sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Eleições
O candidato do PSL, Jair Bolsonaro. Foto: Ricardo Moraes/Reuters
Equipe de Bolsonaro propõe tirar encargos de folha de pagamento
Os economistas da campanha do candidato do PSL, líder nas pesquisas eleitorais, propõem uma desoneração "urgente" de todos os encargos que incidem sobre a folha de pagamento das empresas. A medida, segundo o grupo, é necessária para diminuir o quadro de 13 milhões de desempregados.
A nova desoneração seria compensada com outras fontes de receita mais eficientes, e que não onerem a produção, disse, sem dar mais detalhes, o ex-diretor do BNDES, Carlos Alexandre da Costa.
O candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad, quer usar reservas em infraestrutura. Segundo o economista Ricardo Carneiro, integrante da equipe que elaborou o programa do petista, plano é criar fundo de R$ 30 bi oriundo de reservas internacionais.
No primeiro debate do 2º turno da disputa pelo governo de São Paulo, Márcio França (PSB) e João Doria (PSDB) trocaram acusações e até agressões verbais.
LEIA MAIs

sábado, 6 de outubro de 2018

Eleição 2018: Os números que ajudarão a decidir o futuro do país

homem diante de um quadro cheio de cálculoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionNeste domingo, mais de 140 milhões de eleitores são esperados nas urnas para escolher seis nomes entre os cerca de 27 mil candidatos aptos a disputar as eleições de 2018
Neste domingo, mais de 140 milhões de eleitores são esperados nas urnas para escolher seis nomes entre os cerca de 27 mil candidatos aptos a disputar as eleições de 2018.
Um total de 29,1 mil pessoas registraram suas candidaturas, mas cerca de 7,1% delas foram considerados inaptas pela Justiça Eleitoral. Ainda assim, o número de candidatos é maior que o das eleições passadas, quando 26,1 mil se registraram para disputar o pleito - o número de eleitores também aumentou.
Neste ano, contudo, a disputa está mais acirrada que a das eleições de 2014. O país não tinha tantos candidatos a presidente desde 1989, quando 22 pessoas concorreram – neste ano são 13 os postulantes à Presidência.
Na hora de votar, o eleitor precisa escolher, nesta ordem, um deputado federal; um deputado estadual (ou distrital para o Distrito Federal); dois senadores diferentes, um governador e, por fim, um nome para ocupar a Presidência da República. Mas as contas a serem feitas para eleger cada um dos cargos disputados, contudo, variam.
A BBC News Brasil te ajuda, neste texto, a entender a matemática dessa eleição.

50% + 1: Quantos votos são necessários para uma vitória em primeiro turno

Para os cargos de presidente e governador, a vitória em primeiro turno se dá quando um candidato obtém a maioria absoluta, ou seja, 50% dos votos válidos mais um. Nessa conta, portanto, são excluídos os votos brancos e nulos.
Por isso, cuidado com o mito: mesmo se os brancos e nulos superarem os 50% dos votos, a eleição não é anulada - ganham ou passam ao segundo turno os candidatos ou coligações com maior número de votos válidos.
Mas quanto maior o número de votos brancos, nulos e de abstenções (pessoas que não aparecem para votar), menor o número absoluto de votos que um candidato precisa conquistar para se eleger no primeiro turno.
Em 2014, por exemplo, 29% do total de eleitores ou não votaram ou votaram branco e nulo. Se isso acontecer novamente, o próximo presidente precisa ganhar cerca de 52,29 milhões de votos para vencer já no primeiro turno. Esse número equivale a cerca de 35,5% do número total de eleitores.
Se nenhum candidato alcançar mais de 50% dos votos válidos, os eleitores devem voltar às urnas para escolher entre os dois candidatos com melhor desempenho na primeira etapa.
O segundo turno das eleições está marcado para o dia 28 de outubro.
mulher na urna eletrônicaDireito de imagemTSE
Image captionNesta eleição é preciso escolher dois senadores, mas votar duas vezes no mesmo candidato anula o segundo voto

2/3 do Senado

Neste ano, cada eleitor precisa escolher dois candidatos ao Senado, que conta com três senadores por Estado – 81 no total.
Serão eleitos 54 senadores, o equivalente a dois terços da Casa - uma particularidade é que os senadores são eleitos para um mandato de oito anos e não de quatro anos como no caso dos outros cargos.
Vencem a disputa os dois candidatos de cada Estado com maior número de votos válidos já na primeira etapa. Não há, portanto, segundo turno para senador.
Segundo o TSE, votar duas vezes no mesmo candidato levará à anulação do segundo voto.

