sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O enigma da reencarnação
Postado em 10 Aug 2017 02 28 OutroOlhar-provisori

Provavelmente, hoje os físicos têm mais  
a contribuir sobre o tema reencarnação  
do que religiosos atados a suas certezas  


por JOMAR MORAIS



Dois anos antes de morrer, de câncer, um grande amigo, jornalista, desabafou, em um texto brilhante, que, para além da morte, nada esperava. Não pensava em continuar vivo e consciente e, sobretudo, em retornar ao mundo, reencarnar. Queria apenas desaparecer.

Meu amigo ainda não sabia do câncer que já lhe corroía as entranhas, mas estava amargurado com os reveses da vida e a injustiça dos homens, contra a qual lutou bravamente em seus últimos anos de vida. Tornara-se ateu e materialista contumaz.

Não sei se o seu ateísmo e materialismo tinham base filosófica ou emocional. Não é fácil conservar a imagem primitiva e convencional de um Deus pessoal, protetor e exigente quando a vida confronta e derrota nossos desejos. Quanto à reencarnação, acho que ele lidava com o conceito mais popular e ocidental daquilo que o oriente, em passado remoto, chamava de transmigração.

Ao contrário de meu amigo, acredito em reencarnação, mas meu conceito sobre esse evento há muito está efervescente e não para de desconstruir-me as certezas. Nossas crenças interagem o tempo todo com nossas experiências e conhecimento acumulado. Também a fé se move no fluxo incessante da criação. Não reconhecer essa evidência é, talvez, a maior fragilidade da maioria das religiões e dos religiosos que gostariam de encontrar na prática espiritual a segurança de um universo estático e acabado.

Anos atrás, cheguei a vivenciar supostas recordações de vida passada que até hoje me impactam a emoção e a percepção sem que isso tenha desvendado o enigma. O que encarna? O que reencarna? Quando relatei uma de minhas experiências na Internet, cheguei a ser contatado pela produção da TV Globo, que então preparava a novela “Além do Tempo”, e por uma produtora de filmes que viam a possibilidade de agregar meu relato a seus projetos literários, mas fiz questão de baixar a bola e explicar que, no texto, eu deixara aberta a possibilidade de o evento narrado ter diferentes explicações, conforme a linha conceitual adotada. Um espírita talvez considerasse a reencarnação de uma estrutura completa, um eu e, quem sabe, um ego; um budista, que não trabalha com a ideia de um “eu” inerente, poderia ver ali apenas a manifestação de agregados energéticos, memórias da consciência única; já um psicólogo junguiano faria considerações sobre o inconsciente coletivo.

Provavelmente, na atualidade, os físicos teóricos têm mais a contribuir para o entendimento dessa questão que os religiosos superficiais, que costumam estacionar sobre “certezas” indiscutíveis. 

Einstein, informa o físico Amit Goswami, em seu livro “A Física da Alma”, afirmava que “passado, presente e futuro existem, em algum nível, simultaneamente”. Ele consolou a viúva de seu amigo Michelangelo Besso dizendo que “para nós, físicos convictos, a diferença entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão, por mais persistente que seja”.

Goswami acha que Einstein intuiu que “as pessoas vivem em seus respectivos quadros temporais” e, a partir daí, desenvolve hipóteses no livro citado. As pessoas viveriam em quadros temporais correlacionados. O significado estaria na mente do experimentador, “a consciência individual específica, que se sintoniza com alguma coisa do parque temático não local, no melodrama específico dessa pessoa”.

As elaborações de Goswami não cabem, completas e íntegras, em um texto genérico e conciso de um mero jornalista. Mas, sem dúvida, são uma provocação a que pensemos de um jeito novo nas questões emaranhadas do ser, do tempo e da influência recíproca entre passado, futuro e presente.

[ Publicado na edição do Novonoticias.com de 08/08/17 ]

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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

EM MATO GROSSO.

