Espaço para veiculação de notícias, artigos e reportagens de interesse da comunidade potiguar.
quinta-feira, 27 de setembro de 2018
Um judeu previu o fim do comunismo
que muitos
judeus ajudaram a construir
Luiz Gonzaga Cortez
Judeus e palestinos, povos semitas, continuam se
matando no Oriente Médio. Uma guerra de David contra Golias com nova faceta, moderna,
mortífera, cruel e perversa. Os dois lados negociam com os americanos e russos
o fim do conflito que vem desde 1967, com a invasão de Israel dos territórios
vizinhos. Para quem não sabe, é bom lembrar que os judeus tem amigos na Rússia.
Verdade? O país do povo judeu foi formado por mais de 50% de oriundos da
Ucrânia, uma das mais importantes repúblicas da extinta União Soviética. O
êxodo dos judeus ucranianos é um indicativo de que Stalin conviveu muito bem
com essa etnia altamente vocacionada para ganhar dinheiro.É bom lembrar os
porquês da ligação dos judeus com os russos.
Para
aqueles que acreditam nas lendas bíblicas (a Bíblia foi o primeiro livro
folclórico do mundo), o povo judeu está em todas e todas as partes do planeta,
por desígnios divinos. Os massacres dos judeus, na Alemanha, ordenados por
Hitler foram executados por luteranos, contratados nas zonas rurais. Os judeus,
apesar de todas mazelas que enfrentaram ao longo dos milênios (escravidão,
exílios, genocídios, massacres etc) legaram a humanidade as religiões cristãs e
judaicas, além do islamismo, criada por Maomé, também de origem semita. O
socialismo também é considerado como herança judáica, pois Jesus Cristo teria
sido o primeiro comunista do mundo ocidental quando integrava a seita do
essênios. Karl Marx, o genial pensador alemão e autor do chamado socialismo
científico, sofreu não somente por causa das suas idéias revolucionárias em
prol da Humanidade mas provir de sangue israelita. Leon Trotski, o fundador do
Exército Vermelho e responsável militar pelo triunfo dos bolchevistas contra os
inimigos internos e externos, em 1917,também foi judeu. Lênin, outro gênio político e revolucionário russo,
também é de origem judia, apesar de alguns comunistas afirmarem que ele não era
de origem israelita.
Salvador Borrego E., autor de “Derrota Mundial” (México,
1980, oitava edição) afirma que em 1881 havia seis milhões de judeus na Rússia
e que um ministro tzarista, Pobodonosteff, tentou convertê-los ao cristianismo
e expulsar uns dois milhões deles. Por isso, no meio daquela confusão toda,
milhares fugiram para Nova York e muitos se tornaram proeminentes banqueiros.
Sobre o líder da revolução russa, ele diz: “La situación se hizo todavia más
tirante para los israelitas y sus compañeros rusos revolucionarios cuando
Alejandro Ilitch Ulianov, hijo de la judia Blank, falló en su intento de
asessinar al zar Alejandro III. Ulianov fue detenido y luego ahorcado junto com
cuatro de sus cómplices. Pero su hermano Vladimir guardó para sí el odio que
alentaba contra el régimen y sorteó esa época de peligro portándose como
estudiante disciplinado y pacífico. (Más tarde se convertiría em jefe
revolucionario, bajo el nombre de Lenin, en elreivindicador de las minorías israelitas y en el creador de un nuevo régimen).”
(p.15 y 16) “.
Fim da URSS
Em 1980, a agência de notícias soviética Novosti fez
uma pesquisa mundial sobre “O mundo dentro de 20 anos”. A enquete colheu
opiniões e previsões de políticos, cientistas, intelectuais e empresários de 51
países, de vários matizes ideológicos. Um industrial americano, Cyrus Eaton, de
Cleveland, disse que a Bomba Atômica seria banida e que os Estados Unidos e a
U.R.S.S. seriam dois grandes amigos no ano 2000.Errou a primeira previsão e acertou a
segunda. ( Les Etats-Unis et L’U.R.S.S. seront de grands amis. In “Le monde
dans 20 ans”. União Soviética, 1980., p. 20).