17 candidatos por vaga na disputa pelo legislativo estadual

Além de um governador, o eleitor precisa escolher um deputado estadual - no caso do DF, um deputado distrital. Segundo o TSE, há um total de 1.035 vagas nas assembleias dos 26 Estados e 24 cadeiras na Câmara Legislativa do DF.
Considerando o número de pessoas que registraram suas candidaturas em todo o país, são quase 18 candidatos por vaga de deputado estadual. No DF, é ainda mais disputado: 40 por vaga.

513 ÷ população de cada Estado = a divisão das cadeiras no Congresso

A Câmara dos Deputados em Brasília tem 513 assentos. A distribuição dessas cadeiras é proporcional à população dos Estados e, por lei, não pode ser menor que oito nem maior que 70.
Quanto maior o número da população, maior o número de representantes na Câmara. São Paulo, o mais populoso Estado do país, tem direito a 70 desses assentos. Roraima, por sua vez, tem oito.
Os cálculos são feitos com base nos números do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e o TSE define no ano anterior às eleições o número de vagas a serem disputadas.
Assim, o número de pessoas representadas por cada deputado varia a depender do Estado. Os deputados por São Paulo representam, em média, 650 mil pessoas cada um, e os de Roraima, 72 mil pessoas.

Quociente eleitoral: a complexa conta que distribui as vagas do Legislativo

Para um deputado federal ou estadual (ou distrital no caso do Distrito Federal) ser eleito, a conta não depende apenas no número de votos que o candidato teve, mas também dos votos do partido e da coligação e do número de assentos no Legislativo.
Isso porque esses candidatos são escolhidos a partir de um sistema proporcional de lista aberta.
Os votos de todos os candidatos de um partido que disputa as eleições proporcionais sozinhos ou de uma coligação de partidos são contados juntos.
Na equação, entra ainda o número de deputados nas Assembleias estaduais, no caso da Câmara dos Deputados, do número de cadeiras para cada Estado.
menina faz uma contaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionA escolha dos deputados, sejam estaduais ou federais, só é concretizada após a aplicação de fórmulas que levam em conta número de votos válidos total para deputados e para cada partido e coligação, além dos assentos no parlamento
Para se definir quantas vagas cada partido ou coligação vai ter, é preciso fazer duas contas.
Primeiro, divide-se o número dos votos válidos (que excluem os brancos e nulos) para deputado pelo número de assentos. O resultado dessa conta é o chamado quociente eleitoral, ou seja, o número de votos que cada partido ou coligação precisa alcançar para eleger um deputado.
Em seguida, é preciso dividir os votos válidos de cada partido ou coligação pelo quociente eleitoral para saber quantas cadeiras eles vão ter. Apenas após a definição do quociente partidário é que as vagas conquistadas por cada partido ou coligação são distribuídas entre seus candidatos mais bem votados.
Complicou? Vamos a um exemplo concreto:
Em 2014, um total de 14 partidos e seis coligações lançaram candidatos a deputado federal em São Paulo que, juntos, receberam 21.266.194 dos votos válidos na disputa pelas 70 cadeiras que o Estado tem direito na Câmara dos Deputados.
Ao dividir esse total de votos pelas 70 vagas que São Paulo tem na Câmara, temos o quociente eleitoral de 303.803 votos – ou seja, o número mínimo de votos para eleger um federal por São Paulo.
Somente cinco coligações e oito partidos conseguiram votos suficientes para atingir o número mínimo de votos nas últimas eleições.
Dividindo o total de votos de cada um desses partidos ou coligação pelo quociente eleitoral é possível saber quantas cadeiras eles tiveram. Como o resultado dessa conta costuma ser um número quebrado, sempre "sobram" vagas - em São Paulo sobraram oito que foram redistribuídas aos partidos com maior média de votos por vagas.
O PR, por exemplo, não se coligou com ninguém e teve um total de 1.701.667 votos - desses, 1 milhão foi para apenas um candidato, Tiririca.
O deputado Tiririca (PR-SP) na votação do impeachment de Dilma na CâmaraDireito de imagemNILSON BASTIAN/AG. CÂMARA
Image captionTiririca esteve entre os deputados mais votados nas duas últimas eleições e. por isso, "puxou" outros candidatos que não alcançaram o quociente eleitoral
Ao dividir os votos válidos do partido pelo quociente eleitoral (1,7 milhão por 303 mil), chega-se a 5,6. Isso significa que o PR elegeu uma bancada de cinco deputados. Ganhou mais uma cadeira na redistribuição das vagas que "sobraram".
Os votos de Tiririca beneficiaram candidatos que, sozinhos, não teriam atingido o quociente eleitoral.
Ou seja, os deputados como Capitão Augusto (46,9 mil votos) e Miguel Lombardi (32 mil) tiveram muito menos votos que o mínimo necessário (303,8 mil no caso de SP), mas foram eleitos graças a essa matemática aplicada à eleição proporcional.