Primo de governador, ex-secretário é preso suspeito de mandar grampear políticos e jornalista

Paulo Taques foi secretário chefe da Casa Civil na gestão de Pedro Taques (PSDB). Ele foi preso nesta sexta-feira (4).

Por G1 MT
 
Ex-secretário da Casa Civil de Mato Grosso, Paulo Taques, foi preso nesta sexta-feira (4) (Foto: Mayke Toscano/Secom-MT)Ex-secretário da Casa Civil de Mato Grosso, Paulo Taques, foi preso nesta sexta-feira (4) (Foto: Mayke Toscano/Secom-MT)
Ex-secretário da Casa Civil de Mato Grosso, Paulo Taques, foi preso nesta sexta-feira (4) (Foto: Mayke Toscano/Secom-MT)
O ex-secretário chefe da Casa Civil, Paulo Taques, que é primo do governador de Mato Grosso, Pedro Taques (PSDB) foi preso preventivamente nesta sexta-feira (4) suspeito de envolvimento esquema de grampos clandestinos operados pela Polícia Militar no estado. Ele foi levado para a sede da Polinter, em Cuiabá, onde deve prestar depoimento. O esquema foi denunciado em uma reportagem do Fantástico em maio deste ano.
A prisão foi determinada pelo desembargado do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), Orlando Perri, relator no órgão sobre a investigação dos grampos clandestinos. A decisão foi assinada na quinta-feira (3) e cumprida hoje.
Paulo Taques foi levado para a sede da Polinter, em Cuiabá, onde deve prestar depoimento (Foto: Lislaine dos Anjos/G1)Paulo Taques foi levado para a sede da Polinter, em Cuiabá, onde deve prestar depoimento (Foto: Lislaine dos Anjos/G1)
Paulo Taques foi levado para a sede da Polinter, em Cuiabá, onde deve prestar depoimento (Foto: Lislaine dos Anjos/G1)
Na decisão, o desembargador afirma que, mesmo em liberdade, o ex-secretário "vem buscando, de todas as formas, interferir diretamente na apuração dos fatos, mediante a utilização dos meios de comunicação, sobretudo pelo forte prestígio que ainda possui perante a imprensa de uma forma geral, ou, quiçá, de espaços decorrentes de suas relações com o governo".
Segundo a denúncia, mais de 100 pessoas tiveram as conversas grampeadas, entre elas políticos de oposição ao atual governo de Mato Grosso, advogados, médicos e jornalistas.
Os telefones foram incluídos indevidamente em uma investigação sobre tráfico de drogas que teria o suposto envolvimento de policiais militares. O resultado dessa investigação, porém, não foi informado pelo governo até hoje.
Paulo Taques, que é advogado, deixou o comando da Casa Civil em maio deste ano. À época, ele alegou que voltaria a se dedicar à advocacia e que reassumiria o papel de advogado pessoal de Pedro Taques, primo dele.
Além de Paulo Taques, estão presos por envolvimento no esquema o coronel Zaqueu Barbosa, os coronéis Evandro Lesco e Ronelson Barros, ex-chefe e ex-adjunto da Casa Militar, e o cabo o cabo Gerson Correa Junior. Eles estão foram presos entre maio e junho deste ano.
"Os mesmos argumentos aduzidos por ocasião da prisão preventiva de vários policiais militares também se aplicam ao caso em apreço, máxime porque há fortíssimos indícios da ligação entre Paulo Taques com o grupo criminoso formado para implantação de diversas escutas telefônicas ilegais", diz trecho da decisão.