Lembrei aqui a previsão de Cyrus Eaton não para
creditar a ele o privilégio de ter sido o primeiro a prever o fim da União
Soviética e a retomada da amizade entre as duas superpotências,.mas para pegar
um “gancho” para lembrar que foi um judeu que previu radicais mudanças na
política internacional e o fim da URSS. Falo de David Ben Gurion, então
primeiro ministro de Israel, que, em entrevista publicada nas revistas
americanas “Look” e “Life”, em 16 de fevereiro de 1962, disse que em 1987 a
Guerra Fria seria coisa do passado e que a pressão interna nas elites e na
intelligentzia russa, por mais liberdade, e a pressão das massas por melhores
condições de vida, deveriam conduzir a uma gradual democratização da união
Soviética. Gurion, sobre a sua imagem do mundo para 1987, adiantou: “Por otra
parte, la cresciente influencia de los trabajadores y campesinos y la
cresciente importancia política del hombre de ciencia, deben transformar los
Estados Unidos en un estado próspero, com una economía planificada. El
Occidente y Europa Oriental se convertirán en una federación de estados
autónomos, com un regimén socialista y democrático. Com excepción de la URSS,
federada en un estado eurasiano, todos los otros continentes llegarán a unirse
en una alianza mundial, a cuya disposición tendrán una fuerza de policía
internacional. Todas las armas estarán abolidas y no habrá más guerras. En
Jerusalén, las Naciones Unidas (una realmente Naciones Unidas) construirán un
Santuario de los Profetas para servir a la federada unión de todos los
continentes: éste será el asiento de la Corte Suprema de la Humanidad, para
acabar com todas las controversias entre los continentes federados, como profetizó
Isaías. La más alta educación será el derecho de cada persona en el
mundo”.As afirmações de Bem Gurion
foram transcritas no livro de George Knupffer, “La lucha por el poder mundial –
Revolucion e Contrarevolucion”, Cruz y Fierro Editores, Buenos Aires, febrero
de 1974, pág.28.
Luiz Gonzaga Cortez é jornalista e pesquisador.
sábado, 22 de setembro de 2018
PT deveria realizar 'comissão da verdade' para examinar seus erros, diz Noam Chomsky
Júlia Dias CarneiroDa BBC News Brasil em São Paulo
Image caption'Eles (PT) tiveram tremendas oportunidades. Algumas foram usadas em benefício da população, outras foram perdidas. É preciso perguntar por que isso ocorreu, e fazer isso publicamente', diz Chomsky, conhecido pelo ativismo de esquerda
Considerado um dos mais importantes linguistas do mundo, o filósofo e ativista de esquerda americano Noam Chomsky afirma que o PT deveria estabelecer "uma espécie de comissão da verdade" para analisar os erros cometidos pelo partido.
"Eles tiveram tremendas oportunidades. Algumas foram usadas em benefício da população, outras foram perdidas. É preciso perguntar por que isso ocorreu, e fazer isso publicamente. E realizar reformas internas que impeçam que aconteça outra vez", considera Chomsky, em entrevista à BBC News Brasil.
Conhecido por seu forte ativismo de esquerda, Chomsky tem saído em defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Assinou manifesto a favor do petista e participou, na última sexta-feira, em São Paulo, de um seminário organizado por Celso Amorim, ex-ministro de Relações Exteriores de Lula, na Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT.
Nesta quinta-feira, ele deve visitar o ex-presidente na prisão em Curitiba.
Professor de linguística na Universidade do Arizona, Chomsky completa 90 anos em dezembro. Ganhou de presente adiantado da esposa brasileira um papagaio amazonense, verde e de cabeça amarela, batizado de Zé Carioca. O casal está ensinando-o a falar, em inglês, duas expressões-chave da teoria linguística de Chomsky: "language is a snowflake" ("a linguagem é um floco de neve") e "merge is basic" ("fundir é básico", em traduções livres).
Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
BBC News Brasil - Lula nomeou Fernando Haddad como seu sucessor. Se ele vencer, terá que lidar com um forte sentimento anti-PT no país, que está muito polarizado. É possível superar essa polarização? É uma questão de diálogo e alianças?
