leitor como ficará um doente do estômago hoje, depois da invenção da endoscopia. Não fará mais a radiografia do órgão, uma seriografia, como se dizia antes. E ninguém terá mais o trabalho de identificar uma úlcera a partir da imagem de uma chama de vela. Nem vela se usa mais! E os stents cardíacos, que permitem uma sobrevida que não se tinha no passado, mesmo com as pontes?

Um comentário:

Geraldo: Aí está por você bem explanado. A gente ia vivendo sem pensar que as idades avançavam....E o tempo corria e corre para todos. Você sempre foi vitorioso, até na cirurgia em tempo de tantos e quantos avanços da Medicina. Eu estou em minha SOBREVIDA. Nunca havia pensado nesta sinistra palavra, já comemorando 4 anos no próximo dia 22 de novembro. Vamos que vamos.......quem sabe a Medicina avance mais ainda e o tempo de vida se prolongue. Escreveu muito bem. Abafei pensamentos e enfrentei a realidade... Bjss

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Utilidade Pública.

Busca de DDD por Estado - No Brasil

Para fazer um DDD, Disque 0 (zero) código da operadora + DDD e em seguida o número de telefone da cidade

DDD - SP
DDD 11 | São Paulo | Região Metropolitana de São Paulo.
DDD 12 | São Paulo | São José dos Campos e Região.
DDD 13 | São Paulo | Região Metropolitana da Baixada Santista.
DDD 14 | São Paulo | Bauru, Jaú, Marília, Botucatu e Região.
DDD 15 | São Paulo | Sorocaba e Região.
DDD 16 | São Paulo | Ribeirão Preto, São Carlos, Araraquara e Região.
DDD 17 | São Paulo | São José do Rio Preto e Região.
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DDD 19 | São Paulo | Região Metropolitana de Campinas.
DDD - RJ
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DDD 21 | Rio de Janeiro | Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
DDD 24 | Rio de Janeiro | Volta Redonda, Petrópolis e Região.
DDD - ES
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DDD 33 | Minas Gerais | Governador Valadares e Região.
DDD 34 | Minas Gerais | Uberlândia e região.
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DDD 37 | Minas Gerais | Divinópolis, Itaúna e Região.
DDD 38 | Minas Gerais | Montes Claros e Região.
DDD - PR
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DDD 93 | Pará | Região de Santarém.
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DDD 97 | Amazonas | Região de Tefé e Coari.
DDD 98 | Maranhão | Região Metropolitana de São Luís.
DDD 99 | Maranhão | Região de Imperatriz.
Telefones Úteis
Abaixo estão os principais telefones de emergência, mas você pode procurar mais telefones úteis de vários Estados.
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EMERGÊNCIAS:
- Bombeiros: 193
- Samu: 192
- Defesa Civil: 199
- Polícia Militar: 190
- Polícia Civil: 197
- Polícia Rodoviária Federal: 191

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Vigilância com tecnologia de guerra cria polêmica sobre privacidade nos EUA

  • Há 2 horas
Avião com câmeras monitora ruas em tempo real

 Credito: BBC


Uma empresa americana desenvolveu uma forma de monitorar bairros inteiros utilizando uma tecnologia desenvolvida, originalmente, para as guerras do Iraque e do Afeganistão.
Mas, enquanto a polícia vê com bons olhos a perspectiva de obter acesso à tecnologia, ela foi alvo de críticas por ser vista como ameaça à privacidade dos cidadãos.
O sistema funciona por meio de um avião tripulado que grava o que está acontecendo no solo em uma área de 40 quilômetros de diâmetro.
A aeronave é equipada com 12 câmeras de alta resolução, que formam uma espécie de "Google Earth" em tempo real.
"A resolução não é alta o suficiente para mostrar quem é a pessoa, elas aparecem como um pixel acinzentado na tela", diz Ross McNutt, veterano da Aeronáutica aposentado e presidente da empresa que desenvolveu o sistema, a PSS (Persistent Surveillance Systems).
 
 
 
Credito: BBC
Doze câmeras de alta resolução estão na aeronave


Mas esse pixel é suficiente para que os movimentos das pessoas sejam monitorados de forma precisa enquanto o avião está no ar - por até seis horas.
A ideia é sobrevoar áreas com altos índices de crimes. No início de 2012, as aeronaves monitoraram a cidade de Compton, na Califórnia, durante nove dias. Gravaram assassinatos, roubos e diversos outros crimes.
Ao comparar as gravações com o depoimento de testemunhas, os analistas e a polícia conseguiram determinar o momento em que os crimes foram cometidos.
Dessa forma, puderam descobrir onde os suspeitos estavam antes e depois do momento do crime, afirma McNutt.
Durante os testes em Ohio, na Califórnia e no México, o PSS testemunhou 34 assassinatos.

Ameaça à democracia

As câmeras da PSS, no entanto, não veem apenas assassinatos e criminosos. Elas registram a atividade cotidiana de ruas e quintais.
 
