quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Um texto importante para a história potiguar.


Procura-se um herói.


Carlos Adel Teixeira de Souza.*

Um dos símbolos mais comuns aos regimes de força ditatorial, é o HERÓI. Criado para mascarar verdades pouco esclarecidas, nem sempre tem nome e ligações, de alguma forma, com os que se apossam do poder, mas que “deu sua vida pela nobre causa da liberdade”, objetivo “maior que leva a tamanho sacrifício. Os regimes não totalitários preferem homenagens mais abrangentes como as que são feitas aos soldados desconhecidos”.
Figura às vezes real e outras fictícias, o HERÓI tem direito a estátua, monumento, mausoléu, placas em mármore ou bronze, condecorações, hinos, poemas, crônicas, biografia, feriado, cerimônias religiosas e outras reverências. Assim tem sido ao longo da História.
No Rio Grande do Norte, o registro de heróis é mínimo, insignificante. Mesmo assim, há quem defenda uma dessas criações, mais precisamente fruto da ditadura do ESTADO NOVO.
Reverenciado pela força policial militar, o tal herói vem, no passar do tempo, sendo questionado por duas correntes. Uma, afirma sua existência como bravo combatente que resistiu ao ataque traiçoeiro dos revoltosos que tencionavam implantar no País um regime alinhado ao sistema marxista-leninista; a outra, assegura que o tal indivíduo não passou de um pobre débil mental, desses que se acostam nos quartéis de pequenas localidades e, em troca de abrigo e um pouco de comida, prestam pequenos serviços a uns e outros.
Em síntese, defensores da primeira tese apoiam seus argumentos no exemplo de civismo e fidelidade às autoridades democráticas e constituídas, demonstrada por seu herói quando, em meio à debandada que se operava pelos fundos do Quartel da Salgadeira, embrenhando-se mangue adentro e com braçadas rápidas e vigorosas os “resistentes” procuravam alcançar a margem esquerda do “Potengi amado”; os da segunda, encontram, principalmente, na falta de registros nos arquivos daquela Corporação de dados e outros elementos que comprovem ter sido anteriormente, anteriormente, o “herói” incorporado algum dia àquelas fileiras. Ambos, no entanto, dizem possuir testemunhas do que afirmam. Aqueles, porém, com menos convicção do que estes. Enquanto isso, passa o tempo e a polêmica persiste, prevalecendo o culto ao herói de bravura duvidosa.
Coisas assim acontecem porque alguns de nossos antigos historiadores, ao registrar os fatos, não se deram ao trabalho de fazê-lo com a necessária isenção de ânimos. Muitos precisam interpretá-los; outros, os vestiam de fantasias, como se fossem contos de fadas ou bruxos, para agradar conforme os interesses  de quem estivesse no Poder.
Na verdade, por aí correm muitas versões que vão do “descobrimento” à independência, do Império à República, quase todas, geralmente, descritas com recheios de lances que mais parecem roteiros para filmes de aventuras, onde não faltam as frases grandiloquentes e reboantes gritos de guerra.
Nos últimos tempos, felizmente, mesmo com algum atraso, surgem pesquisadores mais ousados e que buscam resgatar para as novas gerações alguns acontecimentos protagonizados por vultos antes lendários, apresentado-os como seres mortais, comuns, ambiciosos, pecadores, cruéis, astuciosos, bem ou mal sucedidos politicamente, que de qualquer forma contribuíram para nossa formação histórica.
Desde o “desmascaramento” da antes até assustadora figura do “Tiradentes”, velho com barba e cabelos longos, hoje, apresentado como um jovem vaidoso e bem vestido Alferes da milícia mineira, muitas outras verdades aguardam quem se disponha a revelá-las.
Em nosso Estado, talvez por sua reduzida participação nos grandes eventos políticos nacionais, ninguém se dá conta de um nome que parece desconhecido.
Não fosse a decisiva interferência do Professor LUIZ SOARES, educador de gerações, hoje também esquecido, certamente sequer existisse ao menos uma rua (ao lado do Cemitério do Alecrim, em Natal), com o nome daquele que deixou sua terra, a família, os amigos e foi lutar em São Paulo, onde chegou em agosto de 1932, na “Revolução Constitucionalista”, causa que, como sempre acontece, não lhe era muito clara. Cumpria ordens.
Quem defende uma causa que considera ou lhe dizem justa, seja por convicção ideológica ou por força da profissão, e nela não alcança a vitória, muito raramente tem o reconhecimento de seus méritos, mesmo que a busca desse ideal, ou cumprimento do dever, lhe custe a vida em combate. Alguns desses profissionais morrem no confronto rotineiro de milicianos, enfrentando bandidos comuns; outros, excepcionalmente, nas guerras político-ideológicas, cujas causas e consequências estão longe de ser por eles bem compreendidas. Em qualquer desses casos, os derrotados, vivos ou mortos, devem ser esquecidos. Essa é uma convenção natural das disputas entre os homens. Por outro lado, os vencedores, quando não têm heróis de verdade, tratam de criá-los.
Assim, tombou, após receber uma rajada de metralhadora das tropas que enfrentava, de brasileiros como ele. Pela inexperiência, pagou com a vida. Sem as pompas que se dispensam aos que nem sempre bons guerreiros, foi à sepultura no cemitério da cidade de Lorena, naquele Estado, onde até hoje se encontra, esquecido pelos ex-comandados e companheiros que aqui ficaram e de quem alguns contemporâneos, quando muito, dele têm uma vaga lembrança. Da Corporação que envergou o uniforme e honrou os galões, nenhuma alusão no dia 22 de setembro, data da morte do Tenente ALBERTO GOMES DE SOUZA.
*Carlos Adel Teixeira de Souza é juiz de Direito.
Artigo publicado na Tribuna do Norte, Natal/RN, edição de 29.09.1991, página 19.
Nota do editor: por considerar de suma importância para a história política, retirei do meu arquivo pessoal o artigo do dr. Carlos Adel, pesquisador isento e imparcial, grande figura humana e ex-oficial da Polícia Militar do RN, onde exerceu, entre outras funções, a de Capitão Relações Públicas da corporação, nos anos oitenta. Em outubro de 1981, o setor era a 5ª  Seção e Carlos Adel era o seu Chefe e mantinha um ótimo relacionamento com a imprensa.

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