Conquistas
dos trabalhadores em perigo
(*)
Rinaldo Barros
O Fórum Econômico Mundial
promoveu sua 43ª reunião anual, agora em janeiro, na estação de esqui suíça de
Davos reunindo líderes políticos e empresariais de todo o mundo, mas o Brasil
esteve sub-representado no evento.
Dos mais de 2.500
participantes do fórum que constavam da lista oficial, apenas 09 nomes do
Brasil - incluindo os de sete jornalistas brasileiros escalados para cobrir o
encontro. Do governo, apenas 02 representantes: Luciano Coutinho do BNDES e
Alexandre Tombini, presidente do Banco Central.
A Índia compareceu com a
delegação mais numerosa, com 109 nomes, incluindo os de quatro ministros. A
China teve um pouco menos - 86 representantes, contando também os 24
participantes de Hong Kong. A Rússia com 82 nomes e África do Sul com 69 nomes.
Cito esses números apenas para que o caro leitor possa avaliar o interesse do
governo federal no debate mundial das grandes questões econômico-sociais, num
mundo globalizado e em plena crise envolvendo os EUA e a União Europeia.
Em verdade, a conversa de hoje pretende alumiar a questão da proteção social,
ou do Estado do Bem-estar ("Welfare
state"), consolidado desde o início do século passado.
Ou seja, diante do atual impasse europeu podemos estar assistindo ao limite de
um sistema de proteção social que foi a base lógica e estrutural da busca de
bem-estar humano no sistema internacional do século XX. A proteção social,
levada a cabo por meio de políticas sociais e de direitos sociais, é analisada
aqui em perspectiva de longa duração e sistêmica.
O gasto social consolidou-se no século XX como um dos principais pilares da
economia política dos Estados nacionais. Do ponto de vista político, a
Revolução Francesa foi um marco na capacidade das massas gerarem demandas
sociais crescentes, que passaram a ser atendidas por meio do gasto público.
Do ponto de vista econômico, o gasto público, de forma
geral, se tornou parte fundamental do sistema capitalista. Infraestrutura e
trabalhadores educados e saudáveis passaram a ser uma necessidade do capital.
Criou-se uma tensão política, de certa forma virtuosa para o sistema, entre
Estado, capital e trabalhadores.
Com a construção de sistemas de educação e saúde voltados
para formação de trabalhadores e de novas tecnologias; de sistemas de
previdência, que sustentaram o consumo interno; e da expansão na arena
internacional, que garantiu mercados e matérias primas. Alguns países europeus
conseguiram até mesmo se aproximar da universalização do bem estar social.
Todavia, a partir de 1980, muitos países foram pressionados
a reduzir o padrão de vida, interrompendo um ciclo de expansão que durou
décadas.
Outro sinal de estancamento do
processo de universalização foi o aumento da informalidade no mercado de
trabalho, após um longo período de incorporação de trabalhadores à formalidade
– que significa para o indivíduo um novo patamar de direitos de cidadania.
O desemprego aumentou e se tornou um grave problema
socioeconômico.
Pior: não havia (ainda não há)
políticas sociais para contornar o problema, que foi agravado pela adoção de
políticas macroeconômicas contracionistas.
Mesmo na Europa, o desemprego
tornou-se um problema constante desde a crise do petróleo.
Entre os principais desafios
elencados em relação à pobreza e exclusão estão: 1) erradicar pobreza infantil;
2) promover inclusão social e no mercado de trabalho dos grupos mais
vulneráveis; 3) prover moradia decente a todos; 4) reduzir a exclusão
financeira e o endividamento excessivo das famílias.
Nos países do MERCOSUL, as políticas de proteção social
predominam, mas todos usam transferência de renda. São políticas
compensatórias, tipo Bolsa família.
Aqui no patropi, não há alternativas para enfrentar a
informalidade, especialmente no ambiente urbano; e não há ainda políticas
públicas para os que ficam de fora do mercado.
Resumo da ópera: os que vivem
do seu próprio trabalho correm risco iminente de perder conquistas essenciais à
dignidade do ser humano. Fator chave na estruturação de todas as experiências
do “Estado de Bem-Estar”, o mundo do trabalho encontra-se em crise.
Crise que se configura, entre
outras, do ponto de vista dos trabalhadores, pelo aumento do desemprego e da
informalidade, com impactos negativos no aumento da violência e da
criminalidade.
(*) Rinaldo Barros é
professor – rb@opiniaopolitica.com
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