 
 
 
Crédito: BBC
Durante teste, câmeras captaram 34 assassinatos

Apesar de a firma insistir que a resolução das câmeras é baixa, muitos americanos veem o sistema como uma ameaça às liberdades individuais.
"O sistema não apenas viola a privacidade das pessoas; monitorar movimentos de uma comunidade inteira é uma ameaça à democracia", disse Jennifer Lynch, advogada da Electronic Frontier Foundation.
Os moradores de Compton, por exemplo, não foram informados quando a polícia testou o sistema.
"São coisas como essa e o monitoramento secreto de estudantes muçulmanos pela polícia de Nova York em 2012 que geram desconfiança da polícia", diz Lynch.
A empresa afirma que segue um "política de privacidade forte" e só monitora pessoas após comunicações de crime ou em investigações criminais. Diz também que pode saber exatamente quais foram as imagens observadas pelos seus analistas.
 
 
Credito: BBC
 
Apesar de não permitir distinguir rosto da pessoa, sistema gera preocupação com privacidade
Em locais como Compton, onde uma grande fatia da população é negra, há uma preocupação com a possibilidade de minorias virarem alvo de vigilância.
Também há o temor de que o sistema possa levar pessoas a deixar de fazer coisas que não querem que outros saibam, mesmo não sendo ilegais. Isso inclui, por exemplo, ir a um bar gay, instituições religiosas ou ter mais de um relacionamento.
"Vigilância policial pode afetar a liberdade de expressão e, com isso, o direito democrático e constitucional das pessoas está ameaçado", acrescenta Lynch.
O presidente da firma diz que está atento a essas questões e procurou o American Civil Liberties Union, uma ONG que defende liberdades individuais, para discutir o tema.
Enquanto isso, nenhum Estado americano adotou a tecnologia de forma sistemática.

domingo, 12 de outubro de 2014

Reforma agrária só dá certo se for capitalista, segundo Tomislav.

O paradoxo da reforma agrária
Tomislav R. Femenick – Contador, mestre em economia e historiador.

Plantar e colher alimentos foram ações determinantes para a evolução do processo civilizatório da humanidade. A posse da terra teria sido decisiva para a formação das famílias, dos clãs e das nações. Inicialmente propriedade comum a todos os componentes do grupo, depois a propriedade da terra tomou o caráter individual; isso em decorrência da imposição das armas ou das leis. Friedrich Engels, o amigo mais intimo de Karl Marx, aborda esse assunto em seu famoso livro “Origem da família, da propriedade privada e do Estado”.
Todavia, os excluídos da posse da terra sempre se insurgiram contra essa situação. A historiografia registra lutas de camponeses em diversas épocas, sendo a mais citada a liderada pelos irmãos Tiberio e Caio Graco no século II, antes de Cristo. Os detalhes dessa revolta é que são importantes e, paradoxalmente, geralmente ocultados: embora plebeus, Tiberio e Caio eram integrantes de uma importante e aristocrática família romana e a reforma por eles pregada era a distribuição das terras tomadas pelas invasões romanas (notadamente nas regiões de Tarento e na Cápua), que estava concentrada nas mãos da nobreza.
Durante toda a Idade Média, a Igreja adotou a postura de limitar o direito de propriedade com base no bem comum e no direito do indivíduo a uma vida digna, porém ela mesma era uma das maiores detentora do direito sobre a terra. Essa contradição, bem como o enfraquecimento da autoridade dos reis e o fortalecimento do poder dos senhores feudais sepultaram as frágeis tentativas de conquista de posse da terra pelos trabalhadores rurais. O resultado foi um retrocesso no desenvolvimento da economia.
Esse estado de coisa começou a mudar no século XVIII com a Revolução Francesa, que aboliu a servidão rural, reformulando as relações de trabalho no campo. Outro grande avanço ocorreu em 1862 nos Estados Unidos, quando foi sanciona a lei que concedeu terras públicas a pequenos fazendeiros, a baixo custo. Não por acaso ainda hoje a França é considerada o celeiro da Europa e os Estados Unidos são os maiores produtores agrícolas do mundo; claro que à solução do problema fundiário se somaram a facilidade do crédito e o desenvolvimento tecnológico.
Na Ásia, até a Segunda Guerra, Japão, Taiwan e Coréia apresentavam sérios problemas de concentração da posse da terra e de escassez de alimentos. O problema japonês foi resolvido pelas forças de ocupação norte-americanas que impôs a reforma agrária, modelo que foi transplantado para Taiwan, onde em poucos anos foi transferido aos agricultores o equivalente a 13% do PIB. Na Coréia do Sul o governo forçou os proprietários a transferirem a posse da terra aos antigos arrendatários, o que provocou recorde na produção de alimentos e grãos.
De volta a Europa, há que se citarem os êxitos obtidos com a redistribuição da terra na Itália, Finlândia, Alemanha e Países Baixos – sempre acompanhada de assistência técnica e juros baixos. Porém, não se poderia deixar de falar nas reformas agrárias promovidas nos países de governos socialistas, principalmente na antiga União Soviética e China. Na URSS houve duas fases distintas. Na primeira os camponeses ocuparam as terras dos antigos latifundiários em nome da revolução, depois o governo as expropriou em nome da coletivização, uma experiência que custou a vida de cerca de seis milhões de pessoas e resultou numa colossal ineficiência produtiva. Na China de Mao de Mao Tse-tung, a reforma agrária obrigou os camponeses a se agruparem em gigantescas “comunas agrícolas”, o que teria causado a morte pela fome, de 20 a 40 milhões de pessoas, até 1962.
Essa conjunção de fatos históricos nos leva a uma conclusão: a reforma agrária é necessária, deve vir com assistência creditícia e tecnológica e só dá certa quando realizada sob a ótica do capitalismo.