Investigações

O promotor de Justiça Mauro Zaque, que comandou a Secretaria de Segurança Pública em 2015, denunciou o caso à Procuradoria-Geral da República, afirmando que alertou o governador Pedro Taques (PSBD) sobre a existência de um "escritório clandestino de espionagem" por meio de dois ofícios. O primeiro chegou a ser enviado para o MPE, mas a investigação foi arquivada por falta de provas.
O segundo, que o governador alega nunca ter recebido, foi protocolado na Casa Civil, mas cancelado no mesmo dia e substituído por outro, conforme apontou auditoria da Controladoria Geral do Estado. Antes do relatório da CGE vir à tona, Taques chegou a entrar com representação contra Zaque em instituições como o Conselho Nacional do Ministério Público e a PGR, acusando-o de falsificação de documento público.
Dias antes do escândalo ser revelado em reportagem do Fantástico, em maio, o secretário-chefe da Casa Civil, Paulo Taques, primo do governador, deixou o cargo. O próprio Paulo Taques, alegando estar sofrendo ameaças, pediu à Sesp para que fossem investigados um jornalista, uma ex-secretária e uma ex-amante dele.

Envolvimento do governador

Em depoimento encaminhado à PGR, o ex-secretário Mauro Zaque afirmou que em 2015, época em que ainda estava no governo, ouviu o coronel Zaqueu Barbosa, comandante da PM à época, dizer que as interceptações telefônicas eram feitas por determinação de Pedro Taques. Ele alega ainda que levou o assunto a Taques e que o governador ficou constrangido, mas não fez nenhum comentário.
Em entrevista ao Fantástico, o secretário de Comunicação, Kléber Lima, negou o envolvimento do governador no esquema.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Ensino de História em Portugal perpetua mito do 'bom colonizador' e banaliza escravidão, diz pesquisadora

Escravos por DebretDireito de imagemJEAN-BAPTISTE DEBRET
Image captionPintura do francês Jean-Baptiste Debret de 1826 retrata escravos no Brasil
"De igual modo, em virtude dos descobrimentos, movimentaram-se povos para outros continentes (sobretudo europeus e escravos africanos)."
É dessa forma - "como se os negros tivessem optado por emigrar em vez de terem sido levados à força" - que o colonialismo ainda é ensinado em Portugal.
Quem critica é a portuguesa Marta Araújo, investigadora principal do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra.
De setembro de 2008 a fevereiro de 2012, ela coordenou uma minuciosa pesquisa ao fim da qual concluiu que os livros didáticos do país "escondem o racismo no colonialismo português e naturalizam a escravatura".
Além disso, segundo Araújo, "persiste até hoje a visão romântica de que cumprimos uma missão civilizatória, ou seja, de que fomos bons colonizadores, mais benevolentes do que outros povos europeus".
"A escravatura não ocupa mais de duas ou três páginas nesses livros, sendo tratada de forma vaga e superficial. Também propagam ideias tortuosas. Por exemplo, quando falam sobre as consequências da escravatura, o único país a ganhar maior destaque é o Brasil e mesmo assim para falar sobre a miscigenação", explica.
"Por trás disso, está o propósito de destacar a suposta multirracialidade da nossa maior colônia que, neste sentido, seria um exemplo do sucesso das políticas de miscigenação. Na prática, porém, sabemos que isso não ocorreu da forma como é tratada", questiona.
Araújo diz que "nada mudou" desde 2012 e argumenta que a falta de compreensão sobre o assunto traz prejuízos.
"Essa narrativa gera uma série de consequências, desde a menor coleta de dados sobre a discriminação étnico-racial até a própria não admissão de que temos um problema de racismo", afirma.
Escravos por DebretDireito de imagemJEAN-BAPTISTE DEBRET
Image captionSegundo Araújo, livros didáticos portugueses continuam a apregoar visão "romântica" sobre colonialismo português

'Vítimas passivas?'