10% do quociente eleitoral para ser eleito deputado federal

Uma das novidades dessa eleição é a exigência de um número mínimo de votos individuais para deputados federais serem eleitos.
A regra foi criada justamente para impedir que políticos com um número inexpressivo de eleitores consigam chegar à Câmara.
Um candidato precisa ter um número de votos igual ou maior que 10% do quociente eleitoral para ser considerado eleito. Se essa regra estivesse valendo nas eleições passadas, nenhum candidato com menos de 30,3 mil votos poderia ser eleito para representar São Paulo mesmo que o partido ou coligação tivesse um grande puxador de votos.
Plenário da Câmara dos DeputadosDireito de imagemWILSON DIAS/AGÊNCIA BRASIL

9 deputados em 9 Estados = acesso ao Fundo Partidário

O Brasil tem hoje 35 partidos políticos oficiais, registrados no TSE e outras 74 siglas em formação. Para tentar reduzir o número de legendas, foi criada uma nova regra chamada cláusula de barreira, que exige votação mínima para que os partidos continuem recebendo o fundo partidário e tendo acesso à inserções no rádio e na televisão.
Neste ano, as legendas vão precisar eleger ao menos nove deputados federais de nove Estados diferentes ou contabilizar ao menos 1,5% do total de votos para a Câmara dos Deputados também distribuídos em nove unidades da federação com pelo menos 1% dos votos em cada um desses Estados.
Apesar de a cláusula de desempenho ficar mais rígida a cada eleição até 2030, quando será preciso pelo menos 3% dos votos válidos.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018








Um judeu previu o fim do comunismo

que muitos judeus ajudaram a construir

Luiz Gonzaga Cortez

Judeus e palestinos, povos semitas, continuam se matando no Oriente Médio. Uma guerra de David contra Golias com nova faceta, moderna, mortífera, cruel e perversa. Os dois lados negociam com os americanos e russos o fim do conflito que vem desde 1967, com a invasão de Israel dos territórios vizinhos. Para quem não sabe, é bom lembrar que os judeus tem amigos na Rússia. Verdade? O país do povo judeu foi formado por mais de 50% de oriundos da Ucrânia, uma das mais importantes repúblicas da extinta União Soviética. O êxodo dos judeus ucranianos é um indicativo de que Stalin conviveu muito bem com essa etnia altamente vocacionada para ganhar dinheiro.É bom lembrar os porquês da ligação dos judeus com os russos.
Para aqueles que acreditam nas lendas bíblicas (a Bíblia foi o primeiro livro folclórico do mundo), o povo judeu está em todas e todas as partes do planeta, por desígnios divinos. Os massacres dos judeus, na Alemanha, ordenados por Hitler foram executados por luteranos, contratados nas zonas rurais. Os judeus, apesar de todas mazelas que enfrentaram ao longo dos milênios (escravidão, exílios, genocídios, massacres etc) legaram a humanidade as religiões cristãs e judaicas, além do islamismo, criada por Maomé, também de origem semita. O socialismo também é considerado como herança judáica, pois Jesus Cristo teria sido o primeiro comunista do mundo ocidental quando integrava a seita do essênios. Karl Marx, o genial pensador alemão e autor do chamado socialismo científico, sofreu não somente por causa das suas idéias revolucionárias em prol da Humanidade mas provir de sangue israelita. Leon Trotski, o fundador do Exército Vermelho e responsável militar pelo triunfo dos bolchevistas contra os inimigos internos e externos, em 1917,  também foi judeu. Lênin, outro gênio político e revolucionário russo, também é de origem judia, apesar de alguns comunistas afirmarem que ele não era de origem israelita.