Tribuna do Norte. Natal, 12 out. 2014.

sábado, 4 de outubro de 2014

Êxitos e problemas da fruticultura
Tomislav R. Femenick – Contador, Mestre em Economia.

No ano passado as exportações realizadas pelo Rio Grande do Norte representaram 15% do total de frutas vendidas pelo Brasil ao exterior. O fato tem sua importância exponencialmente aumentada se levarmos em conta que essas frutas foram produzidas nos vale dos Rios Mossoró e Assú, na região do semiárido; periférica à caatinga nordestina. Esse quase milagre só tem sido possível graças ao sistema de irrigação que é adotado pelos agricultores locais.
Outro grande e relevante feito foi a recente 17ª EXPOFRUIT-Feira Internacional da Fruticultura Tropical Irrigada, que teve lugar no final de setembro passado em Mossoró. Esse evento reúne anualmente produtores rurais, empresários, distribuidores, atacadistas, exportadores e importadores de frutas frescas produzidas em solo potiguar e é resultado de uma parceria entre o COEX-Comitê Executivo de Fruticultura do Rio Grande do Norte, o SEBRAE-RN e a UFERSA-Universidade Federal Rural do Semiárido. Em sua última edição, EXPOFRUIT contou com a participação de delegações da Europa (Alemanha, França, Itália, Holanda, Espanha, República Tcheca, Bélgica, Noruega e Rússia) e também dos Estados Unidos. Devido à esperada realização de negócios na casa de R$ 20 milhões, o evento contou com a participação de expositores que ocuparam 300 stands; 180 de empresas nacionais e 70 de outros países.
Todavia o cenário não é somente de bonança. Há um conjunto de fatores que pode ameaçar essa conjuntura. O primeiro deles e o mais premente é a seca dos últimos anos, que reduziu a oferta de água para irrigação das plantações; tanto a disponibilidade nos leito dos rios, com a dos reservatórios e dos lençóis aquíferos – água do subsolo que é captada por meio de poços. Outro problema está ligado ao aspecto financeiro, dado que a produção de frutas exige investimentos cada vez mais altos, em função da adoção de tecnologias compatíveis com as exigências dos compradores estrangeiros. A isso deve ser somada a esperada elevação das taxas de juros, tão logo passem as eleições.
O terceiro percalço diz respeito à falta de incentivos governamentais e, por mais contraditório que seja, a alta incidência de impostos que recai sobre a produção e comercialização de frutas, num contrassenso inexplicável. Por último, porém não menos importante, há o obstáculo da deficiência da infraestrutura, principalmente no sistema viário para escoamento da produção. Não é por acaso que grande parte das frutas produzidas no Rio Grande do Norte é exportada pelos portos dos Estados vizinhos.
Todas essas dificuldades, que não são novas, fazem com que os plantadores, distribuidores, exportadores e todos os envolvidos na cadeia produtiva de frutas do RN tenham noites de pesadelos constantes e repetitivos. Empresas locais, nacionais e mesmo estrangeiras já abandonaram o agronegócio potiguar e o fantasma do desemprego atinge os trabalhadores do setor.
O próximo governo do Estado há que encarar todos esses problemas de frente, sem tangenciar, sem postergar soluções, sem fazer figuração. Se a seca propriamente dita não pode ser evitada, há ações que podem ameniza-la e devem ser tomadas: aumentar a capacidade e o número de açudes e barragens, por exemplo. A redução do alto custo financeiro e a isenção fiscal para os equipamentos com novas tecnologias têm que ser discutidas e resolvidas nos escalões federais, incentivos fiscais têm que ser concedidos pelo Estado e os gargalos da infraestrutura viária têm que ser estudados e solucionados.
Os pioneiros da agricultura irrigada no Rio Grande do Norte – José Rodrigues de Lima, Dom Eliseu Simões Mendes, Tarcisio Maia, Humberto Mendes, José Nilson de Sá e muitos outros – não desejariam que seu idealismo seja perdido pelo descaso e inércia governamentais; muito menos o menosprezo pelo suor do trabalhador rural.