Noam Chomsky - Se o PT reconquistar o poder político - ou mesmo se não chegar lá, de uma forma ou de outra -, uma grande tarefa que deve enfrentar é de estabelecer uma espécie de comissão da verdade para olhar com honestidade para o que ocorreu. Olhar com franqueza para as oportunidades que perderam. Isso teria um grande significado.
Eles tiveram tremendas oportunidades. Algumas foram usadas em benefício da população, outras foram perdidas. É preciso perguntar por que isso ocorreu, e fazer isso publicamente. E realizar reformas internas que impeçam que aconteça outra vez. Isso deveria ser feito independentemente de chegarem ao poder. O mesmo vale para todos os partidos, ninguém está imune a isso.
Direito de imagemAFPImage captionTRF-4, onde Lula foi condenado em segunda instância; para Chomsky, ex-presidente 'foi sentenciado de uma maneira completamente desproporcional'
BBC News Brasil - O senhor frequentemente elogia o período de crescimento e redução da pobreza na era Lula, mas seu governo incluiu práticas de corrupção, fisiologismo e toma-lá-dá-cá recorrentes na política brasileira, e que Lula antes condenava. Isso levou muitos a se desiludirem com o PT. Na sua visão, a inclusão social prevalece sobre esses problemas?
Chomsky - Houve isso e eu não justifico, não considero correto. Mas foi inevitável já que o PT tinha uma minoria no Congresso. Não poderiam operar sem fazer alianças.
O problema real foi outro. O problema real foi ter falhado em diversificar a economia. Naqueles anos, houve uma grande tentação em toda a América Latina de seguir a vocação tradicional de fornecer commodities a consumidores em outras partes do mundo, especialmente para a China, que se tornou uma grande compradora de soja, ferro. Manufaturados chineses baratos passaram a inundar o Brasil, inviabilizando a indústria de manufaturados local. Esse tipo de política não pode levar a um desenvolvimento de sucesso. A Venezuela também continuou dependendo completamente da exportação de energia.
Por outro lado, houve uma acentuada redução da pobreza, mais benefícios na saúde, mais oportunidade de educação. E o Brasil foi lançado para o centro do palco mundial, com as políticas de Lula e de Celso Amorim (o então ministro de Relações Exteriores) tornando-o um dos países mais respeitados do mundo. Então houve erros graves, mas houve também conquistas consideráveis.
BBC News Brasil - Mas essas conquistas começaram a entrar em declínio durante o governo do próprio PT.
Chomsky - Elas colapsaram quando a oportunidade fácil de produzir commodities para o que parecia ser um mercado insaciável se esgotou. E aí houve um grave problema. Que foi causado pela falta de diversificação. Mas a corrupção é real. É endêmica não apenas no Brasil, mas em todo o hemisfério.
BBC News Brasil - Então quando o senhor defende o PT, admite que houve corrupção?
Chomsky - Quem defende o PT?
BBC News Brasil - O senhor fala em defesa do Lula.
Chomsky - Falo em defesa do Lula de uma maneira muito especial. Digo que houve conquistas significativas, mas houve erros. E que ele agora foi condenado de uma maneira completamente desproporcional ao que fez ou deixou de fazer. Isso não é defender o PT, é descrever os fatos.
Embora Lula pareça ter se mantido afastado de corrupção pessoalmente, ele certamente tolerou muita corrupção no PT. Assim como o (Hugo) Chávez tolerou muita corrupção na PDVSA (a estatal de petróleo) na Venezuela. A corrupção no Brasil e em toda a América Latina é chocante, e isso já há muito tempo. É um problema sério, mas difícil de superar. Porque está entranhada no sistema eleitoral. É preciso desmantelar uma estrutura fortemente enraizada.
Direito de imagemREUTERSImage captionChomsky defende que Lula concorra às eleições
BBC News Brasil - O senhor acha que Lula não tem responsabilidade pelos crimes de que foi condenado?
Chomsky - O crime específico pelo qual ele foi condenado foi a alegação de que um apartamento foi dado a ele, no qual ele nunca morou. Mesmo se assumirmos a versão mais extrema de que ele é culpado de todas as acusações, o que eu duvido, a sentença é completamente desproporcional.