Salvador Borrego E., autor de “Derrota Mundial” (México, 1980, oitava edição) afirma que em 1881 havia seis milhões de judeus na Rússia e que um ministro tzarista, Pobodonosteff, tentou convertê-los ao cristianismo e expulsar uns dois milhões deles. Por isso, no meio daquela confusão toda, milhares fugiram para Nova York e muitos se tornaram proeminentes banqueiros. Sobre o líder da revolução russa, ele diz: “La situación se hizo todavia más tirante para los israelitas y sus compañeros rusos revolucionarios cuando Alejandro Ilitch Ulianov, hijo de la judia Blank, falló en su intento de asessinar al zar Alejandro III. Ulianov fue detenido y luego ahorcado junto com cuatro de sus cómplices. Pero su hermano Vladimir guardó para sí el odio que alentaba contra el régimen y sorteó esa época de peligro portándose como estudiante disciplinado y pacífico. (Más tarde se convertiría em jefe revolucionario, bajo el nombre de Lenin, en el  reivindicador de las minorías israelitas y en el creador de un nuevo régimen).” (p.15 y 16) “.

Fim da URSS


Em 1980, a agência de notícias soviética Novosti fez uma pesquisa mundial sobre “O mundo dentro de 20 anos”. A enquete colheu opiniões e previsões de políticos, cientistas, intelectuais e empresários de 51 países, de vários matizes ideológicos. Um industrial americano, Cyrus Eaton, de Cleveland, disse que a Bomba Atômica seria banida e que os Estados Unidos e a U.R.S.S. seriam dois grandes amigos no ano 2000.  Errou a primeira previsão e acertou a segunda. ( Les Etats-Unis et L’U.R.S.S. seront de grands amis. In “Le monde dans 20 ans”. União Soviética, 1980., p. 20).

Lembrei aqui a previsão de Cyrus Eaton não para creditar a ele o privilégio de ter sido o primeiro a prever o fim da União Soviética e a retomada da amizade entre as duas superpotências,.mas para pegar um “gancho” para lembrar que foi um judeu que previu radicais mudanças na política internacional e o fim da URSS. Falo de David Ben Gurion, então primeiro ministro de Israel, que, em entrevista publicada nas revistas americanas “Look” e “Life”, em 16 de fevereiro de 1962, disse que em 1987 a Guerra Fria seria coisa do passado e que a pressão interna nas elites e na intelligentzia russa, por mais liberdade, e a pressão das massas por melhores condições de vida, deveriam conduzir a uma gradual democratização da união Soviética. Gurion, sobre a sua imagem do mundo para 1987, adiantou: “Por otra parte, la cresciente influencia de los trabajadores y campesinos y la cresciente importancia política del hombre de ciencia, deben transformar los Estados Unidos en un estado próspero, com una economía planificada. El Occidente y Europa Oriental se convertirán en una federación de estados autónomos, com un regimén socialista y democrático. Com excepción de la URSS, federada en un estado eurasiano, todos los otros continentes llegarán a unirse en una alianza mundial, a cuya disposición tendrán una fuerza de policía internacional. Todas las armas estarán abolidas y no habrá más guerras. En Jerusalén, las Naciones Unidas (una realmente Naciones Unidas) construirán un Santuario de los Profetas para servir a la federada unión de todos los continentes: éste será el asiento de la Corte Suprema de la Humanidad, para acabar com todas las controversias entre los continentes federados, como profetizó Isaías. La más alta educación será el derecho de cada persona en el mundo”.  As afirmações de Bem Gurion foram transcritas no livro de George Knupffer, “La lucha por el poder mundial – Revolucion e Contrarevolucion”, Cruz y Fierro Editores, Buenos Aires, febrero de 1974, pág.28.