Tribuna do Norte. Natal, 05 out, 2014.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

03.10.2014
Fonte: blog de Miranda Gomes.
FERNANDO DE MIRANDA GOMES

Jurandyr Navarro
Do Conselho Estadual de Cultura
A cidade do sol clareou-lhe o entendimento, desde a infância, ensejando a vivaz inteligência projetar-se na vida social e profissional. Na adolescência, partilhou a fantasia da idade entre a bucólica localidade do Barro Vermelho e a paisagem talássica da praia da Areia Preta, onde o belo cenário descortinava-lhe um futuro promissor.
Filho de jurista, seguiu-lhe os passos, dividindo, com os irmãos, o tesouro da inteligência herdada, formando, com eles e descendência, uma grei familiar honrada, pela régia coroa da dignidade, conquistada pelo caráter bronzíneo, mercê de aprimorada educação.
Contemporâneo de brincadeiras e estudos, acompanhei a sua caminhada pelos colégios e universidade, sendo testemunha da sua fidelidade aos deveres e obrigações e responsável em todo projeto idealizado.
Diplomado, foi atraído pelas causas cíveis, com participação ativa em inúmeros debates florenses. A sua atuação profissional ficou gravada no registro histórico da nobre classe da Advocacia potiguar. Depois, a fisionomia jurídica revelou o interesse pelo direito agrário, alcançando desempenho excelente como Advogado de Terras junto à Secretaria de Estado da Agricultura, antes de pertencer ao Departamento Jurídico do Estado, chefiando a Procuradoria do Patrimônio.
A imagem jurídica reluzia ao lado do perfil de homem público, pelo trânsito bem sucedido, no primeiro escalão administrativo estatal. Toda essa trajetória, destituída de nódoa ética, ante a conduta ilibada, fez, do seu nome, referência axiológica e jurídica. E assim procedendo, foi distinguido com a confiança nele depositada por três governos seguidos, à frente da Procuradoria Geral do Estado e da Casa Civil.
Anteriormente ao desempenho na esfera do direito, Fernando de Miranda Gomes, nos seus verdes anos, prestou serviços na atividade privada, sendo, por algum tempo, Interventor Regional do SENAC, em nosso Estado e, em seguida, exerceu a Diretoria da mesma organização comerciária.
Além da visão administrativa para dirigir órgãos privados e públicos, ele se tornou um especialista em legislação, do aprendizado no cargo de Procurador do Estado. Portou-se exímio Parecerista no decifrar a esfinge da emaranhada e extensa legislação pátria.
Para penetrar no espírito das leis, o Advogado precisa especializar-se, e assim, poder, detidamente, equacionar a legislação constitucional e suas emendas, as leis ordinárias, as delegadas, decretos, suas derrogações e revogações, portarias, medidas provisórias, mensagem do poder executivo, projetos legislativos, referendos, iniciativa popular, plebiscitos (estes, oriundos da democracia semi-direta), julgados dos tribunais, e outros, conferindo-lhes a devida interpretação e consequente orientação, condizentes com os postulados jurídicos vigentes, pertinentes aos superiores interesses da sociedade politicamente organizada.
Na condição de Procurador Geral do Estado, Fernando de Miranda Gomes, competente sempre esteve para fazer a necessária análise da imensa compilação legal, inclusive os códigos, dela emanados.
O seu sucesso deveu-se, também, ao iluminativo carisma da sua liderança.
O valor de profissional do direito auferido, foi por todos os colegas reconhecido, a ponto da sua pessoa ser lembrada para Patrono de uma das Cadeiras da Academia de Letras Jurídicas do Rio Grande do Norte, pelo idealizador da instituição. E o reconhecimento desse valor chegou ao ponto, de seu nome representar a “Medalha Mérito Procurador de
Estado”, prêmio instituido na gestão do Procurador Geral do Estado, Miguel Josino Neto.
A exemplo de outros seres humanos, de singular grandeza, o destino subtraiu-lhe anos de existência, no pleno vigor de sua vida, quando prometia, ainda, alongar a órbita dos sucessos obtidos.
Todavia, ele soube utilizar os anos vividos no conceito do pensador Séneca, o qual entendia ser a dimensão da existência humana medida pelas boas ações e complementada pela sabedoria. "Não é a meta mais longínqua, a vida mais longa; porém, a mais elevada".
Esta, a vida plena!

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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Como a Índia chegou a Marte gastando menos que um filme de Hollywood

  • 25 setembro 2014
O programa espacial da Índia conseguiu, na primeira tentativa, o que outros países tentam há anos: enviar uma missão operacional para Marte.
O satélite Mangalyaan foi confirmado na órbita do planeta vermelho na terça-feira. Um feito considerável.
A missão foi orçada em 4,5 bilhões de rúpias (cerca de US$ 74 milhões, ou R$ 178 milhões), o que, para os padrões ocidentais, é incrivelmente barato.
A sonda americana Maven, que chegou a Marte na segunda-feira, está custando quase dez vezes mais.
Em junho, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, brincou que a 'aventura na vida real' da Índia custava menos do que o filme de ficção de Hollywood Gravidade, orçado em US$ 100 milhões.
Mesmo os filmes de ficção científica de Bollywood, como Ra.One, custam menos que o que foi gasto para levar Mangalyaan a Marte.
Como a Índia fez isso?