O testemunho (do ex-presidente da OAS, Leo Pinheiro) inspira desconfiança por ter sido obtido em delação premiada. É evidente que a sentença é meramente punitiva e não tem relação com a natureza do crime. A negação ao habeas corpus(para que Lula pudesse recorrer em liberdade) reforça isso.
Ele sem dúvida deveria ter o direito de concorrer nas eleições, como recomenda o Comitê de Direitos Humanos da ONU (que em agosto recomendou que o Brasil garantisse os direitos políticos do ex-presidente, mesmo na prisão, como candidato às eleições de 2018).
BBC News Brasil - Mas a sentença a Lula foi confirmada em segunda instância, enquadrando-o na Lei da Ficha Limpa, que ele próprio sancionou durante seu governo.
Chomsky - Sim, é verdade, e uma boa parte da classe política deve ser submetida a essa lei, mas de uma maneira justa e correta. Assim, se vier à tona que um apartamento foi oferecido ao presidente Temer no qual ele nunca viveu, ele nunca deverá ser sentenciado a 12 anos de prisão por isso.
BBC News Brasil - O senhor acha que a sentença seria diferente para membros de outros partidos?
Chomsky - Radicalmente diferente. Acho que seria incomparável. O presidente (Fernando Henrique) Cardoso seria sujeitado a essa sentença de prisão por uma acusação semelhante?
Direito de imagemEPAImage captionSimpatizantes de Bolsonaro em São Paulo; linguista vê semelhanças entre o candidato brasileiro e Donald Trump
BBC News Brasil - Temos visto o avanço do candidato Jair Bolsonaro, que tem liderado as pesquisas. Há alguma especificidade brasileira nesse avanço da direita?
Chomsky - O mesmo está acontecendo em grande parte do mundo. O caso mais recente foi na Suécia (em eleições recentes, o partido de extrema-direita Democratas da Suécia teve sua maior votação e se firmou como terceiro maior partido do país, com 62 cadeiras no Parlamento). Na Europa, esse fenômeno costuma ser relacionado ao aumento recente da imigração. Entretanto, uma análise cuidadosa feita por cinco economistas suecos demonstrou que os motivos precedem a onda imigratória.
Reflete a imposição de políticas neoliberais que afetaram a profundamente as últimas gerações não só na Suécia mas no mundo todo, acompanhando reformas que decolaram a partir das eras (Ronald) Reagan (presidente norte-americano entre 1981 e 1989) e (Margaret) Thatcher (premiê britânica entre 1979 e 1990). O efeito dessas políticas foi concentrar a renda em círculos muito estreitos, expandir o poder corporativo e aumentar a tendência a monopólios. E deixar de lado a maior parte da população, que sofre com salários que não aumentam, empregos que tendem à precarização e sindicatos enfraquecidos.
Nos EUA, por exemplo, os salários de executivos aumentaram em 1.000% nesse período, mas funcionários sem cargos de supervisão ganham menos hoje do que ganhavam em 1979. Salários ficaram represados e benefícios foram cortados. O mercado de trabalho caminha propositalmente para a precarização, com cargos em meio expediente, sem vínculo empregatício, e assim vai.
Mas de volta à Suécia. O efeito que vemos é que as pessoas se sentem abandonadas, não mais representadas pelo sistema político, e foi isso que levou ao aumento do voto pela extrema-direita. Mas essa população que se sente excluída tem raiva, ressentimento, medo, e busca bodes expiatórios, que são os grupos mais vulneráveis. Na Europa atual, a culpa é colocada nos imigrantes.
BBC News Brasil - Bolsonaro costuma ser comparado a Donald Trump, às vezes chamado de 'Trump brasileiro'. A comparação faz sentido?
Chomsky - Há semelhanças. Até onde percebo, Bolsonaro não parece ter uma política econômica própria. Mas há pessoas ao seu redor que definitivamente têm. Seu economista chefe é um economista ultraliberal de Chicago (referência a Paulo Guedes, que coordena seu programa econômico e tem Ph.D. na Universidade de Chicago, bastião do liberalismo). Ele representa grupos semelhantes àqueles para os quais Trump faz uma espécie de cortina de fumaça nos EUA.