Luiz Gonzaga Cortez é jornalista e pesquisador.

 




sábado, 22 de setembro de 2018

PT deveria realizar 'comissão da verdade' para examinar seus erros, diz Noam Chomsky

Noam Chomsky
Image caption'Eles (PT) tiveram tremendas oportunidades. Algumas foram usadas em benefício da população, outras foram perdidas. É preciso perguntar por que isso ocorreu, e fazer isso publicamente', diz Chomsky, conhecido pelo ativismo de esquerda
Considerado um dos mais importantes linguistas do mundo, o filósofo e ativista de esquerda americano Noam Chomsky afirma que o PT deveria estabelecer "uma espécie de comissão da verdade" para analisar os erros cometidos pelo partido.
"Eles tiveram tremendas oportunidades. Algumas foram usadas em benefício da população, outras foram perdidas. É preciso perguntar por que isso ocorreu, e fazer isso publicamente. E realizar reformas internas que impeçam que aconteça outra vez", considera Chomsky, em entrevista à BBC News Brasil.
Conhecido por seu forte ativismo de esquerda, Chomsky tem saído em defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Assinou manifesto a favor do petista e participou, na última sexta-feira, em São Paulo, de um seminário organizado por Celso Amorim, ex-ministro de Relações Exteriores de Lula, na Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT.
Nesta quinta-feira, ele deve visitar o ex-presidente na prisão em Curitiba.
Professor de linguística na Universidade do Arizona, Chomsky completa 90 anos em dezembro. Ganhou de presente adiantado da esposa brasileira um papagaio amazonense, verde e de cabeça amarela, batizado de Zé Carioca. O casal está ensinando-o a falar, em inglês, duas expressões-chave da teoria linguística de Chomsky: "language is a snowflake" ("a linguagem é um floco de neve") e "merge is basic" ("fundir é básico", em traduções livres).
Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
BBC News Brasil - Lula nomeou Fernando Haddad como seu sucessor. Se ele vencer, terá que lidar com um forte sentimento anti-PT no país, que está muito polarizado. É possível superar essa polarização? É uma questão de diálogo e alianças?
Noam Chomsky - Se o PT reconquistar o poder político - ou mesmo se não chegar lá, de uma forma ou de outra -, uma grande tarefa que deve enfrentar é de estabelecer uma espécie de comissão da verdade para olhar com honestidade para o que ocorreu. Olhar com franqueza para as oportunidades que perderam. Isso teria um grande significado.
Eles tiveram tremendas oportunidades. Algumas foram usadas em benefício da população, outras foram perdidas. É preciso perguntar por que isso ocorreu, e fazer isso publicamente. E realizar reformas internas que impeçam que aconteça outra vez. Isso deveria ser feito independentemente de chegarem ao poder. O mesmo vale para todos os partidos, ninguém está imune a isso.
TRF-4, onde Lula foi condenado em segunda instânciaDireito de imagemAFP
Image captionTRF-4, onde Lula foi condenado em segunda instância; para Chomsky, ex-presidente 'foi sentenciado de uma maneira completamente desproporcional'
BBC News Brasil - O senhor frequentemente elogia o período de crescimento e redução da pobreza na era Lula, mas seu governo incluiu práticas de corrupção, fisiologismo e toma-lá-dá-cá recorrentes na política brasileira, e que Lula antes condenava. Isso levou muitos a se desiludirem com o PT. Na sua visão, a inclusão social prevalece sobre esses problemas?
Chomsky - Houve isso e eu não justifico, não considero correto. Mas foi inevitável já que o PT tinha uma minoria no Congresso. Não poderiam operar sem fazer alianças.
O problema real foi outro. O problema real foi ter falhado em diversificar a economia. Naqueles anos, houve uma grande tentação em toda a América Latina de seguir a vocação tradicional de fornecer commodities a consumidores em outras partes do mundo, especialmente para a China, que se tornou uma grande compradora de soja, ferro. Manufaturados chineses baratos passaram a inundar o Brasil, inviabilizando a indústria de manufaturados local. Esse tipo de política não pode levar a um desenvolvimento de sucesso. A Venezuela também continuou dependendo completamente da exportação de energia.
