2011, UM ANO HISTÓRICO
No dia 17 de
dezembro de 2010 um jovem tunisiano, graduado de uma faculdade mas obrigado a
ser vendedor ambulante para sobreviver, foi maltratado e humilhado pela
polícia. Conscientemente ou não, lembrando
um gesto praticado por bonzos vietnamitas em protesto contra a ocupação de seu
país por tropas norte-americanas quatro décadas antes, o jovem tocou fogo no
seu próprio corpo, se auto-imolou.
Por que esse
gesto comoveu toda a Tunísia e todo o mundo árabe e incendiou a este, o que
acontece até os dias que correm? Ora, no
mundo árabe e, pensando bem, no mundo inteiro o desemprego vem aumentando
assustadoramente, especialmente para os jovens que mal têm como entrar no
mercado de trabalho. Ademais em muitos
países pobres os preços dos alimentos vêm aumentando para além da capacidade de
o povo pagar. Muitos jovens árabes,
europeus e norte-americanos além de jovens de outros países vêm esperando trabalho
há anos sem ter como se empregar.
Tudo isso foi
propicio para iniciar a “primavera árabe.”
A democracia, mesmo essa bem limitada democracia burguesa ou democracia
liberal como ela própria se auto-denomina, não tem prevalecido no mundo
árabe. Por esse e outros motivos os
árabes são tidos como atrasados no Ocidente quando na realidade se trata de um
conglomerado de ditaduras e monarquias absolutistas patrocinados pelo próprio Ocidente
há décadas. Graças à unidade lingüística
do mundo árabe do Marrocos até o Iraque e também à internet, todo o mundo árabe
ficou incendiado de revolta. Revolta
contra os altos preços dos alimentos, revolta contra o desemprego, revolta
contra o autoritarismo. Alguns ditadores
caem mas o vazio é preenchido por outros partidários do status quo. Isto é notório no caso do Egito, país de 80
milhões de habitantes. O ditador Mubarak
perdeu o poder. Mas uma junta militar,
cria dele e com fortes vínculos interesseiros com empresas multinacionais,
assumiu o poder. A junta já incentivou veladamente
discórdia entre ativistas muçulmanos (nem todos religiosos) e a minoria cristã
copta. Mas os jovens ativistas insistem
que tanto cristãos como muçulmanos são todos egípcios. A Praça Tahrir no Cairo com freqüência é
ocupada por dezenas de milhares de manifestantes. Recentemente a polícia usou um novo gás
venenoso importado dos Estados Unidos e o lançaram contra muitos
militantes. E jogou os corpos de muitas
vitimas fatais na beira da Praça. Mas a
luta continua.
Graças à
internet pruridos de exigências evidenciados pela juventude árabe alcançou os
jovens da Espanha. Em Madri, Barcelona e
outras cidades ganha corpo um novo movimento.
Ele se auto-denomina de Indignados.
Na Inglaterra a juventude nos bairros pobres, discriminada pela polícia
às vezes até com brutalidade, também se revolta. Sabem que estão condenados a crescer sem
nunca conquistar um emprego no meio de governos que fazem cortes na parte
social do orçamento do país.
Finalmente no
coração do Império começa o movimento Occupy Wall Street. De novo são de longe majoritariamente
jovens. Com as mesmas preocupações. Inúmeros dentre eles observam, à semelhança
de seus pares de outros países, que a “democracia” que conhecemos não favorece
os verdadeiros anseios e necessidades do povo.
O movimento do
Occupy já alcançou mais de mil cidades nos Estados Unidos de acordo com seus
organizadores. Mesmo que a cifra seja
exagerada, certamente há um número elevado de participantes. Recentemente em Bruxelas, capital da União
Européia, jovens manifestantes belgas, franceses, espanhóis e de outras
nacionalidades européias recentemente organizaram passeatas.
E nosso país
no meio de tudo isso? Em São Paulo houve o Ocupa
Sampa, movimento que se reúne nos baixos do Viaduto do Chá. Há aulas públicas e outras atividades e
circula uma media de 400 pessoas por dia. É um começo. O movimento foi consagrado no dia 15 de
outubro lá e em tantas outras praças do mundo.
Na Espanha,
nos Estados Unidos e alhures a coisa sugere a presença de anarquistas. Os anarquistas sempre ficaram arredios a
partidos políticos. Os anarquistas fizeram
a Comuna de Paris em 1871. E lutaram
contra o status quo na Rússia e na Espanha décadas depois. Mas não se trata só de manifestantes
anarquistas. Trata-se de jovens que
percebem que com o atual sistema não há futuro à vista. Em cada país não há um movimento nitidamente
costurado, isto é, não há lideranças claras.