O papel de Trump no sistema político econômico é duplo: o de manter a atenção da mídia constantemente focada no que ele faz ou deixa de fazer e sustentar o apoio de seu eleitorado ao aparentar fazer coisas para eles; mas, enquanto isso, dar cobertura para programas republicanos selvagens que estão sendo implementados por pessoas como Paul Ryan (deputado pelo Partido Republicano e presidente da Câmara dos Representantes dos EUA) e Mitch McConnell (senador republicano).
Um bom exemplo é a maior conquista recente dos republicanos, a reforma tributária (aprovada em dezembro do ano passado). Foi um grande presente para o setor corporativo, para os ultra-ricos e para o setor imobiliário. Para o resto da população, o próprio Paul Ryan (presidente da Câmara dos Representantes dos EUA) explicou os efeitos: a reforma cria um déficit enorme e por isso será preciso cortar investimentos sociais. Saúde, educação, vale-alimentação para crianças pobres, essas coisas "irrelevantes".
Enquanto a mídia se concentra nas últimas mentiras ou no comportamento esquisito de Trump, esse tipo de coisa está acontecendo no background.
Com o Bolsonaro, imagino que poderíamos imaginar algo semelhante. Vai depender se ele tiver o mesmo talento de Trump, que está tendo uma atuação impressionante. Enquanto prejudica seu eleitorado de todas as maneiras possíveis, minando segurança social, direitos trabalhistas, ainda consegue se apresentar como seu defensor. E seus eleitores respondem não apenas com apoio, mas com veneração. Isso é um feito tremendo. É uma realização que demagogos alcançam de vez em quando, mas demanda habilidade política.
Direito de imagemTOMAZ SILVA/AGÊNCIA BRASILImage captionMilitares em homenagem no Rio; 'Se a situação econômica, social e política se deteriorar o suficiente, poderia haver um apelo para que alguém intervenha (militarmente) de modo a preservar a ordem. Mas é muito diferente de 1964', opina Chomsky
BBC News Brasil - Três décadas depois da redemocratização, temos visto grupos publicamente defendendo intervenção militar no Brasil, algo que até pouco tempo atrás seria impensável. O senhor vê uma tendência à militarização na política no Brasil?
Chomsky - Se a situação econômica, social e política se deteriorar o suficiente, poderia haver um apelo para que alguém intervenha de modo a preservar a ordem. Mas é muito diferente de 1964 (ano do golpe militar). Os Estados Unidos tinham uma influência avassaladora sobre a América Latina na época.
O terreno para o golpe no Brasil foi preparado durante o governo Kennedy, e implementado pouco depois de seu assassinato (em 1963), com forte apoio dos EUA. O então embaixador Lincoln Gordon o descreveu como a maior vitória para a democracia em meados do século 20. E depois vieram os golpes no Chile, no Uruguai, na Argentina, o pior de todos, fortemente apoiados pelos EUA.
Hoje, os EUA não têm mais essa influência sobre a região. Um dos efeito das políticas de centro-esquerda foi o de reduzir o controle e a influência americana sobre a região em diversas maneiras. Uma delas, por exemplo, foi expulsar o FMI (Fundo Monetário Internacional).
BBC News Brasil - A influência do Brasil na região também diminuiu. Hoje estamos diante da maior crise de imigração na história recente da América do Sul, com o êxodo da Venezuela, mas não há uma liderança regional clara. Qual é o impacto político dessa crise para a região?
Chomsky - O impacto é sério. As estruturas que começaram a ser desenvolvidas para lidar com tais situações erodiram. A Unasul (a União de Nações Sul-americanas, bloco de 12 países fundado em 2008) mal funciona. A Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, fundada em 2010) não funciona de jeito nenhum.
Os movimentos para adquirir maior independência e desenvolvimento (na região, buscando maior integração entre países da América Latina) foram abortados e regrediram. Mas não acho que tenham sido perdidos. O que foi realizado proporciona um arcabouço para seguir em frente, o que acho que será feito, porque a situação não é tolerável.
BBC News Brasil - A seu ver, está na hora de lideranças da esquerda na região tomarem uma posição mais forte para condenar as violações de direitos humanos do governo Maduro?