Por outro lado, houve uma acentuada redução da pobreza, mais benefícios na saúde, mais oportunidade de educação. E o Brasil foi lançado para o centro do palco mundial, com as políticas de Lula e de Celso Amorim (o então ministro de Relações Exteriores) tornando-o um dos países mais respeitados do mundo. Então houve erros graves, mas houve também conquistas consideráveis.
BBC News Brasil - Mas essas conquistas começaram a entrar em declínio durante o governo do próprio PT.
Chomsky - Elas colapsaram quando a oportunidade fácil de produzir commodities para o que parecia ser um mercado insaciável se esgotou. E aí houve um grave problema. Que foi causado pela falta de diversificação. Mas a corrupção é real. É endêmica não apenas no Brasil, mas em todo o hemisfério.
BBC News Brasil - Então quando o senhor defende o PT, admite que houve corrupção?
Chomsky - Quem defende o PT?
BBC News Brasil - O senhor fala em defesa do Lula.
Chomsky - Falo em defesa do Lula de uma maneira muito especial. Digo que houve conquistas significativas, mas houve erros. E que ele agora foi condenado de uma maneira completamente desproporcional ao que fez ou deixou de fazer. Isso não é defender o PT, é descrever os fatos.
Embora Lula pareça ter se mantido afastado de corrupção pessoalmente, ele certamente tolerou muita corrupção no PT. Assim como o (Hugo) Chávez tolerou muita corrupção na PDVSA (a estatal de petróleo) na Venezuela. A corrupção no Brasil e em toda a América Latina é chocante, e isso já há muito tempo. É um problema sério, mas difícil de superar. Porque está entranhada no sistema eleitoral. É preciso desmantelar uma estrutura fortemente enraizada.
LulaDireito de imagemREUTERS
Image captionChomsky defende que Lula concorra às eleições
BBC News Brasil - O senhor acha que Lula não tem responsabilidade pelos crimes de que foi condenado?
Chomsky - O crime específico pelo qual ele foi condenado foi a alegação de que um apartamento foi dado a ele, no qual ele nunca morou. Mesmo se assumirmos a versão mais extrema de que ele é culpado de todas as acusações, o que eu duvido, a sentença é completamente desproporcional.
O testemunho (do ex-presidente da OAS, Leo Pinheiro) inspira desconfiança por ter sido obtido em delação premiada. É evidente que a sentença é meramente punitiva e não tem relação com a natureza do crime. A negação ao habeas corpus(para que Lula pudesse recorrer em liberdade) reforça isso.
Ele sem dúvida deveria ter o direito de concorrer nas eleições, como recomenda o Comitê de Direitos Humanos da ONU (que em agosto recomendou que o Brasil garantisse os direitos políticos do ex-presidente, mesmo na prisão, como candidato às eleições de 2018).
BBC News Brasil - Mas a sentença a Lula foi confirmada em segunda instância, enquadrando-o na Lei da Ficha Limpa, que ele próprio sancionou durante seu governo.
Chomsky - Sim, é verdade, e uma boa parte da classe política deve ser submetida a essa lei, mas de uma maneira justa e correta. Assim, se vier à tona que um apartamento foi oferecido ao presidente Temer no qual ele nunca viveu, ele nunca deverá ser sentenciado a 12 anos de prisão por isso.
BBC News Brasil - O senhor acha que a sentença seria diferente para membros de outros partidos?
Chomsky - Radicalmente diferente. Acho que seria incomparável. O presidente (Fernando Henrique) Cardoso seria sujeitado a essa sentença de prisão por uma acusação semelhante?
Simpatizantes de Bolsonaro em São PauloDireito de imagemEPA
Image captionSimpatizantes de Bolsonaro em São Paulo; linguista vê semelhanças entre o candidato brasileiro e Donald Trump
BBC News Brasil - Temos visto o avanço do candidato Jair Bolsonaro, que tem liderado as pesquisas. Há alguma especificidade brasileira nesse avanço da direita?
Chomsky - O mesmo está acontecendo em grande parte do mundo. O caso mais recente foi na Suécia (em eleições recentes, o partido de extrema-direita Democratas da Suécia teve sua maior votação e se firmou como terceiro maior partido do país, com 62 cadeiras no Parlamento). Na Europa, esse fenômeno costuma ser relacionado ao aumento recente da imigração. Entretanto, uma análise cuidadosa feita por cinco economistas suecos demonstrou que os motivos precedem a onda imigratória.