Gerenciando custos

Com certeza, os custos com pessoal são menores na populosa nação de 1,4 bilhão de pessoas, e os cientistas e engenheiros que trabalham em qualquer missão espacial são sempre a maior fatia do preço da passagem espacial.
Componentes e tecnologias domésticas também foram priorizadas em detrimento das caras importações estrangeiras.
Mas, além disso, a Índia teve o cuidado de fazer as coisas de forma simples.
Credito: APA missão da Índia a Marte foi uma das iniciativas interplanetárias mais baratas já realizadas.



 
 A MISSÃO




Os cientistas ocidentais também estão animados de ter a sonda indiana na estação. Suas medições de outros componentes atmosféricos complementarão as medições da Maven e as observações feitas pela europeia Mars Express.
"Isso significa que estaremos recebendo as medições de três pontos, o que é muito importante", diz o professor Coates.
Isto irá permitir que os pesquisadores entendam melhor como o planeta perdeu o grosso de sua atmosfera bilhões de anos atrás, determinar que tipo de clima o planeta pode ter tido, e se era ou não propício à vida.
A suspeita dos cientistas é que alguns organismos produtores de metano, ou metanogênicos, possam existir em Marte se viverem no subterrâneo, longe das duras condições da superfície do planeta.


 Credito: Reuters
 Investimento em ciência e tecnologia pode beneficiar todo o país.

 
Os cientistas ocidentais também estão animados de ter a sonda indiana na estação. Suas medições de outros componentes atmosféricos complementarão as medições da Maven e as observações feitas pela europeia Mars Express.
"Isso significa que estaremos recebendo as medições de três pontos, o que é muito importante", diz o professor Coates.
Isto irá permitir que os pesquisadores entendam melhor como o planeta perdeu o grosso de sua atmosfera bilhões de anos atrás, determinar que tipo de clima o planeta pode ter tido, e se era ou não propício à vida.

Gerador de riqueza

Mas há muitas críticas a respeito do programa espacial da Índia.
Uma delas parte do princípio de que a atividade espacial é um brinquedo melhor deixado para os países ricos e industrializados, sem valor para as nações em desenvolvimento.
Para os que defendem este argumento, seria melhor aplicar o dinheiro do contribuinte indiano em saúde e saneamento básico.
Mas o que essa posição muitas vezes ignora é que o investimento em ciência e tecnologia também constrói aptidão e capacidade, desenvolvendo o tipo de mão-de-obra que beneficia a economia e a sociedade de forma mais ampla.
A atividade espacial é geradora de riqueza. Algumas das coisas feitas no espaço fazem circular dinheiro aqui embaixo. As nações industrializadas sabem disso e essa é uma das razões pelas quais eles investem pesadamente na atividade espacial.
O Reino Unido, por exemplo, aumentou drasticamente seus gastos com espaço nos últimos anos. O governo até identificou a área de satélites como sendo uma das "oito grandes" tecnologias que podem ajudar a reequilibrar a economia do país.
A Índia quer embarcar nesta tendência. Com o Mangalyaan e os outros programas de satélites e foguetes, o país está se posicionando fortemente em mercados internacionais de produtos e serviços espaciais.
Fonte:BBC de Londres. 25.09.2014.
Out of media player. Press enter to return or tab to continull "Eles mantiveram o satélite pequeno. A carga pesa só cerca de 15 kg", diz o professor Andr.

O saque dos piratas ingleses na Ilha de Manoel Gonçalves, em Macau/Rn.