Esse tipo de ativismo vem se formando espontaneamente como respostas a
anseios tão evidentes. Sente-se
instintivamente a necessidade de garantir uma organização. Assuntos como a montagem de lugares para
dormir para gente que vem de mais longe e usa sacos de dormir, o fornecimento
que cada um ou cada grupo faz de comida, etc. são todos resolvidos, até mesmo
não raro com apoio de boa parte do público que não ocupa as praças mas que quer
ajudar materialmente.
Ainda não há
reivindicações claras, não há um programa ou projeto maior. Em razão da complexidade da atual conjuntura,
é natural que isso ocorra inicialmente.
Mas só expor o que não se quer
é muito significativo. Não se quer
capitalismo. Isto é muito claro. A construção da alternativa terá que vir com
o tempo, amadurecer.
Nos Estados
Unidos e na Europa Ocidental, regiões duramente golpeados pela pior crise do
sistema capitalista, que começou em 2008 e vai durar muito, o movimento de
ocupação das praças está menos intenso agora com o inverno. Na primavera tudo recomeçará.
É provável que
a crise do capitalismo encetada em 2008 seja a última. Há meio século a taxa de lucro vem
decrescendo dramaticamente como aliás
Karl Marx tinha previsto. O capital
virtual, que era apenas 10% do capital de todo o planeta em 1970, agora gira em
torno de 97 ou 98% de todo ele. Mesmo
que o sistema esteja apenas a décadas do seu final – historicamente muito perto
dele portanto – ele continuará devorando milhões de inocentes até seu último
suspiro. Será importante que o vazio
deixado um dia pelo capitalismo não seja preenchido por um novo sistema
opressor. Para que a luta valha a pena
será preciso construir uma civilização igualitária.
Há vários
fatores a favor dessa luta popular. Como
notou uma observadora norte-americana, à diferença do que ocorria com os
protestos paralelos ocorridos em contraste com as reuniões dos G-20, G-8 e
similares, as novas manifestações surgidas no histórico ano 2011 podem ocorrer
com maior freqüência porque já não ocorrem como contraponto a reuniões marcadas
pelos governos das maiores economias capitalistas do mundo de hoje. Um segundo fator positivo é que sempre há um
maciço apoio por populares não diretamente envolvidos nas manifestações, o que
fica evidente graças ao fornecimento de alimentos para os manifestantes além de
expressões de opiniões de apoio freqüentes.
Uma pesquisa pouco tempo atrás por exemplo constatou que 46% dos
norte-americanos acham que o pessoal do movimento Occupy têm o direito de fazer
suas manifestações e uma proporção menor acha o contrário. E nos países ao longo do tempo quando há ocupações
de fábricas pelos trabalhadores, a população da redondeza e além tende a
defender os trabalhadores revoltados. Há
cerca de 10 anos atrás aqui no Brasil mais de 50% dos entrevistados para uma
pesquisa disseram-se favoráveis à ocupação de latifúndios improdutivos por
camponeses dispostos a plantar neles. E
tudo isso apesar da orientação dos “formadores de opinião” da grande mídia no
sentido contrário.
Mas deve
persistir a pergunta: como enfrentar pacificamente uma policia muitas vezes
hostil ou até brutal? Como enfrentar uma
legislação restritiva cuja finalidade é promover os interesses da megaburguesia,
especialmente os dos banqueiros, e não os interesses do povo? Como enfrentar a mídia? Este último problema está sendo enfrentado
com certo grau de êxito como sugerimos há poucas linhas atrás. Enfim, enfrentar a megaburguesia que tem
fortíssimos meios para defender seus interesses é um desafio com solução
difícil. Será necessário que haja uma
pressão popular enorme frente aos parlamentos.
Enquanto houver opressão haverá revolta.
A história –
pretérita e presente – é cruel. O
desafio é derrotar a barbárie. Não se
trata de construir outro mundo sem imperfeições. A condição humana nos ensina que não pode
haver uma sociedade perfeita, sem problemas.
Mas isso não impede a intenção de montar uma civilização que iniba
sobremaneira a injustiça. Por novos
mecanismos será possível chegar até lá.
E a histórica
revolta de todo o ano 2011 em todos os continentes sugere que começa um
processo de transição a nível planetário.
Pois sem uma transição para esse “outro mundo [que] é possível” a
ameaçadora crise do meio ambiente e o caos financeiro não serão
contornados.
José Brendan
Macdonald – jobremac@gmail.com – João
Pessoa, PB, Brasil
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