Reflete a imposição de políticas neoliberais que afetaram a profundamente as últimas gerações não só na Suécia mas no mundo todo, acompanhando reformas que decolaram a partir das eras (Ronald) Reagan (presidente norte-americano entre 1981 e 1989) e (Margaret) Thatcher (premiê britânica entre 1979 e 1990). O efeito dessas políticas foi concentrar a renda em círculos muito estreitos, expandir o poder corporativo e aumentar a tendência a monopólios. E deixar de lado a maior parte da população, que sofre com salários que não aumentam, empregos que tendem à precarização e sindicatos enfraquecidos.
Nos EUA, por exemplo, os salários de executivos aumentaram em 1.000% nesse período, mas funcionários sem cargos de supervisão ganham menos hoje do que ganhavam em 1979. Salários ficaram represados e benefícios foram cortados. O mercado de trabalho caminha propositalmente para a precarização, com cargos em meio expediente, sem vínculo empregatício, e assim vai.
Mas de volta à Suécia. O efeito que vemos é que as pessoas se sentem abandonadas, não mais representadas pelo sistema político, e foi isso que levou ao aumento do voto pela extrema-direita. Mas essa população que se sente excluída tem raiva, ressentimento, medo, e busca bodes expiatórios, que são os grupos mais vulneráveis. Na Europa atual, a culpa é colocada nos imigrantes.
BBC News Brasil - Bolsonaro costuma ser comparado a Donald Trump, às vezes chamado de 'Trump brasileiro'. A comparação faz sentido?
Chomsky - Há semelhanças. Até onde percebo, Bolsonaro não parece ter uma política econômica própria. Mas há pessoas ao seu redor que definitivamente têm. Seu economista chefe é um economista ultraliberal de Chicago (referência a Paulo Guedes, que coordena seu programa econômico e tem Ph.D. na Universidade de Chicago, bastião do liberalismo). Ele representa grupos semelhantes àqueles para os quais Trump faz uma espécie de cortina de fumaça nos EUA.
O papel de Trump no sistema político econômico é duplo: o de manter a atenção da mídia constantemente focada no que ele faz ou deixa de fazer e sustentar o apoio de seu eleitorado ao aparentar fazer coisas para eles; mas, enquanto isso, dar cobertura para programas republicanos selvagens que estão sendo implementados por pessoas como Paul Ryan (deputado pelo Partido Republicano e presidente da Câmara dos Representantes dos EUA) e Mitch McConnell (senador republicano).
Um bom exemplo é a maior conquista recente dos republicanos, a reforma tributária (aprovada em dezembro do ano passado). Foi um grande presente para o setor corporativo, para os ultra-ricos e para o setor imobiliário. Para o resto da população, o próprio Paul Ryan (presidente da Câmara dos Representantes dos EUA) explicou os efeitos: a reforma cria um déficit enorme e por isso será preciso cortar investimentos sociais. Saúde, educação, vale-alimentação para crianças pobres, essas coisas "irrelevantes".
Enquanto a mídia se concentra nas últimas mentiras ou no comportamento esquisito de Trump, esse tipo de coisa está acontecendo no background.
Com o Bolsonaro, imagino que poderíamos imaginar algo semelhante. Vai depender se ele tiver o mesmo talento de Trump, que está tendo uma atuação impressionante. Enquanto prejudica seu eleitorado de todas as maneiras possíveis, minando segurança social, direitos trabalhistas, ainda consegue se apresentar como seu defensor. E seus eleitores respondem não apenas com apoio, mas com veneração. Isso é um feito tremendo. É uma realização que demagogos alcançam de vez em quando, mas demanda habilidade política.
Homenagem a soldados mortos durante a Intervenção Federal no Rio de JaneiroDireito de imagemTOMAZ SILVA/AGÊNCIA BRASIL
Image captionMilitares em homenagem no Rio; 'Se a situação econômica, social e política se deteriorar o suficiente, poderia haver um apelo para que alguém intervenha (militarmente) de modo a preservar a ordem. Mas é muito diferente de 1964', opina Chomsky