Corsários ingleses na Ilha de Manoel Gonçalves, 1818

João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG
Manoel Rodrigues de Melo escreveu na Revista Bando um artigo, intitulado O Saque da Ilha de Manoel Gonçalves, baseado no livro Documentos do Arquivo – Presidentes de Províncias (1818) - editado pela Secretaria de Interior e Justiça de Pernambuco no ano de 1943. Quando estive em Recife, recentemente, fiz imagens de tais documentos, entre eles as duas correspondências emitidas da Ilha de Manoel Gonçalves que transcrevo aqui.
A primeira é uma carta do Comandante do Degredo da Ilha de Manoel Gonçalves, Alexandre José Pereira, para o Capitão Manoel Varella Barca, carta esta copiada pelo Padre Manoel Pinto de Castro que servia de Secretário do Governo da Província do Rio Grande.
Ilustríssimo Senhor Capitão Manoel Varella Barca//Ilha de Manoel Gonçalves, 13 de Dezembro de 1818//.
Dou parte a Vossa Mercê que ontem, treze de Dezembro do corrente, às onze horas do dia, deu fundo fora da Barra do Amargozo um Corsário de ladrões estrangeiros armado em guerra, com muito armamento, e entraram nos seus lanchões de tarde dentro do Rio, e roubaram cinco Sumacas, e conduziram tudo para seu bordo, e ainda se acha ancorado no mesmo lugar, e penso ser com intenção de virem saquear, e roubar a terra; aqui se acham alguns homens, mas sem armas, e creio que tudo se acabará, aqui já se acham pelo que diz seis feridos com tiros que fizeram para terra, e a mais da gente desta praia vejo esmorecidos, e eu pior que nenhum, pois me acho doente para morrer, Vossa Mercê mandará o que for servido// Deus Guarde a Vossa Mercê por muitos anos// De Vossa Mercê atento súdito// Alexandre José Pereira// Comandante deste Degredo Ilha de Manoel Gonçalves.
Entre as cartas do nosso Governador para o da Província de Pernambuco, Luis do Rego Barreto, há uma, datada de 31 de Dezembro de 1818, onde ele escreve: Entre as diferentes partes que tive sobre este objeto, a que me parece mais correta, e circunstanciada, foi a de um morador da Ilha de Manoel Gonçalves correspondente de Bento Joze da Costa, que por isso a ofereço na Cópia N1 para com ela informar a Vossa Excelência do que se passou no Assu.
N1. Ilustríssimo Senhor Governador Joze Ignacio Borges.
Participo a Vossa Senhoria, que no dia 12 do corrente, pelas onze horas da manhã, apareceu, três léguas a Leste desta Ilha à popa, uma Escuna com um sinal, ou bandeira estranha no mastro de proa e veio fundiar defronte da Barra do Amargozo a barlavento da Sumaca Santa Rita Galatéa de Pernambuco, que se achava fora acabando de carregar de peixe de vários negociantes destas praias, e logo que fundiou, mandou o Comandante desta a bordo uma jangada com três homens saber o que queriam, disseram, que refresco de aguada, e mantimento, que aquela embarcação era Inglesa, e de guerra.
 Os ditos jangadeiros viram muito armamento, gente de toda a nação; imediatamente que largou de bordo a dita jangada, largaram eles três escaleres, ficando um a bordo da dita Sumaca Santa Ritta, e dois entraram na Barra do Amargozo, e achando-se ancoradas naquele Rio, com distancia uma das outras, quatro embarcações, a saber, o Penha, e Victoria de Pernambuco, Conceição, e Almas da Paraíba, e Flor do Mar de Goiana, e atracando o primeiro escaler a bordo do Penha, armados tomaram conta da embarcação, e o segundo seguiu de rio acima, e atracando no último vazo também  armados, principiaram a roubar dinheiro, roupa, maçame, e escravos, e da mesma forma continuaram nas mais embarcações até chegarem de regresso na Penha, e incorporando-se  com os que estavam já de posse da Sumaca, meteram os oficiais, e a Campanha no Castelo, e continuaram o saque, estando em terras no Pontal do Amargozo os passageiros que tinham vindo no Penha, e moradores; entraram-lhe a fazer fogo de bordo, ferindo de bala quatro dos moradores, a fim de melhor conduzirem o saque nos escaleres, e na lancha do Victoria, que levaram com seis escravos do Penha e Victoria, três homens forros, tudo feito na tarde  que ancorou.
Imediatamente que soube nesta Ilha fui com dez homens daqui por terra mais de uma légua, tomando em caminho seis do Lagamar, e chegando já de noite, tinham saído.
No dia 14 vimos por um óculo de terra estarem saqueando o Santa Ritta, e no dia 15 indo eu, e os mestres das Sumacas Penha e Victoria, e os passageiros a bordo do Penha, ver o estrago que teriam feito, e chegando, tendo deixado os moradores desta Ilha prontos de pólvora, e bala com as poucas armas de fogo que há de guarda a Ilha, viu largar de bordo da dita Escuna, os três Escaleres, e providenciando-se esperá-los na Barra do Amargozo, aqui não vieram, e foram a boca do Rio, distante desta duas léguas saquear seis casas de palha que tem, porém pouco ou nada acharam.
No dia 16 pelas quatro horas da tarde, estando parte dos habitantes desta, e de Guamaré juntos de guarnição à Ilha, viram entrar na Barra do Amargozo o escaler grande carregado de gente, e tornando a abordar as Embarcações á conduzir o resto do que ainda lhe faltava, e pegando a lancha da Sumaca Conceição e Alma saíram.
No dia 17 pelas duas horas da tarde mandaram para terra a dita lancha pelos marinheiros forros que lá tinha das Sumacas, e um passageiro carregador de peixe no Santa Ritta, e o Contramestre da mesma, e mandaram dizer ao Comandante que lhes mandasse um Prático para os botar fora da Ponta Gorda, que queria ir pelo canal, e se o não fizesse até as quatro horas da manhã, que havia mandar atacar esta Ilha, e tocar fogo nas casas, e nas Sumacas, porém destas ameaças caso nenhum se fez.
No dia 18 de manhã se viu velejar a Escuna para barlavento. Contam os marinheiros que lhes ouviram dizer que iam para America Espanhola, e que ainda haverão de andar três meses fora, e que iam esperar os navios que haviam saído de Lisboa para o Brasil, e Índia, e que a gente que traz são noventas e oito pessoas, e que já tinham feito três presas, que as tinham mandado para America Inglesa de onde tinham saído cento e tantas velas. A fortificação que traz são seis peças por banda de 12, e uma na proa de rodízio de 18; este malvados vão de Costa acima esperar as embarcações que navegam na costa do Sertão até o Maranhão, e Pará.
Eu tenho aviso de Pernambuco do coronel Bento Joze da Costa, que nas águas próximas da lua nova despedia para esta a Sumaca Xica, e em Janeiro o Brigue São Manoel
Deus Guarde a Vossa Senhoria, Ilha de Manoel Gonçalves, 18 de Dezembro de 1818. João Martins Ferreira.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Projeto pioneiro de médico usa escolas como postos de saúde