Chomsky - Sim, e isso sempre foi necessário. Eu mesmo participei de fortes protestos contra violações de direitos humanos sob o regime de Hugo Chávez. É preciso se posicionar com firmeza contra as violações.
Lembrando, entretanto, que são uma parte muito reduzida das violações de direitos humanos que acontecem no mundo todo. As mais extremas no período moderno partiram dos Estados Unidos e da Inglaterra. A invasão do Iraque é o pior crime do século 21. Nada se compara àquela ação. Teve efeitos terríveis, não apenas destruindo o Iraque, mas alimentando o crescimento do Estado Islâmico e instigando conflitos étnicos que estão estraçalhando a região.
BBC News Brasil - O senhor está prestes a fazer 90 anos agora em dezembro, e acompanhou episódios marcantes da história do último século. O que lhe faz continuar, o que lhe traz esperança?
Chomsky - O que me faz continuar é a gravidade dos problemas. O que dá esperança é o fato de que há muita gente dedicada a fazer algo para resolvê-los. O nível de engajamento que vejo hoje está além do que vi em minha vida toda.
É preciso lembrar que os Estados Unidos tinham leis explícitas contra miscigenação até os anos 1960 - leis que nem os nazistas puderam adotar porque iam longe demais. A Inglaterra praticamente assassinou um grande matemático (Alan Turing) por homossexualidade, herói da Segunda Guerra por ter quebrado o código da Alemanha nazista. Ele foi submetido a um tratamento médico que o levou à morte. Inglaterra, um país avançado. Até 2003, ainda tínhamos leis anti-sodomia nos Estados Unidos.
Houve mudanças tremendas com os anos, e elas não vieram de presente. Vieram de ativismo constante, que está aqui, crescendo, com essas manifestações. Acho que esses são sinais de esperança. Olhando para as diferenças entre ontem e hoje, é um mundo muito diferente.
sábado, 15 de setembro de 2018
Desigualdade, queda na renda e desemprego entre jovens: o que o novo relatório do IDH diz sobre o Brasil
Direito de imagemGETTY IMAGESImage captionBrasil é o nono mais desigual do mundo, destaca relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
O Brasil nem piorou, nem melhorou no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que mede o progresso dos países em saúde, educação e renda. A posição do país no ranking de 2017, divulgado nessa sexta-feira pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), não mudou. Além disso, o IDH do país é praticamente o mesmo dos dois anos anteriores.
Um dos aspectos que mais frearam o avanço brasileiro foi a queda da renda da população, causada pela crise econômica. A renda per capita, um dos critérios que compõem o IDH, caiu em 4% de 2015 a 2017 - de 14,3 mil dólares por ano para 13,7 mil dólares. Já os indicadores de educação e saúde tiveram ligeira melhora.
Além disso, o relatório destaca que o Brasil tem a nona maior desigualdade de renda do mundo, medida pelo coeficiente de Gini. É o país mais desigual do continente americano. No mundo, o pior é a África do Sul, que viveu durante quase meio século um regime de segregação racial, o apartheid.
Veja abaixo cinco destaques do novo relatório do IDH sobre o Brasil e dois destaques mundiais:
IDH do Brasil fica estável, mas indicador de renda cai
O Brasil manteve a posição 79 no ranking do IDH, em uma lista de 189 países. Assim, continua a ser considerado um país de IDH alto - as categorias são muito alto, alto, médio e baixo.
Também estão no grupo do Brasil países como China, Cuba, México, Venezuela e Líbia. Já Chile, Argentina e Urugual estão no grupo de elite, de IDH muito alto.
O IDH varia de 0 a 1. Quanto mais próximo de 1, melhor é a situação de um país. Em 2017, a Noruega, que tem o melhor IDH do mundo, pontuou 0,953. Na outra ponta, o Níger registrou 0,354.
O Brasil, por sua vez, ficou com 0,759, em 2017. É praticamente o mesmo valor de 2015, 0,757.
Isso representa uma inversão de tendência. De 1990 a 2014, o IDH do Brasil vinha crescendo significativamente. Era de 0,611, em 1990, subiu para 0,684, em 2000. Depois, em 2010, atingiu 0,727. Em 2014, chegou a 0,752.