BBC News Brasil - Três décadas depois da redemocratização, temos visto grupos publicamente defendendo intervenção militar no Brasil, algo que até pouco tempo atrás seria impensável. O senhor vê uma tendência à militarização na política no Brasil?
Chomsky - Se a situação econômica, social e política se deteriorar o suficiente, poderia haver um apelo para que alguém intervenha de modo a preservar a ordem. Mas é muito diferente de 1964 (ano do golpe militar). Os Estados Unidos tinham uma influência avassaladora sobre a América Latina na época.
O terreno para o golpe no Brasil foi preparado durante o governo Kennedy, e implementado pouco depois de seu assassinato (em 1963), com forte apoio dos EUA. O então embaixador Lincoln Gordon o descreveu como a maior vitória para a democracia em meados do século 20. E depois vieram os golpes no Chile, no Uruguai, na Argentina, o pior de todos, fortemente apoiados pelos EUA.
Hoje, os EUA não têm mais essa influência sobre a região. Um dos efeito das políticas de centro-esquerda foi o de reduzir o controle e a influência americana sobre a região em diversas maneiras. Uma delas, por exemplo, foi expulsar o FMI (Fundo Monetário Internacional).
BBC News Brasil - A influência do Brasil na região também diminuiu. Hoje estamos diante da maior crise de imigração na história recente da América do Sul, com o êxodo da Venezuela, mas não há uma liderança regional clara. Qual é o impacto político dessa crise para a região?
Chomsky - O impacto é sério. As estruturas que começaram a ser desenvolvidas para lidar com tais situações erodiram. A Unasul (a União de Nações Sul-americanas, bloco de 12 países fundado em 2008) mal funciona. A Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, fundada em 2010) não funciona de jeito nenhum.
Os movimentos para adquirir maior independência e desenvolvimento (na região, buscando maior integração entre países da América Latina) foram abortados e regrediram. Mas não acho que tenham sido perdidos. O que foi realizado proporciona um arcabouço para seguir em frente, o que acho que será feito, porque a situação não é tolerável.
BBC News Brasil - A seu ver, está na hora de lideranças da esquerda na região tomarem uma posição mais forte para condenar as violações de direitos humanos do governo Maduro?
Chomsky - Sim, e isso sempre foi necessário. Eu mesmo participei de fortes protestos contra violações de direitos humanos sob o regime de Hugo Chávez. É preciso se posicionar com firmeza contra as violações.
Lembrando, entretanto, que são uma parte muito reduzida das violações de direitos humanos que acontecem no mundo todo. As mais extremas no período moderno partiram dos Estados Unidos e da Inglaterra. A invasão do Iraque é o pior crime do século 21. Nada se compara àquela ação. Teve efeitos terríveis, não apenas destruindo o Iraque, mas alimentando o crescimento do Estado Islâmico e instigando conflitos étnicos que estão estraçalhando a região.
BBC News Brasil - O senhor está prestes a fazer 90 anos agora em dezembro, e acompanhou episódios marcantes da história do último século. O que lhe faz continuar, o que lhe traz esperança?
Chomsky - O que me faz continuar é a gravidade dos problemas. O que dá esperança é o fato de que há muita gente dedicada a fazer algo para resolvê-los. O nível de engajamento que vejo hoje está além do que vi em minha vida toda.
É preciso lembrar que os Estados Unidos tinham leis explícitas contra miscigenação até os anos 1960 - leis que nem os nazistas puderam adotar porque iam longe demais. A Inglaterra praticamente assassinou um grande matemático (Alan Turing) por homossexualidade, herói da Segunda Guerra por ter quebrado o código da Alemanha nazista. Ele foi submetido a um tratamento médico que o levou à morte. Inglaterra, um país avançado. Até 2003, ainda tínhamos leis anti-sodomia nos Estados Unidos.
Houve mudanças tremendas com os anos, e elas não vieram de presente. Vieram de ativismo constante, que está aqui, crescendo, com essas manifestações. Acho que esses são sinais de esperança. Olhando para as diferenças entre ontem e hoje, é um mundo muito diferente.