  • Há 6 horas
Em projeto de 30 anos, Manoel Paiva (no centro) quer aproximar alunos de pacientes em cidades do interior
Aos 66 anos de idade, o pediatra e infectologista Manoel Francisco de Paiva pode dizer que seu trabalho em Pouso Alegre (MG) foi pioneiro da atenção básica na região - mais de uma década antes da criação do Programa de Saúde da Família, do governo federal.
Quando começou o Projeto Saúde - uma atividade de extensão que leva alunos da faculdade de Medicina onde dá aulas para realizar atendimento médico gratuito em escolas de diversos municípios -, em 1981, mal havia postos de saúde nas cidades do entorno de Pouso Alegre, no sul de Minas Gerais.
"Quando eu mudei pra cá, o acesso aos serviços médicos era muito difícil. Muitas das cidades aqui perto não tinham um profissional sequer. O projeto estava suprindo essa falta, fazendo esse trabalho", disse à BBC Brasil.
"No início do projeto, nem se falava de HIV, por exemplo. Eu tive até que fazer palestras com os médicos de determinadas localidades para que eles soubessem o que era."
A iniciativa do médico, um ex-participante do Projeto Rondon (que levou estudantes universitários para prestar serviços a comunidades isoladas no interior do país entre 1967 e 1989), acontece sem interrupções há 34 anos.

 Projeto Saúde em 2012 | Foto: Divulgação/Escola Luiz Pinto

 Sem política

Criado na Universidade do Vale do Sapucaí (Univas), onde Paiva é professor desde 1978, o Projeto Saúde reúne alunos a partir do 2º ano de Medicina para atendimentos de saúde gratuitos à população.
Os alunos veteranos, que atuam como monitores, fazem contato com escolas da rede pública das cidades da região e organizam os eventos. Durante a semana, a equipe dá palestras para os alunos adolescentes e também para pais, professores e outros representantes da comunidade. No sábado, a escola se transforma em uma espécide de "ambulatório global", segundo o médico. O atendimento acontece mensalmente e há um rodízio entre as escolas que recebem o projeto.
"Os alunos do 2º ano de Medicina acolhem os pacientes, conversam com eles, vão pesá-los, medi-los, fazer exames de pressão. Os alunos mais graduados fazem o atendimento clínico, sob minha supervisão. Aproveitamos o mobiliário da escola para criar mini consultórios dentro das salas de aula."
O "ambulatório na escola" também tem salas especiais para homens e mulheres, e outra em que um aluno faz exames para detectar diabetes nos pacientes.
O objetivo inicial do projeto é científico - as informações coletadas formam uma base de dados sobre a saúde da população local, a partir das crianças de 5 a 14 anos. Por isso a escolha das escolas públicas como local de atendimento. A carência de serviços, no entanto, tornou a meta mais abrangente.
"Começou a chegar gente para ser atendida que não estudava nas escolas: os irmãos dos alunos, os pais. Imagine chegar em um lugar onde não há médicos. Então continuamos coletando os dados da faixa etária que planejamos, mas abrimos o atendimento para todo mundo", diz Paiva.
Mobiliário da escola é aproveitado para criar "mini consultórios" onde alunos atendem crianças e adultos
Para que os alunos consigam realizar os atendimentos, fazem acordos com as prefeituras dos municípios, que cedem o transporte, os medicamentos da rede pública e o material. A escola fornece a alimentação para a equipe. Em alguns casos, segundo Paiva, conflitos políticos fazem com que as escolas forneçam a maior parte das necessidades.
O médico, no entanto, afirma não ter qualquer relação com partidos políticos na organização do projeto. E diz ter rejeitado ativamente as diversas tentativas de políticos de se vincularem a ele.
"Quando organizamos a palestra para os adultos, a primeira coisa que faço é dizer que estou ali espontaneamente, sem vínculo algum com religião e política. Porque se alguém virar e falar que 'quem trouxe o projeto para cá fui eu', a população já sabe que é mentira", diz.
"Isso já aconteceu algumas vezes. Em uma cidade, o prefeito começou um discurso de abertura dizendo que se empenhou em trazer o projeto para lá. Mas assim que eu peguei o microfone, disse que estava ali por vontade própria e que era a primeira vez que tinha contato com aquele prefeito."