Desde então, a degradação da situação econômica limitou o crescimento do IDH. Por outro lado, entre 2015 e 2017, o Brasil teve leves avanços na expectativa de vida (de 75,3 anos para 75,7 anos) e na média de anos de estudo (de 7,6 para 7,8 anos). Já os anos esperados de escolaridade (o tempo de estudo oferecido pelo país) permaneceram os mesmos, 15,4.
Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption'Estar na escola não é o mesmo que estar aprendendo na escola', alerta Pnud
Brasil tem o maior desemprego jovem da América Latina
Outro ponto apontado pelo Pnud é o desemprego da população jovem. No Brasil, chega a 30,5%. É o maior percentual da América do Sul.
Além disso, um de quatro jovens brasileiros é "nem-nem" - não trabalha, nem estuda. É um sinal da falta de oportunidade de empregos e de estímulo à educação no país.
Mulheres têm mais saúde e educação que homens, mas renda é 43% menor
O PNUD também divulgou o Índice de Desenvolvimento de Gênero, que leva em conta a desigualdade entre homens e mulheres, também nos quesitos saúde, educação e renda.
No Brasil, os indicadores das mulheres são melhores que os dos homens em saúde e educação, mas a renda das mulheres é 43% menor. Enquanto os homens brasileiros ganham 17 mil dólares por ano, as mulheres recebem 10 mil dólares por ano.
Outro fator de desigualdade é a presença feminina na política. No Brasil, as mulheres ocupam apenas 11% das cadeiras do Congresso. É o menor número da América do Sul.
Image captionSérie histórica do IDH no Brasil, de 1990 a 2017
A nona maior desigualdade de renda do mundo
O coeficiente de Gini coloca o Brasil na posição de nono país mais desigual do mundo, segundo os dados divulgados nessa sexta-feira.
O país fica à frente, apenas, de África do Sul, Namíbia, Botsuana, Zâmbia, República Centro-Africana, Lesoto, Moçambique e eSuatini (ex-Suazilândia) - todos na África.
A maior desigualdade do Brasil é de renda, não de saúde e educação
A desigualdade leva a uma perda de 24% no IDH do Brasil. Como o IDH tem três dimensões - saúde, educação e renda - o PNUD leva em consideração a desigualdade em cada um deles.
Segundo a instituição, a principal dimensão da desigualdade brasileira é a de renda. Em seguida, desigualdade na educação e a desigualdade na expectativa de vida.
Na Índia, por exemplo, cuja desigualdade gera uma queda no IDH parecida com a do Brasil, o principal componente é a desigualdade na educação.
Direito de imagemGETTY IMAGESImage captionRenda das mulheres no Brasil é 43% menor que a dos homens
Síria, Líbia e Venezuela estão entre os países que mais pioraram
Nos últimos cinco anos, os países que mais caíram no ranking geral do IDH são Síria (queda de 27 posições), Líbia (queda de 26 posições), Iêmen (queda de 20 posições) e Venezuela (queda de 16).
Os três primeiros sofreram com guerras civis, que impactaram as condições de saúde, educação e renda. Já os dados da Venezuela caíram devido à degradação da situação econômica e política do país.
Ainda assim, a Venezuela está uma posição à frente do Brasil no ranking do IDH - nos anos de Hugo Chávez, o país viveu um rápido crescimento.
Estar na escola não é o mesmo que estar aprendendo na escola
Com o passar dos anos, os países avançaram em escolaridade, colocando mais crianças na escola. Mas o Pnud alerta que "estar na escola por mais tempo não significa possuir melhores capacidades e habilidades".
Nos países de baixo desenvolvimento humano, por exemplo, há em média 1 professor para cada 41 alunos do ensino primário. Já nos países de alto desenvolvimento humano, existe cerca de 1 professor para cada 14 alunos. Entre um e outro, há um longo caminho para percorrer.
Outros desafios são a capacitação dos professores e o acesso a tecnologias da comunicação.
O alerta do Pnud também vale para o Brasil. Os indicadores do Pisa, que medem a qualidade do aprendizado em matemática, leitura e ciência, estão abaixo dos latino-americanos Argentina, Chile, Uruguai, México, Colômbia.