Para realizar a pesquisa, Araújo contou com a ajuda de outros pesquisadores. O foco principal foi a análise dos cinco livros didáticos de História mais vendidos no país para alunos do chamado 3º Ciclo do Ensino Básico (12 a 14 anos), que compreende do 7º ao 9º ano.
Além disso, a equipe também examinou políticas públicas, entrevistou historiadores e educadores, assistiu a aulas e conduziu workshops com estudantes.
Em um deles, as pesquisadoras presenciaram uma cena que chamou a atenção, lembra Araújo.
Na ocasião, os alunos ficaram surpresos ao saber de revoltas das próprias populações escravizadas. E também sobre o verdadeiro significado dos quilombos ─ destino dos escravos que fugiam, normalmente locais escondidos e fortificados no meio das matas.
"Em outros países, há uma abertura muito maior para discutir como essas populações lutavam contra a opressão. Mas, no caso português, os alunos nem sequer poderiam imaginar que eles se libertavam sozinhos e continuavam a acreditar que todos eram vítimas passivas da situação. É uma ideia muito resignada", diz.
Araújo destaca que nos livros analisados "não há nenhuma alusão à Revolução do Haiti (conflito sangrento que culminou na abolição da escravidão e na independência do país, que passou a ser a primeira república governada por pessoas de ascendência africana)".
Já os quilombos são representados, acrescenta a pesquisadora, como "locais onde os negros dançavam em um dia de festa".
"Como resultado, essas versões acabam sendo consensualizadas e não levantam as polêmicas necessárias para problematizarmos o ensino da História da África."

'Visão romântica'

Araújo diz que, diferentemente de outros países, os livros didáticos portugueses continuam a apregoar uma visão "romântica" sobre o colonialismo português.
"Perdura a narrativa de que nosso colonialismo foi um colonialismo amigável, do qual resultaram sociedades multiculturais e multirraciais - e o Brasil seria um exemplo", diz.
Ironicamente, contudo, outras potências colonizadoras daquele tempo não são retratadas de igual forma, observa ela.
"Quando falamos da descoberta das Américas, os espanhóis são descritos como extremamente violentos sempre em contraste com a suposta benevolência do colonialismo português. Já os impérios francês, britânico e belga são tachados de racistas", assinala.
"Por outro lado, nunca se fala da questão racial em relação ao colonialismo português. Há despolitização crescente. Os livros didáticos holandeses, por exemplo, atribuem a escravatura aos portugueses", acrescenta.
Segundo ela, essa ideia da "benevolência do colonizador português" acabou encontrando eco no luso-tropicalismo, tese desenvolvida pelo cientista social brasileiro Gilberto Freire sobre a relação de Portugal com os trópicos.
Em linhas gerais, Freire defendia que a capacidade do português de se relacionar com os trópicos ─ não por interesse político ou econômico, mas por suposta empatia inata ─ resultaria de sua própria origem ética híbrida, da sua bicontinentalidade e do longo contato com mouros e judeus na Península Ibérica.
Apesar de rejeitado pelo Estado Novo de Getúlio Vargas (1930-1945), por causa da importância que conferia à miscigenação e à interpenetração de culturas, o luso-tropicalismo ganhou força como peça de propaganda durante a ditadura do português António de Oliveira Salazar (1932-1968). Uma versão simplificada e nacionalista da tese acabou guiando a política externa do regime.
"Ocorre que a questão racial nunca foi debatida em Portugal", ressalta Araújo.
Passagem de livro didático em PortugalDireito de imagemMARTA ARAÚJO
Image captionLivro didático português diz que escravos africanos "movimentaram-se para outros continentes"

'Sem resposta'

A pesquisadora alega que enviou os resultados da pesquisa ao Ministério da Educação português, mas nunca obteve resposta.
"Nossa percepção é que os responsáveis acreditam que tudo está bem assim e que medidas paliativas, como festivais culturais sazonais, podem substituir a problematização de um assunto tão importante", critica.
Nesse sentido, Araújo elogia a iniciativa brasileira de 2003 que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio.
"Precisamos combater o racismo, mas isso não será possível se não mudarmos a forma como ensinamos nossa História", conclui.
Procurado pela BBC Brasil, o Ministério da Educação português não havia respondido até a publicação desta reportagem.