Formação

Além do interesse acadêmico de fazer um levantamento de dados de saúde nas cidades, Paiva diz que o projeto pretende contribuir para "melhorar a relação entre o médico e o paciente" e formar profissionais com a experiência de atendimento humanizado - que ele afirma ser uma lacuna no currículo universitário.
"A ideia é dar ao aluno uma formação generalista e estimular que os alunos se doem à comunidade. A formação médica atual é centrada no hospital. Agora que estamos vendo os alunos indo para o posto de saúde, agora é que estão sendo incentivados os médicos de família e comunidade. Os próprios professores querem ficar nos hospitais porque é mais prático para eles."
Maria Luiza Baldassaris, de 30 anos, foi monitora do Projeto Saúde durante o curso de Medicina. Da intenção inicial de se especializar em pediatria, chegou à medicina de família e comunidade - formação considerada desejável na atenção básica, mas que atualmente corresponde a apenas 1% do total de médicos no Brasil.
"A monitoria me influenciou muito. Quando tive mais contato com a clínica e com as ações sociais que aconteciam na faculdade, me interessei pela saúde pública", disse à BBC Brasil.
Equipe em 2008: ex-aluna de Paiva será a 1º docente da universidade com a especialização
Acompanhando as mudanças curriculares antecipadas pelo projeto de Paiva, Maria Luiza será a primeira médica de família a ensinar na Univas, como preceptora (orientadora de residentes) do estágio em Saúde Coletiva. Ela diz que em sua turma de monitores do projeto, foi a única a seguir a carreira no SUS. "Todos se empenhavam muito e gostavam muito, mas só eu resolvi fazer medicina de família e comunidade. Eles pensavam muito na pouca valorização do profissional".
"Durante a faculdade tivemos muito pouco contato com a atenção básica. O enriquecimento do currículo vem acontecendo de uns tempos para cá. Hoje sei que os alunos são inseridos na atenção básica desde o segundo ano."
Para o médico, a precarização da carreira pública de Medicina contribui para que os médicos recém-formados nem sempre ofereçam um bom atendimento aos pacientes nos postos de saúde. O contato com a população desde a faculdade, ele espera, pode mudar isso.
"O Brasil tem muito esse problema. Como o salário é pequeno nos postos de saúde, um finge que paga e o outro finge que trabalha. O aluno que é formado com uma visão diferente do atendimento, de que precisa oferecer um bom atendimento a todos, já pode ter outra postura. Mesmo que só tenha que trabalhar no SUS até passar em uma residência", afirma.
Leia mais na BBC Brasil: Médica de família 'dirige Chevette e namora Creisom' em apostila para concurso

Cirurgia

Apesar do foco em problemas básicos, como infecções e doenças parasitárias, a equipe encontrou uma série de casos graves e raros. Entre eles, o de uma garota de 13 anos que foi diagnosticada com uma grave má formação no coração. A suspeita inicial, na verdade, partiu do motorista da van que levava a menina e outras crianças até a escola todos os dias.
"Durante o atendimento, o motorista me disse que estava preocupado com essa menina. Ele achava que ela vinha sempre correndo para o transporte, e ela dizia que não. Mas estava sempre cansada. Fiquei interessado no caso e pedi para ele buscá-la", relembra o médico.
Além de doenças comuns, equipe de alunos também encontrou casos graves e raros
Um aluno do 2º ano de Medicina, que fez os exames iniciais na menina, descobriu que sua pressão arterial estava altíssima. Com mais exames clínicos, a equipe detectou o sopro no coração, um ruído que pode indicar a má formação.
"Liguei imediatamente para o hospital da faculdade e avisei que mandaria a criança. Em paralelo, pedi para chamarem a mãe dela. Quando fizeram os exames, perceberam que a menina tinha uma anomalia muito importante no coração. Pessoas com essa anomalia geralmente não passam dos 30 anos de idade."
"Eu atendi a garota na hora do almoço na cidade de Santa Rita do Sapucaí e meia-noite ela já estava sendo operada no Incor, em São Paulo. Tudo pela saúde pública. Hoje ela tem 25 anos e está muito bem. E eu cuido da criança dela, olha só que interessante", conta Paiva.
O diagnóstico da garota aconteceu na Escola Estadual Dr. Luiz Pinto de Almeida, na cidade de Santa Rita do Sapucaí. O local recebe o Projeto Saúde a cada dois anos desde o ano 2000.
"O primeiro que fizemos foi um sucesso tão grande que colocamos o projeto no nosso programa escolar. Os pais já sabem que vai acontecer e cobram de nós. Quase 100% dos alunos vêm para as consultas", disse à BBC Brasil a diretora da escola, Rosemary Mendes.
Em uma das edições, a equipe chegou a levar microscópios e bioquímicos para a escola. O objetivo era fazer exames de fezes nos alunos, com resultado imediato. Após casos como o da garota diagnosticada com a ajuda do motorista da van, segundo Rosemary, os funcionários passaram a ficar mais atentos a possíveis problemas apresentados pelos alunos.
"Professores e alunos conversam mais sobre problemas de visão de audição, até ginecológicos. Depois damos um toque para os médicos. Os alunos precisam estar bem fisicamente para ter um bom aprendizado", diz.
Fonte: bbc.co.uk -
25.09.2014